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"Gosto de impor, vergar, ver o outro ceder"

       Inauguramos nossa seção de Entrevistas conversando com
Mistress Bárbara Reine, reconhecida Dominadora, líder do mais antigo
e mais famoso grupo de SM no Brasil. Vamos ouví-la.


       Desejo Secreto: A senhora iniciou sua relação com o mundo BDSM como uma Submissa. Depois, passou a Dominadora. Como se dá essa passagem? Pode nos descrever o processo interior, íntimo, que teve de percorrer?
       Mistress Bárbara Reine: Na verdade e no meu ponto de vista, não comecei no SM como submissa. Considero "submissa" alguém que tem prazer em ceder, colocar a vontade do Mestre em primeiro lugar, entregar o poder que tem sobre si, para o outro. Nunca fui assim. Minha grande fantasia, na época, era ser "vergada", submetida, coagida, forçada. É engraçado... dificilmente as pessoas acreditam que já fui uma escrava, pelo meu temperamento explosivo, pela minha impulsividade. Considero que isso está mais para masoquismo do que para submissão. Minha maior lição S&M, na vida, aprendi através de dor, onde tive também muito prazer. No meu caso, não foi um prazer físico... a dor me fez vergar, ceder, e a situação toda me deu grande prazer mental... minha mente sossegou, desde então. Fantasias que me povoavam a mente nos momentos de intimidade se acalmaram e eu experimentei uma grande paz interior. Eu já carregava o embrião de Dona Bárbara dentro de mim. Era uma questão de tempo... Como se deu essa passagem? Eu acredito que todos nós temos o SM como tempero a mais na busca do erótico. Uns conseguem derrubar barreiras internas e ir atrás das fantasias. Outros, vão passar a vida toda fantasiando. Assim como tem gente que consegue exercer os dois lados, o S e o M ao mesmo tempo em suas vidas, comigo aconteceu de eu partir para a realização das minhas fantasias. Mas a mente de um S&M é fogo... Comecei a ter vontade de ver como era o outro lado. Ao invés de abrir mão do meu poder sobre mim, queria ser a que aceita o controle, que aceita o poder oferecido por outra pessoa. Queria, como sempre, experimentar... e sempre acho certo você se dar esse direito. No meu íntimo, não vejo nenhuma mudança. Para mim, não muda em nada. Continuo pensando que a gente deve curtir o momento, buscar prazer. Uma coisa apenas eu acho interessante: enquanto masoquista, nunca admiti ser dominada por outra mulher. Hoje, posso dizer que me dá um prazer enorme dominar uma pessoa do mesmo sexo. É o desafio que me atrai... A conquista do sexo oposto, para mim, parece muito mais fácil; é o "normal". Seduzir, conquistar, sentir que uma mulher se entrega a mim, é uma sensação muito prazerosa, embora minha preferência sexual continue sendo os homens.

       DS: Fazendo uma comparação entre seus primeiros anos de contato com o BDSM e os dias de hoje, o que mudou em suas concepções, em sua maneira de entender e de praticar o BDSM?
       MBR: Não mudou muita coisa com referência aos conceitos. No meu começo de S&M, tive a sorte de conhecer pessoas ligadas ao meio, com as quais aprendi lições que carrego até hoje. Mantive contato com pessoas sérias e que conheciam profundamente o S&M. Elas me passaram a idéia de sempre praticar S&M com segurança, consensualidade e respeito. Não nego que também conheci pessoas que se denominavam mentores e nada mais eram do que psicóticos, apoiando-se no S&M como boa desculpa para desenvolver práticas que só davam prazer a eles! Mas, desde que alguma coisa não esteja dando prazer a você ou ao parceiro, obviamente a prática tem que ser revista. O conceito que eu tinha há 8 anos, continua sendo o mesmo. Minha maneira de encarar o S&M continua a mesma. Tem que ser erótico, tem que dar prazer a todos os envolvidos, tem que ser são, seguro, consensual, e tem que proporcionar um sono tranqüilo, se é que me entendem....

