É
sabido, entre todos os adeptos, simpatizantes
e praticantes de BDSM, que uma relação
D/s tem como principal característica o
cuidado e a proteção com que o Dominador
distingue a sua submissa.
Em alguns
casos, esse pacto de cuidado e proteção
traduz, para a submissa, uma boa parte de tudo
o que ela espera do seu Dono e da relação.
Não que, nas relações baunilhas,
não exista esse cuidado/proteção
entre os envolvidos, mas na relação
D/s ele ocorre de maneira especial.
Essa
característica sempre vai se reportar à
posse. O Dominador cuida, protege e se preocupa,
porque a ele pertence o corpo e, por vezes, a
alma da submissa. Nesse contexto, não teria
sentido, num momento de distração
ou de desleixo, ele deixar acontecer algo que
"quebrasse" o seu brinquedo.
Aqui
entra tudo o que sempre ouvimos falar a respeito
de conhecimento mútuo, respeito aos limites,
lealdade, cumplicidade, entrega total, etc.; pois,
sem isso, dificilmente um Dominador conhecerá
suficientemente sua submissa para poder - ou querer
- protegê-la ou cuidá-la.
Certo!!!!!
Mas... se entendemos relação de
D/s como uma relação de troca, haverá
um momento em que a submissa deverá, ou
poderá, ou quererá retribuir esse
cuidado e essa proteção da mesma
forma - na mesma moeda. E como se manifesta na
submissa esse desejo de cuidado ao seu Dono? Efetivamente,
não será uma questão de posse.
Será uma questão do quê, então,
o cuidado que uma submissa tem pelo seu Dono?
Como ela cuida do seu Dono? E por que ela cuida
do seu Dono?
Existem
várias formas e situações
em que será necessário que uma submissa
tome à frente e proteja o seu Dono. E aqui
vamos falar de apenas uma dessas situações.
É, por vezes, a situação
mais difícil de ser compreendida por um
Dominador, numa relação de D/s.
Ilustrando:
é muito comum os chats serem freqüentados
por casais de Dominadores/submissas. Também
é muito comum, nos chats, a presença
de pessoas que estão apenas procurando
amigos, ou então encontrando os amigos
que já possuem, ou ainda paquerando...
querendo conhecer pessoas para futuras relações.
Isso, em ambos os casos: Dominador e submissa.
Entretanto, também é muito comum
em chats a presença de falsas submissas,
pessoas despidas de escrúpulos, que estão
ali apenas para se divertir. E se divertir da
pior forma possível: usando as outras pessoas
ou se divertindo com os seus sentimentos. Well...
e não é impossível de acontecer
que o nosso Dono, este homem que, para nós,
está tão acima dos outros mortais,
ver-se envolvido com uma dessas pessoas.
Parece
óbvio o que fazer numa situação
dessas, mas, para uma submissa, a questão
pode ser um pouco mais delicada. Primeiro, porque
nem sempre a submissa tem ciência de que
seu Dono está se envolvendo com uma pessoa
que não é digna de confiança.
Segundo, porque, mesmo que tenha ciência,
ela pode também não saber que se
trata de uma dessas pessoas. Terceiro, porque,
mesmo que saiba de tudo, sua preocupação
- invariavelmente - será confundida com
uma crise de ciúmes.
No segundo
caso já começa o problema. Não
é incomum que uma submissa - trazendo consigo
todas a aptidões próprias das mulheres
- mesmo sem saber exatamente o que está
se passando, "sinta" que há alguma
coisa errada. Aquela coisa de "sexto sentido"...
feeling apuradíssimo, que a maioria das
mulheres possui. Nesse caso, qualquer tentativa
de alertar ao próprio Dono que não
está sentido "firmeza" na outra
pessoa, será em vão. Primeiro, porque
os homens têm uma certa resistência
a acreditar em intuição feminina;
segundo, porque sempre será mais fácil
e elogioso, a si próprio, crer que sejam
apenas ciúmes.
No terceiro
caso, em que submissa tem plena ciência
de que a "outra" pessoa não é
de confiança; também, às
vezes, é difícil que seu alerta
ao Dono, não seja tomado por ciúmes,
pura e simplesmente.
Não
estou querendo dizer, com isso, que crises de
ciúmes não existam em relações
de D/s. Existem, sim, e muito. E não se
pode julgar todas as situações pelas
mesmas medidas. O que estou dizendo, é
que acontece muito de uma submissa, na tentativa
de proteger e cuidar do seu Dono, ser mal interpretada.
E, na maioria das vezes, mesmo depois de tudo
esclarecido, o Dom não reconhecer a tentativa
de sua escrava. E isso pode ser muito triste e
frustrante: não ver reconhecido o esforço
para tentar retribuir um pouco de todo o cuidado
e proteção que essa submissa recebe
do Dono.
Uma
submissa, quando vê seu Dono numa situação
de estar se expondo ao ridículo, se expondo
às chacotas, se expondo à possibilidade
de ser explorado ou humilhado; essa submissa sofre
muito. Sofre, talvez, mais do que o próprio.
Qualquer pequena dor, qualquer pequena humilhação
sofrida por esse Homem, dói em nós
muito mais do que qualquer castigo, qualquer humilhação,
qualquer dor de que já se tenha idéia.
Mas,
e isso é reconfortante perceber, qualquer
que seja a reação, mesmo exposta
a possibilidade de ser mal interpretada, a verdadeira
submissa jamais deixará, em momento algum,
de (tentar) proteger e cuidar do Homem que elegeu
para seu Dono e Senhor.
"(...) Faço
lelê de fubá
Faço pitu no dendê
Sirvo seu pitéu na cama
E nada dele comer, ai
Telefone, é voz de dama
Se penteia pra atender (...)"
(Chico Buarque)
13/02/2002 - quarta-feira
de cinzas, cinzenta em Curitiba.