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SEM DESCULPAS: A HISTÓRIA DE JACK MC GEORGE
Copyright © 2003 David Steinberg
(agradecemos a tradução por: Mr. B)

 

Há momentos, mesmo quando o mundo parece estar ficando a cada dia mais louco, que algumas coisas vem à tona da maneira que deveriam. Quando algo relacionado a sexo acaba por aparecer como deveria. Quando as forças da sensibilidade, honestidade e a vida de uma pessoa de bom-coração triunfam sobre as forças da histeria, do medo, da desinformação e da impossibilidade. Uma ilha de sanidade sexual percorre um longo caminho nesses dias, na intenção de manter as portas da esperança abertas para um futuro sexual positivo. Ao menos, é assim que parece para mim. É por isso que fiquei tão encorajado pela história de Jack McGeorge.

Talvez você tenha tido um pequeno vislumbre desta história enquanto ela passou rapidamente através da mídia. Talvez você tenha perdido. Foi um escândalo sexual que apareceu e desapareceu em uma semana, um escândalo sexual que não criou raiz e por isso me deu ânimo.

Perto da semana de ação de graças, o Washington Post publicou o que pareceu ser uma grande exposição sobre Jack McGeorge, um analista de munições para a UNMOVIC (Comissão de Monitoramento, Verificação e Inspeção das Nações Unidas) no Iraque. O Post descobriu que McGeorge era um importante adepto – um líder, realmente – tanto na comunidade S&M em Washington, D.C., onde ele mora como nacionalmente também. Não foi difícil para o Post fazer essa descoberta porque McGeorge nunca tentou esconder seus gostos e interesses sexuais. Quando o Post fez uma pesquisa na web sobre ele, suas atividades S&M explodiram por todo lado.

McGeorge é um fundador da Black Rose, um grupo social de suporte e educação bem conhecido e respeitado em Washington por adultos interessados nas "diferentes expressões de poder no amor e que atuam no contexto dos cuidados com as relações". Ele também era um membro do Leather Leadership Conference, uma organização dedicada ao "fortalecimento da comunidade SM/Couro/Fetichista através do desenvolvimento de conhecimento de liderança dos membros da comunidade," e fundador presidente da Comissão da Coalisão Nacional para Liberdade Sexual da (NCSF), o grupo de liderança que trabalha nacionalmente para lutar contra a discriminação contra pessoas envolvidas em atividades S&M .

Quando confrontado pelo Wahington Post sobre seu envolvimento com S&M, McGeorge foi aberto, direto e não usou desculpas sobre suas preferências sexuais. "Eu fui muito sincero com as pessoas no passado sobre o que eu faço", ele disse, "e isso nunca me impediu de conseguir um emprego ou de fazer o serviço. Eu sou o que sou. E não tenho vergonha de ser quem eu sou - nem um pouquinho."

Apesar disso, para defender o trabalho dos inspetores das Nações Unidas no Iraque, McGeorge entregou sua demissão ao Inspetor Chefe Hans Blix. "Eu não posso permitir que minhas ações, da maneira que elas podem ser vistas pelos outros, prejudiquem uma organização que não fez nada para merecer esse dano," ele explicou.

Blix, um nativo sensível da Suécia, onde as preferências sexuais não causam o mesmo "ti-ti-ti" que causam nos Estados Unidos, imediatamente e categoricamente recusou o pedido de demissão de McGeorge, destacando que as suas atividades sexuais não tinham nada a ver com sua competência. "Nós acreditamos que o Sr. McGeorge é um técnico altamente qualificado e competente", o porta-voz de Blix, Ewen Buchanan, disse enfaticamente. "Nós não reconhecemos nenhum dos fundamentos do seu pedido de demissão e o Dr. Blix não aceitou sua oferta."

Como encontraram em Blix um verdadeiro muro de pedra, vendo de um horrível e perverso ângulo sexual, os repórteres tentaram publicar a matéria de uma outra direção. Expressando uma preocupação repentina com a sensibilidade sexual dos costumes iraquianos, eles questionavam se o envolvimento de McGeorge com o S&M não poderia ser ofensivo ao Islamismo Iraquiano e se não iria interferir no seu trabalho.

