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O NOVO E SÉRIO MUSEU DO SEXO EM NOVA YORK:
UMA GULOSEIMA SUCULENTA NA GRANDE MAÇÃ
Copyright © 2002 David Steinberg

 

        A questão é se é apropriado colocar os termos "museu" e "sexo" juntos num mesmo título descritivo.
        O gabinete de regentes de Nova York, que controla o acesso ao título oficial de museu (e, não insignificantemente, o status não-lucrativo que acompanha a santificação do Estado como uma organização cultural), diz que não é. Para os Regentes, o próprio título "Museu do Sexo" difama e ridiculariza a noção sagrada de museu.
        Daniel Gluck e Grady Turner, respectivamente diretor e executivo e curador do novo e elegante (ainda que não aprovado pelo Estado) Museu do Sexo, discordam. O que poderia ser mais apropriado - eles argumentam - do que ter uma instituição que honre o sexo como um dos aspectos importantes, complexos e variados da vida, digno de investigação séria, reflexão e celebração - como a arte, a história, como uma dúzia de diferentes etnias, como o baseball - como tantos aspectos caros à cultura que reconhecemos entusiasticamente dessa maneira.

        "A missão do Museu do Sexo", eles anunciam depois de quatro anos e milhões de dólares de preparação, "é preservar e apresentar a história, a evolução e o significado cultural da sexualidade humana", enquanto trazem ao público "o melhor da erudição atual" em questões de sexo. É nesse espírito que a exposição inaugural, "Sexo na Cidade de Nova York: Como Nova York Transformou o Sexo nos EUA" (NYC Sex: How New York City Transformed Sex in America), procura guiar os visitantes através de uma história detalhada das subculturas sexuais da cidade, de 1825 até o presente. A exposição enfatiza os caminhos cíclicos em que as práticas e alternativas sexuais que florescem e mudam repetidamente dominaram e foram dominadas por forças de controle e repressão sexual. Também mostra o caldeirão da densa e diversa mistura de populações e desejos sexuais que repetidamente geraram formas de exploração e experimentação sexual, que deram forma ao desenvolvimento e sofisticação sexuais da nação como um todo.

        Para ser exato, o MoSex (como as pessoas do Museum Of Sex se referem afetuosamente a sua criação institucional) não é o único museu de sexo no mundo. Amsterdam e Barcelona tem seus próprios "museus do sexo", mas estes são, infelizmente, pouco mais que chamativas atrações turísticas - expressões kitsch da erotização e trivialização do sexo pela classe dominante, em vez de uma alternativa relevante. Mas o MoSex é a primeira tentativa, em décadas, provavelmente desde o fechamento do Museu Internacional de Arte Erótica de San Francisco, de vida muito curta, no início dos anos 70 - de associar respeito e consciência a museus sérios no assunto "sexo".

        Não é por acidente que a primeira lente através da qual o MoSex vê o sexo é a da história, em vez da da arte. Seu fundador e principal benfeitor financeiro, o Diretor Executivo Daniel Gluck, acha que a imagem que a arte erótica cria na mente das pessoas está essencialmente desgastada. Ele preferiria ensinar lições de história sexual do que oferecer as perspectivas mais nebulosas a serem obtidas de exposições de arte sexual.

        Gluck estava procurando em círculos históricos pela pessoa certa para se tornar o curador chefe do MoSex quando encontrou Grady Turner, o então Diretor de Exposições da Sociedade Histórica de Nova York. Turner ficou fascinado com a idéia de fazer um museu do sexo funcionar efetivamente - de andar na fronteira da educação e do entretenimento, entre a controvérsia e a legitimidade, no ponto de juntar os conceitos de museu e de sexo. Turner, em sua própria descrição sempre intrigado com "tópicos difíceis", não era estanho à controvérsia. Na Sociedade Histórica ele foi curador da exposição muito criticada, emocionalmente perturbadora e extremamente bem-sucedida, "Sem Santuário: Fotografia de Linchamentos nos EUA" (Without Sanctuary: Lynching Photography in America), uma coleção de fotos de linchamentos que documentava em termos nada incertos um aspecto da história americana que a maioria das pessoas preferiria varrer silenciosamente para debaixo do tapete histórico. Em abril de 2001 ele se tornou o Curador Executivo e começou o longo processo de montar a exposição inaugural do MoSex.