       DS: Em sua opinião, o que um(a) Submisso(a) deve buscar, em termos de qualidade, ao escolher seu (sua) Dominador(a)?
       MBR: Veja bem...eu não acho que a procura dentro do S&M tenha que ser diferente da procura de um outro relacionamento qualquer... Como se escolhe um marido? Como se escolhe uma namorada? E, por mais que tenhamos métodos ou uma lista definida de qualidades, estamos livres de erros? Se assim fosse, não existiria divórcio. Numa relação S&M, o que deve encabeçar uma provável lista de escolha é a integridade. Isso, por que algumas práticas dentro de um quarto podem ser consideradas mais violentas que, por exemplo, um namoro baunilha. Se você é um glutão, nada melhor que procurar uma aluna da Ofélia, exímia em forno e fogão, para sua esposa. Se você é um S&M, o certo deveria ser começar a procurar pela experiência, pelo conhecimento. Mas isso é quase sempre impossível e por diversos fatores. Onde procurar, se sabemos do preconceito que existe em torno dessa prática? Alguém usa uma camiseta com o escrito "I LOVE MARQUES DE SADE" no trabalho? Alguém tem adesivo no carro dizendo JESUS TE AMA, E TUA ESCRAVA TAMBÉM...? Ou, até "TENHO VERGONHA DOS VEREADORES CORRUPTOS DE SP E DE DOMINADORES NÃO CONSENSUAIS"? Onde existe literatura em português, para quem deseja aprender? Hoje em dia, até é mais fácil achar, pela Internet... Mas eu comecei a procurar por informação há 9 anos e, naquela época, eu só podia contar com pessoas que me contassem como o S&M funcionava através das suas próprias experiências! Alguém aprende S&M assistindo a História de O? Não! Mas é uma das poucas referências que temos... É um dos livros de maior identificação para quem está começando... Mas tem grande diferença entre você "ver" um chicote em ação, do que ter um nas mãos! Enfim, a busca de um relacionamento é sempre muito difícil e nunca está livre de erros e enganos. Quanto mais as pessoas conversarem, escutarem, analisarem suas afinidades, melhor será esse relacionamento. Portanto, a primeira qualidade que se deve procurar em um futuro Mestre ou Escravo, é a seriedade. É a capacidade de respeitar o outro, a capacidade de escutar. E a vontade de, talvez, aprender juntos. Por que não?! Mesmo que um dos parceiros tenha 30 anos de experiência em S&M, ele aprende sempre. Cada um é cada um. Com cada escravo, se aprende, porque tem características diferentes. Com cada Mestre se aprende, porque as técnicas podem ser diferentes. Enfim, no S&M não é diferente. Procure bom caráter, equilíbrio, honestidade, sinceridade, respeito, confiabilidade, segurança e todos os adjetivos que mamãe já ensinava, e que valiam para a escolha dos nossos amigos, por exemplo. Isso tudo, numa procura por um(a) parceiro(a) com o(a) qual você vai compartilhar sua fantasia, sua intimidade, seus desejos mais secretos, é tão bom quanto experiência. Mesmo porque tem muito Mestre e Rainha por aí, com 20 anos de S&M, que continua fazendo e dizendo bobagens!

       DS: E o que um(a) Dominador(a) deve buscar, no mesmo sentido, num(a) Submisso(a)?
       MBR:Não é diferente essa procura quando se trata de um submisso(a) ou masoquista.

       DS: Em todas as variantes possíveis de relacionamento dentro do BDSM, qual a que mais aprecia? Por quê?
       MBR: Gosto de impor, vergar, ver o outro ceder. Apesar de seguir à risca o "são, seguro e consensual", me dá prazer notar que o outro não "paga pra ver" onde eu posso chegar. Gosto do momento em que percebo o outro pensar: "melhor eu não arriscar". Gosto de ser imprevisível no método que vou escolher. Gosto de seguir o instinto. Não consigo fazer um roteiro de comportamento antes de uma sessão. Isso faz com que nem eu e nem quem está comigo saiba e oque o que vai realmente acontecer. Gosto da surpresa, do inesperado, do jogo mental. Também gosto de interatividade. Não curto muito da submissão pela submissão. Eu não gosto de D/s. Eu gosto de S&M. Não gosto de interferir na vida privada dos escravos, ou no trabalho deles ou nas escolhas da sua vida. Jamais eu seria uma 24/7, por exemplo. Para mim, S&M é fantasia. Não é me considerar uma Domme e achar que o balconista da loja de sapato tem que ser um podólatra, ou que eu posso sair pela rua dando ordens a todo mundo... Não gosto desse papo de "Supremacia Feminina". Para mim, S&M, repito, é fantasia, é prazer, é erotismo. Nascemos com direitos iguais, isso sim, acredito. Acho horrível alguém mandar textos e querer convencer outras mulheres (e até submissas) que elas é que devem dominar. No mínimo, a pessoa que faz isso, não está respeitando a individualidade e se sente sozinha nesse discurso, necessitando aliciar alguém para seu próprio excesso de vaidade. E não me considero superior a ninguém, a não ser pelo fato de eu ter coragem de me assumir uma S&M, sem medo de julgamentos. Para mim, escravo ou escrava são escravo ou escrava porque é a fantasia deles, o tesão deles, uma situação que suas mentem teimam em querer vivenciar! Precisam de alguém com pulso para "domesticá-los" e fantasiam essa situação. Portanto, gosto que me desafiem para que fiquem sabendo quem é que manda. E gosto de perceber que o desafio deles(as) para comigo, é sempre muito dosado, porque ninguém, nem eu, sabe até onde posso ir. Não sou de obrigar um(a) escravo(a) a não me olhar nos olhos, e ficar sempre de cabeça baixa, mas se eu disser que não é para me olhar, é bom que obedeça, e rápido. Se quiser olhar, vai saber as conseqüências disso. Dizem, e eu mesma já disse isso quando era uma escrava, que o grande dominador de um relacionamento S&M é o(a) escravo(a). Hoje, se um(a) escravo(a) disser isso para mim, me dará grande prazer provar o contrário. Pude conhecer todas as manhas que um(a) escravo(a) pode usar numa sessão, e um dos meus maiores prazeres é fazer ele(a) cair nas próprias teias da sua "manha". No Grupo, no chat, nos e-mails, sou sempre muito mais amiga do que Dominadora. Para mim, locais públicos, eventos, encontro de amigos, não são lugares nem situações onde eu goste de mostrar que sou uma Domme. Mas, numa cena, numa Play Party, duvido que alguém se sinta à vontade para me tratar como amiga. Nesse momento, um escravo, uma escrava, sabem muito bem como se portar perante a minha pessoa. E se não souberem, ensinarei com muito prazer (risos).

