|
SADOMASOQUISMO, MÍDIA E PRECONCEITO
Edgeh
Já
faz algum tempo, mas ainda me lembro de diversos comentários
que vi pela rede acerca daquele episódio de "Os
Normais", da Rede Globo, em que havia um casal
sadomasoquista em cena. E me lembro desses comentários
porque todos eles foram positivos. Todas as opiniões
convergiam para algo mais ou menos assim: foi legal
porque fugiu um pouco do estereótipo dos sadomasoquistas,
porque enfocou o assunto sem apelações,
porque foi divertido, mesmo tratando desse tema.
De minha parte,
e como fã do programa, concordo com essas assertativas.
Mas tem uma coisa que não consigo engolir de
jeito nenhum: o fato de que o episódio que a
gente pôde ver exibido não era nada do
que deveria ter sido, pois, para quem ainda não
sabe, ele foi integralmente "filtrado" pela
emissora, que considerou a versão original por
demais "inapropriada" em seu conteúdo
para ser levada ao ar da maneira como estava.
Ora, soa no
mínimo estranho esse tipo de prurido moral numa
emissora que usualmente transmite cenas de sexo na novela
das seis. Sexo neste horário pode, mas sadomasoquismo,
ainda que num enfoque bem-humorado, depois das onze
da noite, não pode? Pois é. Questão
de cinismo. Ou de medo. O que diriam as pessoas se vissem
um casal amarrando, humilhando ou chicoteando outro
na telinha? Inaceitável. Impossível. Imperdoável.
Sexo para crianças em plena tarde é ok;
mas cenas de SM para adultos, em qualquer horário,
nem pensar...
No fundo,
é meramente uma questão de público.
As pessoas já se habituaram a ver casais transando
na TV em qualquer horário. Mas nunca viram um
encontro SM sendo enfocado como algo corriqueiro - exatamente
o que "Os Normais" se propunha a apresentar.
Há
uma diferença fundamental entre chocar o público
e ofender o público. As "atrações"
do Ratinho, por exemplo, são precisamente as
mesmas de qualquer bom circo de horrores. Chocam o público.
Mas tratar de um "desvio sexual", como o sadomasoquismo,
de qualquer outra forma que não se enquadre dentro
deste mesmo circo de horrores (ou seja, visto como uma
doença, um problema ou uma prática erótica
para tarados) é ofensivo. E isso nenhuma emissora
quer - a meta é chegar o mais próximo
possível da ofensa, mas sem romper a tênue
barreira do chocante.
É complicado
tentar explicar isso, mas é assim que as coisas
funcionam. Mexer com as emoções das pessoas,
exibindo uma criança com um defeito genético
que a deforma e fazendo dela gato e sapato ao vivo,
é aceitável. Mas querer mexer com conceitos
(e pré-conceitos), especialmente os fundamentados
em religião ou moral (e qualquer coisa "estranha"
ligada ao sexo se enquadra invariavelmente numa dessas
duas categorias), não é.
E nem nunca
vai ser. É melhor ninguém ficar se iludindo
a este respeito. O sadomasoquismo, como nós o
conhemos e defendemos, jamais terá espaço
na mídia - pelo menos não na nossa geração,
e duvido até que na próxima. O homossexualismo,
que tem anos de avanço à nossa frente
neste sentido, até hoje sofre com o mesmo problema:
nós vemos estereótipos de homossexuais,
vemos personagens caricatos em programas de humor, vemos
personagens por demais falsos em novelas. Mas eu não
me lembro de ter visto, uma única vez sequer,
um enfoque que tratasse do tema de maneira simples,
natural, objetiva e sem qualquer tipo de preconceito.
O ranço permanece. Se a mídia rendeu-se
e decidiu falar sobre isso, é porque os homossexuais
a forçaram a admitir a sua existência (inclusive
dentro dela). Mas nem mesmo um grupo forte como o deles
foi capaz de determinar a forma pela qual a mídia
os enfoca. Esse é o verdadeiro desafio: não
o fato de se falar sobre um tema, mas a forma como se
fala sobre ele. Nesse contexto é que digo que
nossa geração não verá nenhum
progresso significativo. Infelizmente.
O que não
quer dizer, evidentemente, que devamos nos fazer de
mortos. Pelo contrário. O que estou dizendo é
que nosso papel nessa luta é mais modesto. Ou
mais importante - porque nós é que estamos
dando os primeiros passos para que o sadomasoquismo
tenha pelo menos a sua existência confirmada -
como fizeram os homossexuais décadas atrás.
Alguém tem de começar a tocar no assunto
de forma desencantada, incisiva e insistente. E esse
alguém somos nós. O que virá depois
será conseqüência e fruto do que estamos
fazendo hoje.
Muitos acham
que fazemos pouco. Não se iludam, porque estamos
lutando contra séculos e séculos de tradições,
conceitos morais e religiosos, crenças, restrições
e repressões profundas. Há que se ter
paciência. É trabalho de formiga - lento,
muito lento. Não nos cabe, porém, ter
pressa. O que nos cabe é sermos inexoráveis.
É não desanimarmos. É não
nos deixarmos cansar.
Um dia, com
certeza, os praticantes do sadomasoquismo terão
sua existência não apenas devidamente notificada,
como também serão respeitados pelas suas
preferências sexuais. Insisto: provavelmente não
viveremos o bastante para vermos isso acontecer. Mas
teremos sido nós que tornamos possível
a chegada desse "um dia".
|