CONSIDERAÇÕES SOBRE
ALGUNS PARADOXOS SADOMASOQUISTAS
1ª Parte
Mestre Hugo Steel
Sem
sombra de dúvida, há, pelo menos,
dois assuntos que ainda geram muita polêmica
no meio sadomasoquista. São eles:
- Quem
realmente rege as relações SM, o Mestre
ou o escravo?; e
- Quem
deve prover o sustento nas relações
SM, o Mestre ou o escravo?
Neste
e no próximo mês exporei as minhas
idéias sobre esses dois verdadeiros paradoxos
do sadomasoquismo.
A primeira
questão é a mais controversa e costuma
gerar grandes discussões, algumas delas bastante
acaloradas, não só na internet como
também pessoalmente. Portanto, deixaremos
para discuti-la mais detalhadamente no mês
que vem.
Passemos,
então, à segunda questão, enfocando
quem deve prover as relações SM. Para
alguns, é o Mestre, pelo simples fato de
ser ele superior na hierarquia da relação
SM - e, portanto, não poderia, nem deveria,
receber nada do escravo, tecnicamente inferior a
ele. Para outros, e pelo mesmo motivo, o Mestre
é quem deve ser mantido pelo escravo, uma
vez que, sendo o escravo inferior, sua função
é trabalhar para suprir não só
os desejos sexuais de seu Mestre, como também
suas necessidades materiais.
Meu ponto
é que ambas as posturas têm o seu quinhão
de razão.
Se pensarmos
bem, veremos que as relações servis,
tanto no Brasil quanto no mundo, de uma forma geral,
sempre tiveram como regra básica o inferior
servir ao seu superior. Vemos isso, por exemplo,
nas relações entre os senhores feudais
e seus vassalos na Europa medieval e também
nas relações escravagistas do Brasil,
durante a colônia e o império. Por
isso, podemos dizer que, sendo esse o raciocínio
mais arraigado em nossa cultura, talvez seja ele
também o mais aceito (o que não está
completamente errado). Mas no meu ponto de vista,
as relações sadomasoquistas não
podem nem devem ser comparadas às idéias
escravocratas do final do século retrasado,
por duas razões muito simples:
1. O sadomasoquismo
baseia-se em fantasias sexuais, enquanto que os
sistemas servis e escravocratas, na realidade cotidiana
da exploração vil do ser humano.
2. As
atuais necessidades da vida moderna nos limitam
não só no aspecto financeiro, como
também no tempo livre que dispomos.
Sendo
assim, acho que, dentro das relações
SM, quem deve prover é o Mestre ou, no máximo,
que ambos tenham suas autonomias financeiras preservadas.
Também no caso de o Mestre não ter
condições financeiras de suprir as
necessidades básicas de seu escravo a alternativa
é viável.
Se formos
viver uma relação SM ou D/s com alguém,
no estilo 24/7, as coisas ficam um pouco mais complicadas,
pois não há espaço para que
o escravo se dedique a outro Senhor (leia-se patrão)
que não seja o seu próprio Mestre.
Portanto,
o mais correto é sempre usar o bom senso
para resolver essas situações. Sempre
que sou inquirido sobre essa questão, gosto
de contar o que me aconteceu, certa vez, com um
escravo, em Amsterdã.
Eu tive,
quando lá morei, um lindo escravo alemão.
Um dia, ele ajoelhou-se a meus pés e, de
cabeça baixa, entregou-me um envelope branco,
contendo uma boa quantia em dinheiro: sua pensão,
que ele ganhava do governo pela morte de seus pais
num acidente automobilístico, quando ele
ainda era pequeno.
Abri o
envelope e fiquei espantado com o valor (que era
razoavelmente alto) e perguntei o que significava
aquilo. Sempre de cabeça baixa, ele respondeu:
- Seu
tributo, meu Senhor!
Fiz uma longa pausa e disse:
- Não
sei se devo castigá-lo por essa afronta ou
se devo recompensá-lo pela dedicação.
Mas o fato é que não posso nem devo
aceitar seu dinheiro (na época, eu trabalhava
numa multinacional francesa e ganhava muito bem).
Mas ele
retrucou:
- Senhor,
permissão para falar?
- Pode
falar.
- Peço
que aceite meu humilde tributo, pois além
de poder prestar-lhe essa homenagem por tudo que
vivemos nestes últimos tempos, isso também
faz parte de minhas fantasias e desejos sexuais.
Naquele
momento entendi que não se tratava de um
insulto e sim de uma fantasia dele, mas mesmo assim
minha consciência se recusava a aceitar (sem
contar que meu lado Mestre se sentia humilhado e
comprado). Mas tive um lampejo:
- O.K.,
seu tributo está aceito.
Naquela
noite, tivemos a melhor sessão até
aquele momento. Foram quase três horas seguidas,
só com o que ele mais gostava (ele foi um
dos meus escravos mais resistentes à dor),
e acabamos a noite com ele amarrado e deitado no
chão ao lado de minha cama, recebendo um
cafuné.
No dia
seguinte, peguei o cheque que ele havia me dado
e fui ao banco, onde abri um conta safety (uma espécie
de caderneta de poupança) em nome dele. E
todo mês, eu depositava ali o tal "tributo"
que ele continuava me entregando.
Oito ou
nove meses depois, quando nossa relação
acabou, dei a ele o número da conta e as
anotações dos rendimentos e disse-lhe:
- Eu não
podia aceitar seu tributo sem tornar-me uma espécie
de prostituto, mas também não me achei
no direito de destruir suas fantasias e desejos.
Ele pegou
os papéis, balançou a cabeça
afirmativamente, olhou-me profunda e respeitosamente,
pegou suas coisas e partiu. Então eu tive
a certeza de ter feito a coisa certa.
Só
contei isso para dizer que, pelo menos neste caso,
há solução. E para mostrar
e reafirmar que a decisão mais acertada é
usar o bom senso.
Até
o mês que vem.