Observando mais
atentamente não me pareceu um abuso, nem tampouco
o deleite uma questão de deboche ou cinismo. Me
pareceu mais que isso: há uma entrega nessa relação.
A areia se entrega, em tempo integral, à dominação
do mar.
Outra
coisa que me chamou a atenção foi que a entrega
é bilateral. Embora não se trate de uma mesma entrega:
a areia se entrega, submissa, ao mar. E a dominação
que o mar exerce, não deixa de ser uma forma de
entrega. Portanto, a entrega é mútua. Sem nenhuma
sombra de revelia. A areia quer a dominação do mar;
e este, por sua vez, deseja dominar a areia.
“Quem
ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora,
é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui
o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem
ignorando ofendeu, em rigor não é delinqüente. Quem
ignorando amou, em rigor não é amante.”[1]
Assim me pareceu a entrega da areia ao mar. Não
há ignorância ali. Cada qual tem a noção exata da
presença, do poder e dos limites do outro.
Minha
primeira conclusão: não há entrega à distância,
não há entrega virtual. A entrega requer presença.
“Os homens
não amam aquilo que cuidam que amam. Por quê? Ou
porque o que amam não é o que cuidam, ou porque
amam o que verdadeiramente não há. Quem estima vidros,
cuidando que são diamantes, diamantes estima, e
não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são
perfeições, perfeições ama, e não defeitos. Cuidais
que amais diamantes de firmeza, e amais vidros de
fragilidade; cuidais que amais perfeições angélicas,
e amais imperfeições humanas. Logo, os homens não
amam o que cuidam. Donde também se segue que amam
o que verdadeiramente não há, porque amam as coisas,
não como são, senão como as imaginam, e o que se
imagina e não é, não o há no mundo.
(...)
Os homens amam muitas coisas, que as não há no mundo.
Amam as coisas como as imaginam, e as coisas como
eles a imaginam, havê-las-á na imaginação, mas no
mundo não as há.”[2]>
O
termo entrega na relação D/s, 24/7 ou não, aparece
quotidianamente nos sites sobre BDSM e nas discussões
sobre as formas de relação. Entretanto, é muito
difícil definir ou simplesmente compreender. Temos
uma idéia geral de relação D/s como uma relação
em que uma pessoa domina e outra é dominada. Ou
então, mais genericamente ainda, apenas como uma
das muitas formas de manifestação de relação SM.
Se
alguma dessas definições nos dá uma imagem (ainda
que genérica) do que venha a ser relação D/s, ainda
assim não ajuda a compreendermos todas as suas facetas.
Há na relação D/s um universo de facetas e aspectos
a serem considerados. E, ao mesmo tempo, em que
há a urgência em compreender suas estruturas, também
há a impossibilidade de listá-las. Justamente por
se atribuir, a cada um desses aspectos, os mais
variados graus de importância dentro de cada relação
D/s que se tem notícia. E a entrega é apenas uma
das facetas da relação D/s. Na minha opinião a mais
importante das facetas.
A
entrega numa relação de D/s é sempre um assunto
controvertido e causador de polêmica. Naturalmente
cada um de nós tem a sua própria concepção sobre
a entrega. E cada concepção traz consigo seu aspecto
mais relevante da ordem pessoal com que cada um
vê a situação.
Bacon afirmava
que todo conhecimento humano vem de um mundo de
sensações. Locke, que todas as idéias humanas nascem
em função dos sentidos.
É o que torna
mais difícil ainda a compreensão da entrega. Não
é palpável. É abstrata, nascendo diretamente dos
sentidos.
Dominar uma
pessoa é deixar-se refletir nela. A submissa não
é senão a energia refletida do seu Dono. O que confere
vida emotiva e racional a submissa, durante a sessão
ou mesmo fora dela, é a presença direta e atuante
do Dominador sobre ela – um objeto. Entregar-se
é deixar fluir esse reflexo de maneira natural.
Da mesma forma que o mar flui tranqüilamente na
areia da praia.
É
preciso que se compreenda que a entrega numa relação
D/s ainda não é uma forma consagrada, mas também
não é a praça de comércio que se pensa, onde você
paga e recebe alguma coisa. Entrega é diferente.
É mais como pão, mais como a necessidade. É uma
forma de religião. E é divertido. Prega sermões
e constrói um ritual independente, onde os participantes
tentam alçar suas vidas à altura da pureza e arrebatamento
das ações de que participam.
Não sei para
onde cada um de nós será levado nessa caminhada.
Mas sei que para algum lugar eu irei – iremos –
juntos ou separados, isso não importa mais. Nos
encontraremos em algum ponto do universo, talvez
no seu próprio centro, como nos encontramos
neste pequeno tempo presente que tanto tem nos transformado.
Já sei
também que é bom sentir o vento, o fogo, a água
e a terra – todos os elementos da natureza – em
sua plenitude. Aprendi ainda que somos pequenos,
uma partícula mínima do cosmo e no entanto, somos
grandes e talvez eternos. Não
sei quantas atribulações virão pela frente. Não
sei os obstáculos, as dificuldades, as dúvidas e
incertezas. Sei apenas, através do que já vi nessa
minha entrega, que o paraíso pode ser alcançado
um dia.
lan@
{MC} em 12-04-2002
final
de tarde quente e tranqüila no litoral catarinense.