Mas Hua Jiang, porta voz do Secretário Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, não mordeu a isca. Ela simplesmente lembrou que todos os inspetores de armas foram instruídos a "se manterem informados sobre a cultura e religião locais." Estar dentro do S&M, ela relembrou, não parece ser nada mais que um problema cultural, assim como tantos outros. Isso não é como se Jack McGeorge fosse sair às ruas de Bagdah vestido com arreios de couro. Final da história.

O Sexo tratado como uma parte normal da vida, como se não fosse grande coisa. A diversidade sexual como um simples fato da vida, não relacionada a aptidão ou performance no trabalho. A honestidade sem desculpas de um homem sobre seus gostos sexuais recompensada por um reconhecimento incondicional do seu mais alto superior. Que refrescante!

Hans Blix tinha mais o que fazer do que se importar com as atividades S&M de Jack McGeorge. Kofi Annan tinha mais o que fazer do que se importar com as atividades S&M de Jack McGeorge. Aparentemente, Saddam Hussein também tinha mais com que se preocupar do que com as atividades de McGeorge dentro do S&M. Talvez apenas as pessoas dos Estados Unidos – algumas pessoas dos Estados Unidos – é que têm problemas para entender que a pessoa que faz sexo "kinky" (sacana) pode fazer com competência, um trabalho completo, sensível e difícil.

É lógico que, mesmo que oficialmente descartando o que foi dito, alguns jornais ainda insistiram em publicar a história como um escândalo sexual. "Nações Unidas indicam um Sádico para Pegar Saddam," proclamou The Statesman na India. "Passado tenebroso revelado na missão das Nações Unidas," ecoou o New Zealand Herald. "Casa da Dor das Nações Unidas", declamou o New York Post. "Especialista das Nações Unidas participou do Sex Ring" proclamou o Glasgow Sunday Mail, ignorando totalmente a realidade.

Até mesmo a moderna e progressiva revista online, Salon, não resistiu à isca. Substituindo a aceitação pelo horror e desdenho, Salon entitulou sua matéria "Uma Amostra do Chicote para Saddam," e sugeriu de maneira brincalhona que o envolvimento de McGeorge com o S&M poderia na verdade ser uma boa coisa para o time de inspeções porque "ajudaria a distinguir entre fantasia e realidade."

Alguns comentaristas foram mais longe e fizeram analogia entre os aspectos de dor de um jogo S&M e as técnicas de tortura usadas por Saddam Hussein. Timothy Noah, escrevendo para a revista Slate ("Prazer, Dor e Saddam Hussein: Uma Meditação sobre a Violência Recreativa") encontra paralelos perturbadores entre algumas práticas S&M (ele cita a suspensão, por exemplo) e as técnicas de tortura de Saddam Hussein relatadas em um relatório recente do Escritório Estrangeiro Inglês.

Noah reconhece que "ele faz isso sem dizer que os adultos deveriam poder se engajar em qualquer relação sexual que desejam, desde que todas as partes consintam", mas quando o desejo sexual é a "tortura", Noah pergunta, isso não "encobre" a noção total de consensualidade? "Quando a felicidade requer a miséria," ele conclui (imaginando de que maneira as pessoas que escolhem S&M estão escolhendo ser tão miseráveis), "a tolerância não
vai te levar muito longe".

Outros comentaristas, como Joseph Farah no newsletter Cristão WorldNetDaily ("Um inspetor de armas com um Fetiche"), trilhou comentários sobre McGeorge sob uma perspectiva diferente – como uma dificuldade no que é aparentemente uma Cruzada Cristã em andamento para salvar do Islã as mentes e corações do mundo. "Vocês podem imaginar o golpe de propaganda potencial que isso cria para o mundo Islâmico?" Pergunta Farah alarmado. "Vocês podem imaginar de quantas maneiras a 'vida privada' de McGeorge pode ser usada pelo Iraque para seus próprios propósitos?" (A despeito da histeria de Farah, não houve ruído algum de Saddam Hussein ou de qualquer outro do "mundo Islâmico" sobre a suposta perversão sexual de McGeorge. "Os oficiais iraquianos... sempre afirmaram que os membros americanos da equipe [de inspeção das Nações Unidas] podem não ser o que parecem", o serviço de notícias islâmico Khilafah comentou ironicamente. Eles criticaram a mídia ocidental, ao invés de McGeorge, pelo que eles chamaram "uma campanha para desacreditar as inspeções de armas das Nações Unidas no Iraque.")

