Retomando
a linha da matéria publicada na coluna de novembro -
O papel da simbologia e dos arquétipos da "Deusa"
no imaginário e no universo da Dominação Feminina e
da submissão masculina - e recolhendo dados
e contribuições de pessoas que, gentilmente, comentaram
o tema, farei neste mês uma passagem entre as projeções
do mito e o arquétipo da
Grande Mãe, nutrindo
um novo encontro com o
Matriarcado.
Como já foi dito, os mitos não somente povoam
nosso imaginário, como estão presentes nas ações do
nosso cotidiano, tanto nas práticas sociais, místicas
e religiosas, como nas superstições e no âmbito erótico-sexual.
Formulações figuradas e explicações simbólicas estão
presentes em monumentos, estátuas, imagens esculpidas
ou pintadas, etc, sendo objetos de visitas e peregrinações.
Dessa forma, o mito, o símbolo, como que tomam força
de dramatização na sociedade, exteriorizando e materializando
necessidades intrínsecas do ser humano, com capacidade
de expressar a verdade de certas percepções(1) (
vale
aqui ressaltar que não se trata do princípio da "verdade
científica", como já assinalei no artigo anterior).
Numa tradução realizada por
bee_a de
um artigo de
Molly Devon, publicado na lista
de discussão do Desejo Secreto em 31/10/2001 (imperdível),
pincei algumas frases: "BDSM é mágico. Pegamos o invisível
e fazemos aparecer... (...) No papel que representamos
existe algo real e significativo para nós... Uma antiga
e oprimida fantasia é libertada... Mas... realidade
é como gravidade, incomoda, mas é difícil fugir dela".(2)
Ressalto tais trechos para, novamente, mostrar
que os arquétipos do inconsciente estão presentes em
nossas fantasias e em nossas práticas. Daí porque as
fantasias e práticas no BDSM não se separam dessas influências
inerentes ao ser humano. Talvez seja por isso que sessões
BDSM esporádicas, com roteiro pré-definido, sejam um
tanto quanto insatisfatórias, segundo o vasto testemunho
de quem já passou por tais processos. Rituais miméticos
são interrompidos de modo brusco, escancarados pela
realidade factual das limitações desse tipo de relação.
Quem atua na Dominação Feminina como opção erótica
BDSM não pode estar desvinculada(o) do elemento da Deusa,
da tradição da Grande Mãe e, portanto, do Matriarcado.

Esses
elementos são parte do cenário interno da Dominadora
e de seu escravo ou submisso. O papel da Deusa e da
mitologia, especialmente a Nórdica, nesse contexto já
foi apontado no texto de
novembro.
A Grande Mãe representa a criação e a unidade
de vida; portanto, existe em todo o Universo e em seus
seres, e está representada nas diferentes etapas do
ciclo vital, do nascimento à morte, e no renascimento
especialmente no que se refere à energia da vida (4)
(
não no sentido de re-encarnação).
Essa referência ao Matriarcado, ou "à volta
ao Matriarcado" não significa o retorno aos ancestrais
cultos à Deusa ou a sistemas políticos que teriam existido
no passado. Entendo o Matriarcado como a formulação
dos valores femininos numa nova estética e numa nova
ética, onde a solidariedade, a compreensão, a generosidade,
atributos inerentes à Grande Mãe, substituiriam o opressivo
e competitivo jogo de poder da sociedade patriarcal.
Isso significa algo que insisto em meus textos: mudança
de paradigmas sócio-culturais, onde o machismo dê lugar
não a um feminismo que apenas "troca o sinal", mas a
uma sociedade onde o Feminino, os valores da
Femina
Suprema, prevaleçam (3).
E a Dominação Feminina enquanto prática erótico-sexual?
Entendo que toda essa discussão permeia as relações
de Dominação Feminina. Por mais sádica e ditatorial
que seja uma Dominadora e, no papel complementar, por
mais intenso que seja o desejo (consciente ou inconsciente)
de castração do submisso, os mitos, os arquétipos estão
presentes e trazem no bojo a perspectiva da mudança
de paradigmas sócio-culturais.

Algumas pessoas que comentaram meu artigo anterior
também fazem referência à ligação entre arquétipo e
Dominação Feminina. Cito dois comentários vindos de
duas pessoas atuantes nas listas de discussão e que
têm um lado submisso bem desenvolvido:
1.
dumuz, entre outros aspectos, comenta:
"...
o arquétipo da submissão do masculino ao feminino.
É a femdom por excelência: domínio, ao contrário do
que se pensa, não é forçar o outro a ser inferior, é
amá-lo a ponto de subjugá-lo em seus aspectos neuróticos
(no homem, o excesso de testosterona que lhe dá uma
falsa noção de poder...). Dói também na Fêmea
castrar seu amante, para, como Isis, sair em busca de
seu falo, para ainda ser fértil. Submissão é sacrifício,
voltamos ao ritual....".
2. o depoimento pessoal de
vagalume é
emblemático: "...
e me identifico bastante com a teoria
de Jung...inconsciente coletivo e seus arquétipos e
suas relações com os contos de fadas e mitologias...
acredito (que exista) uma relação muito grande entre
meu desejo BDSM e minhas fantasias de infância quando
lia a respeito de reis, rainhas...e me deslumbrava!"
O assunto é, porém, bastante complexo. A ligação
entre Matriarcado e Dominação Feminina como prática
BDSM não é tão direta como se pode, de início, imaginar,
mas ambos são bastante complementares. Para facilitar
a compreensão teremos que desenvolver alguns conceitos.

O
importante agora é que a ligação entre mitos, arquétipos
e a Dominação Feminina parece estar mais clara, espero.
Esse é o ponto de partida para a compreensão do que
vem a seguir. Mas essa história fica para o próximo
artigo, em janeiro de 2002.
Peço aos que quiserem dialogar, perguntar ou
mesmo contribuir com o tema que me escrevam no endereço
de e-mail abaixo apontado. Comentários, dúvidas, questionamentos
são sempre bem vindos e ajudam em muito na elaboração
dos textos desta coluna.
E aproveito a oportunidade para desejar um ótimo
final de ano e que em 2002 os desejos de todos possam
ser realizados em toda sua plenitude.
Até o ano que vem!
Referências:
(1): "Dicionário de Símbolos" de Jean Chevalier e Alain
Gheerbrant , Ed. José Olympio, 3ª ed., 1990.
(2): Tradução de bee_a, publicada na lista de discussão
do Desejo Secreto em 31/11/2001, de "Molly Devon 1997,
published in March 1997 in Eden's Gate Magazine - Roleplay,
Eros cloaked in Fantasy".
http://groups.yahoo.com/group/DesejoSecreto/message/2539
(3): "Todo Poder às Mulheres - Esperança de Equilíbrio
para o mundo" de Marco Aurélio Dias da Silva, (Ed. Best-Seller)
que conceitua muito bem tais valores femininos, contrapondo-os
com os ditos "valores masculinos". [
Vale a pena ser
lido, pois possibilita o entendimento maior dos marcos
conceituais que tentam quebrar as "verdades" estabelecidas
pelo velho paradigma "machista-patriarcal"].
Infelizmente
seu autor faleceu, precocemente, no 2º semestre deste
ano.
(4): "A tradição da Grande Mãe" , Mirella Faur em
http://www.wmulher.com.br/colabora/m_faur/tradicao_grandemae.htm.