Bondage & Disciplina
Dominação/submissão
SadoMasoquismo

Fetiches
 
Busque neste site
powered by FreeFind

 

DOCES VISÕES
David Steinberg


 Comida é sexo. Sexo é comida. É óbvio, não são exatamente a mesma coisa. Mas - igualmente óbvio - os dois são intimamente ligados, o que não é surpreendente, já que comida e sexo são, afinal, nossas mais primárias necessidades físicas.
       Fome, nutrição, satisfação, desejo, apetite, comer, beliscar, lamber, chupar, engolir, morder, devorar, empanturrar-se, banquetear-se. Estamos falando de uma ceia de Natal ou de muita diversão na cama?
       Não importa qual diferença a mente racional possa oferecer para distinguir a necessidade de comida da necessidade de sexo: no reino não-racional da psique, estas se tornam profundamente indistintas. O que conta para a psique é a conexão ente as coisas, e não as diferenças. A metáfora é o idioma nativo do inconsciente e, nesse mundo subterrâneo e subconsciente, sentimentos, experiências e imagens têm uma certa mania de se misturar o tempo todo.
       É isso que faz os sonhos - o território onde a psique fala sua própria língua - ao mesmo tempo tão fascinantes e, para quem é obsessivamente racional, tão difíceis de entender. Tentar explicar os sonhos com a linguagem literal e específica da mente racional é como tentar entender o Afeganistão com a mentalidade de um Texano - o coração da matéria, o espírito essencial e as nuances importantes se perdem, sem esperanças, na tradução.
       Uma das funções dos sonhos é falar indiretamente sobre coisas que são muito assustadoras para serem encaradas de frente. Também é sua função relembrar-nos que certas coisas de nossa vida freqüentemente guardam poder para nós, pois elas se conectam com assuntos maiores e mais universais. Apresentando o material simbolicamente, em vez de literalmente, os sonhos atingem ambos os objetivos.
       Assim, num sonho, é mais provável que uma lança represente um pênis do que um objeto de caça. Uma xícara freqüentemente representa o útero. Seu marido pode estar no lugar de seu pai. Sua filha pode representar você mesma quando era criança.
       Nos sonhos, o ponto importante é a essência debaixo dos detalhes - a essência do masculino, talvez, ou do feminino. Da qualidade essencial de penetrar, ou de envolver. Aquelas figuras masculinas ou femininas que mais profundamente afetaram sua vida. O sentido essencial de como é ser jovem, vulnerável, e necessitar de proteção.
       No mundo simbólico e essencial da psique, comida e sexo são, de vários modos, duas maneiras paralelas de se relacionar com assuntos mais primais do que comer ou fazer amor. Tanto a comida quanto o sexo, por exemplo, são caminhos para a busca primal de prazer físico. Nós comemos ou fazemos sexo porque tentamos satisfazer nossas necessidades essenciais de conforto e segurança física e emocional. Nós comemos e fazemos sexo para nos sentirmos fisicamente em nosso corpo, para prover nossa sobrevivência biológica e emocional, e para nos assegurarmos que somos capazes de nutrir nosso bem-estar físico, emocional e espiritual.
       Se a comida ou o sexo são tirados de nós, num grau significativo, nós inconscientemente substituímos um pelo outro, como se fosse seu equivalente psíquico. Se o objeto primário de nosso desejo não está disponível, a psique arruma um meio de satisfazer suas necessidades indiretamente. De uma maneira ou de outra, a psique tem um jeito de se fazer ouvir.
       Em nossa cultura, na qual as expressões de desejo sexual são severamente restritas e a comida, para a maioria das pessoas, é abundantemente disponível, é mais comum que a busca por satisfação sexual seja transferida para o alimento, do que o contrário. Na ausência de sexo satisfatório, realizador e abundante, nós nos voltamos à comida com uma intensidade que não tem nada a ver com a necessidade do corpo por calorias ou nutrientes químicos específicos.
       Com a confusão sexual, o medo e a insatisfação generalizada correndo soltos, não é surpreendente que tantas pessoas comam de maneira emocional e fisicamente devastadora para elas. O sexo pode ser constantemente o vilão a ser atacado, mas a comida é... bem, apenas comida, um caminho mais seguro, são e geralmente mais confiável para a satisfação física. Ninguém, afinal de contas, está organizando um programa nacional de milhões de dólares para convencer adolescentes a comerem menos, a preferirem comida que não seja gostosa, ou a cozinharem tudo que comem por três horas para não pegarem uma horrível doença. Ninguém está tentando salvar as almas de pessoas que gostem de rabanetes em vez de batatas, ou de lulas, e não de bife. E se você quiser gastar uma semana e centenas de dólares preparando uma elaborada e deliciosa ceia de Ação de Graças ou de Natal, você pode falar entusiasmado para todo mundo, no trabalho, sobre o maravilhoso banquete - sem que eles o olhem como se você fosse um pervertido obsessivo.
       O contraste entre nosso relacionamento com a comida e com o sexo é um vívido indicador de quanto a nossa cultura é desviada a respeito de sexo. Porque nós respeitamos nossa necessidade e desejo de comida, podemos sair por aí satisfazendo nossas necessidades alimentares de modo relativamente simples e direto. Se pudéssemos fazer o mesmo com o sexo!
