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A CONDIÇÃO DIALÉTICA DA RELAÇÃO D/S

lan@

         Dia desses escrevi um relato sobre a minha iniciação no BDSM que acabou publicado aqui no site Desejo Secreto. Nesse relato eu me referi superficialmente ao "servir e ser servido" como "dois aspectos diferentes da mesma ordem de fatos" ou "duas espécies contrárias do mesmo gênero".
        Depois de escrito o relato, eu o reli várias vezes e comecei a pensar sobre a condição dialética desse "servir e ser servido", atitudes tão comuns num relacionamento BDSM que não nos damos conta da profundidade de ambas as ações. Achei pertinente retomar o tema.
        Para o sociólogo americano Peter Berger (1972, p.105-110), o ser humano desempenha um "papel" que lhe foi designado pela sociedade. O papel oferece o padrão segundo o qual o indivíduo deve agir na situação. Partindo dessa premissa e transferindo-a para o nosso assunto, podemos concluir que em BDSM, cada qual (Dominador e dominado), cumpre o seu papel. O papel que se espera deles.
        Se conseguirmos nos despir um pouco das nossas reservas, é muito fácil observar a distribuição de papéis em todos os níveis sociais. Se vamos a uma festa de família, encontramos os casais investidos nos seus papéis de "esposa e marido"; se vamos a um bar de freqüência homossexual, percebemos com facilidade os papéis de "feminino e masculino" na maioria dos casais; quando observamos uma sala de aula, percebemos professores e alunos, investidos cada qual no seu papel; num orfanato encontramos pessoas investidas nos seus papéis de boas e caridosas, tentando ajudar outras pessoas investidas nos seus papéis de humildes necessitados, etc.
        É preciso que se entenda que esses papéis que desempenhamos com tanta naturalidade - ainda em Berger (1972, p. 112-113) - não foram escolhidos livremente por nós. Esses papéis nos são designados pela sociedade. A sociedade nos ensina desde a infância a representar os papéis e crescemos dando para a sociedade exatamente o que ela espera de nós.
        Particularmente sempre fui um pouco embirrada com essa realidade da distribuição de papéis. E questiono essa distribuição. Não questiono a existência da distribuição em si, ela existe; é fato. O que questiono é a necessidade dela. Não a necessidade dela para a sociedade (Berger afirma e prova que a sociedade precisa dela); questiono a necessidade dela para mim mesma.
        Por isso, gosto de analisar as coisas pela lógica dialética. Quando falo em dialética, estou me referindo a uma maneira de analisar a realidade, colocando em evidência as suas contradições com o objetivo de superá-las.
        Senão vejamos: meu Dono me domina e eu sou dominada por ele. Como ele me domina? A resposta é fácil: eu me submeto a ele. Nada é feito sem o meu assentimento. Tudo é muito discutido, esclarecido e respeitado; principalmente os limites. A segunda questão é: Por que eu me submeto? Por que eu o sirvo? Por que sou sua escrava? A resposta também é fácil: porque gosto, porque me dá prazer. Satisfazer seus caprichos, servi-lo, é o meu grande tesão. Certo até aqui? Então vamos ilustrar!
        Quando (eventualmente) eu falo alguma coisa que o desagrada, por uma questão de disciplina, sou castigada. E o castigo pode variar muito: desde chicotadas, humilhações ou toda uma série de punições que a imaginação dele alcançar. Digamos que num desses castigos, ele escolha o chicote. Ora!!! Eu gosto do chicote!!! Não cabe aqui investigar o porquê exato que eu gosto do castigo com chicote: pode ser que eu goste da angústia provocada pela ameaça; pode ser que eu goste da adrenalina que a tensão coloca em movimento; pode ser que eu goste da dor; pode ser que eu goste de me submeter ao poder que eu consinto a ele nesse momento; pode ser que eu goste das marcas que fiquem depois... Enfim, não é esse o ponto. O ponto é: quando eu provoco um castigo (e todos sabemos que um submisso(a) pode fazer isso - ainda que inconscientemente) ou quando eu peço por uma humilhação ou ainda quando eu sugiro um castigo; podemos dizer que ele está fazendo exatamente o que eu (a dominada) quero que ele faça... Então... Quem está servindo quem nesse momento? Quem está dominando quem? Ou quem está realmente obedecendo a quem?
        Nesse ponto, é bom esclarecer que não pretendo reivindicar o sumário desaparecimento dessa classificação (dominador/dominado); até porque a classificação facilita o entendimento do processo da relação.
        O que pretendo é expor uma outra maneira de ver as coisas: para Mircea Eliade (1991, p.127-129), "o ser humano sofre de uma nostalgia do Paraíso perdido e o desejo de recuperar essa Unidade perdida o obriga a conceber os opostos como aspectos complementares de uma realidade única". No nível desse pensamento, há um esforço do homem para ter acesso a uma perspectiva na qual os contrários se anulem (como foi o caso de Goethe, que procurou durante toda a sua vida, o verdadeiro lugar de Mefistófeles, a perspectiva na qual o Demônio que negava a Vida se mostrasse, paradoxalmente, seu mais precioso e incansável colaborador).
        Minha pretensão com o exposto é investigar a possibilidade de não lutarmos contra isso, contra o que Eliade chama de coincidentia oppositorum (reunião dos contrários). Assumir o papel de submissa, não me tira a possibilidade de, sob alguns aspectos, estar dominando. Acho mesmo que uma relação de BDSM pode ser muito mais rica, quando entendida como a reunião de duas pessoas, criando um estado contraditório no qual os contrários coexistem sem confrontar-se e que não seja tão importante à distribuição dos papéis. Que sejamos capazes de perceber que durante uma sessão de BDSM não há quem domina e quem é dominado. O que há são duas pessoas vivendo uma relação intensa, onde segundo Danna: "Em BDSM nos concentramos no que sentimos de verdade, vivendo relacionamentos muito fortes em termos de emoções. Existe extrema confiança e cumplicidade em todas as práticas, além de entrega total. Por estarmos completamente expostos, vulneráveis, ligados um ao outro em todos os minutos, o BDSM se torna algo mágico, que engloba conquista, sedução em todos os momentos, um verdadeiro ritual... Tudo para que o prazer, em toda a sua plenitude, exploda!...".


Referências Bibliográficas

BERGER, P. Perspectivas sociológicas - uma visão humanística. Petrópolis: Vozes, 1972.
DANNA. Ciúme. Disponível na Internet: www.desejosecreto.com.br/bottoms/bottoms04.htm. Em 19/02/01.
ELIADE, M. Mefistóteles e o andrógino. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

 

Em 23/03/01 (noite quente em Curitiba)