Bondage & Disciplina
Dominação/submissão
SadoMasoquismo

Fetiches
 
Busque neste site
powered by FreeFind

 

ENTREGA

lan@
 

Ontem fui ver o mar. Tenho ido sempre. Mas ontem foi diferente. Sentada num banco do calçadão, fiquei observando as repetidas vezes com que as ondas chegam na areia. Me lembrei de uma música antiga: “o mar passa saborosamente / (o quê?) / a língua / (aonde?) / na areia / que bem debochada / cínica que é / permite deleitar-se nos abusos do mar...”


Observando mais atentamente não me pareceu um abuso, nem tampouco o deleite uma questão de deboche ou cinismo. Me pareceu mais que isso: há uma entrega nessa relação. A areia se entrega, em tempo integral, à dominação do mar.
Outra coisa que me chamou a atenção foi que a entrega é bilateral. Embora não se trate de uma mesma entrega: a areia se entrega, submissa, ao mar. E a dominação que o mar exerce, não deixa de ser uma forma de entrega. Portanto, a entrega é mútua. Sem nenhuma sombra de revelia. A areia quer a dominação do mar; e este, por sua vez, deseja dominar a areia.

“Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem ignorando ofendeu, em rigor não é delinqüente. Quem ignorando amou, em rigor não é amante.”[1]

Assim me pareceu a entrega da areia ao mar. Não há ignorância ali. Cada qual tem a noção exata da presença, do poder e dos limites do outro.

Minha primeira conclusão: não há entrega à distância, não há entrega virtual. A entrega requer presença.

“Os homens não amam aquilo que cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é o que cuidam, ou porque amam o que verdadeiramente não há. Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima, e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama, e não defeitos. Cuidais que amais diamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas. Logo, os homens não amam o que cuidam. Donde também se segue que amam o que verdadeiramente não há, porque amam as coisas, não como são, senão como as imaginam, e o que se imagina e não é, não o há no mundo.
(...) Os homens amam muitas coisas, que as não há no mundo. Amam as coisas como as imaginam, e as coisas como eles a imaginam, havê-las-á na imaginação, mas no mundo não as há.”[2]>

O termo entrega na relação D/s, 24/7 ou não, aparece quotidianamente nos sites sobre BDSM e nas discussões sobre as formas de relação. Entretanto, é muito difícil definir ou simplesmente compreender. Temos uma idéia geral de relação D/s como uma relação em que uma pessoa domina e outra é dominada. Ou então, mais genericamente ainda, apenas como uma das muitas formas de manifestação de relação SM.

Se alguma dessas definições nos dá uma imagem (ainda que genérica) do que venha a ser relação D/s, ainda assim não ajuda a compreendermos todas as suas facetas. Há na relação D/s um universo de facetas e aspectos a serem considerados. E, ao mesmo tempo, em que há a urgência em compreender suas estruturas, também há a impossibilidade de listá-las. Justamente por se atribuir, a cada um desses aspectos, os mais variados graus de importância dentro de cada relação D/s que se tem notícia. E a entrega é apenas uma das facetas da relação D/s. Na minha opinião a mais importante das facetas.

A entrega numa relação de D/s é sempre um assunto controvertido e causador de polêmica. Naturalmente cada um de nós tem a sua própria concepção sobre a entrega. E cada concepção traz consigo seu aspecto mais relevante da ordem pessoal com que cada um vê a situação.

Bacon afirmava que todo conhecimento humano vem de um mundo de sensações. Locke, que todas as idéias humanas nascem em função dos sentidos.

É o que torna mais difícil ainda a compreensão da entrega. Não é palpável. É abstrata, nascendo diretamente dos sentidos.

Dominar uma pessoa é deixar-se refletir nela. A submissa não é senão a energia refletida do seu Dono. O que confere vida emotiva e racional a submissa, durante a sessão ou mesmo fora dela, é a presença direta e atuante do Dominador sobre ela – um objeto. Entregar-se é deixar fluir esse reflexo de maneira natural. Da mesma forma que o mar flui tranqüilamente na areia da praia.

É preciso que se compreenda que a entrega numa relação D/s ainda não é uma forma consagrada, mas também não é a praça de comércio que se pensa, onde você paga e recebe alguma coisa. Entrega é diferente. É mais como pão, mais como a necessidade. É uma forma de religião. E é divertido. Prega sermões e constrói um ritual independente, onde os participantes tentam alçar suas vidas à altura da pureza e arrebatamento das ações de que participam.

Não sei para onde cada um de nós será levado nessa caminhada. Mas sei que para algum lugar eu irei – iremos – juntos ou separados, isso não importa mais. Nos encontraremos em algum ponto do universo, talvez no seu próprio centro, como nos encontramos neste pequeno tempo presente que tanto tem nos transformado. Já sei também que é bom sentir o vento, o fogo, a água e a terra – todos os elementos da natureza – em sua plenitude. Aprendi ainda que somos pequenos, uma partícula mínima do cosmo e no entanto, somos grandes e talvez eternos. Não sei quantas atribulações virão pela frente. Não sei os obstáculos, as dificuldades, as dúvidas e incertezas. Sei apenas, através do que já vi nessa minha entrega, que o paraíso pode ser alcançado um dia.

lan@ {MC} em 12-04-2002
final de tarde quente e tranqüila no litoral catarinense.