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LIMITES

Edgeh


Para quem ainda não sabe, vamos começar do princípio: o são, o seguro e o consensual - a base de toda e qualquer relação bdsm como a entendemos. E que se resume no seguinte: você tem o direito de se sentir seguro - ou seja, de não participar de qualquer atividade que possa machucá-lo emocional, física ou socialmente. Você tem o direito de dizer "não" a qualquer prática que considere, por qualquer motivo, inapropriada a você. E se você cruzar com alguém que tentar lhe convencer que você não tem esses direitos, fuja.

Todo ser humano tem seus limites. É um fato da vida que não tem como ser negado. Há algumas coisas que nós não nos sentimos capazes de suportar pelos mais variados motivos, porque sabemos que elas irão nos ferir de alguma forma (e não estamos falando apenas em ferimentos físicos, é bom lembrar). E um verdadeiro dominador sabe que querer impingir essas coisas, sob qualquer pretexto, é errado não somente porque elas irão nos ferir (e ninguém entra numa relação bdsm, assim como em qualquer outra relação, para ser ferido), mas também porque elas irão ferir - e nesse caso, de morte - a própria relação.

Por isso é importante saber dos próprios limites. Ter uma lista de "nem ao menos pense em fazer isso", para ser apresentada (e não discutida, notem o termo) a qualquer potencial dominador. Dessa forma, não ficam dúvidas sobre eles - e também fica muito claro que ninguém, mas ninguém mesmo, tem o direito de nos fazer ultrapassá-los.

Parece tudo muito simples, mas como nada em bdsm é simples....
Quem já teve a oportunidade de viver um relacionamento com um sádico (ou sádica) sabe perfeitamente bem que o maior prazer deles é justamente nos levar até o último milímetro de nossa resistência. De nos "forçar" ao máximo. E de nos colocar bem no finalzinho dos nossos limites.
Eles fazem isso por sua natureza: é algo próprio dos sádicos: eles vivem para nos fazer cruzar as linhas do "até onde posso ir" que nós mesmos traçamos.

E agora? Como conciliar isso?

O fato é que os dominadores, especialmente os sádicos, querem sacrifícios. Querem uma "prova" da devoção de seus escravos, e muitos deles só se satisfazem quando os fazem chegar às lágrimas. Por isso, para quem tem ilusões e acha que um sádico jamais lhe pedirá para que vivencie uma situação que cause asco ou medo, é melhor pensar duas vezes se é realmente um sádico que se está procurando.

Muitos submissos se sentem muito atraídos pela idéia de serem submetidos a um sádico, mas muito poucos param para pensar sobre as conseqüências desta relação - coisa que só vão notar (e lamentar) quando notarem que, toda vez que o sádico lhes ordena que façam algo que pareça asqueroso ou que provoque medo, dizem a safeword.

E por favor, ninguém está dizendo aqui que você não deve usá-la. Pelo contrário, é um direito seu (e até um dever ditado pelo bom senso). Mas se você se pegar mais vezes dizendo a safeword do que obedecendo as ordens, então realmente há algo errado - e esta relação definitivamente tem poucas chances de evoluir.

O sádico, porém, não lhe pedirá para que você ultrapasse os seus limites. Ele se comprazerá em levá-lo até eles, "brincando" com seus maiores temores, deixando que eles quase se concretizem - mas sabendo que não deve permitir que isso aconteça. Suponha, por exemplo, que você tenha um pavor terrível de queimaduras. Um sádico certamente tirará proveito disso acendendo um cigarro e passando-o beeeeem perto da sua pele... mas sem queimar.
É exatamente isso o que queremos dizer aqui: o prazer do sádico vem justamente desse "quase", do desespero que ele causa, do sofrimento advindo da mera possibilidade de obrigar o submisso a fazer ou sentir algo que ele não se julga capaz de suportar.

Por isso é tão importante a honestidade - com você mesmo e com o dominador. É preciso ser muito claro e específico sobre o que se quer, o que se permite fazer, o que lhe causa um medo controlado e o que lhe causa de fato pânico (nesse caso, algo a ser evitado por escapar do controle). Não comece uma relação fazendo a bobagem de prometer coisas que você sabe que não poderá cumprir. E mais ainda, fique atento às armadilhas que o seu próprio desejo vive armando - armadilhas que fazem com que você se imagine suportando dores e tormentos extremos, mas que você simplesmente não poderá agüentar "ao vivo". E o pior de tudo é que, quando isso acontece, o submisso geralmente tende a agüentar os excessos de seu limite calado, já sem sentir nenhum prazer, mas apenas para agradar e não desapontar o dominador, imaginando que essa postura poderá garantir a manutenção da relação.

Ledo engano - o que acontece é justamente o contrário. Se o submisso não se machucar fisicamente nessa situação, certamente a relação será reduzida a pó, porque a parte emocional e psicológica estarão irremediavelmente comprometidas. É a grande bobagem de querer enganar a si mesmo, tentando se convencer que um "verdadeiro" submisso agüentaria essa ou aquela tortura sem problemas. Para começar, não existem "verdadeiros" submissos. Existem apenas diferentes tipos. Um pode ter mais experiência do que outro, e agüentar mais dor ou mais humilhação do que outro. Mas isso não diminui em nada o espírito de nenhum deles. E bdsm, vejam vocês, tem de espírito tanto quanto de suor e marcas - embora poucos dominadores tenham a sensibilidade para admitir isso.

De qualquer forma, o ponto é o seguinte: é preciso pensar cuidadosa e detalhadamente o que significa para você ser um submisso, e qual seria sua reação se lhe for ordenado fazer alguma coisa que lhe pareça asquerosa ou assustadora. É preciso estar preparado - e parte desta preparação é investir um bom período de tempo conhecendo melhor os dominadores, descobrindo o que eles esperam de você - e o que você espera deles.
E trate de ir com calma. Seja honesto consigo mesmo e com seus medos. Se você optar por uma relação com um sádico, faça-o sabendo que ele vai sempre levar você aos seus limites, e vai se divertir vendo o seu desespero quando chegar a este ponto. Isso faz parte do jogo dele - mas você precisa definir se também faz parte do seu, especialmente se o que você está buscando é uma relação mais duradoura. Um sádico sempre esperará que você saiba que ele gosta de levá-lo ao limite, de "brincar" neste limite. E, principalmente, ele esperará que você esteja preparado para isso.