Introdução
Primeiramente,
quero dizer a todos da minha grande alegria e satisfação
ao inaugurar minha coluna aqui no site do
Desejo
Secreto. Além da grande honra, sinto-me também
extremamente feliz pela receptividade com que minhas
idéias foram acolhidas aqui no Brasil.
Gostaria
de ressaltar que iniciativas como esta, de pensar
e repensar o sadomasoquismo no Brasil, são deveras
importantíssimas, uma vez que já passamos a fase
embrionária do surgimento do movimento e nos encaminhamos
agora para uma das fases mais importantes de nosso
processo, que é a de descobrir e pensar nossa própria
identidade e trajetória enquanto adeptos do SM BRASILEIRO
que somos e que, por morarem em um país tropical,
com uma diversidade cultural, étnica e social tão
grande, não podem simplesmente aceitar idéias trazidas
do exterior como se fossem verdades únicas.
Temos
que criar a consciência de que vivemos hoje um momento
riquíssimo, único e por que não dizer, histórico
do ponto de vista do sadomasoquismo no Brasil, ou
seja, é muito importante que espaços como este surjam
e sejam preservados para fomentar cada vez mais
as idéias e as discussões construtivas sobre o assunto.
E, sem qualquer dúvida, coisas pequenas como brigas,
picuinhas, preconceito, ignorância, vaidades pessoais,
etc, devem ser postas de lado, em detrimento daquilo
que nos une, que é o BDSM.
E foi
com esse pensamento que intitulei minha coluna de
DESMISITIFICANDO O SADOMASOQUISMO NO BRASIL.
Nela,
pretendo, de forma nítida e direta, desfazer todos
aqueles equívocos, superstições e pré-conceitos
sobre esse assunto tão polêmico.
Além
de publicar aqui meus artigos, este espaço também
está aberto a todos aqueles que tiverem alguma dúvida
e que queiram perguntar e aprender cada vez mais.
Quero
ressaltar que não é minha postura posar de
dono
da verdade e, sendo assim, este espaço está
aberto ao debate, desde que o mesmo seja feito de
forma construtiva e civilizada. Serão também muito
bem-vindas as sugestões e criticas pertinentes.
Na verdade,
a idéia para o nome desta coluna veio de uma antiga
matéria que me foi encomendada para o site de um
motel no Rio Grande do Sul. Sendo assim, acho justo
que seja ela a inaugurar este espaço. Além do mais,
ela mostra de forma bem ampla o que é, na realidade,
o tão famoso e falado sadomasoquismo.
Desmistificando o sadomasoquismo
O termo
sadomasoquismo já trás em si uma carga bastante
pesada e pejorativa. Outras palavras, como carrasco
e tortura, que vem a reboque, só reforçam as idéias
implícitas de maldade, perversão, violência e crueldade,
ainda que não realmente pertinentes à palavra sadomasoquismo.
No Brasil talvez isso se deva ao fato de que o povo
está ainda com seu inconsciente coletivo traumatizado
pelas barbaridades e atrocidades cometidas durante
o regime escravocrata e a ditadura militar ainda
tão recente, mas isso é apenas conjectura. A palavra
sádico, por exemplo, ainda é associada à conduta
perversa ou criminosa. Mas o sadomasoquismo é algo
totalmente diferente dessas idéias distorcidas.
E para entendê-lo realmente, em toda a sua extensão,
podemos começar pela etimologia da palavra.
Sadomasoquismo: a palavra em si não consta
de nenhum dicionário. Na verdade, ela é a aglutinação
da palavra sadismo com a palavra masoquismo. Então,
vejamos:
Sadismo: s. m. 1. Perversão sexual daquele
que procura aumentar a intensidade do prazer venéreo,
produzindo sofrimento em outrem. 2. Prazer no sofrimento
alheio.
Masoquismo: s. m. 1. Perversão sexual em
que o indivíduo anormal só satisfaz o desejo erótico
quando sofre violências físicas ou psíquicas. 2.
Por ext. Prazer que se sente com o próprio sofrimento.
Então, por aglutinação:
Sadomasoquismo: termo derivado do livro do marquês
de Sade (
Os Cento e Vinte Dias de Sodoma)
e do livro de
Lepold
von Sacher-Masoch (
A Vênus Castigadora),
leituras obrigatórias para qualquer um que queira
aprofundar-se no assunto. É uma prática sexual na
qual a obtenção do prazer sexual se dá através do
ato de infligir ou sofrer dor, humilhação moral
ou verbal, ou, ainda, dominação psíquica para atingir
o orgasmo. Seus adeptos se dividem em dois grandes
grupos:
Mestres: são os indivíduos que ocupam um
papel ativo na relação e que chegam ao prazer e
ao orgasmo sexual infringindo dor física, humilhações
ou a dominação psíquica de seus parceiros.
Escravos: São os indivíduos que ocupam um
papel passivo na relação e que chegam ao prazer
e ao orgasmo sexual sofrendo dor física, humilhações
e a dominação psíquica por parte de seus parceiros.
