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É Sexo, Seu Bobo!
David Steinberg

        Não é segredo que o sexo é uma grande questão política, hoje em dia.
A lista de tópicos políticos relacionados a sexo de uma maneira ou de outra aumenta, aumenta, aumenta... Todo dia, parece que o sexo aparece na primeira página do jornal, e não só do San Francisco Chronicle. Pode ser uma história sobre educação sexual nas escolas – se preservativos devem ou não ser distribuídos, ou mesmo mencionados, em escolas de ensino fundamental e médio. Pode ser algum assunto de pornografia – alguém reclamando sobre o efeito negativo da pornografia, alguma história sobre os novos esforços do legislativo para regular ou controlar material pornográfico, sobre quantos bilhões de dólares foram gastos com pornografia este ano, sobre como os filtros de pornografia na internet funcionam ou não.       
        Talvez sejam as últimas descobertas sobre a AIDS – drogas que funcionam ou não, como os homens gays não estão mais praticando sexo seguro, sobre o custo de drogas contra a AIDS na África. Pode ser o escândalo sexual do momento – algo ultrajante na vida sexual de alguma figura pública ou, ultimamente, as infindáveis histórias sobre abuso sexual de crianças por padres católicos. Pode ser uma história sobre a legalização do casamento homossexual ou o registro de parceiros domésticos. Talvez um caso sobre direito de expressão levado à Suprema Corte. Talvez o mais recente ataque sobre o aborto.E essas são apenas as histórias campeãs de audiência. Há uma longa lista de vice-campeãs também, não tão saborosas para a primeira página ou o noticiário das 8, mas também muito ligadas a sexo e política, sobre os muitos pontos de intersecção entre sexo e Estado – batidas policiais em clubes SM, batalhas locais sobre licenças e zoneamento de casas de
strip-tease, prisões e assassinatos de prostitutas, crimes de ódio e
julgamentos de vários casos ligados à sexualidade alternativa.
        Sexo é um dos mais importantes assuntos metapolíticos da atualidade, a par com a economia, o meio ambiente, política externa, relações tabalhistas e raciais. Mas mesmo enquanto a mídia nomeia e sensacionaliza cada notícia relacionada a sexo, parece não haver interesse ou vontade de identificar o sexo como um problema político, nenhum interesse em ligar os pontos (um termo em moda atualmente), em noticiar que há uma selva sexopolítica lá
fora, e não apenas uma coleção de árvores sexopolíticas.
        A omissão em prestar atenção à importância política do sexo, e em notar como a discussão de cada assunto específico ligado ao sexo é colorida pela histeria peculiar que esta cultura traz a todos os assuntos sexuais, nos deixa confusos e mal equipados para lidar com questões fundamentais de política sexual.Essa miopia sexopolítica é ainda mais bizarra, tendo em vista quão preocupados nós somos com todos os assuntos que contenham sexo.
Certamente estamos bem informados sobre a opinião de cada figura política a respeito do aborto. Sabemos como cada político – local, estadual e federal – se sente a respeito de tentativas de regular a pornografia, se as crianças são beneficiadas ou prejudicadas por ouvir a palavra "preservativo" na escola.
        Mas não temos informação alguma sobre o que esses líderes políticos pensam a respeito de sexo e questões mais gerais como qual deveria ser o papel do Estado em regular o comportamento sexual dos cidadãos. Ninguém pede aos líderes políticos para escreverem discursos sobre o quanto eles pensam que sexo significativo é importante na vida das pessoas, ou sobre qual o papel que o governo deve ter em influenciar as pessoas a se expressarem na privacidade de seus quartos, ou mais publicamente através da arte, teatro, música, pornografia ou strip-tease. Ninguém classifica as atitudes de Senadores e Congressistas da mesma maneira que esses mesmos legisladores são tachados de liberais, conservadores, como são condescendentes com o crime, defensores ambientais, feministas ou apóiam a ajuda externa. Durante os debates presidenciais, nenhum jornalista famoso pede aos candidatos para falar a dez milhões de eleitores curiosos se eles vêem o sexo primariamente como uma potencial ameaça para a saúde e a moral social, ou como uma parte essencial e maravilhosa de estarmos vivos. Niniguém pede a eles para que esclareçam, de uma vez por todas, se acham que o direito básico de autodeterminação* sexual das pessoas é mais ou menos importante do que deixar o governo ditar que tipo de sexo as pessoas podem ou não fazer, e com quem.
        Essas são atitudes fundamentais e posições de que precisamos estar
informados se tivermos que escolher responsavelmente entre os candidatos políticos, estejam eles concorrendo para o conselho da cidade, da escola, assembléias estaduais, para governador, senador, congressista ou presidente.
Desde que todos esses diferentes níveis de figuras políticas estarão votando em sexo várias vezes durante durante seus mandatos, precisamos saber o que pensam, não apenas de assuntos específicos como aborto e pornografia, mas também sobre o sexo em si. Pois, no final, apesar de ninguém querer admitir publicamente, o modo como os legisladores pensam sobre o sexo e o papel do
governo em regulá-lo vai influenciar fortemente seus pontos de vista em
dúzias de outros assuntos de política pública, muitos dos quais não temos
como prever antes que eventos específicos os lancem à consciência nacional.         Identificar e prestar atenção em sexo como uma realidade política dominante tem uma importância além do reino da política eleitoral, também. Se olharmos para problemas específicos como AIDS, pornografia e aborto como expressões de sentimentos subjacentes positivos ou negativos a respeito do sexo, como questões que posicionam a autodeterminação sexual contra a regulamentação sexual governamental, ganhamos novo entendimento sobre a dinâmica política que influencia esses assuntos, e podemos começar a pensar, educar e nos organizar a respeito deles em novas e mais eficazes maneiras.         Nos antigos dias dos movimentos de direitos civis, era preciso análise e entendimento sobre os assuntos gerais de raça e racismo para que houvesse uma perspectiva de como e porque eram negados, às pessoas de cor, muitos direitos que pessoas brancas há muito tempo consideravam garantidos.
