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A HUMILHAÇÃO NAS RELAÇÕES D/S

lan@

       Por sugestão de um amigo, um Mestre por quem tenho o maior respeito e admiração, resolvi explorar um pouco esse aspecto da relação D/s: a humilhação.
        O tema sempre vai soar estranho, para qualquer pessoa que não faça parte efetiva do mundo BDSM. Experiência comprovada: quando falei para um amigo (que é baunilha) que ia escrever sobre o prazer da humilhação, ele me olhou sério e perguntou "você jura que existe algum prazer em ser humilhada?" Pois aqui eu respondo a essa indagação:
        - Sim!!! Eu juro que existe prazer na humilhação!!!!
        Hoje, sem a costumeira apreensão acadêmica de fundamentar as proposições, sem a preocupação de citar teorias que explicam o comportamento, vou tentar escrever apenas sobre as sensações, sobre os sentimentos, sobre o "como?" e não sobre o "por quê?". Não que eu não tenha lido, nas obras de Freud ou de Lowen, as explicações racionais. Li, sim!!! Mas são respostas que não me deixam completamente satisfeita. São respostas que não vêem todos os aspectos. Até porque todos esses aspectos só podem ser descritos por pessoas que tenham vivido a experiência: a experiência da relação D/s e a experiência da sessão de D/s.
        Obviamente, como já é um hábito, pedi ajuda para amigas. Amigas queridas, submissas maravilhosas, mulheres inteligentes que, sem a menor sombra de dúvida, sabem do que se trata. Uma amiga me mandou um texto que julguei irretocável. Não tive coragem de cortar a linha de raciocínio dela, apenas para citá-la. Portanto, o texto a seguir é a íntegra do texto de Messalina {W}:

        "Ninguém pode fazer você sentir-se inferior sem o seu consentimento." Eleonor Roosevelt (mulher do presidente norte-americano que governou os EUA de 1943 a 1945)

        A submissão numa relação BDSM é exatamente isso: uma concessão e, ao mesmo tempo, uma libertação da mente, do corpo e da alma... Por meio dela, podemos nos destituir de preconceitos, de medos, de incertezas, de moralidade e de outras tantas outras regras preestabelecidas. Descobrir-se submissa significa dar vazão a anseios secretos; ser servil; obediente e devota. Significa descobrir um mundo de prazeres infindos, além da real possibilidade de vivenciar a entrega da anima a outro ser, no sentido mais pleno da palavra. Sem dúvida, uma das mais ricas e fascinantes experiências eróticas que um ser humano pode explorar.
        Vários são os subterfúgios empregados pelo Dominador para desnudar todo o potencial de submissão de sua escrava e, com isso, extrair os mais dúbios sentimentos e sensações, canalizando-os sempre para o prazer de ambos (Mestre e escrava).
        A humilhação é um instrumento muito poderoso numa relação de Dominação/submissão. Tanto para o Dominador - que, por meio dela, doutrina, corrige e pune, como também, cuida de sua submissa - quanto para a escrava, que tem a oportunidade de demonstrar sua entrega, sua devoção e seu desapego a tudo que não seja o seu Senhor e as vontades dele. Não se trata aqui de auto-afirmação. É preciso lembrar que o conceito de humilhação nas relações D/s difere em todos os sentidos dos padrões constituídos nas relações normais. Nas relações de D/s a humilhação instiga, inspira e nos faz crescer.
        Sem dúvida, uma experiência farta em diversos tipos de emoções. Com esse recurso, elementos fortes são tocados: auto-estima, autocomiseração, impotência, tristeza, insegurança, medo; e sensações físicas também são experimentadas, como as lágrimas que tanto escorreram dos meus olhos, a raiva reprimida nos gestos, mas impossível de ser disfarçada no olhar, a dor no estômago, a ânsia que faz meu corpo tremer sem parar, a impressão de estar rasgada por dentro, o ímpeto contido de correr sem rumo e sem parar e a certeza de que nada escapa aos olhos e à mente perspicazes do meu Mestre que observa, orienta, corrige, pune e ampara. E é exatamente dessa certeza que brota a vontade de superar-se, de agradar, de subjugar-se a qualquer custo, plena da confiança inabalável total e irrestrita daquela voz que ordena, daquelas mãos que guiam, castigam e afagam e daquele olhar que gela minha alma e me estarrece de pavor e de prazer.
        A cada humilhação imposta, me convenço que a angústia pela punição ou a alegria pela recompensa são prazeres indistintos.
        Nesses momentos, sou capaz de tudo para ver surgir daquele olhar (ah!!! daquele olhar....) o êxtase total. Nada, absolutamente NADA, se compara à estesia advinda da contemplação daquele olhar...

        Messalina {W}... São Paulo, 2001 (imitando a lan@... numa manhã quente e chuvosa de verão.... *sorriso*)

        Ainda não consegui pensar em nada para acrescentar ou discordar desse texto. Messalina {W} traduziu em palavras, um sentimento que - quero crer - são comuns a todas as mulheres que já viveram uma situação de plena entrega numa relação D/s. Não é fácil colocar em palavras a sensação de aconchego e de segurança que pode provocar um pacto de proteção configurado numa cena de humilhação. A sensação de estar sendo protegida, cuidada, amada por aquele a quem se entregou o corpo e a alma é inefável.
        Outras situações, que se configuram como humilhações, também têm sua faceta de prazer... Tornar-se, em sessão, um objeto de decoração, por exemplo, ou ter o próprio corpo usado como parque de diversões, é, por alguns momentos, como tomar parte do fetiche primordial, tomar parte da situação onde se descobriu o prazer pela humilhação imposta. É como estar presente na vida pregressa do meu Dono.
        Em outra situação, ter meu corpo marcado, da mesma forma como algumas espécies de machos marcam seu território, é igual a participar da vida em estado bruto, em estado animal... Puro instinto. Se, em princípio, a cena se configura como uma humilhação, ao final dela me sinto mais "pertencida" ao meu Dono... E tenho mais Dele em mim... Numa relação quase de simbiose... Quase o espelho de narciso... em que não é possível mais determinar onde está o meu começo e o meu final. Sem trazer comigo nenhum vestígio de trauma ou rancor pela humilhação estabelecida, como num círculo vicioso saio, mas volto sempre à posição inicial... aos pés do meu Dono.
        Quando o assunto é humilhação, torna-se muito difícil adotar posturas conclusivas... o tema é amplo e, com certeza, voltaremos a ele... Talvez com a visão voltada para outros aspectos.
        Tem uma música do Caetano Veloso que eu adoro e na qual, em determinado momento, ele fala: "vertigem visionária que não carece de seguidor..." É assim que considero a minha concepção de humilhação... um pouco fora do chão, talvez.... muito romântica, com certeza... e, sem dúvida alguma, embasada numa única relação real que deixou saudades. Mas... é a minha (nossa) visão. Embora eu duvide muito, talvez a realidade e o tempo me façam mudar de idéia...
        E, para fechar, ainda Caetano, na mesma música: "coragem grande é poder dizer sim"...


17/12/2001 - segunda-feira de sol e calor em Curitiba