        A meta primária de Turner para "NYC Sex" é usar um grande arranjo de objetos históricos coletados para trazer as histórias sexuais pessoais da maior variedade possível de pessoas. Seu interesse primário é a história social, a história das pessoas comuns, em oposição às perspectivas históricas que focalizam inteiramente os ricos e poderosos. Enquanto muito de "NYC Sex" comemora as contribuições de grandes figuras da história do sexo - a advogada do controle de natalidade Margaret Sanger, o cruzado anti-vício Anthony Comstock, o magnata da camisinha Julius Schmidt, o artista de pin-ups Alberto Vargas, só para mencionar alguns, Turner também quis ir além dos pioneiros sexuais exemplares para contar as histórias sexuais das pessoas comuns. E comprometeu-se a apresentar um amplo espectro de histórias sexuais que reconheceriam a grande diversidade da atividade sexual, muito dela decididamente fora de qualquer coisa que fosse considerado comum em seu tempo, e que sempre foi parte da história sexual real de uma cidade cosmopolita como Nova York, e provavelmente do resto do país também. Prostituição, pornografia, a emergência das culturas gay e lésbica, a manufatura e distribuição secreta de aparelhos de bondage, clubes radicais de sexo nos anos 70, todos têm papéis significativos no tour de 170 anos da história sexual de Nova York que Turner e "NYC Sex" oferecem ao público.

        Turner tem o cuidado de notar que o Museu não é uma instituição de advocacia. Sua intenção é oferecer informação objetiva sobre a história sexual, e não tomar uma posição política com respeito ao aborto, controle de natalidade, obscenidade, homossexualidade, ou qualquer outra questão polêmica que tenha chegado ao palco político e social através da história.

        Inevitavelmente, entretanto, há um poderoso impacto político no simples ato de tornar pública a informação que vinha sendo tradicionalmente mantida em segredo - quer a história secreta tenha a ver com sexo, linchamento ou qualquer outra coisa. O MoSex é importante e controverso não apenas porque fala de sexo, mas porque fala de sexo de maneiras que os guardiões culturais estão determinados a não permitir. Apesar do que todos os homogeneizadores moralistas gostariam que acreditássemos, por exemplo, prática sexual e desejo nunca estiveram limitados à estreiteza, ao que é considerado respeitável, e essa verdade sexual é algo que "NYC Sex" proclama para que todos pensem a respeito.
       
        A exposição demonstra que através da história (ou ao menos dos 170 anos nos EUA que documenta) o sexo não-convencional encontrou seu caminho, quaisquer que fossem as modas que a repressão social criasse para tentar impedira as pessoas de agirem com base em seus desejos sexuais mais básicos. É uma história particularmente relevante no momento em que a nação mergulha em mais um período de crescente repressão sexual, medo e constrangimento. Já estivemos aqui antes, "NYC Sex" aconselha implicitamente. Há lições a serem aprendidas do passado.

        Não surpreendentemente, moralistas anti-sexuais não estão nem um pouco felizes em ver tais verdades serem ditas franca e abertamente, sem o imprimatur da vergonha sexual ou a trivialização do sexo que é a própria expressão dessa vergonha. Os anti-sexualistas estão mais preturbados ainda de ver a franqueza sobre o sexo reclamar legitimidade social e respeito através do comoprtamento deliberadamente erudito e sério do MoSex. William Donohue, presidente da Liga Católica pelos Direitos Civis e Religiosos, condenou o MoSex no estilo "não vi e não gostei" pelo que ele chamou de "descarada celebração de sexualidade sem limites" e sua "poluição moral", antes mesmo que o museu tivesse aberto suas portas.

        Onde se vai para encontrar objetos históricos para documentar e ilustrar as culturas sexuais do submundo que pontilharam a paisagem histórica de Nova York nos últimos 170 anos? Turner sensivelmente procurou as pessoas mais obssessivamente preocupadas com essas culturas, entre elas o próprio cruzado anti-vício Anthony Comstock. Exatamente como a Comissão Meese ofereceu um tesouro virtual de material pornográfico para o público às custas do governo, e como o estardalhaço público do caso Clinton-Lewinsky trouxe à discussão o sexo oral e o uso sexual de charutos para as salas de estar das famílias americanas, assim também os esforços de Anthony Comstock para combater a obscenidade registraram elaboradamente os detalhes e preservaram os artefatos da atividade sexual do submundo para a posteridade e, enquanto Comstock se revira na sepultura, como material para os esforços educacionais de historiadores como Grady Turner, também.

        O material confiscado e arquivado pelo Departamento de Polícia de Nova York em suas várias batidas anti-vício proveram outra irônica e valiosa fonte de material para o MoSex. E a vasta e meticulosamente catalogada coleção de pornografia do bibliotecário aposentado do Congresso, Ralph Wittington, adquirido ao longo de 30 anos a um custo total de mais de US$ 100.000 e recentemente comprado pelo MoSex quando a coleção ficou maior que a grande casa de Wittington, ofereceu ainda mais uma doação de material para o crescente acervo do museu.

        Se o MoSex vai atrair os 100.000 visitantes que projeta para seus dez primeiros meses, ainda permanece a ser visto. Mas a emergência de uma focalização séria de um museu sobre o sexo é um desenvolvimento significativo por si só.

