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DROGAS E BDSM:
UNIÃO INCOMPATÍVEL

Edgeh

       Tenho acompanhado, não sem alguma apreensão, a discussão sobre o uso de drogas por praticantes do BDSM. Embora possa parecer um pouco repetitivo para quem andou acompanhando minhas posições a este respeito, manifestadas nos debates que andaram rolando no site da Associação BDSM Brasil, ainda assim retomo o tema neste espaço, até porque ele é um pouco mais amplo para uma exposição de idéias.
       Então vamos lá. O meu ponto principal é o seguinte: se nós, praticantes do BDSM, vivemos dizendo de boca cheia que defendemos relações baseadas em sanidade, consensualidade e segurança, então não temos nenhum milímetro de espaço para sequer considerarmos a possibilidade do uso de drogas dentro dessa relação - salvo se estamos o tempo todo fingindo uma convicção que não temos.
       Não me importa se você, individualmente, bebe ou usa drogas injetáveis ou quaisquer outras. É um problema exclusivamente seu, e nenhuma diferença faz se eu acho que você está destruindo a sua vida ou não. Mas me importa - e muito - se você faz isso e envolve uma segunda pessoa dentro do seu próprio vício.
       Toda e qualquer relação BDSM tem sua dose de risco. Há perigo num simples nó mal dado sobre um pulso - que dirá numa prática mais elaborada. A única coisa que garante a segurança - do dominador e do submisso - é a absoluta clareza de mente, o controle completo da situação e um estado de permanente alerta. Esses são os requisitos que nos permitirão ver se e quando o submisso está em seu limite de resistência. Se não pudermos ver isso, não tenha dúvida: ele vai ser ferido. Com sorte, levemente - mas possivelmente de uma maneira mais séria.
       E o que fazem as drogas? Pode dar uma sensação ótima, pode parecer que nos torna ainda mais alertas e sensíveis, pode ampliar as sensações. Mas faz exatamente o contrário: embota, obscurece, adormece aqueles itens citados acima. Ou alguém quer me convencer de que uma pessoa sob efeito de qualquer droga, mesmo do álcool consumido moderadamente, tem a mesma clareza de mente, o mesmo controle da situação e o mesmo estado de alerta de uma pessoa que não tenha consumido qualquer droga?
       Esta é, portanto, uma lógica implacável. Usar drogas antes ou durante uma sessão de BDSM não é apenas de uma irresponsabilidade enorme, mas também de uma incoerência absoluta. Se defendemos práticas seguras, como podemos admitir tamanho risco? Se acreditamos em sanidade, como podemos abrir mão dela em nome de um vício? E se falamos tanto em consensualidade, como podemos querer que outra pessoa seja obrigada a compartilhar desse vício - ainda que não a obriguemos a consumir drogas, ela terá que conviver com quem o faz, assumindo ela mesma um risco que não deveria existir, nem como submissa, nem como dominadora.
       Algo está errado nessa discussão. E é o simples fato de que esta discussão existe. Não deveria existir. Nenhum argumento será capaz de justificar o uso de drogas dentro do universo BDSM. Já houve quem dissesse que "se os dois parceiros usam drogas e se ambos concordam com isso, não há nenhum problema". Pelo contrário, aí é que o problema se agrava ainda mais. Se os dois estão com suas mentes embotadas, quem é que vai interromper a cena quando ela se tornar efetivamente perigosa? Pior ainda, quem é que vai se tocar que as coisas estão indo longe demais e que é preciso parar?
       E mais ainda, dois parceiros usando drogas não é nem ao menos consenso - é vício compartilhado. Talvez os vícios sejam consensuais no início (bebemos ou cheiramos ou injetamos porque queremos e gostamos), mas quando escapam do controle deixam de sê-lo (e passo a beber ou cheirar ou injetar porque precisamos)...
       As médicas e médicos que acompanham essa discussão já expuseram suas opiniões, recheadas de bom senso, e que ainda levantam outra questão importante: numa relação BDSM, a dor é componente fundamental. Temos todos os nossos limites para ela, além dos quais ela deixa de gerar prazer para gerar simplesmente um desconforto que acaba com a cena se forem desrespeitados - e mais do que isso, são esses limites que nos alertam para o fato de que, se apertamos um pouco mais aquela corda ou forçarmos um pouquinho mais o braço para trás, vamos acabar causando lesões que certamente não desejamos sofrer.
       Ora, se estivermos sob efeito de drogas, tais limites simplesmente tendem a não ser percebidos. E se não são percebidos, não têm como ser respeitados. E se não forem respeitados, inevitavelmente vão causar danos. É bem simples, na verdade: o corpo está gritando que está no seu limite, mas as drogas entopem nossos ouvidos. E quando voltarem a ouvir, infelizmente, será tarde demais...
       Em resumo: drogas e BDSM são incompatíveis. Sob qualquer ponto de vista. Sem chance de apelação em qualquer tribunal que tenha como base o bom senso. Querer defender o contrário é o mesmo que querer colocar as coisas que gostamos à frente das coisas que dizemos defender. E isso, meus amigos, chama-se hipocrisia...