Há várias classificações dentro do SM que
servem apenas para determinar a forma e o grau de
sadomasoquismo de cada um. Mas isso nada mais é
do uma questão semântica, à qual não me oponho de
forma alguma. Porém, prefiro um outro tipo de nomenclatura,
tradução da utilizada na Europa, e também a acho,
de certa forma, mais simples:
Sadomasoquismo leve (sm light): como o próprio
nome já diz, é uma modalidade leve, que inclui apenas
humilhações físicas, verbais e morais. Sua maior
característica é a não utilização de dor física
durante as sessões. Ex: xingar o parceiro, desprezá-lo,
vesti-lo de empregada e obrigá-lo a limpar a casa,
ou então vesti-lo de mulher (caso o parceiro seja
homem), obrigando-o a usar maquiagem, fazê-lo animalzinho
de estimação ou de cachorrinho, obrigando-o a ficar
de quatro e usar coleira, etc.
Sadomasoquismo clássico (sm classic): nesta
modalidade o que mais interessa ao Mestre que conduz
a sessão é a relação de dor física e prazer sexual
que ele poderá imputar a seu escravo. Neste caso,
humilhações tanto verbais quanto morais não são
fundamentais, mas eventualmente poderão fazer parte
da sessão. Ex.: utilizam-se técnicas específicas,
tais como, uso de chicotes, cera de vela quente
e, até mesmo, choques elétricos.
Sadomasoquismo pesado (sm heavy): esta modalidade
não se contenta apenas com humilhações ou relação
entre dor e prazer, pois há casos documentados de
pessoas que, depois de atingirem um elevado grau
de tolerância a dor, em sua busca por mais prazer
e, conseqüentemente, mais dor, chegaram a pedir
a seus parceiros que lhes amputassem a primeira
falange de um dos dedos (sem anestesia e com um
serrote) ou, ainda pior, uma castração. Talvez seja
a forma mais limítrofe entre o prazer saudável e
o doentio.
Convém lembrar que a palavra sadomasoquismo
engloba tanto dominadores quanto submissos; sendo
assim, essa subdivisão vale para ambos.
E é também sempre bom ressaltar que, no
Brasil, por causa de nossa pouca experiência, ainda
não sabemos direito o que é sadomasoquismo, rotulando
como sádico alguém que não se preocupa com o prazer
do companheiro e, sim, apenas com o próprio; e o
masoquista, por extensão, como sendo aquele cujo
prazer está apenas em proporcionar prazer ao companheiro,
colocando o próprio em segundo plano.
Na verdade, há também esse tipo de sadismo
e de masoquismo que, aliás, não tem nada de errado,
uma vez que, por tratar-se de um jogo sexual, suas
regras baseiam-se nos mesmos princípios que coordenavam
as sociedades escravocratas desde o início dos tempos.
Ou seja, ao Mestre tudo é permitido, pelo simples
fato de ele ser o Mestre, o Todo Poderoso, aquele
de quem tudo parte e para quem tudo converge, porque
ele é o mais forte da relação. Enquanto que, para
o escravo, é reservado apenas e tão somente o lugar
de escravo, o mais desprezível dos seres, aquele
que nada tem, nem jamais terá, porque ele é o mais
fraco da relação, e como tal deve ser subjugado
pelo mais forte, pelo predominante, exatamente como
na maioria das sociedades animais, das quais, aliás,
derivamos. Mas isso é outra história.
Mas o verdadeiro sadomasoquismo é aquele
no qual o Mestre preocupa-se em explorar a dor e
o prazer de seu escravo, enquanto este se preocupa
em proporcionar o máximo de prazer ao seu Mestre
através de sua dor. Na Europa e nos EUA., hoje em
dia, o sadomasoquismo, que também é conhecido pela
sigla SM, além de ser visto como uma prática sexual
segura, também é visto como uma forma de relacionamento
humano, pois há parceiros SM monogâmicos, estáveis
(no aspecto emocional) e de uniões duradouras (conheço
casais com dez e até quinze anos de relacionamento).
Com os fenômenos de divulgação em massa
da informação através da mídia em geral e da globalização
da mesma pela internet, foi inevitável o debate
e o estudo do sadomasoquismo. Isso nos levou a chegar
a certas conclusões, sobre os desdobramentos de
alguns elementos encontrados anteriormente apenas
como coadjuvantes durante as sessões SM e que, com
o passar do tempo, se elevaram à categoria de uma
nova forma de prazer sexual, diferenciando-a e separando-a
definitivamente do seu ramo original que é o sadomasoquismo.
Esse é o caso do BD (bondage), das cócegas
(tickling) e da podolatria (bare foot) e de inúmeras
outras formas alternativas de SM, em geral mais
brandas. O mesmo acontece com as formas mais cruéis
e violentas, como o espancamento (spanking), a coprofilia
(ou banho negro: defecar sobre o parceiro) e os
chamados water sports (banho dourado: consiste em
urinar sobre o parceiro).
O principal é que, seja como for, o praticante
sinta-se livre para colocar para fora suas fantasias,
exercite sua imaginação e realize seus desejos sempre
de forma consensual, segura e sadia, pois é isso
que diferencia uma sessão SM de uma sessão de tortura
pura e simples.
Sadomasoquismo é torturar, sim, mas com
o consentimento do parceiro, sempre atento a sua
segurança e a dele, de forma a garantir que a realização
de seus desejos mais íntimos lhe tragam, sempre,
equilíbrio emocional e psicológico.