UM ESTILO DE VIDA
Desejos e Paixões na Arte da
Dominação Feminina
Senhora Helga Vany Freyja
RITUAL DE PASSAGEM DE COLEIRA
Reflexões sobre a ética da cessão
de poder e da entrega

Cada relação D/s tem suas regras
próprias, explicitadas ou não, mas
sempre fruto das características específicas
de cada Dominadora e da relação
dual Dominadora/escravo. Portanto, uma "passagem
de coleira", isto é, a cessão
de um escravo de uma Dominadora para Outra, dentro
dos preceitos consensuais das relações
D/s SM, necessita que a tríade envolvida
nesse evento - Dominadoras e escravo - esteja
bastante afinada aos critérios éticos
de respeito pessoal, no aspecto de desprendimento
pessoal e no estabelecimento dos limites possíveis.
As
diferenças existentes na visão e
nas expectativas de cada pessoa envolvida devem
ser respeitadas, evitando-se comparações
de caráter e de comportamento de cada um,
e dos pares entre si. Qualquer relação
triangular tende a mostrar uma dinâmica
"entrepares", isto é, formam-se
alternadamente e por períodos de tempo
variáveis dependendo do que provocou a
ligação, uma relação
entre dois dos participantes, excluindo-se a outra
pessoa, seja ela Dominadora ou escravo. Essa relação
excludente é indesejável no evento
da "Passagem de Coleira", pois traz
o grande risco de tornar o que seria uma festa,
em algo mais próximo de ser um fato desagradável.
E para que isso não ocorra, as pessoas
deverão estar centradas em seus limites
e possibilidades, colocando-se num distanciamento
possível em relação às
ações desejadas e aos limites de
si e dos outros. E evitar com muita atenção
o estabelecimento de uma agenda "oculta"
excludente, com quaisquer dos envolvidos.
Deve-se diferenciar bem o que seja banir, expulsar
ou desligar de seu Reino um membro que a Dominadora
não mais deseja. Outra coisa, bastante
diferente em sua essência, é essa
mesma Dominadora saber que esse membro poderá
desempenhar com propriedade suas habilidades e
extravasar com mais intensidade seus sentimentos
em outro Reino. Também é diferente
do banimento, a alforria dada a uma solicitação
de um escravo que vislumbra ser mais útil
e completo nos domínios de uma outra Senhora,
que o aceitará.
Um outro aspecto da maior importância neste
evento é a veracidade das
ações e dos comportamentos mostrados
por cada participante. Explicando mais detalhadamente:
se a Dominadora que irá "libertar"
o escravo, com quem manteve uma relação
mais próxima e de maior duração,
não o fizer de modo verdadeiro e desprendido,
delegando todo o Poder sobre o escravo à
Dominadora que o recebe, estará de fato
"fingindo" que o liberta e tentará,
por certo, continuar dominando o escravo, geralmente
de um modo "oculto" aos olhos da "outra".
Tenho repetido em meus escritos que o fato de
uma mulher ser "mandona", controladora,
possessiva e autoritária, não significa
necessariamente que ela seja Dominadora. Mas também
não se deve esquecer que toda Dominadora
apresenta tais características em graus
variáveis. Tais qualificativos podem fazer
com que a Dominadora que "cede" o escravo,
possa ficar temerosa de estar perdendo o controle
e a autoridade sobre a, até então,
sua criatura masculina. Ou seja, ela cede o "Poder"
para a Outra Dominadora, e isso pode ser desconfortável
para ela. Se isso ocorrer, a "passagem de
coleira" ficará prejudicada e será,
apenas, mais uma cena...
Já
a Dominadora que recebe o escravo como sua mais
nova propriedade precisa estar bastante segura
de seu potencial Dominante, e não ter nenhuma
dúvida de que aquele escravo passa a ser
seu. Uma das primeiras ações, bastante
emblemática, é a troca do nome do
escravo, que perde a coleira e seu nome anterior,
para juntar a seu novo nome, outorgado pela sua
nova Dona, a coleira desta Proprietária.
