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SIM, OS SWITCHERS EXISTEM!
Edgeh
Falar
sobre o que é ser switcher parecia algo bastante
fácil. Parecia. Afinal, o conceito é bastante
simples - switcher é quem gosta de jogar dos
dois lados, tanto como dominador quanto como submisso.
Ponto final.
O problema todo é que a coisa não
se restringe ao mero conceito. Comecei a me lembrar
de outras coisas relacionadas ao tema, como, por exemplo,
as vastas discussões que já mantive em
chats (sim, eu costumo perder algum tempo discutindo
coisas do gênero em chats, mais especificamente
no de Fetiches do Terra) com dominadoras de plantão
- dominadoras que jamais admitiriam participar de uma
cena com um switcher, ainda que ele fosse exclusivamente
um submisso.
Devo dizer que fiquei desapontado com essas discussões.
Primeiro, porque julgava eu, pobre inocente que sou,
que as pessoas ligadas ao mundo BDSM possuíam
uma mente um pouco mais aberta - pelo menos, aberta
o suficiente para não se prenderem a estereótipos
(em tempo: todo mundo nesse meio diz que odeia estereótipos,
principalmente por ser classificada dentro de um pelo
resto da sociedade). Segundo, porque esperava um pouco
mais de maturidade dessas pessoas - pelo menos, maturidade
bastante para não pré-julgar uma pessoa
por conta de experiências ruins vividas com outras
pessoas.
Explico. Uma das dominadoras em questão
insistiu ferrenhamente que não se envolveria
com um switcher porque ele jamais seria um bom submisso.
Estranho, isso. Pergunto: porque não? Imagina-se
que o switcher, necessariamente, seja uma pessoa incapaz
de figurar apenas como submisso? Ou, em outras palavras,
ele terá sempre e sempre que jogar também
como dominador? Se é isso, vamos esclarecer desde
já: estamos falando aqui do estereótipo
do switcher. E como todo estereótipo, este também
é falso. A coisa não funciona assim. Um
switcher só partirá para os dois lados
do jogo com outro switcher. É tão simples.
Basta se perguntar que raio de relação
poderia se desenvolver se eu, switcher, resolvesse de
repente tratar minha dominadora como submissa. Obviamente,
nenhuma.
Ou nem tão obviamente assim, ao que parece.
Porque a dominadora em questão simplesmente não
acreditava que eu, switcher, poderia ser eu, submisso,
durante toda uma cena, ou durante um dia, ou dois dias,
ou dez dias - sem que com isso perdesse o gosto também
por dominar, mas com a pessoa certa, no momento certo.
Evidentemente, não perderia o meu tempo sequer
tentando convencer uma dominadora a figurar como submissa.
Primeiro, porque a respeito em sua opção
de vida. Segundo, porque se eu estivesse com vontade
de dominar, estaria procurando uma submissa, nunca uma
dominadora. E terceiro, porque - pelo menos no meu caso
- as coisas estão suficientemente compartimentadas
para que eu consiga ter o meu prazer em qualquer um
dos lados, mas não necessariamente em ambos na
mesma ocasião.
Então, porque será que um switcher
jamais daria um bom submisso? Seria porque ele tem opiniões
próprias, já formadas, sobre BDSM - e,
por força destas, tivesse estabelecido seus limites
mais claramente do que o usual? Mas aí a dominadora
estaria querendo ir um pouco além do que eu mesmo
me permito ir - ou seja, ela desejaria dominar também
minhas idéias (e isso, sinto muito, não
permito a ninguém fazer). Ou seria porque ele
mais tarde "copiaria" as torturas a que foi
submetido? (De novo, sinto desapontar, mas tenho imaginação
suficiente para criar e executar as minhas próprias,
sem que seja preciso imitar ninguém).
Perguntei tudo isso à dominadora com que
estava discutindo - e não obtive qualquer resposta
convincente ou capaz de me fazer render a qualquer evidência
contrária à minha posição.
Como também não conseguiu me convencer
a respeito do outro ponto - que seja, por ter tido uma
ou várias experiências ruins com outros
switchers, necessariamente o quadro se repetiria no
meu caso. Ora, isso é de tirar a paciência
de qualquer pessoa de bom senso, porque se está
julgando que todas as maçãs do mundo são
podres porque se teve o azar de comer algumas delas
que o eram (perdão pela comparação
um tanto chã, mas é preciso ser um pouco
contundente nesse assunto). Estou então sendo
pré-julgado, por uma pessoa que nem conheço
pessoalmente, e por conta de outras relações
das quais jamais participei? Não é aceitável.
Não é razoável. E não é
sustentável.
Pronto, feito estes comentários iniciais
- e tenho certeza que a dominadora em questão,
se e quando lê-los, haverá de me criticar
aos quatro ventos - voltemos ao "ser switcher".
Por que é que os switchers existem? Só
posso falar de mim mesmo. Eu comecei a descobrir minha
inclinação para o BDSM desde adolescente,
quando minha vida sexual começou a despontar.
