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UM ESTILO DE VIDA
Desejos e Paixões na Arte da
Dominação Feminina

Senhora Helga Vany Freyja



PARALELOS ENTRE A DOMINAÇÃO FEMININA
E O MATRIARCADO DE PINDORAMA


Que a esperança renascida neste novo ano impulsione e alimente a vida, o reencontro, a paz e a transformação presentes em nosso cotidiano. E que o desejo do impossível dentro do possível faça de nossos sonhos a realidade. São meus votos a todos os que acompanham esta coluna e ao pessoal do Desejo Secreto.



       Na coluna anterior - dezembro/2001 - vimos a relação possível entre mitos, arquétipos, Deusas, a Grande Mãe e a Dominação Feminina. E nesta relação da Jornada do Feminino, para que se tenha uma melhor compreensão do papel da mulher em nossa sociedade e em todos os tempos torna-se imprescindível desenvolver alguns conceitos e tópicos sobre o Matriarcado.
        Apesar dos muitos séculos de hegemonia do patriarcado, cujos aspectos culturais procuraram no passado (e mesmo até hoje em muitas sociedades contemporâneas) diminuir a importância do papel da Mulher, não se pode negar que o Matriarcado, clara ou veladamente esteve sempre presente ao longo do desenvolvimento da humanidade. Segundo alguns estudiosos foi bastante evidente sua existência em algumas sociedades primitivas, mas o mais das vezes, transformações e adaptações aconteceram segundo as circunstâncias impositivas da vida e da história.
        Como é um tema bastante denso, vou desenvolvê-lo em alguns capítulos, procurando deter-me em uma determinada época ou focalizar uma determinada visão. Os mais variados aspectos tais como o místico-religioso, o cultural, o social, o econômico, o político, o filosófico do Matriarcado podem servir de embasamento para o surgimento de determinados fetiches e para os devotos de ambos os sexos da Dominação Feminina. (Alguns desses aspectos estão desenvolvidos na seção "Matriarcado" de minha home-page - http://www.helgavany.org/MATRIARCADO/matriquadrogeral.htm).
        Pretendia, de início, abordar de um modo cronológico os temas relacionados ao Matriarcado. Entretanto, resolvi iniciar por uma abordagem bem brasileira, revolucionária ainda hoje, apesar de 80 anos terem decorrido desde seu lançamento. Trata-se do Matriarcado de Pindorama que, ousado e libertário, marcou a história e as artes brasileiras através de uma utopia centrada numa sociedade matriarcal, anárquica e sem repressões. "A realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama". A postura antropofágica como alternativa entre o nacionalismo conservador e o "imperialismo" imposto de fora, cantada no Manifesto e na Revolução Caraíba de Oswald de Andrade, no Movimento Modernista de 1922. Jornalista, ensaísta, poeta, romancista, teatrólogo, foi a figura mais emblemática e polêmica daquele grande movimento renovador do início do século passado.
        Não cabem aqui digressões ou análises sobre o movimento modernista, nem sobre seu mais radical representante. O que me fez imaginar, relendo algumas das colocações de Oswald, é como ele reagiria diante de nossos fetiches, muito mais explícitos neste início do século XXI. Como ele veria o BDSM, a Dominação Feminina e até (suprema glória!!) a Supremacia Feminina? Certamente, seu caráter libertário e contestador das coisas "corretas e arraigadas", das mesmices ditadas pelos costumes "imutáveis", faria com que ele estivesse conosco, desenvolvendo e batalhando pela concretização de nossos "Desejos Secretos".
        A utopia antropofágica de Oswald de Andrade tem como núcleo temático a transformação do patriarcado em matriarcado. É claro que seu Matriarcado de Pindorama foi "construído" como uma maneira de abalar as estruturas conservadoras e fazer uma crítica ferina aos conceitos patriarcais da sociedade pós-colonial na formação individual e coletiva. Oswald se detém mais na crítica aos valores do poder patriarcal representado pela sociedade burguesa e capitalista, centrada no direito de propriedade do dominador, na hierarquia familiar (incluído aí o direito de propriedade sobre a mulher e os descendentes), na usura, nos vícios do homem "civilizado", na especulação lógica e metafísica, na repressão dos instintos e da liberdade sexual. O autor modernista chamou isso tudo de "negatividade histórica". Segundo Mário Chamie, na ótica de Oswald, "o patriarcado é um tabu encravado no curso da História".
        O matriarcado, por outro lado, significaria a implantação de uma nova idade de ouro, cujos valores promoveriam a superação da usura e do negócio, o fim dos poderes centralizadores e autoritários "numa sociedade comunitária aberta aos prazeres vitais, ditados pela libido individual sem censura". Numa linguagem psicanalítica, o "tabu patriarcal" seria substituído pelo "totem matriarcal" de uma sociedade feliz. Essa transformação utópica seria possível com o surgimento de um novo ser humano, não mais sujeito às degradações impostas pela civilização ("Revolução Caraíba" ).