        À medida que o pensamento se sofisticou, a respeito de como o preconceito racial era profundamente institucionalizado em quase todos os aspectos da sociedade – na economia, política, cultura, linguagem – novas estratégias para trabalhar efetivamente para mudanças sociais fundamentais a respeito de raça e racismo se tornaram claras. O que também se tornou claro foi a necessidade de alianças entre as pessoas que tinham visões radicalmente diferentes sobre mudanças sociais, mas que entendiam que todos estavam lutando contra o mesmo problema.
        Martin Luther King e a Conferência da Liderança Cristã do Sul raramente se encontraram face-a-face com Huey Newton e as Panteras Negras, com Stokeley Carmichael e o Comitê Coordenador da Não-Violência Estudantil, com Roy Wilkins e a Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor, ou com Malcolm X e a Nação do Islã. Mas por que o racismo tinha sido identificado como o problema funtamental contra o qual todos eles estavam trabalhando – não apenas direitos de voto, não apenas o desregramento de escolas – todos esses líderes e grupos sabiam que eram parte de um movimento maior e planejaram suas estratégias políticas de acordo com isso.
        Se estivermos interessados em promover um positivismo sexual, autodeterminação, e direitos iguais para pessoas de todas as inclinações sexuais, precisamos de uma análise do anti-sexualismo generalizado que nos ajude a entender a política do sexo em separado da política de assuntos individuais relacionados a sexo. Assim como entender a dinâmica do racismo habilitou o movimento de direitos civis a se enxergar mais claramente e a se tornar politicamente eficaz, assim como entender os problemas básicos do feminismo habilitou os movimentos de mulheres a mudar a paisagem política com respeito a problemas de igualdade de gênero, entender como atitudes anti-sexuais colorem e influenciam a política pública é essencial se quisermos trabalhar melhor para mudar o paradigma sexual dominante, como precursor de fazer mudanças específicas na lei e na política pública sexual.
        A legislação dos direitos civis não pôde ser feita até que as atitudes subjacentes sobre raça fossem identificadas e desafiadas. Leis apoiando direitos iguais para mulheres não puderam passar enquanto a noção dominante de mulheres como donas-de-casa e criadoras de filhos não foi superada.
        Da mesma maneira, mudanças de longo alcance no fazer sexopolítico não vão acontecer até que as atitudes subjacentes sobre sexo, autodeterminação e diversidade sexual não sejam cuidadosamente examinadas.
        Precisamos entender e mostrar para os outros que, quando pessoas falam sobre a ilegalização do aborto**, quando as pessoas falam que a educação sexual nas escolas deve ser a da abstinência, elas estão, significativamente, falando de seus próprios medos do sexo. Precisamos entender e enfatizar que quando as pessoas falam de fechar clubes de strip ou restringir a pornografia na internet, elas estão, significativamente, também encorajando a interferência governamental na autodeterminação sexual básica. Precisamos entender e mostrar aos outros que a oposição ao casamento homossexual, as batidas policiais em clubes SM e as tentativas da comissão de controle de álcool e bebidas de fechar convenções de swingers são todas, significativamente, formas de ataque à diversidade sexual.
Talvez o mais importante de tudo: temos que começar a desenvolver o senso de que todos nós que somos a favor da expressão sexual livre e completa compartilharnos uma causa e uma identidade comum, separada de, e compatível com nossa identificação com orientações sexuais e grupos de interesse específicos - que somos parte de um movimento geral que vai além de problemas únicos para desafiar o paradigma anti-sexual subjacente que tem sido, por muito tempo, a raiz da confusão sexual e da política pública prejudicial que conhecemos tão bem.
        Dizem que o Departamento de Justiça de John Ashcroft está se preparando para uma grande campanha anti-sexual, usando o trunfo da pornografia infantil como introdução ao assunto. Os eventos de 11 de setembro interromperam a ativação da campanha, mas planos para um grande esforço do FBI em combater o que os conservadores de direita vêem como sexo desviante e pernicioso apenas foram adiados, e não abandonados.
        O atual aumento da supervisão do FBI sobre indivíduos foi descrito por Ashcroft como uma ferramenta não apenas para combater o terrorismo, mas para lutar contra o que ele chama de pornografia, também. É claro, todos se opõem à pornografia infantil. É por isso que a campanha anti-sexual de Ashcroft escolheu começar por aí. Mas devemos estar certos de que, no caso do Departamento de Justiça de Ashcroft, a campanha contra a pornografia infantil é na verdade um disfarce da mídia para um novo ataque sobre o sexo "desviante" em geral. Lembre-se: este é um homem que acha que dançar é pecado.
        A menos que haja uma reviravolta política nas eleições para o Congresso em novembro, podemos esperar maior repressão sexual de várias formas, e muitos grupos de minorias sexuais se encontrarão sob maior ataque político e legal.
        À medida em que a campanha contra o sexo diverso toca as vidas de mais e mais pessoas, de maneiras cada vez mais significativas, torna-se mais importante do que nunca que entendamos que o sexo e a diversidade sexual são os reais alvos dessa jogada política e que, não importa quão diferentes possamos ser uns dos outros na maneira em que gostamos de sexo, reconheçamos nosso interesse comum em defender nosso direito de sermos as pessoas sexuais que quisermos.* o direito de escolhermos nossa orientação sexual.

        ** N. do T.: nos EUA.



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