A
existência ou não do Matriarcado enquanto instituição
social de fato é uma questão que provoca polêmica
entre historiadores, antropólogos, sociólogos e outros
pesquisadores.
Os registros históricos sobre eventuais sociedades
matriarcais são muito poucos, se comparados com os
registros existentes no que pode ser denominado como
patriarcado.
Existem alguns estudos antropológicos e sociológicos
que mostram a existência de sociedades matriarcais
em determinados períodos e regiões (v. trabalhos de
Dra. Heide Göttner Abendroth em
http://promatriarchy.net
cuja síntese está também em meu site, na seção "Matriarcado").

No entanto, é no mundo místico, esotérico
e das religiões primitivas que se percebe a figura
central do Feminino e a atuação de comando da Mulher
sendo reconhecida, respeitada e valorizada.
Um outro aspecto sobre o qual quero chamar
a atenção é o de que se tivermos um olhar direcionado
sem os paradigmas culturais patriarcais como referência,
mas para as forças e o poder de fato, constata-se
que o papel da Mulher é, em geral, o da Matriarca.
Isso, evidentemente, não faz com que haja
o Matriarcado enquanto sistema social, mas deixa claro
que a maneira Feminina de agir tem um poder muito
grande, seja de forma explícita (que vem aumentando
após o eclodir da Revolução Feminista nos anos 60),
seja de forma velada - ouso dizer subliminar. Ao se
olhar com detalhes o que vem ocorrendo nas relações
interpessoais e familiares, seja na realidade, seja
nas artes - inclusive na arte popular como as veiculadas
pela televisão - observa-se que muitas são as Mulheres
que controlam (ou desejam fortemente controlar) o
comportamento masculino, mesmo e inclusive dentro
das relações com base explicitamente patriarcais.
Afinal, são as Mulheres que criam e cultivam
os valores sociais, e nestes os do patriarcado. Tais
valores são nutridos para os descendentes, Femininos
e masculinos, seja por incorporarem tais valores,
vendo-se como criaturas "frágeis" ou "inferiores",
seja por comodismo, interesses pessoais, educação
e condicionamentos religiosos, ou mesmo por medo ou
incapacidade de reação. Por isso não tenho medo de
afirmar que a manutenção desse sistema ou sua transformação
está nas mãos das Mulheres.
Outro fato que pode ser comprovado neste início
de século, e que já vem dos finais do século XX, é
o de que os homens estão cansados, sentindo-se muitas
vezes impotentes de continuar carregando o "fardo"
de ser o provedor, o protetor e o "acumulador" de
bens materiais. A sociedade passa por uma série de
transformações que devem ser respeitadas e refletidas
no cotidiano de nossas vidas, em nossas relações afetivas
e também, é óbvio, em nossas escolhas sexuais.
O crescimento da "Dominação Feminina" como
filosofia e método de obtenção de prazer erótico não
está desvinculado deste contexto. Observa-se a cada
dia um número crescente de adeptos, de sites na internet
que manifestam o desejo da Mulher em dominar e de
homens em se submeter, especialmente na esfera sexual.
É um grande desafio para as Mulheres viverem esse
papel - e o é também para os homens que querem se
entregar, de fato, ao domínio
explícito de
uma Mulher.

