Andei
acompanhando as discussões em nossa lista de
discussão a respeito do empréstimo de
escravas(os), que, como sempre, trouxe à tona
opiniões divergentes, todas exaustivamente defendidas,
e todas propriamente. A conclusão da discussão
não poderia ser outra - simplesmente não
há uma conclusão possível, dado
que se trata de uma escolha, de um posicionamento, que
depende acima de tudo da capacidade de cada um em aceitar
ou não uma idéia. E nesse campo, como
costumo dizer, não há argumentações
possíveis. A mais fria lógica perderá
sempre para o calor das convicções...
Portanto, nada de defender um ou outro lado, já
que isso não nos levaria a parte alguma. Quem
aceita emprestar seu escravo ou escrava o faz porque
isso excita a ambos, e não vai deixar de fazê-lo
porque eu ou você somos contra emprestar nosso
escravo ou escrava. E vice-versa.
Portanto,
vou tentar me ater um pouco apenas sobre o que significa
esse empréstimo. Em primeiro lugar, é
preciso ressaltar os motivos. Emprestar uma escrava
significa, para o dominador, exercer num nível
muito alto o seu poder sobre ela, comprovando que é
seu dono inconteste. Em que pesem as questões
de posse e de ciúmes (com perdão já
pedido a Lord Conrad), é preciso diferenciar
as duas coisas. Posse é exatamente o que a palavra
quer dizer: algo que nos pertence, e sobre a qual podemos
dispor da forma que mais nos agrade, seja pendurando
o "objeto" de ponta-cabeça sobre um
viaduto (é brincadeira, por favor!!), seja ordenando
que esse objeto sirva a outra pessoa da mesma forma
e com o mesmo respeito com que nos serve.
Já
ciúme é coisa bem diferente, e soa muito
melhor aos ouvidos de quem está emocionalmente
envolvido com a escrava ou escravo. Nesse caso, obviamente,
as coisas se complicam bastante. Especialmente se a
idéia do empréstimo for excitante para
ambos. Como fazer para conciliar este desejo de se mandar
a escrava ou escravo para outra pessoa e o sentimento
de ciúme, de medo de perder o objeto, e até
de raiva por se permitir fazer tal coisa?
Sinceramente,
não tenho resposta para isso. O que posso dizer
é o seguinte: se a idéia for de fato excitante
para ambos, mais cedo ou mais tarde o empréstimo
acontecerá, apesar do ciúme. E quando
acontecer, vai inevitavelmente gerar uma crise no dominador,
no submisso ou em ambos. Virão aqueles questionamentos
posteriores (que deveriam sempre ser anteriores, mas
raramente o são) típicos de quem está
apaixonado, mais do que simplesmente atraído
por outra pessoa. Virão as dúvidas. Virão
as discussões. Vocês sabem, se já
sentiram ciúmes de alguém, todas essas
coisas que virão, e portanto não vou ficar
aqui entrando em detalhes. E sabem também o quão
irracional esse sentimento pode ser - irracional a ponto
de poder, em seu extremo, acabar rompendo o relacionamento.
E este é um dos dois perigos a serem considerados
num empréstimo.
Se o casal
em questão não for esclarecido, unido,
apaixonado e tiver um relacionamento realmente sólido,
é melhor tentar não partir para o empréstimo,
a despeito da vontade. Ou, pelo menos, só fazer
isso quando houverem condições emocionais
que permitam fazê-lo. E por condições
emocionais que o permitam fazê-lo quero dizer:
nenhum "acho" no horizonte.
Ou seja, se
você "acha que vai ser legal", se "acha
que vai conseguir controlar seu ciúme",
se "acha que a relação é forte",
se "acha" qualquer outra coisa, então
não faça nada, porque depois vai descobrir
que achar, definitivamente, não é o bastante.
Pense muito
bem antes de fazer um empréstimo. Racionalize
as coisas. Deixe a emoção um pouco de
lado e verifique se, primeiro, é mesmo importante
para vocês experimentarem esta prática
e, segundo, se ao fazê-lo seu relacionamento não
vai enfrentar nenhum risco. Coloquem as coisas em outro
nível: se vocês fossem casados, permitiriam
que sua mulher ou seu marido transasse com outra pessoa?
Mais ainda, vocês ordenariam que ela ou ele fizesse
isso? (Sim, eu sei que numa relação BDSM
não é obrigatório que haja uma
relação sexual, mas estou propondo a pergunta
para ir logo ao ponto mais complicado da questão).
Se a resposta
for "sim", ainda não é o suficiente.
É preciso que seja um "sim" sincero.
Não se trata aqui de parecer moderno aos olhos
dos outros - trata-se de ser suficientemente adulto
diante de seus próprios olhos. Vocês não
vão estar tentando provar nada para ninguém,
mas apenas satisfazer um desejo (de ambos, note-se bem).
Contudo, para fazê-lo, vocês precisam estar
absolutamente certos de que têm estrutura para
tanto. Portanto, muita conversa e - chave de tudo -
muita sinceridade. Em caso de dúvidas, não
façam o jogo. Esperem um pouco mais. Conversem
um pouco mais. Deixem que a relação evolua,
se for o caso, até o ponto em que o empréstimo
nada mais significará do que uma mera modalidade
do jogo, como o bondage ou uma sessão de spanking.
Ou não.
Se a relação de vocês é sólida,
boa, construtiva, enriquecedora e se, mesmo assim, vocês
simplesmente não gostam da idéia do empréstimo,
então, que diabos, não partam para o empréstimo
só porque isso mostraria o quão sólida,
boa, construtiva e enriquecedora é a relação
de vocês. Isso diz respeito apenas a vocês.
E ponto. Nada a provar a ninguém.
(continua)