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EMPRESTAR,
NÃO EMPRESTAR...

Parte 1

Edgeh

       Andei acompanhando as discussões em nossa lista de discussão a respeito do empréstimo de escravas(os), que, como sempre, trouxe à tona opiniões divergentes, todas exaustivamente defendidas, e todas propriamente. A conclusão da discussão não poderia ser outra - simplesmente não há uma conclusão possível, dado que se trata de uma escolha, de um posicionamento, que depende acima de tudo da capacidade de cada um em aceitar ou não uma idéia. E nesse campo, como costumo dizer, não há argumentações possíveis. A mais fria lógica perderá sempre para o calor das convicções... Portanto, nada de defender um ou outro lado, já que isso não nos levaria a parte alguma. Quem aceita emprestar seu escravo ou escrava o faz porque isso excita a ambos, e não vai deixar de fazê-lo porque eu ou você somos contra emprestar nosso escravo ou escrava. E vice-versa.
       Portanto, vou tentar me ater um pouco apenas sobre o que significa esse empréstimo. Em primeiro lugar, é preciso ressaltar os motivos. Emprestar uma escrava significa, para o dominador, exercer num nível muito alto o seu poder sobre ela, comprovando que é seu dono inconteste. Em que pesem as questões de posse e de ciúmes (com perdão já pedido a Lord Conrad), é preciso diferenciar as duas coisas. Posse é exatamente o que a palavra quer dizer: algo que nos pertence, e sobre a qual podemos dispor da forma que mais nos agrade, seja pendurando o "objeto" de ponta-cabeça sobre um viaduto (é brincadeira, por favor!!), seja ordenando que esse objeto sirva a outra pessoa da mesma forma e com o mesmo respeito com que nos serve.
       Já ciúme é coisa bem diferente, e soa muito melhor aos ouvidos de quem está emocionalmente envolvido com a escrava ou escravo. Nesse caso, obviamente, as coisas se complicam bastante. Especialmente se a idéia do empréstimo for excitante para ambos. Como fazer para conciliar este desejo de se mandar a escrava ou escravo para outra pessoa e o sentimento de ciúme, de medo de perder o objeto, e até de raiva por se permitir fazer tal coisa?
       Sinceramente, não tenho resposta para isso. O que posso dizer é o seguinte: se a idéia for de fato excitante para ambos, mais cedo ou mais tarde o empréstimo acontecerá, apesar do ciúme. E quando acontecer, vai inevitavelmente gerar uma crise no dominador, no submisso ou em ambos. Virão aqueles questionamentos posteriores (que deveriam sempre ser anteriores, mas raramente o são) típicos de quem está apaixonado, mais do que simplesmente atraído por outra pessoa. Virão as dúvidas. Virão as discussões. Vocês sabem, se já sentiram ciúmes de alguém, todas essas coisas que virão, e portanto não vou ficar aqui entrando em detalhes. E sabem também o quão irracional esse sentimento pode ser - irracional a ponto de poder, em seu extremo, acabar rompendo o relacionamento. E este é um dos dois perigos a serem considerados num empréstimo.
       Se o casal em questão não for esclarecido, unido, apaixonado e tiver um relacionamento realmente sólido, é melhor tentar não partir para o empréstimo, a despeito da vontade. Ou, pelo menos, só fazer isso quando houverem condições emocionais que permitam fazê-lo. E por condições emocionais que o permitam fazê-lo quero dizer: nenhum "acho" no horizonte.
       Ou seja, se você "acha que vai ser legal", se "acha que vai conseguir controlar seu ciúme", se "acha que a relação é forte", se "acha" qualquer outra coisa, então não faça nada, porque depois vai descobrir que achar, definitivamente, não é o bastante.
       Pense muito bem antes de fazer um empréstimo. Racionalize as coisas. Deixe a emoção um pouco de lado e verifique se, primeiro, é mesmo importante para vocês experimentarem esta prática e, segundo, se ao fazê-lo seu relacionamento não vai enfrentar nenhum risco. Coloquem as coisas em outro nível: se vocês fossem casados, permitiriam que sua mulher ou seu marido transasse com outra pessoa? Mais ainda, vocês ordenariam que ela ou ele fizesse isso? (Sim, eu sei que numa relação BDSM não é obrigatório que haja uma relação sexual, mas estou propondo a pergunta para ir logo ao ponto mais complicado da questão).
       Se a resposta for "sim", ainda não é o suficiente. É preciso que seja um "sim" sincero. Não se trata aqui de parecer moderno aos olhos dos outros - trata-se de ser suficientemente adulto diante de seus próprios olhos. Vocês não vão estar tentando provar nada para ninguém, mas apenas satisfazer um desejo (de ambos, note-se bem). Contudo, para fazê-lo, vocês precisam estar absolutamente certos de que têm estrutura para tanto. Portanto, muita conversa e - chave de tudo - muita sinceridade. Em caso de dúvidas, não façam o jogo. Esperem um pouco mais. Conversem um pouco mais. Deixem que a relação evolua, se for o caso, até o ponto em que o empréstimo nada mais significará do que uma mera modalidade do jogo, como o bondage ou uma sessão de spanking.
       Ou não. Se a relação de vocês é sólida, boa, construtiva, enriquecedora e se, mesmo assim, vocês simplesmente não gostam da idéia do empréstimo, então, que diabos, não partam para o empréstimo só porque isso mostraria o quão sólida, boa, construtiva e enriquecedora é a relação de vocês. Isso diz respeito apenas a vocês. E ponto. Nada a provar a ninguém.


(continua)