        Artistas e fotógrafos, bem como historiadores que tratam do sexo de maneiras não exageradas e sensacionalistas tiveram dificuldade em ter seu trabalho levado a sério. Enquanto as forças da repressão sexual aumentaram sua influência política nos últimos vinte anos, e enquanto o Departamento de Justiça Ashcroft se prepara para maiores desafios para a disponibilidade pública de informação e material relacionado a sexo, o mundo das belas artes se tornou mais relutante do que nunca em abraçar material de natureza sexual, não importa quão séria ou artística seja sua intenção ou apresentação. Respeitáveis galerias e museus que começaram a explorar temas sexuais nos anos 70 ficaram cada vez mais relutantes em colocar suas reputações na guilhotina da mídia nos últimos anos. O crítico e comentarista fotográfico A. D. Coleman, que escreveu extensamente sobre esse assunto por décadas, nota que a existência do novo Museu do Sexo, junto com a repercussão na imprensa que sua abertura gerou, pode encorajar museus, galerias e publicações de arte a serem mais abertos a pensar no sexo como um assunto digno de apresentações sérias e artísticas para o público.

        Felizmente, a cobertura inicial do MoSex na mídia mainstream tem sido notavelmente respeitosa, se não livre das inevitáveis risadinhas. Karin Lipson, escrevendo no Newsday, reconhece a "seriedade de própósito" do museu, notando que "nada no MoSex é apresentado de maneira pegajoso ou barato". Maria Puente, no USA Today ("Sexo Ganha seu Próprio Museu na Cidade - Exposição Lança Olhar Erudito ao Erótico"), pergunta "porque não haver um museu que tente lançar um olhar erudito, mas divertido" ao sexo, prevendo que os visitantes ficarão intrigados, emocionados, e apenas um pouco excitados com exposição de abertura. Simon Tait nota no London Times que o MoSex "chegou a ponto de ser levado a sério", contratando o design da famosa firma de arquitetura de Casson Mann. Um artigo notavelmente infantil de Clyde Haberman no New York Times (Fotos Pornô? Chamem-nas de Artefatos") foi equilibrado no Times por um artigo mais consciente de Ralph Blumenthal (Museu do Sexo Diz que Veio Para Educar). E mesmo a cobertura da controvérsia sobre o museu no tablóide New York Daily News, famoso por seu sensacionalismo ("Um Museu Sério ou Exibicionismo?"), deu aos que apoiam o MoSex uma oportunidade de fazer as críticas da Liga Católica parecerem tolos. Falando de AIDS, por exemplo, um porta-voz da Crise de Saúde dos Homens Gays cometou que "sexo não é uma coisa ruim. Doença e ignorância são. A Liga Católica deveria ser mais esclarecida".

        Depois de uma série de atrasos na construção, o Museu do Sexo abriu suas portas em 5 de outubro. Os críticos terão o que falar; o público vai votar com seus pés e seus dólares. Esperamos que o MoSex esteja ainda por aí para reverenciar e ensinar sobre sexo nos próximos anos.

        O Museum of Sex está em 233 Fifth Avenue, na 27th Street. Abre de domingo a terça, e quinta das 10 às 18:30h; sextas e sábados das 10 às 21h; fecha às quartas. Ingressos (US$ 17, incluindo audio tour) podem ser comprados pelo telefone 866-MOSEXTIX. Não é permitida a entrada de menores de 18 anos. Mais informações em http://www.museumofsex.com. A exposição "NYC Sex: How New York City Transformed Sex in America" estará aberta no Museum of Sex até 3 de julho de 2003.

        Um elegante catálogo da exposição, editado por Grady Turner e também intitulado "NYC Sex: How New York City Transformed Sex in America," inclui capítulos sobre "A Sodoma do Hudson", "Queers", "Prostitutas", "Submundo", "Pornografia" e conversas com vários membros da Board Conselho do Museu, incluindo Martin Duberman, Joan Nestle, Timothy J. Gilfoyle, Xaviera Hollander, Tracy Quan, Karen Finley, Art Spiegelman, e Annie Sprinkle.



Se você tiver interesse em receber a coluna Comes Naturally regularmente, via e-mail (de maneira confidencial e gratuita), mande seu nome e e-mail para eronat@aol.com. Colunas passadas podem ser encontradas no site da Society for Human Sexuality, em www.sexuality.org/davids.html. Dois dos livros editados por David - Erotic by Nature: A Celebration of Life, of Love and of Our Wonderful Bodies e The Erotic Impulse: Honoring the Sensual Self - podem ser adquiridos diretamente com o autor. Informações sobre como proceder para adquirir os livros podem ser encontradas em: www.sexuality.org/l/davids/en.html e www.sexuality.org/l/davids/ei.html.