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DESMISTIFICANDO O SADOMASOQUISMO

Mestre Hugo Steel




       Introdução

       Primeiramente, quero dizer a todos da minha grande alegria e satisfação ao inaugurar minha coluna aqui no site do Desejo Secreto. Além da grande honra, sinto-me também extremamente feliz pela receptividade com que minhas idéias foram acolhidas aqui no Brasil.
       Gostaria de ressaltar que iniciativas como esta, de pensar e repensar o sadomasoquismo no Brasil, são deveras importantíssimas, uma vez que já passamos a fase embrionária do surgimento do movimento e nos encaminhamos agora para uma das fases mais importantes de nosso processo, que é a de descobrir e pensar nossa própria identidade e trajetória enquanto adeptos do SM BRASILEIRO que somos e que, por morarem em um país tropical, com uma diversidade cultural, étnica e social tão grande, não podem simplesmente aceitar idéias trazidas do exterior como se fossem verdades únicas.
        Temos que criar a consciência de que vivemos hoje um momento riquíssimo, único e por que não dizer, histórico do ponto de vista do sadomasoquismo no Brasil, ou seja, é muito importante que espaços como este surjam e sejam preservados para fomentar cada vez mais as idéias e as discussões construtivas sobre o assunto. E, sem qualquer dúvida, coisas pequenas como brigas, picuinhas, preconceito, ignorância, vaidades pessoais, etc, devem ser postas de lado, em detrimento daquilo que nos une, que é o BDSM.
        E foi com esse pensamento que intitulei minha coluna de DESMISITIFICANDO O SADOMASOQUISMO NO BRASIL.
        Nela, pretendo, de forma nítida e direta, desfazer todos aqueles equívocos, superstições e pré-conceitos sobre esse assunto tão polêmico.
        Além de publicar aqui meus artigos, este espaço também está aberto a todos aqueles que tiverem alguma dúvida e que queiram perguntar e aprender cada vez mais.
        Quero ressaltar que não é minha postura posar de dono da verdade e, sendo assim, este espaço está aberto ao debate, desde que o mesmo seja feito de forma construtiva e civilizada. Serão também muito bem-vindas as sugestões e criticas pertinentes.
        Na verdade, a idéia para o nome desta coluna veio de uma antiga matéria que me foi encomendada para o site de um motel no Rio Grande do Sul. Sendo assim, acho justo que seja ela a inaugurar este espaço. Além do mais, ela mostra de forma bem ampla o que é, na realidade, o tão famoso e falado sadomasoquismo.


       Desmistificando o sadomasoquismo

       O termo sadomasoquismo já trás em si uma carga bastante pesada e pejorativa. Outras palavras, como carrasco e tortura, que vem a reboque, só reforçam as idéias implícitas de maldade, perversão, violência e crueldade, ainda que não realmente pertinentes à palavra sadomasoquismo. No Brasil talvez isso se deva ao fato de que o povo está ainda com seu inconsciente coletivo traumatizado pelas barbaridades e atrocidades cometidas durante o regime escravocrata e a ditadura militar ainda tão recente, mas isso é apenas conjectura. A palavra sádico, por exemplo, ainda é associada à conduta perversa ou criminosa. Mas o sadomasoquismo é algo totalmente diferente dessas idéias distorcidas. E para entendê-lo realmente, em toda a sua extensão, podemos começar pela etimologia da palavra.

Sadomasoquismo: a palavra em si não consta de nenhum dicionário. Na verdade, ela é a aglutinação da palavra sadismo com a palavra masoquismo. Então, vejamos:

Sadismo: s. m. 1. Perversão sexual daquele que procura aumentar a intensidade do prazer venéreo, produzindo sofrimento em outrem. 2. Prazer no sofrimento alheio.

Masoquismo: s. m. 1. Perversão sexual em que o indivíduo anormal só satisfaz o desejo erótico quando sofre violências físicas ou psíquicas. 2. Por ext. Prazer que se sente com o próprio sofrimento.

       Então, por aglutinação:

Sadomasoquismo: termo derivado do livro do marquês de Sade (Os Cento e Vinte Dias de Sodoma) e do livro de Lepold von Sacher-Masoch (A Vênus Castigadora), leituras obrigatórias para qualquer um que queira aprofundar-se no assunto. É uma prática sexual na qual a obtenção do prazer sexual se dá através do ato de infligir ou sofrer dor, humilhação moral ou verbal, ou, ainda, dominação psíquica para atingir o orgasmo. Seus adeptos se dividem em dois grandes grupos:

Mestres: são os indivíduos que ocupam um papel ativo na relação e que chegam ao prazer e ao orgasmo sexual infringindo dor física, humilhações ou a dominação psíquica de seus parceiros.

Escravos: São os indivíduos que ocupam um papel passivo na relação e que chegam ao prazer e ao orgasmo sexual sofrendo dor física, humilhações e a dominação psíquica por parte de seus parceiros.

