Comida é sexo. Sexo é comida.
É óbvio, não são exatamente a mesma coisa. Mas - igualmente
óbvio - os dois são intimamente ligados, o que não
é surpreendente, já que comida e sexo são, afinal,
nossas mais primárias necessidades físicas.
 Fome, nutrição,
satisfação, desejo, apetite, comer, beliscar, lamber,
chupar, engolir, morder, devorar, empanturrar-se,
banquetear-se. Estamos falando de uma ceia de Natal
ou de muita diversão na cama?
 Não importa
qual diferença a mente racional possa oferecer para
distinguir a necessidade de comida da necessidade
de sexo: no reino não-racional da psique, estas se
tornam profundamente indistintas. O que conta para
a psique é a conexão ente as coisas, e não as diferenças.
A metáfora é o idioma nativo do inconsciente e, nesse
mundo subterrâneo e subconsciente, sentimentos, experiências
e imagens têm uma certa mania de se misturar o tempo
todo.
 É isso que
faz os sonhos - o território onde a psique fala sua
própria língua - ao mesmo tempo tão fascinantes e,
para quem é obsessivamente racional, tão difíceis
de entender. Tentar explicar os sonhos com a linguagem
literal e específica da mente racional é como tentar
entender o Afeganistão com a mentalidade de um Texano
- o coração da matéria, o espírito essencial e as
nuances importantes se perdem, sem esperanças, na
tradução.
 Uma das funções
dos sonhos é falar indiretamente sobre coisas que
são muito assustadoras para serem encaradas de frente.
Também é sua função relembrar-nos que certas coisas
de nossa vida freqüentemente guardam poder para nós,
pois elas se conectam com assuntos maiores e mais
universais. Apresentando o material simbolicamente,
em vez de literalmente, os sonhos atingem ambos os
objetivos.
 Assim, num
sonho, é mais provável que uma lança represente um
pênis do que um objeto de caça. Uma xícara freqüentemente
representa o útero. Seu marido pode estar no lugar
de seu pai. Sua filha pode representar você mesma
quando era criança.
 Nos sonhos,
o ponto importante é a essência debaixo dos detalhes
- a essência do masculino, talvez, ou do feminino.
Da qualidade essencial de penetrar, ou de envolver.
Aquelas figuras masculinas ou femininas que mais profundamente
afetaram sua vida. O sentido essencial de como é ser
jovem, vulnerável, e necessitar de proteção.
 No mundo
simbólico e essencial da psique, comida e sexo são,
de vários modos, duas maneiras paralelas de se relacionar
com assuntos mais primais do que comer ou fazer amor.
Tanto a comida quanto o sexo, por exemplo, são caminhos
para a busca primal de prazer físico. Nós comemos
ou fazemos sexo porque tentamos satisfazer nossas
necessidades essenciais de conforto e segurança física
e emocional. Nós comemos e fazemos sexo para nos sentirmos
fisicamente em nosso corpo, para prover nossa sobrevivência
biológica e emocional, e para nos assegurarmos que
somos capazes de nutrir nosso bem-estar físico, emocional
e espiritual.
 Se a comida
ou o sexo são tirados de nós, num grau significativo,
nós inconscientemente substituímos um pelo outro,
como se fosse seu equivalente psíquico. Se o objeto
primário de nosso desejo não está disponível, a psique
arruma um meio de satisfazer suas necessidades indiretamente.
De uma maneira ou de outra, a psique tem um jeito
de se fazer ouvir.
 Em nossa
cultura, na qual as expressões de desejo sexual são
severamente restritas e a comida, para a maioria das
pessoas, é abundantemente disponível, é mais comum
que a busca por satisfação sexual seja transferida
para o alimento, do que o contrário. Na ausência de
sexo satisfatório, realizador e abundante, nós nos
voltamos à comida com uma intensidade que não tem
nada a ver com a necessidade do corpo por calorias
ou nutrientes químicos específicos.
 Com a confusão
sexual, o medo e a insatisfação generalizada correndo
soltos, não é surpreendente que tantas pessoas comam
de maneira emocional e fisicamente devastadora para
elas. O sexo pode ser constantemente o vilão a ser
atacado, mas a comida é... bem, apenas comida, um
caminho mais seguro, são e geralmente mais confiável
para a satisfação física. Ninguém, afinal de contas,
está organizando um programa nacional de milhões de
dólares para convencer adolescentes a comerem menos,
a preferirem comida que não seja gostosa, ou a cozinharem
tudo que comem por três horas para não pegarem uma
horrível doença. Ninguém está tentando salvar as almas
de pessoas que gostem de rabanetes em vez de batatas,
ou de lulas, e não de bife. E se você quiser gastar
uma semana e centenas de dólares preparando uma elaborada
e deliciosa ceia de Ação de Graças ou de Natal, você
pode falar entusiasmado para todo mundo, no trabalho,
sobre o maravilhoso banquete - sem que eles o olhem
como se você fosse um pervertido obsessivo.
 O contraste
entre nosso relacionamento com a comida e com o sexo
é um vívido indicador de quanto a nossa cultura é
desviada a respeito de sexo. Porque nós respeitamos
nossa necessidade e desejo de comida, podemos sair
por aí satisfazendo nossas necessidades alimentares
de modo relativamente simples e direto. Se pudéssemos
fazer o mesmo com o sexo!
 Como seria
se pudéssemos aplicar nossas atitudes básicas sobre
o sexo à comida, e nossas atitudes básicas sobre a
comida ao sexo? Um dos livros em que já pensei, mas
nunca escrevi, é uma história de ficção científica
sobre um grupo de terráqueos que se encontra num planeta
exatamente como o nosso, exceto que nesse planeta
todas atitudes e convenções sociais sobre comida e
sexo são invertidos. Nesse planeta, as pessoas fazem
sexo em público, com pessoas diferentes em dias diferentes,
geralmente com muitas pessoas ao mesmo tempo, numa
alegre celebração. Comer, por outro lado, é uma atitude
denegrida e cheia de vergonha, feita privativamente
com um companheiro para toda a vida, e se fala ou
pensa a respeito o mínimo possível.