       DS: E em termos de técnicas? Qual prefere? Por quê?
       MBR: Quanto às técnicas, gosto do spanking. Por quê? Não sei. Nunca parei para pensar porque gosto disso. Gosto muito também de dominação psicológica. Talvez sejam os métodos mais eficientes quando se quer dobrar alguém. (risos) E tem também a tática de fazer entender cochichando no ouvido... Baixinho... O medo... O "não sei realmente o que ela é capaz de fazer... Melhor obedecer logo!"... (risos). Isso é fantástico!

       DS: Em todos estes anos de BDSM, o que a memória guardou como experiência positiva? E como negativa?
       MBR: Não me lembro de ter tido experiências negativas... Talvez porque, como eu disse acima, não faço roteiros. Deixo fluir. Se você faz planos ou scripts, a chance de dar errado é muito maior, porque cria ansiedade quanto ao resultado. O bom é você saber definir para que lado está indo a maré e botar seu barco a favor do vento. O importante é chegar na praia. Mesmo quando uma sessão fica aquém ou além daquela expectativa normal que todo mundo tem perante uma sessão, disso também podemos tirar alguma lição. Em toda sessão se aprende alguma coisa. Tudo é experiência.

       DS: Como surgiu o SoMos?
       MBR: O SoMos surgiu da vontade de encontrar e reunir pessoas simpatizantes do BDSM. Há oito anos, não existia nada organizado nesse sentido. As pessoas podiam contar apenas com anúncios de revistas eróticas. A procura era exaustiva, complicada, pois em anúncios de revistas, o que mais se achava era alguém que te respondia e, no final das contas, o que essa pessoa queria era uma transinha apimentada. E, parceiros para isso, existem aos montes! O que o SoMos sempre se propôs era organizar um grupo onde pudéssemos falar sobre S&M, aprender e ter a prática, livremente, sem julgamentos. Falar sobre S&M, conhecer pessoas que gostem das mesmas coisas que você, trocar experiências, técnicas, é muito mais necessário! Para praticar, ninguém precisa de Grupo. Foi essa a idéia que fez nascer o SoMos.