Isso ocorreu no Ritual de Passagem de Coleira
que serve de motivo para estas reflexões.
Todo esse cuidado ajuda a que a Dominadora "receptora"
possa afastar o "fantasma" da Dominadora
"doadora". Se isso não ocorrer,
ficará parecendo uma relação
como a dos casais ditos "baunilhas",
onde numa segunda relação, o fantasma
da "primeira esposa" ou do "primeiro
marido" ronda freqüentemente a cama
do novo casal. A superação desse
aspecto é mais facilmente realizada nas
relações D/s consensuais, pois houve,
anteriormente à "noite do Ritual"
um trabalho de aproximação que envolveu
a tríade de participantes.
O escravo a ser doado tem também um papel
muito importante. Ele não é apenas
um objeto passivo, sem sentimentos e vontades,
apesar do jogo das aparências. Evidentemente
sua atuação é muito importante
neste processo de desligamento de sua antiga Dona
e de re-ligação com a nova Proprietária.
Por isso, o escravo deverá refletir e ter
a convicção de que não está
em busca de uma Dominadora "idealizada"
em suas fantasias. Deve estar suficientemente
amadurecido para saber viver e desfrutar da realidade
do possível, do aqui e agora, e procurar
transferir para sua nova Dona todo a sua entrega
e devoção. Deve, também,
evitar comparações nas ações
e no comportamento de uma Rainha em relação
à outra, mas dedicar-se a sua nova realidade.
Caso esses cuidados não sejam seguidos,
a tríade envolvida na "passagem"
de coleira, poderá experimentar, individualmente,
sentimentos de decepção e impotência.
O "Ritual de Passagem de Coleira" marca
um momento único na vida dessas
três pessoas: uma ruptura de relação
e o estabelecimento de outra, com todo um simbolismo
marcante - o desvestir de uniformes, a "última"
punição do escravo, e a retirada
de sua coleira por aquela que se tornou sua ex-Dona;
esta, a antiga Proprietária, "levando"
aquele que já é seu ex-escravo,
inteiramente despido, para entregá-lo aos
pés de sua nova Dominadora; e esta fazendo
um novo Ritual de Batismo, naquele que será
seu mais novo escravo. E isso tudo com o testemunho
de convidadas e convidados especiais.
O desligamento deve ser bem trabalhado entre a
Dominadora e seu ex-escravo para que não
fiquem rancores ou mágoas, que prejudicarão
relações futuras entre essas pessoas.
Existem "pseudo-escravos" que ficam
batendo em todas as portas, sem antes terem se
desligado verdadeiramente de suas Donas, assim
como algumas Dominadoras são "desatentas"
e tendem a aceitar escravos ainda não totalmente
alforriados por suas Donas. É aqui que
devem ser levados em conta os princípios
éticos, o amadurecimento de cada um sobre
as relações estabelecidas na intersecção
das ações de desligamento e entrega.
Portanto, esse momento único merece de
todos uma reflexão profunda, um alto grau
de desprendimento, e permite o crescimento rumo
a um maior desenvolvimento pessoal, com possibilidade
de incrementar o autoconhecimento e o reconhecimento
do outro, culminando para a realização
mais plena das fantasias de entrega e de poder
sexuais.
Concluindo, o "Ritual de Passagem de Coleira"
não é apenas a "mise-en-scene",
mas o envolvimento profundo na essência
do ato da entrega e da posse. Assim, o ato em
si e sua continuidade poderão ter o sucesso
desejado, mais fácil de ser obtido quando
os princípios éticos, já
discutidos, forem respeitados.
Senhora Helga Vany Freyja
Sublime Lady of OWK
WOMEN OVER men
helgavany@helgavany.com
http://www.helgavany.org
Obs. As fotos mostram momentos do Ritual realizado
há alguns meses. Os desenhos são
de Lady Carole, artista inglesa que retrata aspectos
da relação de Dominação
Feminina.