E não era switcher então - minha tendência
toda era de ser submisso. Adorava me amarrar em meu
quarto; inventava dezenas de pequenas torturas cotidianas,
e as executava todas, naquele fogo insuportável
da adolescência - e mesmo que as fizesse sozinho,
o prazer nem por isso era menos intenso.
Só muito tempo depois descobri que também
gostava do outro lado - de dominar uma mulher, de humilhá-la,
de torturá-la até que ela gozasse de pura
agonia, afogada em tesão, sem saber se implorava
para que eu parasse com aquele inferno ou se pedia para
que eu o intensificasse ainda mais... E embora minha
tendência primeira fosse a de submisso, só
pude experimentar as sensações oriundas
disso na pele, muito tempo depois que já tinha
exercido o papel de dominador, e mais de uma vez. Quando
tive a oportunidade, porém, o ciclo se completou
- e eis-me switcher...
Para as dominadoras em geral, somos criaturas
mal-resolvidas, que não sabem ao certo o que
querem e que são ruins em ambos os papéis,
por não priorizarem nenhum. Que grande, que enorme
bobagem. Então a humanidade se resume a isso
- em ser bom em UMA coisa? Não se podem desenvolver
duas atividades, mesmo que antagônicas, com alguma
competência? Não se permite às pessoas
gostarem de doces, ao mesmo tempo em que gostam dos
salgados? Não se pode, então, ter prazer
dando uma chicotada tanto quando recebendo? E quem é
que lhes deu o direito de querer encarcerar, cercear,
limitar, nomear, rotular o meu prazer? Como é
que pretendem julgar uma coisa tão íntima,
tão única de cada pessoa, com base apenas
no que elas mesmas acreditam?
Se for para julgar alguém, os switchers
estão mais aparelhados para isso - simplesmente
porque, neste universo BDSM, são eles que conhecem
os dois lados da moeda. Sabem o que é ser submisso,
e sabem o que é ser dominador. Não me
entendam mal - não somos melhores que ninguém.
Somos apenas diferentes. Somos talvez um pouco mais
abertos do que os demais integrantes do meio. Não
pré-julgamos ninguém - pelo contrário,
estamos sempre abertos a experiências diferentes,
ainda que antagônicas. Não criticamos uma
dominadora por ser dominadora, nem uma submissa por
ser submissa - mas, por favor, tenham a bondade de nos
pagar na mesma moeda: não nos critiquem por nossa
opção sexual, mesmo que seja diferente
da de vocês. Isso, aliás, tem nome - chama-se
preconceito. E preconceito, vocês me desculpem,
é algo que não relevo em ninguém.
Portanto, tenham em mente que os switchers existem,
mas que, como todas as "espécies" deste
mundo, também têm diferenças entre
si. Há os que se relacionem apenas com outros
switchers, porque seu interesse é sempre o de
mudar de papel uma ou várias vezes em pouco espaço
de tempo. E há os que passeiam pelos dois extremos
num prazo de tempo mais longo - e que, portanto, serão
exclusivamente submissos ou exclusivamente dominadores
durante toda uma cena (ou além dela), se for
esta a posição do parceiro (ou seja, se
o parceiro for respectivamente apenas dominador ou submisso).
Claro, deve haver casos em que os primeiros disseram
pertencer ao grupo dos segundos - e pode ser daí
que tenham vindo as experiências ruins da dominadora
com quem conversei. Lamento isso, mas todos nós
sabemos muito bem que esse tipo de comportamento não
se restringe aos switchers - quantos escravos dizem
que o são, mas na hora mostram não ser
coisa alguma? E quantos dominadores e dominadoras seguem
o mesmo caminho? Em todos os grupos, há gente
confiável e gente sem caráter. Descobrir
quem elas são demanda tempo, paciência
e alguma sabedoria. Mas condenar um grupo inteiro por
causa do comportamento inapropriado de uns poucos é
uma tremenda bobagem.
Ou você acha que eu mesmo já não
encontrei dominadoras e submissas "falsas"?
Nem por isso desisto de continuar me relacionando com
pessoas novas. Porque sei que esta é a única
maneira de conseguir ampliar meus próprios horizontes
- e, modestamente, contribuir para que essas pessoas
novas possam fazer o mesmo. Não é porque
uma ou duas ou dez dominadoras ou submissas me desapontaram
que eu vou condenar todas elas a arderem no fogo do
inferno (embora isso provavelmente fosse ruim apenas
para as primeiras...). Vou continuar procurando. Vou
continuar me relacionando. Vou continuar participando
de cenas, com outras dominadoras e submissas, sempre
dentro de parâmetros mútuos de respeito,
de consideração e de um prazer bem sintonizado.
E se as dominadoras se negarem a me experimentar
como submisso porque eu sou switcher, sinto muito -
estarão apenas mostrando que a liberdade de opção
sexual que tanto dizem defender só se aplica
quando não são elas mesmas chamadas a
exercê-la com outra pessoa. E quanto às
submissas que julgam que um switcher não é
um bom dominador porque também serve como escravo,
vale o mesmo - com um agravante: um switcher sabe muito
bem o que dói e onde é que dói
mais...
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