O SIMBOLISMO DA COLEIRA PARA UM SUBMISSO(A)
lan@
Há meses
atrás, assistindo ao show da Adriana Calcanhoto, dei boas
risadas com um comentário que ela fez, sobre como se comporta
quando é convidada para um trabalho. Dizia ela que sua
primeira reação era ficar honradíssima com o convite,
aceitar e só então, começar a pensar nas dificuldades
que o trabalho traria.
Lembrei disso
depois que aceitei - honradíssima - a sugestão de minha
amiga Liu*, para escrever sobre o tema proposto.
Meu primeiro
impulso foi começar a escrever freneticamente, sobre o
que significa para mim o uso da coleira. Depois achei
que se escrevesse assim, seria apenas um relato pessoal
sobre o uso da coleira e eu não queria um texto apenas
pessoal.
Minha segunda
atitude foi procurar no dicionário um significado para
a palavra "coleira" e assim encontrei no Larousse Cultural
(1999, p. 243):
"COLEIRA
s.f. (Do lat. collarium) 1. Correia de couro ou de metal
que se coloca no pescoço de certos animais para prendê-los,
fazê-los trabalhar, reconhecê-los, etc. - 2. P. ext. Colar,
argola, gargalheira. - 3. Sujeito velhaco, mau pagador."
"Reconhecê-los"...
foi essa a única parte da definição que me chamou a atenção;
pois num mail de minha amiga Danna, ela já utilizara,
entre outras, essa expressão: "a coleira é uma aliança
entre o Dominador e sua escrava, é a prova que sua submissão
é reconhecida por ele, então a coleira vem como prêmio
(...)" (o grifo é meu). Sem dúvida, uma maneira encantadora
de colocar a situação, mas eu imaginei que deveria haver
algo mais. Também atentei para o fato de que, no dicionário,
os termos "colar" e "argola" são apresentados como equivalentes
de coleira.
Um pouco frustrada
diante da descrição tão sucinta encontrada no dicionário,
foi que me lembrei das aulas de Lingüística que tive na
faculdade e de algumas aulas específicas em que se discutia
o que era e quais eram os objetivos da semântica.
Quando falamos
em "simbolismo", este sempre vai evocar o "significado";
e o significado vai evocar a semântica. Para utilizar
uma definição simples, a semântica é uma disciplina da
Lingüística que estuda o significado em linguagem. Em
semântica, segundo Maria Helena Marques, (1999, p.61)
é possível entender por um lado,
"que
uma palavra tem tantos sentidos quantos sejam as suas
diversas realizações contextuais. De outro lado, pode-se
interpretar que a indeterminação inerente ao significado
decorre de uma palavra ter um sentido básico, a que se
somam fatores contextuais lógicos, emotivos, combinatórios,
evocativos e associativos, que introduzem nuances interpretativas
diversas, no mesmo significado básico."
Isto posto,
percebi que tinha encontrado no dicionário apenas o sentido
denotativo do termo, então precisava encontrar o(s) sentido(s)
conotativo(s), que obviamente deveriam existir e que,
provavelmente, viriam ao encontro de tudo que realmente
sinto quando tenho uma coleira em meu pescoço.
Impávida, fui
atrás de Dicionários de Símbolos. A primeira dificuldade
foi encontrar o termo "coleira" descrito em algum dicionário.
Não o encontrei. Em Chevalier & Cheerbrant (1999, p. 263),
encontrei em "colar" uma referência à coleira:
"Afora
seu papel de ornamento, o colar pode significar uma função,
uma dignidade, uma recompensa militar ou civil, um laço
de servidão: escravo, prisioneiro, animal doméstico (coleira).
De modo geral, o colar simboliza o elo entre aquele ou
aquela que o traz e aquele ou aquela que o ofertou ou
impôs. Nessa qualidade, liga, obriga, e se reveste, por
vezes, de uma significação erótica. Num sentido cósmico
e psíquico, o colar simboliza a redução do múltiplo ao
uno, uma tendência a pôr em seu devido lugar e em ordem
uma diversidade qualquer, mais ou menos caótica. (...)".
Aqui encontrei
mais uma definição que se afina com os meus sentimentos:
"um laço de servidão: escravo, prisioneiro, animal doméstico(...)".
Ter com alguém um laço de servidão implica sempre numa
entrega sem reservas. Essa entrega, por vezes, cria uma
situação contraditória: "a sensação de que quanto
mais me ajoelho aos seus pés, quanto mais o reverencio,
quanto mais te pertenço... mais sou livre. Livre para
me entregar pra você sem reservas, livre para viver essa
fantasia, livre para recusar o que não mais me apetece
na vida, livre para erguer a cabeça e me orgulhar de ser
sua escrava. Parece contraditório: uma escrava se sentindo
livre, orgulhosa. Mas eu tenho orgulho, meu Dono!!! Tenho
sim!!! Tenho muito orgulho de pertencer a você, de ser
para você que entrego minha fantasia, tenho orgulho do
homem maravilhoso a quem reverencio. Não me sinto diminuída
por me ajoelhar aos seus pés; pelo contrário: quando me
ajoelho aos seus pés, sou a escrava que você escolheu;
sou a mulher que compartilha suas fantasias; sou a puta
que te dá prazer; sou a cadela que se entrega a você.
Por essas e por outras várias razões é que tenho orgulho
da minha condição. Não da minha condição de escrava; mas
da minha condição de SUA escrava... não por ter um Dono,
mas por VOCÊ ser esse Dono...".
