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CONFIANÇA
lan@
Dia
desses li, em algum lugar, acerca de uma constatação
realizada por profissionais de saúde, onde não ficava
claro o que se entendia por "confiança". Os profissionais
em questão, que trabalham com exames anti-HIV, perceberam
o seguinte: uma grande porcentagem de mulheres casadas
que fazem o exame, alegam que "nunca" usam camisinha,
porque CONFIAM em seus parceiros (= maridos). Por outro
lado, as mulheres separadas (ou solteiras) "sempre"
usam a camisinha porque "NÃO CONFIAM" nos parceiros
(= namorados ou parceiros eventuais). Ora, pois bem!!!!
A grande pergunta dos profissionais para as mulheres
casadas era a seguinte: se elas não usam camisinha porque
"CONFIAM" nos parceiros, por que estavam ali fazendo
o exame???... Da mesma forma, no outro extremo, havia
a pergunta para as solteiras: se elas sempre usam a
camisinha porque "NÃO CONFIAM" nos parceiros, supostamente
estão protegidas... Então, porquê do exame???? Os profissionais
envolvidos estavam se perguntando a extensão dessas
expressões: "confiar" ou "não confiar". Como se processa
isso????
Num primeiro
momento fiquei pensando acerca do que eu entendo por
confiança. Como eu conceituo confiança. Não foi uma
resposta fácil. Num segundo momento, me lembrei que
confiança é uma expressão muito usada dentro das relações
BDSM. Então fiquei me perguntando como se processa a
confiança dentro dessas relações.
Normalmente,
só conseguimos conceituar confiança quando a colocamos
em relação ao seu oposto: a dúvida. A dessemelhança
entre a sensação de acreditar e duvidar é o que vai
nos levar a perguntar alguma coisa ou pronunciar um
julgamento. Existe também uma diferença prática: a crença
é que vai guiar nossos desejos e moldar as nossas ações.
Segundo Peirce,
"o sentimento de crença é uma indicação mais ou menos
segura de se encontrar estabelecido na nossa natureza
algum hábito que determinará as nossas ações. A dúvida
nunca tem tal efeito."
Para este
autor a dúvida é um estado de desconforto e insatisfação
do qual lutamos para nos libertar e passar ao estado
de crença. Este é um estado calmo e satisfatório que
não desejamos evitar ou alterar por uma crença noutra
coisa qualquer. Pelo contrário, agarramo-nos tenazmente,
não meramente à crença, mas a acreditar exatamente naquilo
em que acreditamos. Assim, tanto a dúvida como a crença
tem efeitos positivos sobre nós, embora muito diferentes.
A crença não nos faz agir imediatamente, mas coloca-nos
numa posição em que nos comportaremos de certa forma,
quando surge a ocasião. A dúvida não tem qualquer efeito
deste tipo, mas estimula-nos a agir, até que é destruída.
Em outras palavras, a dúvida nos coloca num estado de
irritação.
"A irritação
da dúvida é o único motivo para a luta por atingir a
crença. É certamente melhor para nós que as nossas crenças
sejam tais que possam verdadeiramente guiar as nossas
ações de forma a satisfazer os nossos desejos; e esta
reflexão far-nos-á rejeitar qualquer crença que não
pareça ter sido formada para assegurar este resultado.
Mas o fará criando uma dúvida no lugar dessa crença.
Logo, com a dúvida a luta inicia, e com o cessar a dúvida
termina. Donde o único objeto da inquirição é o estabelecimento
da opinião. Podemos ter a impressão de que isto não
é o suficiente para nós, e que procuramos, não meramente
uma opinião, mas uma opinião verdadeira. Mas ponha-se
esta impressão à prova, e ela revelar-se-á infundada;
pois assim que uma crença firme é alcançada, ficamos
inteiramente satisfeitos, quer a crença seja verdadeira,
quer seja falsa. E é claro que nada fora da esfera do
nosso conhecimento pode ser nosso objeto, pois nada
que não afete a mente poderá ser motivo de esforço mental.
O máximo que pode ser sustentado é que buscamos uma
crença que julgaremos verdadeira. Mas pensamos que cada
uma das nossas crenças é verdadeira, e, na verdade,
é uma mera tautologia dizê-lo." (Pierce, 1877)
Em outras
palavras: confiança (crença) é uma questão de conhecimento
da realidade. Ou o que entendemos, cada um nós, por
"conhecimento da realidade". O problema do conhecimento
é um dos mais difíceis da Filosofia. É também o mais
difícil dos problemas do homem. Sendo o que há de mais
natural e espontâneo em nossa vida, pois todos nós conhecemos
de alguma forma a tudo.
Então a pergunta
é: como conhecemos? Subordinamos a realidade a uma ordenação
caprichosa e arbitrária, sem distinguir entre uma opinião
e um juízo de realidade? Subordinamo-nos convenientemente
às exigências do real para conhecê-lo segundo as suas
imposições, e não segundo as nossas conveniências? Conhecemos
o real pelo que é, ou o conhecemos apenas enquanto responde
aos nossos interesses práticos? Segundo Bergson, citado
por Mendonça (1976, p.171):
"De um
modo geral não conhecemos as coisas. Conhecemos nas
coisas: escolhemos nelas algo que responda à ordem dos
nossos interesses. Não vemos o nome de um ônibus: vemos
se ele nos leva aonde queremos ir. Não vemos as horas
no relógio: vemos quanto tempo temos para realizar o
que pretendemos fazer. Não lemos um livro: procuramos
identificar nele o que corresponda ao que já pensamos
ou queremos pensar. Nossa visão do real é geralmente
marcada por algum interesse prático. Com relação às
idéias que nos são expostas, em geral julgamos se são
verdadeiras ou não apenas conferindo se correspondem
ou não ao que já pensamos sobre o assunto exposto. (...)