       DS: Que caminhos a comunidade BDSM deve trilhar no Brasil para assemelhar-se a outras comunidades estrangeiras, muito mais unidas e organizadas? Qual o papel do SoMos nesse sentido?
       MBR: Olha, não sei se realmente a comunidade brasileira S&M deve assemelhar-se a outras, no estrangeiro. O brasileiro, ao meu ver, não tem tradição para isso. Os grupos lá fora têm qualidades invejáveis, tais como cumplicidade, vontade de trabalhar pela comunidade, comprometimento sério com a causa. Lá fora, os grupos têm sede para seus eventos, porque a comunidade toda envolvida colabora para viabilizar isso. Aqui, esse assunto é muito novo. Está sendo mais bem aceito agora, de uns 5 anos para cá. Mesmo assim, temos que trabalhar para que o nosso estilo seja o NOSSO ESTILO! O europeu, o americano, tem outra maneira de encarar responsabilidades... O brasileiro é um povo mais irreverente! Talvez daqui a uns 5 ou 10 anos, poderemos ser unidos o bastante para ter a mesma estrutura dos grupos lá fora. Hoje, não... Hoje é tudo muito "começo". Mas alguém tinha que começar. Alguém começou lá fora, um dia, não é? E talvez eles tenham tido as mesmas dificuldades. Mas continuaram, venceram, estão a um passo à frente. Um dia, chegaremos lá. Tenho orgulho de dizer que, como grupo, o SoMos é pioneiro. Foi o primeiro grupo no Brasil que deu a cara pra bater. Nós não nos escondemos. A comunidade gay hoje tem seu lugar conquistado, são aceitos, são respeitados, porque fizeram isso, mostraram a cara, mostraram que seu estilo de vida é uma opção e deve ser respeitada. Quem sabe, um dia, a gente possa ganhar o direito de dizer que gosta de S&M. Não como perversão, mas como forma de prazer, que é consensual. Os Adeptos do S&M sério são eróticos; visam, com a prática, o prazer. Nós procuramos parceiros, parceiras, e não "vítimas". O SoMos ainda tem como preocupação a didática. Claro que nós não coagimos ninguém a essa prática, mas sempre dizemos o que é o certo e o errado. Deve ser um trabalho do SoMos, assim como de todo adepto, mostrar a diferença entre S&M e abuso. Por isso organizamos os Munchies, que são reuniões para que venham os novos, os interessados, os que sentem a necessidade de conhecer pessoas que têm as mesmas fantasias, para que não se sintam sós e tenham alguém para dizer a eles que eles não são loucos. Também temos os Workshops, que são a parte teórica desse trabalho. Trouxemos alguém para falar sobre o Sadomasoquismo no mundo, como surgiu, porque esse nome, conhecer um pouco mais de Sade e Masoch, que deram o nome à prática, para saber, inclusive, que não se deve recorrer às suas obras como manual de prática S&M. Trouxemos um expert em Bondage (jogo de cordas), onde aprendemos que um nó não deve tensionar nunca uma área de circulação e que o jogo de cordas não é uma finalidade e sim um meio de chegar ao prazer, onde a segurança deve ser essencial. E devemos continuar proporcionando inúmeros eventos desses, que nos orientem quanto às práticas, sempre dentro da segurança física e também psicológica. Eu não sei se isso se assemelha a atividades de grupos no exterior... Mas sei que essa é a necessidade que existe no Brasil, até pela falta de literatura em português sobre as práticas S&M. Então, acho que o que devemos trazer de fora é o espírito de comprometimento, e aqui, adaptar os trabalhos às necessidades que vão surgindo. Os grupos que poderão vir depois do SoMos já encontrarão menos resistência e garanto que muito menos pedras no caminho.

       DS: Quais palavras de estímulo a senhora gostaria de transmitir a Dominadores(as) e Submissos(as) ao final desta entrevista?
       MBR: Estímulo? Não seria bem estímulo, pois temo estimular pessoas a uma prática que mal conhecem. Hoje em dia, não se deve estimular ninguém a nada que ela não conheça. Já vi sites na Internet onde há fotos de eletro-choques em mamilos, quando qualquer pessoa que conhece essa técnica sabe muito bem que isso é proibido! Mas está aí... Na Internet, num site, para qualquer um ver e achar que pode fazer. Temo que eu acabe essa entrevista fazendo justamente o contrário, desestimulando! Para fazer uma mobilização, você precisa de conhecimento sobre anatomia. Não tem nem três meses, saiu uma matéria sobre bondage na revista VIP, onde a primeira frase era: "Para amarrar e imobilizar seu parceiro(a), não é preciso nenhuma técnica especial". Que absurdo é esse? E taí, nas bancas, e aposto que muita gente comprou, porque tem a fantasia de imobilizar. Mas, para a revista, o importante foi vender... Sem nenhuma responsabilidade sobre a informação que estava publicando! Para spanking, deve saber onde pode aplicá-lo. Para um pumping, deve saber como não lesionar os tecidos, e por aí vai... Para qualquer prática deve haver, primeiro, conhecimento e responsabilidade! Comprar um chicote num Sexshop não faz de ninguém um S&M! Minhas últimas palavras, portanto, são: Se você tem a fantasia, faça tudo para realizá-la. É saudável, é bom, é compensador quebrar tabus. Mas faça isso sempre com responsabilidade. A mesma que você tem ao usar uma camisinha. Porque você aprendeu que deve usá-la e pela responsabilidade com a sua saúde e bem estar. E pela do seu(sua) parceiro(a) também. Não pratique sem conhecimento profundo, tanto das técnicas, quanto dos conceitos. Estude, leia, procure informação em veículos sérios. Coloque sua intuição nisso. Reflita. Experimente se for uma vontade honesta, não porque é moda de "tiazinhas"; que, aliás, por não ter tido na sua equipe pessoas com conhecimento, acabou (graças a Deus!).