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O CUIDADO E A PROTEÇÃO
DENTRO DA RELAÇÃO BDSM

lan@


"(...) Ai, eu te cuidava
Como uma escrava
Ai, eu não te dava perdão
Te rasgava a roupa, morena
Se eu fosse o teu patrão (...)"
(Chico Buarque)


       É sabido, entre todos os adeptos, simpatizantes e praticantes de BDSM, que uma relação D/s tem como principal característica o cuidado e a proteção com que o Dominador distingue a sua submissa.
       Em alguns casos, esse pacto de cuidado e proteção traduz, para a submissa, uma boa parte de tudo o que ela espera do seu Dono e da relação. Não que, nas relações baunilhas, não exista esse cuidado/proteção entre os envolvidos, mas na relação D/s ele ocorre de maneira especial.
       Essa característica sempre vai se reportar à posse. O Dominador cuida, protege e se preocupa, porque a ele pertence o corpo e, por vezes, a alma da submissa. Nesse contexto, não teria sentido, num momento de distração ou de desleixo, ele deixar acontecer algo que "quebrasse" o seu brinquedo.
       Aqui entra tudo o que sempre ouvimos falar a respeito de conhecimento mútuo, respeito aos limites, lealdade, cumplicidade, entrega total, etc.; pois, sem isso, dificilmente um Dominador conhecerá suficientemente sua submissa para poder - ou querer - protegê-la ou cuidá-la.
       Certo!!!!! Mas... se entendemos relação de D/s como uma relação de troca, haverá um momento em que a submissa deverá, ou poderá, ou quererá retribuir esse cuidado e essa proteção da mesma forma - na mesma moeda. E como se manifesta na submissa esse desejo de cuidado ao seu Dono? Efetivamente, não será uma questão de posse. Será uma questão do quê, então, o cuidado que uma submissa tem pelo seu Dono? Como ela cuida do seu Dono? E por que ela cuida do seu Dono?
       Existem várias formas e situações em que será necessário que uma submissa tome à frente e proteja o seu Dono. E aqui vamos falar de apenas uma dessas situações. É, por vezes, a situação mais difícil de ser compreendida por um Dominador, numa relação de D/s.
       Ilustrando: é muito comum os chats serem freqüentados por casais de Dominadores/submissas. Também é muito comum, nos chats, a presença de pessoas que estão apenas procurando amigos, ou então encontrando os amigos que já possuem, ou ainda paquerando... querendo conhecer pessoas para futuras relações. Isso, em ambos os casos: Dominador e submissa. Entretanto, também é muito comum em chats a presença de falsas submissas, pessoas despidas de escrúpulos, que estão ali apenas para se divertir. E se divertir da pior forma possível: usando as outras pessoas ou se divertindo com os seus sentimentos. Well... e não é impossível de acontecer que o nosso Dono, este homem que, para nós, está tão acima dos outros mortais, ver-se envolvido com uma dessas pessoas.
       Parece óbvio o que fazer numa situação dessas, mas, para uma submissa, a questão pode ser um pouco mais delicada. Primeiro, porque nem sempre a submissa tem ciência de que seu Dono está se envolvendo com uma pessoa que não é digna de confiança. Segundo, porque, mesmo que tenha ciência, ela pode também não saber que se trata de uma dessas pessoas. Terceiro, porque, mesmo que saiba de tudo, sua preocupação - invariavelmente - será confundida com uma crise de ciúmes.
       No segundo caso já começa o problema. Não é incomum que uma submissa - trazendo consigo todas a aptidões próprias das mulheres - mesmo sem saber exatamente o que está se passando, "sinta" que há alguma coisa errada. Aquela coisa de "sexto sentido"... feeling apuradíssimo, que a maioria das mulheres possui. Nesse caso, qualquer tentativa de alertar ao próprio Dono que não está sentido "firmeza" na outra pessoa, será em vão. Primeiro, porque os homens têm uma certa resistência a acreditar em intuição feminina; segundo, porque sempre será mais fácil e elogioso, a si próprio, crer que sejam apenas ciúmes.
       No terceiro caso, em que submissa tem plena ciência de que a "outra" pessoa não é de confiança; também, às vezes, é difícil que seu alerta ao Dono, não seja tomado por ciúmes, pura e simplesmente.
       Não estou querendo dizer, com isso, que crises de ciúmes não existam em relações de D/s. Existem, sim, e muito. E não se pode julgar todas as situações pelas mesmas medidas. O que estou dizendo, é que acontece muito de uma submissa, na tentativa de proteger e cuidar do seu Dono, ser mal interpretada. E, na maioria das vezes, mesmo depois de tudo esclarecido, o Dom não reconhecer a tentativa de sua escrava. E isso pode ser muito triste e frustrante: não ver reconhecido o esforço para tentar retribuir um pouco de todo o cuidado e proteção que essa submissa recebe do Dono.
       Uma submissa, quando vê seu Dono numa situação de estar se expondo ao ridículo, se expondo às chacotas, se expondo à possibilidade de ser explorado ou humilhado; essa submissa sofre muito. Sofre, talvez, mais do que o próprio. Qualquer pequena dor, qualquer pequena humilhação sofrida por esse Homem, dói em nós muito mais do que qualquer castigo, qualquer humilhação, qualquer dor de que já se tenha idéia.
       Mas, e isso é reconfortante perceber, qualquer que seja a reação, mesmo exposta a possibilidade de ser mal interpretada, a verdadeira submissa jamais deixará, em momento algum, de (tentar) proteger e cuidar do Homem que elegeu para seu Dono e Senhor.


"(...) Faço lelê de fubá
Faço pitu no dendê
Sirvo seu pitéu na cama
E nada dele comer, ai
Telefone, é voz de dama
Se penteia pra atender (...)"
(Chico Buarque)


13/02/2002 - quarta-feira de cinzas, cinzenta em Curitiba.