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AINDA A SAFEWORD...

lan@ 

 

Sem dúvida, é um tema recorrente tanto nas conversas de chat, quanto em textos, ou nas listas de discussão. Muito certamente pela controvérsia que causa. Há algum tempo escrevi um texto para o Desejo Secreto em que falava que não compreendia a adoção de uma "lista" de limites na relação BDSM. Fui muito repreendida e incompreendida. Até hoje ainda tento explicar que há uma diferença abismal entre ter uma "lista" de limites e "não ter" limites.

Quando eu afirmei que nas minhas relações BDSM eu não tinha uma "lista" oficial de limites, eu não quis dizer que sou uma submissa sem limites, daquelas que suportam todo e qualquer tipo de tortura. O que eu defendia era a idéia implícita de que se uma pessoa começa um relacionamento BDSM, ela o faz depois de muito conversar com o seu parceiro. Ou seja: a maior parte das fantasias, das dúvidas, dos medos, dos anseios e das expectativas de um e de outro já foram (supostamente) deixados bem claros.
Nesse caso, não faria sentido uma "lista" de limites. O básico (que não entraria na relação em hipótese alguma) já estaria devidamente esclarecido. As práticas onde reinasse a dúvida sobre a possibilidade de praticar ou não iriam sendo descobertas com o tempo. Estaria aí a possibilidade sempre aberta de expansão dos limites.

O que muita gente não compreendeu na época, é que quando eu falava sobre não ter "lista" de limites, não estava incluindo a possibilidade de não haver a safeword. Eu tenho minha palavra de segurança e não abro mão dela em hipótese alguma.

E não o faço com base no mesmo fundamento em que concluo que não consigo oficializar uma "lista" de limites. E não consigo listar limites por uma só razão: a dificuldade em se determinar os limites. Como determinar limites? O que não é óbvio, é abstrato!

Exemplo de um limite óbvio para mim (sem querer desmerecer a fantasia de ninguém): necrofilia e zoofilia. Do outro lado, o abstrato: como determinar o quanto posso suportar de dor num spanking? Eu sei, por exemplo, que melhorei muito a minha capacidade para suportar a dor, desde que comecei a praticar BDSM. Posso até dizer que aprendi não só a suportar a dor, como também tirar prazer dela.

Claro que é um exemplo abstrato demais. Até porque uma pessoa que defenda a relação BDSM sem a safeword, poderia argumentar que numa sessão de tortura física o Dominador/Sádico poderia perceber quando o submisso está chegando à beira do limite. Concordo plenamente. Pode ser muito fácil perceber isso. Mas, em se falando de safeword, minha maior preocupação não reside nas sessões de tortura física e sim nas sessões de tortura psicológica.

Como pode um Dominador saber/perceber que tocou em algo que mexe profundamente com o equilíbrio emocional da sua submissa? Isso partindo do pressuposto de que todos temos dentro de nós nossas fobias, nossas neuroses, nossos traumas, etc. E digo isso com a convicção que tenho de nem eu mesma saber de toda a extensão dos meus medos, traumas e fobias. Então, como poderia meu Dono saber?

Para exemplificar, lembrei-me de um fato ocorrido comigo: há algumas semanas, eu e meu Dono passamos uma semana em Manaus. Cartão postal da cidade: passeio de barco para ver o encontro das águas do Rio Negro com o Rio Solimões. Delícia de espetáculo. Depois de ver o encontro das águas, fizemos um passeio (num barco menor) pelos igapós (floresta alagada). Cenário de filme ou de documentário. Eu estava me divertindo muito. Num determinado momento do passeio, o guia nos avisou que iríamos fazer uma parada num flutuante, para ver como morava a grande maioria dos habitantes dali. Ele nos avisou também que as crianças da casa nos trariam alguns animais silvestres para que pudéssemos ver, pegar, fotografar, filmar, etc. Falou em arara, bicho-preguiça, jacaré, cobra, macacos, etc.