Enquanto algumas pessoas sem dúvida alguma vêem Jack McGeorge como uma evidência de que o mundo, ordem e decência humano estão ruindo, o golpe sobre "o inspetor de armas com um fetiche" ironicamente parece também estar oferecendo novas informações sobre a comunidade couro/fetiche/sm para uma comunidade geralmente desinformada no mundo. Qualquer um que tenha uma vaga curiosidade sobre o S&M que tenha lido as manchetes das estórias sobre McGeorge tiveram suas atenções chamadas para as excelentes informações disponibilizadas por organizações como Black Rose e a Leather Leadership Conference. Qualquer um que tenha se perturbado sobre seu envolvimento com o S&M aprendeu que pode entrar em contato com o NCSF e pedir ajuda.

A coluna de Joseph Farah no WorldNetDaily publicou links de websites variados de S&M, presumivelmente para mostrar aos seus leitores quão horríveis o Inspetor com um Fetiche era. Mas qualquer um que seguir os links de Farah para The Eulenspiegel Society (www.tes.org/publications/past_weekly/thisweek022502.html), Leather Leadership Conference (www.leatherleadership.org) e para Leather University (www.leatheru.com), é convidado para um vislumbre informativo imparcial da subcultura S&M, falando através da sua própria linguagem. Como é dito na propaganda, este é o tipo de propaganda que você não pode comprar.

Clicando no link do WorldNetDaily para The TES Weekly, por exemplo, você pode achar uma revisão entusiástica de uma discussão sobre troca de papéis de McGeorge. "Um orador completo e sempre encantador," admira Lisa V., "Jack discutiu sobre seu início no meio, quando ele se identificou primeiramente como um submisso e como ele e suas relações se desenvolveram através do tempo, tanto que hoje ele se encontra no papel de dominador na maioria das vezes."

Outra história na mesma newsletter TES admira o "cuidadosamente planejado workshop sobre jogos com facas," de McGeorge, notando que a "a palestra trabalhou mão por mão com a demonstração para mostrar os princípios básicos de usar lâminas sensualmente em um bottom. Jack abriu com uma leitura ponto-a-ponto das técnicas e normas de segurança recomendadas com facas. Ele pontuou as variadas implicações fisiológicas e efeitos psicológicos do jogo com faca – lembrando a sua platéia que... a lâmina mais elaborada é uma mera ferramenta para chegar à cabeça de um bottom."

Agora, se você não está no jogo de faca, isto não soa exatamente como um ninho de maníacos patológicos se retalhando, quer queiram, quer não. Parece? Algumas pessoas, talvez até algumas do WorldNetDaily, provavelmente leitores conservadores, podem realmente achar essas informações um pouco intrigantes. Mais pessoas do que se pensa dentro do S&M vieram de bases religiosas estritamente conservadoras.

O link do WorldNetDaily para os sites pessoais de McGeorge, (www.dss.sexresearch.org/Surveys/2001DOMSUB/Index.lasso), revela que somando-se ao fato de ser um S&M entusiasta e educador, McGeorge é também um sério pesquisador sexual. Nós aprendemos que os dados preliminares do seu questionário de pesquisa sobre "Dominação, Submissão e Serviço ***(pode ser cerimônia religiosa)" foram apresentados em novembro passado na convenção anual da Sociedade para Estudos Científicos da Sexualidade, a maior organização de sexologistas profissionais dos Estados Unidos.

A seção "About Me" (sobre mim) deste site mostra o que pode ser descrito apenas como uma adorável foto de um figurão sorridente, despretensioso e boa praça – ao contrário das noções estereotipadas da perversão negra como você poderia imaginar. "Eu sou um homem dominador de 51 anos, heterossexual com aprendizados libertinos que deveria praticar mais", McGeorge explica com bom-humor óbvio, "abençoado com uma família maravilhosa. Alex, Lisa e Laura são as luzes da minha vida." Qualquer um que vir esta fotografia terá muito trabalho tentando pensar em McGeorge como um demônio.

Sem dúvida, toda a tentativa de difamar McGeorge com seu envolvimento com o S&M, e para confundir consensual S&M com tortura policial, resultou em uma onda de respostas escandalosas de leitores de jornais grandes e alternativos, demonstrando um impressionante entendimento popular da procura do prazer e das bases consensuais do jogo S&M.

