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A LIBERTINAGEM E A LEALDADE

lan@

       Tenho escutado com freqüência no meio BDSM por onde circulo, as pessoas - Dominadores, Submissos e Switchers - se autodenominarem "libertinos". Como já é um hábito incorporado firmemente ao meu comportamento, comecei prestar mais atenção nas coisas que se fazem, do que nas coisas que se dizem... em relação à libertinagem.
        Depois de algumas observações e várias conversas com amigos, fiquei me perguntando se todas as pessoas que usam essa expressão para se autodenominarem sabem realmente a extensão do seu significado. Penso que nem todas sabem.
        Normalmente, quando usam essa expressão, as pessoas estão (suponho) fazendo uma ponte com Sade - Marquês de Sade - talvez o libertino mais conhecido de que temos notícia. O que poucas pessoas sabem é que Sade não é considerado um libertino apenas por suas preferências sexuais. Sade é um libertino por fazer da prática uma conseqüência de suas teorias sobre todas as outras coisas importantes da vida.
        Libertinagem não é sinônimo de oba-oba carnavalesco, ou de suruba generalizada, ou de troca-troca interminável. Libertinagem é muito mais que isso - e está muito acima disso.
        Quem já teve oportunidade de ler - na íntegra - o livro "A Filosofia na Alcova" deve entender o que estou dizendo. Muito mais do que ensinar a jovem Eugènie os prazeres ligados ao sexo, os "instrutores" estavam imbuídos da missão maior de retirar dela qualquer resquício de moralismo. Como está avisado no prefácio "Aos Libertinos": "Jovens demasiado tempo presas nos laços absurdos e perigosos de uma virtude fantástica e de uma religião desgostante, imitai a ardente Eugènie; destruí, calcai, com tanta rapidez como ela, todos os preceitos ridículos inculcados por pais imbecis." Quem leu atentamente o livro todo pode perceber que os personagens sadianos são libertinos pelo modo como vêem a vida, a religião, a moral, os costumes, etc.; e que combatem inclusive a hipocrisia. Hipocrisia que faz com que o homem tenha um discurso e a sua prática seja diferente. Hipocrisia que faz com que o homem tenha dois pesos e duas medidas para a aplicação de seus preceitos. Os personagens de Sade, à exemplo de seu criador, não são falsos-moralistas.
        Eliane Robert Moraes, num ensaio sobre a literatura libertina, diz que os personagens sadianos defendem o argumento de que o mais desregrado excesso pode ser objeto de ordenação.

       
"A particularidade do personagem sadiano, contudo, está no fato dele não submeter jamais esse controle aos parâmetros socais da moral, colocando-o unicamente a serviço das volúpias do vício. Isso permite ao devasso observar regras sem obedecer as exigências da moderação, mas também entregar-se ao desregramento observando normas. Não há atividade do deboche que não seja, durante seu curso, orientada. Roger Vailland identifica o libertino com um metteur en scéne, a aplicar um rigor sempre progressivo à pesquisa do prazer; Barthes associa-o a um mestre-de-cerimônias, comparando-o ainda a um maestro que dirige seus companheiros tocando ao lado deles. As orgias são sempre comandadas e calculadas, submetendo-se a sucessivas ordenações, como se não fosse possível confiar apenas no acaso para garantir a manutenção do crime entre amigos.
        (...)
        Mas, ao descrever lenta e minuciosamente a progressão das diferenças do crime, o marquês garante não só a coerência de seus personagens: explica também a lógica que determina a conduta dos libertinos setecentistas, ao mesmo tempo que coloca à prova as teses naturalistas dos filósofos de sua época. Com isso, Sade oferece a seu leitor o privilégio de testemunhar um desses raros momentos do pensamento em que uma dimensão histórica e um princípio filosófico ganham expressão na literatura." (MORAES: 253-253)