Esta realidade que desponta e cresce não deve
ser ignorada mesmo por aqueles que não sejam adeptos
da Dominação Feminina como prazer erótico.
Muitos estudiosos vêem nas comunidades, especialmente
nas mais carentes, um "verdadeiro matriarcado", onde
as Mães, solteiras ou não, assumem toda a criação
de filhos, "frutos de uma paternidade irresponsável".
E nas comunidades mais abastadas, especialmente quando
ocorre o rompimento do casal, são geralmente as Mulheres
que assumem a condução dos filhos, nos diferentes
aspectos educacionais e de cuidados físicos e psíquicos.
Ora, se a Mulher é capaz de criar seus filhos,
trabalhar em casa e trabalhar fora, por que não pode
trazer para si também a condução do desejo sexual
- ou seja, saber lutar por sua felicidade, deixando
de ser um joguete, um mero "objeto sexual", uma fonte
de procriação, funções essas determinadas segundo
um enfoque culturalmente patriarcal?
Quando advogo tais questões, é lógico que
não incluo as Mulheres "submissas sexuais" por opção
erótica. Pelo que tenho visto, pelo que tenho dialogado
com muitas submissas e com algumas switchers, elas
traduzem seus desejos como opção própria, e não por
imposição cultural e/ou social. Observo também que
através de suas ações e comportamentos muitas são
as que, sutilmente, conduzem a relação, considerando
o homem como cabeça da relação e Elas o pescoço, que
"viram a cabeça na direção que desejam", como já ouvi
de algumas.
Evidentemente, tudo isso não são regras. Existem
muitas exceções. E existem também muitas controvérsias
e divergências quanto a essas idéias que aqui expresso,
e que merecem e devem ser respeitadas.
Recebi muitos comentários em relação ao texto
publicado nesta coluna em Janeiro p.p., seja por telefone,
seja pessoalmente, como também por e-mails. Selecionei
alguns trechos dos que recebi por escrito:
vagalume_rj, em
Desejo Secreto (
http://groups.yahoo.com/group/DesejoSecreto/message/3177):
..."Não é novidade que sou fascinado pelo
Matriarcado, mas até então as minhas fontes restringiam-se
aos mitos de mais de 4.000 anos antes de Cristo, na
fase dos primórdios da humanidade, e confesso que
fiquei surpreso quando li sobre este "movimento" de
Oswald, ocorrido no auge do Patriarcado e numa fase
relativamente recente!"
Rainha Samia, moderadora da lista de discussão
FemDom_Brasil (
http://groups.yahoo.com/group/femdom_brasil/message/3964)
, transcreve um texto sobre Pagu, retirado do "Jornal
da Cidadania" produzido pela ONG Ibase (Ano 7, Nº:101
- Maio 2001):
"Poetisa, jornalista, escritora, artista
plástica, militante política. Essas foram algumas
das faces da paulistana Patrícia Galvão (1911-1962),
Pagu"... "Em tempos de onipresença de atrizes-modelos,
popozudas e turbinadas, vale atentar para o refrão
da parceria de Rita Lee e Zélia Duncan: "nem toda
feiticeira é corcunda/Nem toda mulher é bunda"...
Não basta ser executiva, dona de casa, jornalista,
motorista de táxi, etc. Todas as funções parecem necessitar
do carimbo estigmatizante: mulherzinha. Vide o tratamento
dado à moça que acumula ocupações distintas como as
de modelo, madrinha de bateria, executiva, deusa da
luxúria e Amélia dos nossos tempos. Vá lá que ela
mesma contribua com coleiras e calcinhas à mostra,
estampados com as iniciais de seu dono (ops!), marido!
Mas a mensagem subliminar da imprensa ecoa implacável
na aprovação a um modelo de fêmea dotada de pseudo-independência,
mas convenientemente, encoleirada". Não bastassem
as notórias defasagens salariais entre homens e mulheres
no campo profissional e as jornadas duplas - às vezes
triplas - de trabalho, persiste o ranço de colocá-las
em prateleiras bem definidas. São rótulos como 'competente-intelectual-mas-tadinha-feia','independente-liberada-mas-tadinha-problemática-falta-homem'.
Além de outras incontáveis delimitações nefastas.
Por sua vez, Pagu já preconizava, na década de 40,
os mecanismos de uma sociedade engessada e imutável
na estrutura perpetuadora do homem como figura de
proa: "A mulher de todos os séculos civilizados só
conheceu uma finalidade - o casamento. O seu lugar
ao sol, agasalhada pela sombra viril e protetora de
um homem·que se encarregasse de todas as iniciativas.
Todos os anseios e necessidades paravam nesse ponto,
com o conseqüente sofrimento incluído no contrato".
Ainda dentro das opiniões da intelectualidade
brasileira, e concordando em linhas gerais com o texto
transcrito acima, incluindo as colocações de Pagú,
está a opinião do Professor e Educador brasileiro
Lauro de Oliveira Lima, estudioso da teoria piagetiana
construtivista, e que não concordava em
"relegar
a educação da mulher como a de um ser inferior ao
homem, submissa e infantilizada".

O
pesquisador reservou parte considerável de sua obra
à análise do desenvolvimento feminino com bases epistemológicas
(
área da filosofia que investiga criticamente a
natureza, as bases, limites e critérios do conhecimento
humano). Suas colocações sobre a Educação da Mulher
são contundentes do ponto de vista da direção dominantemente
patriarcal que a norteia, tendo sido muitas vezes
até mesmo interpretadas como pensamentos misóginos
por parte deste educador. Mas uma leitura mais atenta
observará que o Professor Lauro denuncia os mitos
criados pelo processo masculino do desenvolvimento
da civilização e que oprimem o desenvolvimento intelectual
e cultural da Mulher.
Esses temas serão objeto de discussão no próximo
artigo, que será publicado no início de março, p.f.
Até lá!