 Nesse planeta,
quando as pessoas chegam para uma visita (como é o
caso dos terráqueos), lhes oferecem sexo, gentil e
automaticamente, pois devem estar com muita vontade,
é claro, após uma viagem com possibilidades limitadas.
Amigos e vizinhos são constantemente convidados para
uma noite de sexo compartilhado. Encontros elaborados
e ritualizados são o ponto central de todas as celebrações
dos feriados, tanto os civis como os religiosos. É
rotina para todos, menos para os mais pobres, sair
para comprar sexo, tanto pela variedade como pela
oportunidade de entregar-se a um tipo de excelência
sexual e elaboração para as quais a maioria das pessoas
não têm tempo, em casa. É um ato de generosidade louvável
(encorajado pela igreja, particularmente durante os
tempos mais religiosos do ano) dar sexo para os necessitados.
Grandes lojas vendem tanto os produtos necessários
para o sexo quanto os mais frívolos, e competem por
consumidores oferecendo produtos que atraiam cada
nuance sutil de preferência sexual. Pessoas que evitam
sexo, a ponto de afetar sua saúde, vão para clínicas
caras para se cuidarem, e são assunto de inúmeras
revistas.
 Nesse planeta,
entretanto, comer é extremamente confidencial, algo
enredado numa elaborada cultura de vergonha. A maioria
das pessoas pensa em comer, a princípio, como uma
maneira de se alimentar rápida e facilmente, chamando
o mínimo de atenção possível. Todos comem sozinhos
ou com seu cônjuge, a portas fechadas e na privacidade
de um quarto da casa reservado para esse propósito.
Há regras estritas sobre quais comidas são boas para
comer, e quais não são. A maioria não é.
 As pessoas
geralmente comem a mesma coisa todo dia, e se perguntam,
na meia-idade, por que estão ficando anoréxicas. Pessoas
que gostam de comer "muito" são chamadas de uma longa
lista de nomes feios. Pessoas que gostam de frutas
e bolos se asseguram que os amigos não tenham nem
idéia do que elas comem. Muitos ficam tão envergonhados
de seu desejo por doces que eles evitam doces completamente
e patrocinam campanhas políticas nacionais contra
os perigos morais do açúcar. Histórias de ministros
e políticos pegos em flagrante comendo uma manga num
carro com um estranho obeso dominam a mídia por meses.
 Programas
de televisão nos quais as pessoas comem ou cozinham
são confinados às horas tardias da noite. Padarias
(proibidas de mostrar seus produtos em vitrines, para
que as crianças que passam não os vejam) e os poucos
restaurantes ilegais, mas tolerados (com preços tão
altos que fazem os terráqueos caírem na risada), são
restritos a certas zonas da parte industrial da cidade.
Em muitos lugares, é ilegal existirem restaurantes
ou padarias a menos de 500m um do outro, ou a menos
de 500m de uma igreja ou escola.
 O pânico,
devido a casos isolados de envenenamento por alimentos,
resulta em batidas periódicas da polícia em todos
os restaurantes, não importa o quanto sejam limpos,
e em campanhas públicas para as pessoas limparem cuidadosamente,
e cozinharem por um longo tempo, até mesmo a comida
que comem em casa. Se você pegar seu esposo ou seu
filho comendo com (mais) alguém, é o fim do mundo.
Mesmo falar entusiasmadamente com um colega de trabalho
sobre comida, especialmente com alguém considerado
acima do peso, é uma fonte de problemas para o casamento.
É bem sabido que só os que definharem vão para o inferno
quando morrerem.
 É claro,
os terráqueos passam por um severo choque cultural,
mas com o tempo eles começam a ver que o sistema no
qual vieram parar faz tanto sentido quanto o nosso.
Eles são jogados em todo tipo de situações deliciosas,
mas embaraçosas; a princípio, protestam, mas logo
aprendem a curtir, enquanto lidam com os sentimentos
residuais de culpa e confusão, e se perguntam como
vão se explicar para o seu povo, quando voltarem para
casa. Apesar dos seus melhores esforços em ter consideração
com as pessoas a sua volta, os terráqueos estão constantemente
ofendendo seus anfitriões com suas atitudes casuais
e suspeitamente positivas sobre a comida. Há um grande
incidente quando uma criança come parte de uma barra
de chocolate que uma terráquea escondeu embaixo da
cama. Tentativas de explicar a seus anfitriões que
comer é tão saudável e vital quanto o sexo caem em
ouvidos surdos e horrorizados.
 "Isto é alimento
para os pensamentos", você pode dizer. Sejam os detalhes
do tipo gastronômico ou sexual, que todos seus banquetes
sejam elaborados, deliciosos, criativos, satisfatórios
e 100% livres de culpa!
Se você tiver interesse em receber a coluna
Comes Naturally regularmente, via e-mail
(de maneira confidencial e gratuita), mande seu nome
e e-mail para
eronat@aol.com.
Colunas passadas podem ser encontradas no site da
Society for Human Sexuality, em
www.sexuality.org/davids.html.
Dois dos livros editados por David -
Erotic
by Nature: A Celebration of Life, of Love and of Our
Wonderful Bodies e The Erotic Impulse: Honoring the
Sensual Self - podem ser adquiridos diretamente
com o autor. Informações sobre como proceder para
adquirir os livros podem ser encontradas em:
www.sexuality.org/l/davids/en.html
e
www.sexuality.org/l/davids/ei.html.