Volta e meia, a discussão sobre "fidelidade"
vem à tona na nossa lista de discussão,
tanto a que envolve um dominador e uma submissa quanto
o que envolve a fidelidade conjugal propriamente dita
(embora esta apareça com menos freqüência).
E o que vejo quando se aborda este assunto é
o mesmo problema que geralmente aparece ao se discutir
coisas menos concretas do que a pedra em que acabamos
de bater o dedão: a síndrome do "preto
e branco".
Trata-se da tendência que todos nós
temos de querer acreditar que as coisas são
sempre "pretas" ou "brancas",
ou seja, "certas" e "erradas",
"verdades" ou "metiras", "divino"
ou "diabólico", deixando de lado
a consciência que temos (e temos mesmo) de que,
entre um e outro extremo de qualquer idéia
ou conceito, existe todo um jogo de luzes e sombras,
de cores de matizes diversas e de considerações
intermediárias que precisam (ou precisariam)
ser levados em conta.
Alguns não fazem isso por radicalismo: é
preto ou é branco e fim. Outros não
o fazem por pura comodidade - isto está "mais
para preto", e portanto é preto, ou então
está "mais para branco", e portanto
é branco. E outros enfim não o fazem
por simples incapacidade de imaginar que existe algo
entre dois extremos.
Os motivos de cada um não importam muito,
na realidade. O fato de preferirmos não considerar
uma determinada possibilidade não significa
que tal possibilidade não existe. Portanto,
este texto é simplesmente um exercício
dessa possibilidade de tentar enxergar ao menos um
dos muitos matizes que compõem o tema proposto.
"Fidelidade" pode ser pelo menos de dois
tipos: aquela que garante o amor entre duas pessoas
e que representa o compromisso espiritual entre elas,
e aquela que garante um compromisso eminentemente
sexual entre elas.
Um por vez: o primeiro tipo exige um compromisso
muito mais complicado do que o segundo. Estamos falando
em ser fiéis a uma pessoa não na cama,
mas na vida; em estar ao lado dela de maneira permanente,
apoiando-a sempre que é preciso (e até
mesmo quando nem é preciso); de doarmos a ela
nosso tempo, nossos pensamentos, nossas emoções;
de compartilhar tudo, bons momentos e maus momentos,
na proporção em que a vida nos oferecer
um ou outro; enfim, de sermos amigos, cúmplices
e pontos de apoio um do outro. Isso pode não
ser amor em toda sua descrição, mas
certamente são coisas que forçosamante
fazem parte dele.
O segundo tipo é, embora para muita gente
pareça que não, muitíssimo mais
simples. A fidelidade, aqui, significa a mera garantia
de que, sexualmente falando, uma pessoa não
desfrutará da companhia de outra que não
aquela com quem se comprometeu.
Ora, fica bastante evidente que o primeiro tipo de
fidelidade é muito mais profundo e complexo
do que o segundo.
Prova-o o fato de que, se a fidelidade espiritual
abre espaço para que a fidelidade sexual surja
naturalmente e sem esforço, o inverso não
é verdadeiro.
E prova-o também uma pergunta bastante simples:
você preferiria viver sua vida ao lado de alguém
que lhe fosse espiritualmente fiel (considerando a
descrição ali de cima), ainda que sexualmente
inconstante, ou de alguém que lhe fosse sexualmente
fiel, mas espiritualmente inconstante?
Pois é esta a questão fundamental,
e é por causa dela que muitos casais se distanciam
e se separam: porque colocam a fidelidade sexual acima
da espiritual, como se aquela fosse mais importante
do que esta - quando o oposto é que deveria
ser verdadeiro.
A infidelidade sexual deveria ter menor importância
para nós. Não tem por força muito
mais de imposições sociais ou religiosas
do que qualquer outra coisa. Ser chamado de "corno"
ou ouvir dizer que o parceiro é um "galinha"
fere as pessoas muito mais do que deveria. Que importa
se a pessoa que se ama se deita com outras pessoas?
O que ela está fazendo de tão errado
assim, se depois de consumado o ato voltará
a assumir a sua fidelidade espiritual conosco? O que
é o "outro" vai ter dela, senão
algumas horas de desfute do seu corpo? E quem foi
que disse que o corpo de uma pessoa passa a ser propriedade
de outra pelo simples fato de que elas vivem juntas?