Tudo isso é expressão de uma falta de objetividade,
que prende o homem a si mesmo, e o aliena da existência,
fazendo-o deixar de pensar a realidade, mas apenas pensando
a pretexto dela."
Até aqui
já é possível concluir que na definição de confiança
é impossível evitar a circularidade. Se a definimos
em termos de crença, logo temos que definir crença,
que é melhor explicada em termos de confiança. E não
sabemos sequer se é mensurável.
Quando falei
para minha amiga Danna que ia escrever sobre confiança,
ela me enviou um mail (Obrigada, querida!!!) com algumas
de suas idéias sobre esse assunto: "Claro, confio no
meu Mestre, acredito que nunca fará nada que coloque
minha integridade física e mental em risco, mas confio
baseada no que ele me passou, portanto não adianta querermos
jogar pra eles um sentimento que é nosso, uma responsabilidade
nossa, na verdade confiamos no nosso modo de vê-los;
podemos errar, quantas não erraram???"
A frase da
Danna que parece resumir tudo é: "na verdade confiamos
no nosso modo de vê-los..." Eis aqui o que toda teoria
filosófica acima quis dizer. Quando confiamos nossa
vida e nossa integridade física nas mãos de nosso Dono,
na verdade estamos é acreditando que o que esperamos
Dele não nos será traído. Estamos confiando no nosso
felling, na nossa percepção do mundo. No que
acreditamos, naquele momento, ser a realidade incontestável:
"Posso confiar Nele!!!!" Talvez apenas uma questão de
instinto que, por vezes, pode falhar...
Ainda no
mail de Danna: "Acredito de verdade que jogamos um jogo
perigoso, onde tudo pode ser o esperado, pode deixar
a desejar ou pode ultrapassar, existe sempre o risco.
Pra isso existem certos cuidados, na verdade usamos
de estratégias, conversamos com alguma sub que já tenha
sido dele, analisamos alguns comportamentos sociais,
caráter na vida particular, mas nada é 100% garantido.
Quantas pessoas em alguns momentos não tiveram reações
diferentes e até únicas na sua vida??"
Danna toca
num ponto importante: os cuidados que tomamos em relação
às pessoas com quem travamos contato, não passam de
pequenas estratégias que garantem alguma segurança,
mas não a certeza de que nossa percepção está correta.
Corremos sempre o risco de estarmos enganadas, de nossa
visão da realidade estar comprometida com o grau da
nossa necessidade, com o grau da nossa vontade.
E Danna finaliza:
"Porque confiar 100% só um animal, e nesses momentos
somos, de fato, umas cadelas."
A frase de
Danna é espetacular e parece que resume tudo o que,
de fato, sentimos, mas... Se pararmos para pensar -
como a própria Danna pensou: Se estamos na sessão...
amarradas... amordaçadas e ele resolve mudar as regras
do jogo... O que fazemos com toda aquela confiança que
depositamos nele?
Está me parecendo
que a grande realidade é: "confiança não existe". O
que existe é uma crença numa determinada pessoa, ou
num determinado fato; até que uma nova crença, por qualquer
motivo, venha substituir a original.
Quantas de
nós não ouvimos falar, ou temos uma amiga que tem um
marido (ou namorado) que é um verdadeiro "galinha"?
E ficamos assistindo incrédulas ela acreditar nele o
tempo todo. Que confiança é essa que ela tem nele? Será
que é confiança? Ou será que ela apenas acredita nele
porque naquele momento, dentro dela, existe a necessidade
de acreditar em algo? Um dia qualquer... uma evidência
incontestável aparece... ou alguns meses de terapia...
e ela deixa de acreditar... deixa de confiar.
Confiança
é uma coisa complicada!!!
Uma amiga
mandou pra mim um conto e tive minha atenção presa a
uma fala da personagem. Ela dizia: "Não posso confiar
em ninguém... não posso sequer confiar em mim mesma...
pois já me traí várias vezes..."
Lembro-me
também de uma música de Raul Seixas: "Porque quando
eu jurei meu amor/ eu traí a mim mesmo..."
O que entendemos
por confiança, ou crença para a filosofia, não passa
de uma conveniência, uma necessidade de, naquele momento,
acreditarmos naquilo que se expõe a nós. E se o fazemos
de forma tão firme, tão resoluta é porque, naquele momento,
nada no mundo nos provará o contrário do que acreditamos.
Isso é confiança!!!! Seja a premissa falsa ou verdadeira.
Referências Bibliográficas
MENDONÇA E. P. O mundo precisa de filosofia.
Rio de Janeiro: Agir, 1976.
PEIRCE, C. S. A fixação da crença. In: Popular
Science Monthly. 12/nov/1877. pp. 1-15. Tradução de
Anabela Gradim Alves, Universidade da Beira Interior.
Disponível na internet: http://bocc.ubi.pt/pag/peirce-charles-fixacao-crenca.html.
Em 04/06/01.
30/06/01 - tarde fria em Curitiba.
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