        Fala-se aí da lógica que determina a conduta dos libertinos setencentistas. E o que dizer da lógica do libertino do nosso tempo? Que lógica tem determinado a conduta dos libertinos que conhecemos? Que lógica?
        Eu, particularmente, tenho visto libertinagem sem lógica alguma. Libertinagem de ocasião. Libertinagem aqui, sim - mas ali, não. Não tenho visto libertinagem como filosofia de vida. Não tenho visto libertinagem como modo de encarar a moral e os costumes. Não tenho visto libertinagem como ausência de preconceitos. Não tenho visto libertinagem.
        Não estou aqui propondo a todas as pessoas que se consideram libertinas, que desfraldem bandeiras e saiam por aí fazendo marchas e piquetes. Também não estou propondo que adotemos, na íntegra, os conceitos de Sade sobre a religião, a moral e os costumes. Estou propondo que vivamos mais de acordo com nossas teses. Que não usemos de falso moralismo, nem de hipocrisia em relação às pessoas com quem convivemos e às idéias que defendemos.
        E onde entra a lealdade nisso tudo?
        Entra exatamente aqui. Desde que comecei a freqüentar o meio BDSM, tenho observado muito os relacionamentos. E o que vejo? Vejo relacionamentos de D/s terminarem porque uma das partes não foi honesta. Vejo submissas sofrendo porque o libertino que elas chamavam de Dono e Senhor não correspondeu à expectativa que ele mesmo criou com suas teses e idéias maravilhosas sobre relacionamento. Vejo Dominadores sendo enganados por libertinas que usam falsos discursos de submissão. Vejo esperanças indo ao chão em ambos os lados. E me pergunto: qual será a grande dificuldade?
        E percebo, incrédula, que na maioria dos casos, a grande dificuldade é a diferença abismal que existe entre a teoria e a prática. Percebo que a maioria das pessoas entende uma relação entre libertinos (como entendo que seja um relação de D/s) como uma relação sem regras, sem base sólida. Um oba-oba carnavalesco onde o Dominador faz o que bem entende porque não espera ter que justificar suas atitudes e onde a submissa faz o que bem entende porque não entende uma relação de D/s (ou um relação de libertinos) como uma relação que se deva levar à sério.
        Não existe ordem, não existem regras, não existe uma base para consolidar a relação. Percebam que não estou propondo aqui que se faça uma "Tábua de Leis" para se regulamentar as relações de D/s. Falo de ordem e regras entre os envolvidos na relação. Falo de ordem e regras estipuladas pelos envolvidos, tendo como base a filosofia de vida de cada um. Tendo como base as expectativas de cada um sobre o relacionamento - relacionamento que vai sendo construído com o tempo. Não nasce pronto. E é exatamente aqui que entra a lealdade. Se não foi possível consolidar a relação embasada numa determinada ordem, é porque houve deslealdade entre os envolvidos.
        Estou partindo da premissa de que, se existem diferenças entre a prática e a teoria, já estamos sendo desleais (em algum momento) com nossos próprios princípios. E se não conseguimos ser leais com nossos preceitos, nossa noção de certo e errado; como vamos ser leais com outra pessoa, outros princípios, outras noções?
        Relacionamentos onde uma submissa acata qualquer ordem apenas porque quer usar uma coleira; relacionamentos em que o Dominador promete mundos e fundos apenas porque quer "desfilar" a sua coleira em algum pescoço bonito; estes são relacionamentos em que a lealdade ficou de fora.
        Aquela lealdade básica, em seu sentido mais literal. Aquela lealdade nascida da crença. Aquela lealdade que permite ao Dominador saber de forma cabal tudo que a submissa espera dele, pois ela não espera nada que ele não tenha prometido. Aquela lealdade que permite à submissa se entregar de corpo e alma ao Dominador, sabendo, com segurança, que não será traída na sua expectativa. Essa é a lealdade que está faltando. De ambas as partes. E é lógico: se nossa capacidade de sermos leais não alcança a defesa de nossos próprios princípios, se não somos capazes de viver de acordo e em harmonia com as teses que enunciamos aos quatro ventos; como vamos ser capazes de ser leais com as outras pessoas? Vendo dessa forma, a deslealdade é apenas o início da mais absoluta falta de ética.



Referências Bibliográficas

MORAES, E. R. Sade: O Crime Entre Amigos. In: Libertino Libertários. NOVAES, A. (Org.). São Paulo: Cia das Letras, 1996.
SADE. A Filosofia na Alcova. Publicações Europa-América. Portugal.



16/01/2002 - madrugada de verão (fria e chuvosa) em Curitiba