Particularmente, eu sempre lamentei e sempre lamentarei
a completa falta de experiência das pessoas
no terreno do sexo. Poucas têm a coragem de
experimentar o sexo com vários parceiros, de
aprender com eles, de descobrir em diferentes mãos
o que de fato lhe dá prazer. Pior ainda, por
causa disso, muitas pessoas simplesmente sabem muito
pouco, ou até não sabem nada, sobre
o seu próprio prazer.
Para os homens esta equação é
mais simples sempre haverá prostitutas
para que se experimentem "novas emoções"
e com elas se delineiem novas formas de obter prazer.
Para a mulher, no entanto, nem esta alternativa existe.
E sem
alternativas, resta a ela apenas se deitar sempre
com o mesmo homem, fazer as mesmas coisas, fingir
que gosta, virar de lado e dormir. Porque desde que
se descobre mulher, ela também se descobre
amarrada a toda uma série de convenções
familiares, sociais, religiosas e outras que tais,
que a impedem de ser uma criatura capaz de desenvolver
sua sexualidade no sentido em que ela desejaria. Ao
invés disso, ela já tem seu destino
traçado: encontrar um parceiro e sempre ser
"fiel" a ele.
Claro, muitas mulheres têm experiências
variadas durante a vida. O problema é que elas
ou se encerram quando se encontra o parceiro com o
qual elas decidem ser espiritualmente fiéis,
ou elas são simplesmente postas de lado ao
se encontrar este parceiro ("meu deus, adoro
sexo anal, mas se disser isso para ele, o que é
que ele vai pensar de mim?" e coisas do gênero).
Para os homens a coisa nem é tão diferente
assim.
Embora possam recorrer às prostitutas para
realizar suas fantasias mais "sujas", eles
preferem manter a companheira "intacta"
nesses jogos - exatamente para que não se vejam
tentados a classificá-la como uma prostituta.
A soma disso? Um sexo até ardente no começo
da relação, morno pelo meio e absolutamente
gelado no final.
Fosse outra a nossa mentalidade, e o sexo seria uma
experiência tão natural e tão
normal quanto um treinamento para alguma prática
esportiva. Pudéssemos nós manter nossas
experiências, nosso envolvimento com outros
parceiros mesmo depois de termos encontrado nossas
caras metades (e pudesse a nossa cara metade fazer
o mesmo), sempre haveria novidades a serem exploradas,
técnicas que não conhecíamos
a serem compartilhadas, idéias que nunca teríamos
a serem postas em prática com a pessoa que
de fato amamos e isso teria um efeito avassalador
sobre a "mesmice" da cama, inevitável
depois de alguns anos de convivência.
Infelizmente, estamos muitíssimo longe disso.
Ainda preferimos jogar fora todo um relacionamento
emocional profundo, perfeito, porque num determinado
momento nosso parceiro ou parceira teve uma experiência
extra-conjugal. Deixamos de lado todos os anos de
convivência, de apoiomútuo, de felicidade
por conta disso. Valorizamos mais o sexo do que o
coração. Somos incapazes de abrir nossas
mentes e perceber que existem sempre coisas novas
a serem exploradas e compartilhadas
desde que nos disponhamos a ver o sexo nãomais
como um tabu, uma coisa proibida e imoral, mas como
uma atividade assumidamente lúdica, que complementa
uma relação e não que
seja a base dela.
Somos incapazes de admitir que não somos tão
perfeitos que podemos, por nós mesmos, dar
todo o prazer domundo ao nosso companheiro ou companheira.
Mas agimos como se pudéssemos.
E para concluir esta (nem tão pequena) pensata,
deixo um pedido a vocês: tentem ver além
do corpo do seu parceiro ou parceira. Tente entender
que liberdade sexual está longe de ser sacanagem
ou libidinagem ou outras classificações
do gênero. Tente aprender a desfrutar dela,
como sempre em
cumplicidade com sua cara metade. É extremamente
difícil fazer isso - mas o que se ganha em
troca é conhecimento, e conhecimento para o
prazer de vocês dois, se devidamente compartilhado
depois. Deixe que o corpo vague à vontade;
lute pela fidelidade do coração, porque
esta é a que de fato importa.