"De modo geral,
o colar simboliza o elo entre aquele ou aquela que o traz
e aquele ou aquela que o ofertou ou impôs. Nessa qualidade,
liga, obriga, e se reveste, por vezes, de uma significação
erótica". Sobre a significação erótica, encontrei também
em Cirlot (1984): "Por sua colocação no pescoço ou sobre
o peito adquire relação com estas partes do corpo e os
signos zodiacais que lhes concernem. Como o pescoço tem
relação astrológica com o sexo, o colar simboliza também
um vínculo erótico".
A idéia de
que a coleira crie um vínculo erótico, não causará surpresa
a nenhum(a) submisso(a). Qual de nós, submissas, ainda
não sentiu no ritual de colocação da coleira, aquele desejo.
Aquele desejo que se espreme garganta abaixo e acaba por
se derreter em secreções ovarianas. Qual de nós nunca
ficou molhada durante o ritual de colocação da coleira????
Ah!!!!! Sem dúvida há o vínculo erótico, inquestionável.
"Num sentido
cósmico e psíquico, o colar simboliza a redução do múltiplo
ao uno, uma tendência a pôr em seu devido lugar e em ordem
uma diversidade qualquer, mais ou menos caótica. (...)".
E em Cirlot: "No sentido mais geral, o colar composto
de múltiplas contas enfileiradas expressa a unificação
do diverso, quer dizer, um estágio intermediário entre
o desmembramento aludido por toda multiplicidade - sempre
negativa - e a verdadeira unidade do contínuo".
Aqui falamos
de mais uma maneira de entender o uso da coleira, ainda
segundo Danna - num texto inédito: "(...) É deixar que
todo esse envolvimento mude minha maneira de ser, e verificar
que isso afetou para muito melhor meu relacionamento com
outras pessoas (...)".
Também não
causa nenhuma surpresa a um(a) submisso(a), perceber como
o uso da coleira altera, por via de regra para melhor,
nosso comportamento de maneira geral. É como se, realmente,
as coisas fossem colocadas em seus devidos lugares. Dúvidas
desaparecem, sentimentos menores são deixados de lado,
picuinhas perdem sua importância. Nos tornamos mais belos,
mais sensuais, mais receptivos. E como a linguagem corporal
é poderosa, recebemos de volta, das outras pessoas, tudo
de bom que passamos para elas, mesmo inconscientemente.
Chevalier &
Cheerbrant sugerem que se veja o significado de "círculo"
(1999, p. 254). O círculo apresenta uma quantidade enorme
de significações, mas uma determinada parte do texto me
chamou a atenção. Trata-se da passagem em que se toma
o círculo (e suas representações - colar ou coleira aí
incluídos) como um símbolo de proteção e de alma cativa.
"
(...)
Em sua qualidade de forma envolvente, qual circuito fechado,
o círculo é um símbolo de proteção, de uma proteção assegurada
dentro de seus limites. Daí a utilização mágica do círculo,
como cordão de defesa ao redor das cidades, ao redor dos
túmulos, a fim de impedir a penetração dos inimigos, das
almas errantes e dos demônios. Há lutadores que costumam
traçar um círculo em volta do seu corpo, antes de travar
o combate. O círculo protetor toma a forma, para o indivíduo,
da argola (ou aro), do bracelete, do colar, do cinto,
da coroa. (...) Esse mesmo valor do símbolo explica o
fato de os anéis e braceletes sejam retirados ou proibidos
àqueles cuja alma deve estar livre para evadir-se, como
os mortos, ou para elevar-se em direção à divindade, como
os místicos. (...)"
A coleira me
dá essa sensação de que minha alma não pertence mais somente
a mim... minha alma tem um Dono... o mesmo que me colocou
a coleira em torno do pescoço. É um pacto. Esse pacto,
simbolizado pela coleira, me protege. É como um lembrete:
lembra aos outros, que não pertenço a mim mesma; lembra
a mim, a quem devo reverenciar. "Há uma passagem
no romance "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago
(1995, p.172), em que uma determinada personagem, assim
se expressa: "Cala-te, disse suavemente a mulher do médico,
calemo-nos todos, há ocasiões em que as palavras não servem
de nada, (...)". É exatamente assim que me sinto agora:
não gostaria de ter que falar ou escrever. Gostaria apenas
de estar ajoelhada aos seus pés, aninhada no seu colo,
como fiquei várias vezes enquanto estive na sua companhia.
Gostaria apenas que pudesse me ver assim: aos seus pés,
de olhos baixos. Gostaria que você colocasse os dedos
sob o meu queixo e erguesse meu rosto para você. Que me
fizesse te olhar nos olhos. Se isso fosse possível, não
precisaria mais das minhas palavras: nem as faladas, nem
as escritas; pois veria tudo em meus olhos, veria tudo
na minha postura. A linguagem do meu corpo seria clara
e suficiente, para que você entendesse e acreditasse que
sou sua; que pertenço a você e que não existe nada que
tenha força para mudar essa situação."
É isso!!!!!
Em última análise: a coleira dispensa palavras!
Referências Bibliográficas
CHEVALIER, J; CHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos.
14a ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.
CIRLOT, J. E. Dicionário de Símbolos. São Paulo:
Moraes, 1984.
GRANDE DICIONÁRIO LAROUSSE CULTURAL DA LÍNGUA PORTUGUESA.
São Paulo: Nova cultural, 1999.
MARQUES, M. H. D. Iniciação à Semântica. Rio de
Janeiro: Zahar, 1999.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995.
P.S.: as partes do texto que estão em itálico, são fragmentos
pertencentes a diversas cartas escritas por mim, onde
tive a oportunidade de expressar opiniões pessoais sobre
como me sentia usando uma coleira.
Em 16/04/01 (tarde de outono em
Curitiba)
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