Estar
numa sessão ou numa cena de D/s apresenta
sempre inúmeros aspectos de caracterização
e traz à tona incontáveis sentimentos
e sensações. Certamente esses inúmeros
aspectos vão depender sempre do modo absolutamente
pessoal com que cada um olha a situação.
Quando me lembro do ritual de colocação
da coleira e do desenrolar de uma sessão,
a primeira coisa que me vem à cabeça
é uma idéia de prece; a segunda,
uma idéia de arte.
Prece
para mim sempre será uma recordação
da infância. Recordação de
tempos em que o sentir era em estado bruto, não
havia sutilezas de raciocínio, nem racionalizações
apuradas que perturbassem as sensações.
Portanto, prece sempre evocava um fino traço
de ligação com a morte; uma vaga
idéia da importância das coisas;
um vestígio de temor - pois suspeitava
que o destino, por vezes, nada tinha a ver com
os meus desejos -, considerava a prece também
sob o signo da súplica e da crença.
Mesmo nessa época, não tinha dúvidas
de que as preces assinalavam a minha chegada a
alguma espécie de limite extremo.
Hoje,
dentro de uma sessão, na companhia do meu
Dono, impressiona-me a semelhança das sensações
e dos sentimentos que tinha na infância.
Ajoelhar, curvar a cabeça e depois levantar
é como afirmar, dentro de um espírito
profundamente arrebatado, o próprio lugar
no mundo. Ajoelhada, como numa prece diante de
um deus, ainda me ficou da infância, o vestígio
do temor. À exemplo da infância não
tomo o temor, por medo ou pavor. Tomo antes por
um sentimento de respeito ou reverência.
O que mudou foi o objeto do temor. Antes temia
o destino por considerá-lo fora de qualquer
controle. Agora temo meu Senhor, por considerá-lo
detentor do controle sobre a minha vida, sobre
o meu destino...
Minha
entrega apresenta muitos desses aspectos de prece.
Minha entrega fala de uma fronteira ou limite
extremo de experiência. E ainda evidencia
algumas das graves premissas da condição
humana: o arrebatamento que pode ser a vida (por
isso, talvez, o medo da morte); a dependência
uns dos outros (nenhum homem é uma ilha);
a natureza social da pessoa (na entrega coloco
ou tiro as máscaras?). De certo modo, essa
entrega entendida como prece, é como um
sonho. O sonho não apenas expressa emoção,
ele me arrasta violento para as profundezas da
matriz da emoção. E aqui respondo
a pergunta sobre as máscaras: uma vez dentro
do lugar onde se gera a emoção,
não há espaço nem sentido
para as máscaras.
Partindo
dessa forma de ver a prece e entendendo o mundo,
as pessoas e as relações como uma
combinação de pontos culminantes,
de rompimentos e reuniões; a experiência
- qualquer experiência - de um ser vivo
pode adquirir uma qualidade estética. Acredito
que as pessoas perdem e restabelecem, periodicamente,
o equilíbrio com o ambiente e que a passagem
da desordem à harmonia é o momento
mais intenso de vida. Um mundo, uma pessoa ou
uma relação acabados, terminados,
não oferecem tensão nem crise e
, também, nenhuma possibilidade de solução.
Onde está tudo completo, não há
aperfeiçoamento, nem criação,
nem arte. Os momentos de realização
perfeita pontuam cada experiência ruim com
intervalos ritmicamente agradáveis. E é
num desses intervalos agradáveis e mais
intensos de vida, que posso ser encontrada ajoelhada
e em estado de prece.
E onde
está a possibilidade de que uma experiência
de vida pode adquirir uma qualidade estética?
Exatamente aqui: sempre encontramos inúmeras
maneiras para relatar o óbvio e aprisionar
o novo dentro dos limites do indolor. Sim, meus
caros!!! O novo dói!! O desconhecido assusta!!!
O diferente nos dá medo!!! "E a mente
apavora o que ainda não é mesmo
velho..." Em literatura chamamos de recurso
de "estranhamento". É doloroso
descobrir que não tenho a resposta para
tudo. É doloroso descobrir que não
sou exatamente quem pensava que era. É
doloroso perceber que minha fantasia tem mais
de mim mesmo do que costumo mostrar para as pessoas.
É doloroso optar por não viver essa
fantasia. É doloroso vivenciá-la.
Do pouco ou muito - óbvio - que se tem
dito e escrito sobre relações BDSM,
alinhamos algumas definições mais
ou menos abrangentes, nos socorremos com classificações,
nos damos o direito a qualificações,
recorremos a nomenclatura estrangeira, nacional,
etc. E, no entanto, acima de qualquer padrão
- entendendo as relações na sua
qualidade estética ou entendendo relações
como arte - à exemplo da arte; o signo
mais permanente e dinâmico das relações,
será sempre o da re-invenção.
Sim!!!!!!! Não estamos fazendo nada novo.
Relações amorosas, relações
sexuais, perversões, parafilias, tendências,
preferências, etc., existem desde que o
mundo é mundo. Seja qual for o nome com
que batizarmos. Como a arte, as relações
são paradoxais em contraponto ao cultural.
Repetindo uma frase de personagem de cinema: "A
verdade, como a arte, está nos olhos de
quem a vê." E eu vejo as relações
- inclusive relações BDSM - com
os mesmos olhos com que vejo a arte.
Na re-invenção
do desejo que é uma sessão; no encontro
das forças contraditórias que é
uma relação de D/s; no estado de
prece que pressinto quando da colocação
da coleira, nisso tudo, a submissa é um
ser misterioso. Poderia dizer que me sinto, por
vezes, feita à imagem e semelhança
de meu Dono; outras vezes, um ente à parte,
em torno do qual seria possível construir
um mundo. Quando estou aos pés do meu Dono
sou arbitrária e poética. Sou uma
simples submissa muda, manejada de acordo com
as forças do meu Dominador. Mas ao seu
toque, posso me transformar de ser passivo, dependente,
obediente às suas mãos, numa criatura
atuante. E Ele, colocado em face ao inesperado,
torna-se o espectador. Uma das funções
da arte é surpreender.
A re-invenção,
o encontro das contradições e a
surpresa descritas acima é que me trazem
a idéia de arte. E quando, de joelhos,
arrastada para a fonte principal das emoções,
sem possibilidade de usar máscaras, é
que pressinto a idéia de prece. Submissão
é igual a uma mistura - perfeita - de prece
e de arte na medida certa.
06/08/2001 - segunda-feira
de sol em Curitiba