Tenho por hábito acompanhar algumas listas
de discussão cujo assunto é o BDSM.
Porém, não tenho o hábito
de me manifestar. Em algumas circunstâncias,
talvez até quisesse, mas falta tempo. Em
outras, o assunto não me soa apaixonante.
No entanto, há algumas semanas atrás,
surgiu um assunto na lista que me pareceu interessantíssimo
e, para minha surpresa, não rendeu mais
do que duas ou três mensagens. Na época,
não me manifestei por estar em viagem e,
consequentemente, com pouco tempo para um assunto
que, a meu ver, merece bastante cuidado. Então
resolvi me manifestar agora. Por duas razões
resolvi escrever sobre esse assunto aqui no Desejo
Secreto. Primeiramente, porque há algum
tempo atrás, nessa mesma coluna eu falei
sobre o assunto. A segunda razão é
porque comecei a ver a situação
por outros ângulos e me pareceu correto
revisar os conceitos. O assunto em questão
era: "a submissão como presente".
Na lista de discussão dizia-se que é
uma característica de textos americanos,
passar a idéia de que a submissão
é como um presente que se dá alguém.
Mas, aqui entre nós brasileiros, essa idéia
também é recorrente. Lembro-me de
que quando comecei a freqüentar os chats,
ouvi sobre isso numa sala e fiquei maravilhada
com a idéia. Era lindo pensar na minha
submissão como um presente para meu Dominador
escolhido. E foi isso que escrevi num dos textos
que publiquei aqui.
Uma das mensagens da lista que me chamou a atenção,
assinalava que a idéia de "presente"
parece aquela coisa de antigamente, de se "guardar"
a virgindade para o homem escolhido. E parece
mesmo. Hoje me parece engraçado pensar
em "mocinhas" iniciantes, "guardando"
sua submissão especial para o homem especial.
Não que a submissão
não seja algo especial, é. Mas não
pode ser tratada como um presente. Senão
vejamos: quando gosto muito de uma pessoa, uma
das maneiras de demonstrar isso é dando
um presente, certo? Então, vou até
ao shopping e escolho com imenso carinho e cuidado
algo que, penso, irá agradar essa pessoa.
Mas, nessas circunstâncias, quando dou um
presente para uma pessoa, normalmente, não
estou esperando outro presente em troca. É
um carinho, é um agrado desinteressado.
Dar um presente, esperando outro em troca é,
no mínimo, um ato exclusivamente interesseiro.
Sabe-se que a base de toda relação
BDSM é a TEP (Troca Erótica de Poder),
então, se é uma "troca",
nada pode ser considerado um presente. Mesmo quem
não acredita na teoria da TEP, vai verificar
que em TODA relação há troca.
Relações sem troca estão
fadadas ao fracasso. Quem nunca ouviu falar da
mulher que se separou do marido porque ela fazia
tudo para ele, e ele nem a notava, nem lhe dava
atenção. Não havia troca.
Quem não tem (ou teve) uma amiga, daquelas
que liga (ou ligava) sempre pra contar seus problemas,
mas nunca estava com disposição
para fazer o mesmo em nosso favor. Numa situação
assim, mais cedo ou mais tarde, a relação
acaba. Não há troca. Mesmo as pessoas
mais desprendidas sempre estão numa relação
de troca. Até as pessoas ditas santas.
Elas dão amor dito desinteressado ao próximo,
mas, na verdade, em última análise,
elas querem o bem-estar desse próximo,
portanto, terão algo em troca do seu amor
- aparentemente - desinteressado.
Numa das mensagens sobre o assunto na lista, alguém
falou que considerar a submissão um presente
é como vincular o BDSM ao encontro do "grande
amor". Ao que outra pessoa considerou que
mesmo quando se vincula o BDSM ao amor, a submissão
não deve ser encarada como um presente.
Não existem, na minha concepção,
relações em que se dê algo
e não se queira nada em troca. O sádico
humilha, castiga, encarcera, faz o que bem entende
com o masoquista e ele não recebe nada
em troca? Balela! O masoquista, à exemplo
do submisso dá o que tem e recebe de volta
o que gosta. Na mesma proporção
o sádico dá o que tem e recebe de
volta o que gosta. Não há "presente"
nessa relação. É uma relação
de troca, pura e simples troca.
Numa última análise, hoje me parece
que considerar a submissão um "presente"
é como fazer uma concessão, um favor.
Para uma iniciante no meio, tudo parece lindo,
delicioso, completo e inquestionável. Dar
"de presente" a submissão para
alguém soa assim como um ato de abnegação
ou altruísmo. Uma coisa maior, elevada,
longe da compreensão dos "pobres mortais"
que desconhecem o significado de "ser submissa".
Ou seja, de tanta "humildade" aparente
no meu gesto, o que parece mais é que eu
me considero acima de tudo e de todos por ser
submissa e poder "dar de presente" a
minha submissão para alguém. Depois
de muito pensar, estou com a impressão
de que tudo não passa de excesso de vaidade.
Hoje considero que minha submissão não
é um "presente", algo divino,
que dou para meu escolhido. Minha submissão
faz parte do meu fetiche e é uma necessidade
minha. Não uma "escolha" feita
numa vitrine de boutique. Não sou submissa/masoquista
por escolha, sou assim e pronto. Não cabe
aqui discutir o porquê. Não optei
por ser submissa/masoquista, optei sim por viver/assumir
isso. A submissão é a minha fantasia,
que uma vez exposta e assumida, passa a fazer
parte da minha personalidade e caracterizar minhas
preferências eróticas. Apenas isso.
Nem mais, nem menos.
lan@ {MC} em 08/08/2003
aguardando a chegada do verão no litoral
catarinense.