|
FANTASIA DEFINITIVA, DURA REALIDADE
(Coluna 07/10/01)
Por Jack Rinella
"Sr. Rinella, preciso de um conselho. Estou entrevistando
um possível escravo de 33 anos que quer abandonar
completamente a sociedade. Eu iria buscá-lo e,
a seu pedido, ele perderia completamente o contato com
sua família e amigos. Por mim instruído,
ele deixaria recados endereçados a sua família
a amigos dizendo algo como 'Estou indo embora para começar
uma nova vida, e não quero mais contatos.'. O
objetivo, é claro, seria deixa-los cientes de
que ele não estava sendo seqüestrado, mas
sim indo embora voluntariamente.
Ele deseja uma existência sem escapatória,
incluindo alguma forma de imobilização
permanente para impedir fugas. Apesar de um contrato
assinado dizendo que sua escravidão é
voluntária, sei que legalmente isso ainda seria
considerado seqüestro. E como ele também
deseja ser submetido a SM extremo, eu poderia estar
incluindo o agravante de tortura à minha acusação
de seqüestro.
Sempre há a chance de que ele possa mudar
emocionalmente e mentalmente, exigindo sua liberdade,
mas ele quer uma existência sem volta, não
importando o quanto diga ou implore. Entendo que permitindo-lhe
alguma forma de fuga eu estaria diminuindo enormemente
seu sentimento de segurança em uma existência
sem retorno.
Minha pergunta é: Como posso permitir a ele
uma forma de fuga de um modo que não seja anti-clima?
Já pensei em várias possibilidades. Uma
é periodicamente lhe dar a oportunidade de escapar.
Uma vez por semana? Uma vez por mês? Desacorrentá-lo,
deixá-lo vestido e lhe oferecer algum dinheiro
para a fuga? Outra possibilidade seria instruí-lo
que, se ele implorar continuamente para ir embora, então
seria liberado após implorar por três dias
ou uma semana consecutiva. Outra forma seria criarmos
uma frase em código para a alforria, apesar desta
ser para mim a pior das alternativas, uma vez que seria
imediata e final. Eu gostaria muito de ouvir sua opinião
a respeito disso."
Bem, aqui está a minha grande oportunidade de
bancar o desmancha prazeres. Em primeiro lugar, é
claro, há a grande probabilidade de que quando
meu leitor for apanhar seu "prisioneiro" ele
não esteja lá. É simples e final
assim mesmo. Por isso, meu primeiro conselho é
que você pare de gastar seu tempo.
Em segundo lugar você tem de considerar se o
que você realmente quer é um relacionamento
do tipo Mestre/escravo (não parece) ou se tem
a incrível fantasia de ser um carcereiro pelo
resto de sua vida. Ajude-me aqui, mas não vejo
nenhum tipo de gratificação em tentar
o tipo de relacionamento que seu correspondente procura.
QUEM acorrentará QUEM para sempre?
Caia na real por um instante. Quem vai preparar a comida
do sujeito? Quem vai sair par comprar a comida? E o
dinheiro de quem vai pagar a comida? Quem vai pagar
seu seguro de saúde? Quando ele adoecer, quem
vai pagar as despesas? Como ele vai pagar sua parte
dos impostos, do aluguel, dos vídeos alugados?
Como ele vai poupar para sua aposentadoria? Para onde
ele vai quando você estiver cansado de bancá-lo?
Meu leitor deu poucos detalhes a respeito de seu pretendente
a prisioneiro. Se ele só tiver que dirigir até
o outro lado da cidade, o cenário pode ser o
de um final de semana divertido, mas não vai
durar mais que isso. Afinal, na segunda-feira pela manhã
meu amigo terá de ir trabalhar, deixando seu
prisioneiro sem supervisão. Se a imobilização
for tal que impeça sua fuga, então é
muito inseguro deixá-lo sozinho. Se ele puder
fugir, irá, para retornar um pouco antes de seu
anfitrião, de modo a continuar com a farsa.