"As fantasias sexuais privadas tais como S&M não estão ao par com Saddam Hussein torturando pobres almas através de execuções impostas", nota um leitor do Slate. "Torturar vítimas [Saddam Hussein]... não há "consentimento" para suas torturas. Além do mais, é uma tortura REAL... não uma cena ou a dor que alguém deseja porque tem satisfação com isso." "Eu não posso ver nem um bocadinho de relevância na decisão de proclamar as tendências sexuais de McGeorge, não importa quão de mau gosto elas possam parecer", escreve Andrew Carruthers para The Washington Post. "Não fosse pela clareza e profissionalismo de Hans Blix, seu impressionante editorial mal-fundamentado poderia ter custado a McGeorge o emprego dele."

"O Post deveria pedir desculpas... e levar 40 chibatadas," concorda Eric Umansky. Até mesmo o ombudsman do The Post, Michael Getler, sobrecarregou o jornal, embora não em torno da questão de consensualidade no s/m. " Não achei a história própria para o padrão usual," ele disse. "Pareceu fraca e precipitada levando em consideração sua premissa básica -- que a qualidade de toda a equipe de inspeção é suspeita... Existem mais de
100 inspetores, e McGeorge é o único em que essa históriafoi focada."

Um número progressivo de comentaristas foram passo a passo, sutilmente contrastando o jogo inocente do s/m com a violência imposta no mundo por autocratas como Saddam Hussein, terroristas como Osama bin Laden e invocadores da guerra como George Bush.

Não é o tipo de sado-masoquista [McGeorge] que, digamos, regeria o Oriente Médio através da tortura e assassinato em massa," nota Dave Mulcahey no In These Times. "Há uma diferença, vocês sabem." "Os Estados Unidos deviam pegar umas dicas do manual S&M e ser submisso uma vez na vida," sugere Dylan Swizzler no Planet Out." Devia aguentar para aprender um ou dois truques."

O website pacifista antiwar.com foi muito mais sincero. "Não importa se alguém pode pensar sobre a vida sexual de McGeorge," eles dizem, "pelo menos ele teve a decência de usar suas fantasias S&M em privado, com adultos que consentiram, ao contrário dos instigadores de guerra do
Washington... que infligiram seus impulsos sádicos em nações inteiras."

Talvez haja mídia suficiente focada no S&M na última década ou então pode ser que a verdade está começando a penetrar nos ossos da consciência coletiva dos americanos - que esta dor prazerosa não é o mesmo que ser agredido na rua, que esta consensualidade é a diferença definitiva entre dar poder e ser abusado, que as atividades sexuais de uma pessoa evitariam a todo custo, podem ser a deliciosa base do êxtase para outra pessoa, que todo esse exagero sobre ser S&M é algo que apenas pessoas doentes e miseráveis podem querer fazer é apenas isso: falta de informação.

Talvez as pessoas estejam apenas cansadas do pessoal gritando por que a maneira que alguém faz sexo é diferente da sua. A saga de McGeorge certamente sugere que é possível responder um escândalo sexual da mídia alimentando o frenesi simplesmente conhecendo a verdadeira sexualidade de alguém, abertamente e sem desculpas, e então dizer, "E daí? O que há de errado nisso?" Vocês não estavam com saudades do Bill Clinton para fazer igualzinho quando confrontados com toda a baderna de Monica Lewinsky?

Jack McGeorge pode não ser um anjo perfeito, mas ele tem meu voto como herói sexual do mês. Ele se manteve firme por si mesmo, pelo sexo, pelo sexo não convencional, pela honestidade sexual e veio a tona livre e limpo.

Talvez outras pessoas em circunstâncias similares tenham a coragem de seguir o exemplo dele.


[Este artigo apareceu primeiro na Revista Spectator. Se você gostaria de receber Comes Naturally e outras matérias de David Steinberg regularmente via e-mail (gratuitamente e confidencial), mande seu nome e e-mail para David eronat@aol.com. As colunas anteriores estão disponíveis em Sociedade para Sexualidade Humana em "David Steinberg Archives":<www.sexuality.org/davids.html . Dois livros editados por David - "Erotic by Nature: A Celebration of Life, of Love and of Our Wonderful Bodies," e "The Erotic Impulse: Honoring the Sensual Self" - são disponibilizados por ele, através de pedido por e-mail. Descrições e informações sobre pedidos estão publicados em www.sexuality.org/l/davids/en.htm e www.sexuality.org/l/davids/ei.html.]

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