       Como seria se pudéssemos aplicar nossas atitudes básicas sobre o sexo à comida, e nossas atitudes básicas sobre a comida ao sexo? Um dos livros em que já pensei, mas nunca escrevi, é uma história de ficção científica sobre um grupo de terráqueos que se encontra num planeta exatamente como o nosso, exceto que nesse planeta todas atitudes e convenções sociais sobre comida e sexo são invertidos. Nesse planeta, as pessoas fazem sexo em público, com pessoas diferentes em dias diferentes, geralmente com muitas pessoas ao mesmo tempo, numa alegre celebração. Comer, por outro lado, é uma atitude denegrida e cheia de vergonha, feita privativamente com um companheiro para toda a vida, e se fala ou pensa a respeito o mínimo possível.
       Nesse planeta, quando as pessoas chegam para uma visita (como é o caso dos terráqueos), lhes oferecem sexo, gentil e automaticamente, pois devem estar com muita vontade, é claro, após uma viagem com possibilidades limitadas. Amigos e vizinhos são constantemente convidados para uma noite de sexo compartilhado. Encontros elaborados e ritualizados são o ponto central de todas as celebrações dos feriados, tanto os civis como os religiosos. É rotina para todos, menos para os mais pobres, sair para comprar sexo, tanto pela variedade como pela oportunidade de entregar-se a um tipo de excelência sexual e elaboração para as quais a maioria das pessoas não têm tempo, em casa. É um ato de generosidade louvável (encorajado pela igreja, particularmente durante os tempos mais religiosos do ano) dar sexo para os necessitados. Grandes lojas vendem tanto os produtos necessários para o sexo quanto os mais frívolos, e competem por consumidores oferecendo produtos que atraiam cada nuance sutil de preferência sexual. Pessoas que evitam sexo, a ponto de afetar sua saúde, vão para clínicas caras para se cuidarem, e são assunto de inúmeras revistas.
       Nesse planeta, entretanto, comer é extremamente confidencial, algo enredado numa elaborada cultura de vergonha. A maioria das pessoas pensa em comer, a princípio, como uma maneira de se alimentar rápida e facilmente, chamando o mínimo de atenção possível. Todos comem sozinhos ou com seu cônjuge, a portas fechadas e na privacidade de um quarto da casa reservado para esse propósito. Há regras estritas sobre quais comidas são boas para comer, e quais não são. A maioria não é.
       As pessoas geralmente comem a mesma coisa todo dia, e se perguntam, na meia-idade, por que estão ficando anoréxicas. Pessoas que gostam de comer "muito" são chamadas de uma longa lista de nomes feios. Pessoas que gostam de frutas e bolos se asseguram que os amigos não tenham nem idéia do que elas comem. Muitos ficam tão envergonhados de seu desejo por doces que eles evitam doces completamente e patrocinam campanhas políticas nacionais contra os perigos morais do açúcar. Histórias de ministros e políticos pegos em flagrante comendo uma manga num carro com um estranho obeso dominam a mídia por meses.
       Programas de televisão nos quais as pessoas comem ou cozinham são confinados às horas tardias da noite. Padarias (proibidas de mostrar seus produtos em vitrines, para que as crianças que passam não os vejam) e os poucos restaurantes ilegais, mas tolerados (com preços tão altos que fazem os terráqueos caírem na risada), são restritos a certas zonas da parte industrial da cidade. Em muitos lugares, é ilegal existirem restaurantes ou padarias a menos de 500m um do outro, ou a menos de 500m de uma igreja ou escola.
       O pânico, devido a casos isolados de envenenamento por alimentos, resulta em batidas periódicas da polícia em todos os restaurantes, não importa o quanto sejam limpos, e em campanhas públicas para as pessoas limparem cuidadosamente, e cozinharem por um longo tempo, até mesmo a comida que comem em casa. Se você pegar seu esposo ou seu filho comendo com (mais) alguém, é o fim do mundo. Mesmo falar entusiasmadamente com um colega de trabalho sobre comida, especialmente com alguém considerado acima do peso, é uma fonte de problemas para o casamento. É bem sabido que só os que definharem vão para o inferno quando morrerem.
       É claro, os terráqueos passam por um severo choque cultural, mas com o tempo eles começam a ver que o sistema no qual vieram parar faz tanto sentido quanto o nosso. Eles são jogados em todo tipo de situações deliciosas, mas embaraçosas; a princípio, protestam, mas logo aprendem a curtir, enquanto lidam com os sentimentos residuais de culpa e confusão, e se perguntam como vão se explicar para o seu povo, quando voltarem para casa. Apesar dos seus melhores esforços em ter consideração com as pessoas a sua volta, os terráqueos estão constantemente ofendendo seus anfitriões com suas atitudes casuais e suspeitamente positivas sobre a comida. Há um grande incidente quando uma criança come parte de uma barra de chocolate que uma terráquea escondeu embaixo da cama. Tentativas de explicar a seus anfitriões que comer é tão saudável e vital quanto o sexo caem em ouvidos surdos e horrorizados.
       "Isto é alimento para os pensamentos", você pode dizer. Sejam os detalhes do tipo gastronômico ou sexual, que todos seus banquetes sejam elaborados, deliciosos, criativos, satisfatórios e 100% livres de culpa!



Se você tiver interesse em receber a coluna Comes Naturally regularmente, via e-mail (de maneira confidencial e gratuita), mande seu nome e e-mail para eronat@aol.com. Colunas passadas podem ser encontradas no site da Society for Human Sexuality, em www.sexuality.org/davids.html. Dois dos livros editados por David - Erotic by Nature: A Celebration of Life, of Love and of Our Wonderful Bodies e The Erotic Impulse: Honoring the Sensual Self - podem ser adquiridos diretamente com o autor. Informações sobre como proceder para adquirir os livros podem ser encontradas em: www.sexuality.org/l/davids/en.html e www.sexuality.org/l/davids/ei.html.