Quando ele falou "cobra" eu fiquei paralisada. Eu sempre soube que tinha medo de cobra. Sou daquelas pessoas que não conseguem ficar vendo uma cobra num filme. Meu Dono me olhou e me disse que era uma excelente oportunidade para vencer aquele medo, uma vez que eu nunca tinha estado realmente perto de uma cobra. Concordei com ele. Hora de acabar com medos infundados. Eu fui a primeira a descer do barco quando chegamos ao flutuante e a primeira coisa que escutei foi o alarido das crianças chegando com os animais. As crianças fazem grande festa quando chegam os turistas, porque é de praxe eles darem uma gratificação para elas, que trazem os bichos.

Quando olhei para o lado do alarido a primeira coisa que vi foram duas meninas, cada uma delas trazendo nos ombros uma cobra. Daquelas enormes. Sucuris mesmo. Senti minhas pernas amolecerem e vi que o guia se preocupou (devo ter empalidecido) e comecei a tremer e a repetir continuadamente: "não vou descer do barco, não deixe essas cobras perto de mim." Ao que o guia me respondeu que eu não poderia ficar no barco pois era perigoso. E eu repetia que não ficaria no mesmo lugar com aquelas cobras. Então o guia me levou para o outro lado do flutuante, avisando as crianças para não trazerem as cobras perto de mim. Ele me dizia que eram cobras criadas pelos nativos e que não atacavam. Então eu disse para ele que se uma delas chegasse perto de mim, eu pularia na água. Detalhe: além de não saber nadar, fui informada pelo guia que o rio era infestado de piranhas.

Mas tinha absoluta certeza de que se aquelas cobras se aproximassem de mim, eu preferiria pular na água. Bem... as crianças receberam as gratificações pela exposição dos animais e os levaram embora. Então pude me acalmar e voltar para junto dos outros (meu Dono inclusive, que estava atarefadíssimo filmando os bichos...). Passada essa experiência, pude concluir que na verdade não tenho medo de cobras. Tenho pavor. Fobia mesmo. E se nem eu mesma sabia disso até algumas semanas atrás, como outra pessoa poderia supor isso? Lógico que meu Dono nunca imaginou fazer uma sessão usando uma cobra (suponho... risos), mas gosto de pensar nisso como um exemplo de que nem nós mesmos podemos dizer que sabemos de tudo a nosso próprio respeito.

Fundamentada nessa conclusão, que é minha e não serve de regra para todo o resto do mundo, me pergunto como poderia estabelecer uma lista de limites se nem eu mesma sei de todas as coisas de que tenho medo, por exemplo. Pelo mesmo motivo, como poderia abolir o uso da safeword? Se eu tivesse uma "lista" de limites ou se abrisse mão da safeword, o que aconteceria comigo se meu Dono aparecesse numa sessão (antes da viagem para Manaus) com uma cobra? Eu não poderia reclamar, pois não fazia parte da minha lista de limites e não teria uma safeword para dizer... portanto, provavelmente, morreria surtada pela simples presença do pobre réptil.

Claro que meu exemplo pode parecer simplista para uns ou exagerado para outros, mas a pergunta é óbvia: como saber, com certeza, o que me provoca medo ou o que me evocaria um trauma, uma fobia, ou uma aversão incontrolável? Não creio que meu Dono queira para si a responsabilidade de trazer à tona alguma coisa que me faça sofrer mais do que o necessário para proporcionar o nosso almejado prazer. Uma dor, um suplício ou um sofrimento que possa trazer para mim alguma conseqüência física ou emocional grave não é nosso fetiche, nem nosso objetivo. Por mais preparo que acredito que meu Dono tenha, por mais confiança que deposite nele, eu acredito que certas coisas só eu mesma posso determinar o limite... e na hora em que elas estiverem acontecendo. Nem antes, nem depois. Portanto, minha safeword é indispensável. Assim como também não dispensamos o carinho e o respeito com que tratamos a nós mesmo e a nossa relação.


lan@ {MC}