Logo, vou pedir a você que procure se informar
mais sobre este cara que está procurando por
uma cama e café da manhã gratuitos. E
o que é mais importante: quem ele está
abandonando? Seus pais com certeza contratarão
um detetive para encontrá-lo. Sua esposa contratará
um advogado para exigir uma pensão alimentícia
para o filho. Seus credores irão procurá-lo
por ter fugido de suas dívidas. Não tente
se enganar pensando que ele não será encontrado.
A qualquer momento o FBI será notificado de
que ele muito provavelmente foi seqüestrado. Eles
já podem inclusive vasculhar meu gerenciador
de correspondência através de minhas ligações
telefônicas e e-mails. Isso não é
informação que você possa deletar,
uma vez que está gravada em fitas de backup na
companhia telefônica e no seu provedor de acesso.
Eu acho que me fiz compreender, mas não vou
parar de bater neste cavalo já morto, uma vez
que há dois aspectos inerentemente furados neste
tipo de fantasia: a própria realidade e a sanidade.
Não há duvida de que a atração
criada pela idéia de escapar é forte.
A maioria de nós gostaria que um cara batesse
em nossa porta e nos dissesse que ganhamos na loteria:
"Aqui está um milhão de dólares!"
Esse planeta oferece um monte de razões para
querermos escapar. A verdade é que não
podemos, a não ser pela porta chamada morte.
Um momento de diversão na masmorra, um pouco
de sexo bem feito, ou mesmo um cochilo pode nos ajudar
a escapar por um breve período. Escapismo não
é a solução. Uma vida saudável
se constrói encarando nossos problemas e solucionando-os,
não fugindo deles.
O outro problema com relação ao escapismo
é que a própria natureza do SM tende a
colocar a realidade mais em foco. A crescente percepção
de nossos corpos, a intimidade intensificada, e algo
com relação à dor, prazer e sexo
conspiram conjuntamente para tornar a realidade MAIS
REAL, e não menos real. Usar qualquer forma de
SM para escapar da realidade é como usar uma
lata de gasolina para apagar um incêndio.
Há várias boas razões pelas quais
a comunidade fetichista adotou o lema "Seguro,
são e consensual." Há muito mais
aqui do que simples retórica e correção
política.
Não conhecendo este pretendente, não
posso comentar sobre suas condições mentais
atuais, mas posso supor que o isolamento completo que
ele imagina desejar enlouquecerá tanto a ele
quanto a seu carcereiro. A não ser que ele tenha
o Q.I. de um vegetal, irá desejar diversão,
variedade e estímulo. Você sabe: um passeio
pelo parque, uma noite no cinema, jantar fora, um amigo
para jogar palavras cruzadas. O que você irá
fazer? Colocar um computador conectado à Internet,
uma televisão e um refrigerante cheio de salgadinhos
em sua cela?
Não há nenhum problema em jogar este
jogo por um final de semana e então mandar o
cara para casa. Pode ser divertido para os dois. Mas
o cenário que você descreveu sucintamente
está destinado a fracassar, e provavelmente muito
antes que você bote os olhos sobre este escapista.
Uma vez eu me correspondi com um cara do Leste que
queria ser seqüestrado. Eu concordei em seqüestrá-lo
no Aeroporto Fort Wayne! Logo que ele chegou, eu o coloquei
dentro de meu carro e o algemei aqui e ali. Depois de
uma breve viagem até minha casa, eu vendei seus
olhos em frente à porta principal e o levei até
minha masmorra. Tive meu prisioneiro por todo o final
de semana!
Mas tive de sair para uma incumbência por um
tempo. Quando voltei, preparei-lhe uma refeição
de prisioneiro com pão, água, feijões
frios, e levei para ele na masmorra. Ele tinha ido embora.
Ao invés dele, havia um recado: "É
dever de todo prisioneiro escapar. Obrigado pelos ótimos
momentos." Espero que você tenha ótimos
momentos também.
|