        A utopia antropofágica torna profético o renascimento do matriarcado capaz de provocar e transformar verdades estabelecidas, produzindo o que costumo chamar em meus textos de "quebras de paradigmas".
        Dos grandes nomes do movimento modernista de 1922, Oswald foi o que mais provocou polêmica, e mesmo contestação aberta. Afastou-se de Mario de Andrade ao longo de suas vidas por divergências intelectuais. Mas muitos artistas, políticos, pensadores, intelectuais da época e depois dela, viram nos pensamentos do autor algo a ser seguido. Tarsila do Amaral, Patrícia Galvão (Pagu), Anita Malfattti, Menotti de Piccia, Villalobos, Di Cavalcanti, dentre outros, foram contemporâneos de Oswald. E todos mostraram ousadia nas suas obras, e formaram novas raízes culturais que foram alicerce de movimentos sociais, culturais, políticos do século XX. E também, certamente, muito dos pensamentos "modernistas" serão trabalhados e absorvidos neste século XXI. E nesses movimentos, a mulher passa a ser agente transformador e libertário.
        É lógico que tudo isso faz parte de um processo - individual e coletivo - e que não se restringe ao nosso país. Mas quero ressaltar e deixar à reflexão de que o jogo erótico da Dominação Feminina, além dos arquétipos já discutidos nos artigos anteriores desta coluna, vincula-se também aos conceitos matriarcais, onde o papel do feminino, tanto nas mulheres como nos homens, resgata o processo histórico representado pelos pensamentos mais explícitos de Oswald quanto à revisão das relações pessoais e de produção, ao desenvolvimento da sexualidade e a uma nova forma de gerenciar o mundo.
        Antes de finalizar, um parêntesis: Tarsila e Pagu foram também ousadas, e tinham atitudes absolutamente pouco usuais para aqueles idos da década de 20. Ambas tiveram relações amorosas e afetivas com Oswald. Mas quero assinalar a seguir o papel dominante que Pagu teve, não somente na vida de Oswald, como na vida política do país.
        Pagu, a musa antropofágica, com quem Oswald teve um filho (Rudá), foi assim cantada por outro "modernista" - Raul Bopp: "Pagu tem uns olhos moles, uns olhos de fazer doer". E Oswald escreve: fora preciso uma mulher (Pagu) para fazê-lo "descobrir exatos caminhos revolucionários".
        Augusto dos Campos assim descreve Pagu: "Desde estudante, escandalizava o provincianismo paulista com atitudes ousadas - soltava papagaio e voltava pra casa sem batom, ela resume, adolescente ainda. Declara ser a mulher mais bonita do Brasil depois de Tarsila. E não parece ter mudado ao longo de sua vida. Insuportável é que uma nuvem de fumaça ainda envolva a figura desta mulher que, escolhendo o caminho da atuação transformadora do real histórico, se recusou a limitar-se à rotina dos chamados "serviços domésticos" (higiênicos, culinários e sexuais). Esta situação, de resto, talvez seja explicável pela própria vida política de Pagu, cujas "heresias" são imperdoáveis do ponto de vista intolerante do establishment contestador".
        Continua o ensaísta: "Educada em Freud pela antropofagia, reclama uma sensualidade sadia e "autoconsciente" (o lado esquerdista), sabendo que toda moral é uma moral de classe e que as perversões neuróticas têm sua origem não na livre gratificação instintiva, mas sim no represamento da libido. Diz ela: "A mulher de todos os séculos civilizados só conheceu uma finalidade - o casamento. O seu lugar ao sol, agasalhada pela sombra viril e protetora de um homem que se encarregasse de todas as iniciativas. Todos os anseios e necessidades paravam neste ponto, com o conseqüente sofrimento incluído no contrato".
        O valor libertário que podemos dar a nossa libido através da prática de nossos "desejos secretos" pode e deve estabelecer que nossas "perversões" sejam plenas de "gratificação instintiva", e não prisioneiras das repressões neuróticas. Por isso, os fetiches aqui discutidos trazem em si a centelha libertária se forem praticados de modo refletidamente consensual, sem as âncoras sociais e culturais limitantes.
        Finalizando, com uma mulher do quilate de Pagu, além das outras com quem teve contato mais íntimo, Oswald pode pensar e formular a solução matriarcal como um dos caminhos libertários de sua Pindorama (nome que os índios davam ao Brasil).
        Bem, ficamos por aqui. Que este texto possa trazer reflexão aos seguidores do Desejo Secreto e, em particular, aos que, de uma forma ou de outra, vêem na Dominação Feminina uma forma de prazer erótico.
        Como das outras vezes, a contribuição de vocês será muito valiosa.
        Até fevereiro.




Referências Bibliográficas:

Fonseca, Maria Augusta - "Oswald de Andrade, o Homem que come", Ed. Brasiliense, SP, 1982.
Campos, Augusto de - "Pagu - Vida e Obra", Ed. Brasiliense, SP, 1982.
Fonseca, Cristina - "O Pensamento Vivo de Oswald de Andrade", Martin Claret Editores Ltda, SP, 1987.
Andrade, Rudá - "Diário Inédito de Oswald de Andrade", Caderno Letras do jornal Folha de São Paulo, SP, 08 de fevereiro de 1992.
Chamie, Mário - "O encontro da antropofagia com a psicanálise", Jornal da Tarde, SP, 02 de setembro de 2000.



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