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RELAÇÕES BDSM

lan@

       Quando comecei a freqüentar o meio BDSM, fiquei absolutamente fascinada com as possibilidades que se abriam a minha frente: falava-se em "filosofia BDSM", falava-se em "estilo de vida BDSM", etc e tal. Quanto mais eu descobria o que era essa "filosofia" e esse "estilo de vida", mais encantada ficava. Num primeiro momento, ainda surpresa com as descobertas, me vi maravilhada por ter encontrado um grupo de pessoas que assumia novas posturas, assumia comportamentos alternativos e estava se desvencilhando dos comportamentos "viciados" das relações tidas como "normais" ou "padrão".
        Curiosamente, quando comecei a prestar mais atenção nas coisas que aconteciam, do que nos discursos que se faziam, fiquei um tanto decepcionada. O que vi então???? Vi relações aparentemente BDSM que, na prática, não passam de relações padrão, como todas as outras que vemos por aí (baunilhas, sim; das quais tanto insistimos em debochar e ter horror a elas).
        Vamos ilustrar: o que, teoricamente, deve haver numa relação BDSM que a diferencie das demais??? 1) Deve existir a presença de um(a) sádico(a) e de um(a) masoquista - em maior ou menor grau; 2) existindo um(a) sádico(a) e um(a) masoquista, fatalmente existirá um que DOMINA e um que se submete - dominador(a) e submisso(a) -; 3) acertado isso, haverá regras em que o submisso(a) obedece ao Dominador(a); 4) na discussão dessas regras - que não são as mesmas para todos - serão acertados os limites do(a) submisso(a). Teremos, então, o início da relação BDSM propriamente dita. Basicamente é isso, não é????
        E na prática????? O que vemos na prática???? É possível que nem todos concordem com o meu ponto de vista, mas o que eu vejo na prática é o seguinte: mulheres baunilhas usam aliança, submissas usam coleira - e a maioria dá para a coleira o mesmo sentido que as baunilhas dão para a aliança (fato que, no meu ponto de vista, é um engano); mulheres baunilhas usam o sobrenome do marido, as submissas usam as iniciais do DONO; mulheres baunilhas exigem (e nem sempre obtêm) fidelidade do marido, as submissas exigem (e também não obtêm) a fidelidade do DONO; mulheres baunilhas sentem ciúmes e manifestam isso como bem entendem, as submissas... também; mulheres baunilhas não dividem seu marido com ninguém, as submissas reclamam por "ter" que dividir (como podem querer ou não querer dividir o que não possuem??); mulheres baunilhas se sentem donas de seus maridos, as submissas se sentem e se comportam como se fossem donas de seus MESTRES (não é o contrário a proposta da teoria??????); as mulheres baunilhas vigiam e controlam a vida de seus maridos, as submissas vigiam e controlam a vida de seus DONOS (*perplexa* - como diria um amigo meu); maridos escondem das esposas suas "escapadelas", Mestres fazem a mesma coisa com suas submissas; maridos mentem para as esposas para justificar "pisadas de bola", Mestres fazem a mesma coisa com suas submissas; maridos parecem ter medo das respectivas esposas, Mestres... parecem ter medo das respectivas submissas.
        Meu desencanto deve-se exatamente a esse tipo de constatação: sempre achei que as relações BDSM possuíam a magia de serem diferentes das outras relações. Diferentes na teoria, na prática, no conteúdo, no comportamento, etc e tal. Mas o que percebo é que as pessoas "saem" de seu mundo baunilha e trazem para a relação BDSM todos os tiques, todos os vícios, todas as piores particularidades que caracterizam uma relação baunilha tradicional. Grosso modo, a diferença básica entre uma relação baunilha e as relações BDSM que vejo por aí, é a presença - eventual - do chicote na segunda.
        E, aqui, não estou entrando no mérito da descrição - brilhante - que Mestre Jota fez (na lista de contos e poemas) das falsas submissas e dos falsos Mestres. Estou falando das falsas relações entre pessoas que se denominam, "efetivamente", Mestres e submissas.
        Faz-se necessário ressaltar que isso não é regra no meio BDSM. Misturado com o que acabei de descrever, também percebo relações sérias, de Mestres e submissas que cumprem o real papel de cada um, na teoria e na prática.
        Talvez, a causa dessa "confusão" de papéis que percebo, seja em função de as pessoas envolvidas não saberem exatamente qual é o seu papel.
        Segundo Silva Filho, o sadismo e o masoquismo constituem lados opostos de uma mesma moeda (1987, p. 31). Se entendermos essa premissa como verdadeira, concluiremos que todos temos, dentro de nós, os dois aspectos do sadomasoquismo. Temos o sadismo e o masoquismo igualmente dentro de nós. O autor continua: "Se no sadista fica patente a necessidade de triunfo sobre um objeto (...), no masoquismo, embora pareça haver autopunição no sofrimento e sujeição ao objeto, existe todo um jogo controlador da dor, atuando também no sentido de, através do penar, controlar e triunfar." (p. 32).
        "O sadista (ou, melhor falando, o sadomasoquista em fase sádica, pois os dois extremos estão sempre juntos) projeta sua parte fraca no objeto e se identifica com o superego tirânico (...)" (p.37).
        O que, talvez, aconteça nesses relacionamentos "confusos", seja em função dessa dificuldade. Temos os dois lados extremos dentro de nós e, embora um sempre vá predominar, pode ser difícil aceitar o que parece óbvio. Ilustrando: tenho os dois lados dentro de mim e já percebi que o meu lado masoquista é o predominante. Mas não quero ser masoquista!!!! Então, vou lutar contra isso da seguinte forma: vou adotar um nick de Dominadora e vou sair por aí, torcendo para que a minha fase sádica seja eterna.
        Pelo lado da submissa, a premissa funciona da mesma forma: "O masoquista, (...), sob a máscara da afirmação teatral de não ser nada, de fato domina o sádico, forçando-o a desempenhar o papel que ele, o masoquista, parece ter. O poder do sádico é um simulacro; serve apenas como instrumento controlado." (...) "A onipotência do masoquista decorreria de ele não temer mais nada, mesmo a castração, e poder desejar tudo, mesmo esta." (p.43)
        Já tive a oportunidade de escrever outro texto sobre isso: a dialética da relação D/s. Mas o fato é que quando o escrevi, não achava que se juntássemos o fato da relação ser dialética e o fato de as pessoas trazerem "hábitos ou vícios" ruins das relações baunilhas, pudessem transformar a relação BDSM numa "brincadeira baunilha apimentada".
        Também os limites ficam numa situação esquisita nessas relações. Em princípio, é difícil entender como um sádico/dominador pode aceitar limites impostos por um masoquista/submisso. Entendo perfeitamente que essa prática seja por uma questão de segurança; mas, perguntando sobre isso para outras pessoas com quem costumo trocar idéias, recebi um mail de Messalina {W}, no qual ela assim se expressa:

       "Em função da minha experiência pessoal, não consigo conceber uma relação de D/s ou de SM que não tenha lastro na confiança entre os parceiros. Sendo assim, não consigo também entender onde entra o estabelecimento dos limites. Entendo que, antes de se efetivar uma relação dessa natureza, os parceiros já deveriam ter passado por uma etapa prévia de conhecimento mútuo, onde são elucidadas expectativas, comprometimento, fantasias e fetiches de cada um. Passado por isso, e estabelecendo-se a relação, sua condução passa ser exclusivamente do Dominador ou do Sádico. Traduzindo, não acredito em relações SM nas quais existam limites. Se assim for, a escolha de ambos não foi a mais acertada e relações desse tipo podem representar um risco muito alto para os dois. A submissa/escrava fica sujeita a traumas físicos e psicológicos e o Dominador/Sádico corre o risco de ser desmoralizado ou ter sua imagem arranhada para sempre dentro da comunidade SM. Volto a repetir, minha pouca experiência me mostrou que Dominadores e/ou Sádicos não se submetem aos caprichos de suas submissas ou escravas. A responsabilidade deles na segurança e no prazer de ambos é grande demais para que tenham que ficar lembrando, numa sessão, o que se pode ou não fazer. (Cada panela tem sua tampa...eh)
        Outro fator importante a ser considerado é a evolução da relação de D/s e, principalmente, a capacidade de um Dominador saber quando sua submissa encontra-se pronta para novos desafios. Digo isso, porque existem práticas extremamente prazerosas para mim que jamais pensei em experimentar e só as descobri devido à determinação, respeito e inteligência do meu Dom. Sendo assim, entendo que o estabelecimento de limites me privaria de conhecer novas maneiras de prazer e fugiria totalmente do meu propósito. E te pergunto: existe limite para o prazer? (risos)."


        Quando recebi esse mail, fiquei pasma. Messalina conseguiu escrever tudo o que penso sobre limites. Compreendo perfeitamente o que ela quis dizer, pois eu também, na minha pouca experiência real, tive a oportunidade de descobrir práticas muito prazerosas e que, até pouquíssimo tempo atrás, não conseguia conceber. Coisas que eu achava que fariam parte da minha lista de limites. Como não houve, no meu relacionamento, uma lista "oficial" de limites... tudo o que foi praticado, foi acontecendo de forma natural.
        Faço aqui uma diferenciação entre limites e limitações. Os limites (entendo eu) seriam aquelas práticas que não quero ou às quais não gostaria de me submeter. Limitações seriam práticas que, de alguma forma, não dependem apenas da minha vontade ou do meu gosto pessoal (por exemplo: eu sofro de claustrofobia, portanto asfixia é um jogo que não posso praticar).
        E é ainda com as palavras de Messalina {W} que eu gostaria de fechar esse texto. Até porque acho que ela conseguiu resumir o que é o ideal (para mim) de uma relação D/s:

        "Vejo nas relações de D/s e SM um meio pelo qual é possível explorar a sexualidade, extravasar desejos e realizar fantasias, cujo único comprometimento entre as pessoas envolvidas é o prazer. Qualquer outra coisa é brincar de SM ou de Dominação/submissão, acarretando em desperdício de tempo, sentimentos e expectativas.
        Como já disse acima, minha relação com o Wishmaster é baseada em lealdade e em cumplicidade e não fidelidade. Confiei a ele zelar por mim e sei que tudo o que ele faz, mesmo que eu não entenda a princípio, tem esse objetivo. Sendo assim, não tenho motivo para vigiar meu Dono ou restringir sua ação."
        Entendo a relação de D/s repleta de rituais que buscam reforçar a significância dos papéis exercidos, sendo assim o uso de símbolos é tão fundamental quanto natural. Pessoalmente, a coleira sempre teve grande importância para mim, não somente a física ou a virtual; minha coleira está cravada em minha alma."




Referências Bibliográficas

SILVA FILHO, A. C. P. e. Perversões Sexuais - Um estudo psicanalítico. São Paulo: EPU, 1987.



Em 01/07/01 - tarde de sol em Curitiba.