       Há várias classificações dentro do SM que servem apenas para determinar a forma e o grau de sadomasoquismo de cada um. Mas isso nada mais é do uma questão semântica, à qual não me oponho de forma alguma. Porém, prefiro um outro tipo de nomenclatura, tradução da utilizada na Europa, e também a acho, de certa forma, mais simples:

Sadomasoquismo leve (sm light): como o próprio nome já diz, é uma modalidade leve, que inclui apenas humilhações físicas, verbais e morais. Sua maior característica é a não utilização de dor física durante as sessões. Ex: xingar o parceiro, desprezá-lo, vesti-lo de empregada e obrigá-lo a limpar a casa, ou então vesti-lo de mulher (caso o parceiro seja homem), obrigando-o a usar maquiagem, fazê-lo animalzinho de estimação ou de cachorrinho, obrigando-o a ficar de quatro e usar coleira, etc.

Sadomasoquismo clássico (sm classic): nesta modalidade o que mais interessa ao Mestre que conduz a sessão é a relação de dor física e prazer sexual que ele poderá imputar a seu escravo. Neste caso, humilhações tanto verbais quanto morais não são fundamentais, mas eventualmente poderão fazer parte da sessão. Ex.: utilizam-se técnicas específicas, tais como, uso de chicotes, cera de vela quente e, até mesmo, choques elétricos.

Sadomasoquismo pesado (sm heavy): esta modalidade não se contenta apenas com humilhações ou relação entre dor e prazer, pois há casos documentados de pessoas que, depois de atingirem um elevado grau de tolerância a dor, em sua busca por mais prazer e, conseqüentemente, mais dor, chegaram a pedir a seus parceiros que lhes amputassem a primeira falange de um dos dedos (sem anestesia e com um serrote) ou, ainda pior, uma castração. Talvez seja a forma mais limítrofe entre o prazer saudável e o doentio.

        Convém lembrar que a palavra sadomasoquismo engloba tanto dominadores quanto submissos; sendo assim, essa subdivisão vale para ambos.
        E é também sempre bom ressaltar que, no Brasil, por causa de nossa pouca experiência, ainda não sabemos direito o que é sadomasoquismo, rotulando como sádico alguém que não se preocupa com o prazer do companheiro e, sim, apenas com o próprio; e o masoquista, por extensão, como sendo aquele cujo prazer está apenas em proporcionar prazer ao companheiro, colocando o próprio em segundo plano.
        Na verdade, há também esse tipo de sadismo e de masoquismo que, aliás, não tem nada de errado, uma vez que, por tratar-se de um jogo sexual, suas regras baseiam-se nos mesmos princípios que coordenavam as sociedades escravocratas desde o início dos tempos. Ou seja, ao Mestre tudo é permitido, pelo simples fato de ele ser o Mestre, o Todo Poderoso, aquele de quem tudo parte e para quem tudo converge, porque ele é o mais forte da relação. Enquanto que, para o escravo, é reservado apenas e tão somente o lugar de escravo, o mais desprezível dos seres, aquele que nada tem, nem jamais terá, porque ele é o mais fraco da relação, e como tal deve ser subjugado pelo mais forte, pelo predominante, exatamente como na maioria das sociedades animais, das quais, aliás, derivamos. Mas isso é outra história.
        Mas o verdadeiro sadomasoquismo é aquele no qual o Mestre preocupa-se em explorar a dor e o prazer de seu escravo, enquanto este se preocupa em proporcionar o máximo de prazer ao seu Mestre através de sua dor. Na Europa e nos EUA., hoje em dia, o sadomasoquismo, que também é conhecido pela sigla SM, além de ser visto como uma prática sexual segura, também é visto como uma forma de relacionamento humano, pois há parceiros SM monogâmicos, estáveis (no aspecto emocional) e de uniões duradouras (conheço casais com dez e até quinze anos de relacionamento).
        Com os fenômenos de divulgação em massa da informação através da mídia em geral e da globalização da mesma pela internet, foi inevitável o debate e o estudo do sadomasoquismo. Isso nos levou a chegar a certas conclusões, sobre os desdobramentos de alguns elementos encontrados anteriormente apenas como coadjuvantes durante as sessões SM e que, com o passar do tempo, se elevaram à categoria de uma nova forma de prazer sexual, diferenciando-a e separando-a definitivamente do seu ramo original que é o sadomasoquismo.
        Esse é o caso do BD (bondage), das cócegas (tickling) e da podolatria (bare foot) e de inúmeras outras formas alternativas de SM, em geral mais brandas. O mesmo acontece com as formas mais cruéis e violentas, como o espancamento (spanking), a coprofilia (ou banho negro: defecar sobre o parceiro) e os chamados water sports (banho dourado: consiste em urinar sobre o parceiro).
        O principal é que, seja como for, o praticante sinta-se livre para colocar para fora suas fantasias, exercite sua imaginação e realize seus desejos sempre de forma consensual, segura e sadia, pois é isso que diferencia uma sessão SM de uma sessão de tortura pura e simples.
        Sadomasoquismo é torturar, sim, mas com o consentimento do parceiro, sempre atento a sua segurança e a dele, de forma a garantir que a realização de seus desejos mais íntimos lhe tragam, sempre, equilíbrio emocional e psicológico.