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"Sei, dentro do BDSM,
o que quero dar e o que quero receber"


       Nesta semana, Desejo Secreto entrevista a switcher Justine. Presenteamos nossos leitores com palavras extremamente lúcidas, fruto de uma raciocínio elaborado e de uma escolha madura pelo BDSM. Esperamos que todos aproveitem!

       Desejo Secreto: Seu nick é uma homenagem à famosa personagem do marquês de Sade? Em caso afirmativo, por que e como surgiu essa admiração? Você é uma leitora de Sade?
       Justine: É, sim, uma homenagem a tão nobre personagem. Escolhi esse nick entre opções que me foram dadas e porque tinha ouvido todas as histórias de cada um dos nicks que poderia escolher. Li o livro, Justine - os segredos da virtude, e, de fato, encantei-me com o quão parecida, dentro do meu íntimo, sou com ela. No caso da Justine de Sade, ela lutava pela virtude espiritual dentro da religiosidade que acreditava. Ela não se deixou corromper em momento algum. Também sou assim. Luto pelo que acredito em minha vida e, também, não poderia deixar de ser de outra forma, dentro do BDSM. E luto para não me deixar corromper e viver verdadeiramente o que acredito. Li 120 dias de Sodoma e Justine, do Marquês de Sade. Ainda me falta ler Filosofia da Alcova e tantos outros. Mas não acho que Sade praticava BDSM, nunca... Não esse no qual acreditamos. Ele era, como nós, um libertino; pra mim existe somente essa afinidade.

       DS: Há quanto tempo você pratica BDSM? Pode relatar-nos como se deu seu encontro com o BDSM, como descobriu essa afinidade?
       Justine: Como tantas outras pessoas, tinha os desejos desde a juventude e não me achava uma pessoa dita "normal". Hoje, tenho outro pensamento sobre isso, mas vou falar sobre ele numa próxima pergunta. Pratico BDSM há um ano e meio, quando tive a honra de ser iniciada por "um mágico do descobrir íntimos", e continuar essa descoberta com uma pessoa especial com quem compartilhei experiências e fez frente a todas as descobertas que uma relação assim me possibilitou, principalmente no que se refere a crescer dentro do BDSM. Vi-me de frente com essa fantasia numa corajosa investida no chat, onde conheci pessoas e a filosofia do BDSM, o que me impulsionou a estudar, a conversar, a esclarecer pontos e a viver serenamente com isso, de forma que deixei de me sentir anormal e passei a me sentir livre. Essa descoberta inicialmente causou um susto dentro de mim mesma, pois no exato momento que saí da minha primeira sessão, sabia que seria impossível viver sem essa realidade. Tinha uma vida que não incluía isso e foi por demais complicado trabalhar dentro de mim o que aconteceu e o que estava por vir. Mas a paciência, a serenidade, nesse aspecto aliada a ajuda de tantos amigos, me fez alcançar uma plenitude interior muito grande. Sabia o que queria. Foi só uma questão de organizar as coisas.

       DS: Vc é, principalmente, uma submissa. Mas há momentos em sua vida nos quais desponta em vc um lado Dominador. Assim, poderíamos dizer que vc é uma switcher?
       Justine: Sou uma switcher e confesso, sinceramente, não ter a certeza disso até há bem pouco tempo. Sou uma pessoa de caráter lutador, mas que vê a vida com docilidade. No meu dia-a-dia, sou uma mistura dessas duas faces, mas até conhecer verdadeiramente o que representa isso, não sabia como lidar com elas. Não sabia dizer, não sendo uma submissa inconsciente e, por tantas vezes, sendo uma dominadora inconsciente também... Não sabia expressar com verdade o que sentia e pensava. Quando tomei conhecimento dessa ambigüidade e a canalizei para as minhas fantasias e para o sexual, tornei-me uma pessoa serenamente feliz. Aprendi a lidar e canalizar essa duplicidade no e para o sexo, tornando-me um ser humano muito melhor, tenho certeza disso.

       DS: Como convivem, numa única mulher, duas personas tão opostas?
       Justine: Na verdade, não sinto as duas personas como opostas. Ambas têm força e sabem o que querem. Eu sei, dentro do BDSM, o que quero dar e o quero receber. Como Submissa e como Dominadora. Quero aprender, me doar e crescer dia-a-dia. Quero sentir e dar prazer. Quero realizar fantasias com caráter, inteligência, naturalidade e, principalmente, consciência. Ouvi uma coisa muito própria de uma pessoa que admiro e respeito: "Só damos ao outro o que verdadeiramente temos controlado". Primeiramente. tinha total consciência e controle da minha submissão e entreguei-a incondicionalmente a uma pessoa na qual confio. A minha porção Dominadora, eu a descobri e fui aprendendo a controlar. E, hoje, também já posso oferecê-la a alguém, com pura consciência e controle dela. Sou uma balança. Com dois pratos: o submisso e o dominador. Cada um pende de um lado de acordo com as fantasias e necessidades. Se, em minha vida, sou dessa forma, não poderia ser diferente no BDSM. A única diferença é que organizo essas tendências e sou muito feliz com elas. Aprendi a definir-me. Tanto na submissão quanto na dominação. E o saldo só pode ser positivo, para mim e para os outros. Não foi fácil lidar com essa ambigüidade, mas, à partir do momento que entendi, estudei, compreendi e respeitei cada lado, ficou incrivelmente mais fácil do que imaginava. Ser switcher tem uma coisa maravilhosa: você sabe exatamente o que causa e o que recebe. Seja em qual prato da balança estiver.

       DS: O que cada uma dessas personas busca, separadamente, no BDSM?
       Justine: Ambas buscam a mesma coisa. Doação, entrega, força e poder. Pois dentro de mim não faço diferença. O que vou dizer agora é extremamente pessoal e não gostaria que os leitores percebessem de outra forma. Acredito e volto a dizer que é pessoal essa questão, que tanto o bottom quanto o top, entregam-se, doam-se, sentem e dão força e poder. Cada qual dentro do seu papel. Não acredito ser possível um BDSM sadio, seguro, consensual, adulto e maduro se não houver isso de ambos os lados.

       DS: E o que cada uma delas mais aprecia no BDSM? O que dá maior prazer a cada uma?
       Justine: Como submissa, meu maior prazer é servir. Servir com limites estabelecidos, incondicionalmente, o meu dominador. Não sou uma submissa que peita, que enfrenta. Entrego-me pura e simplesmente. Isso requer um desprendimento de mim mesma muito grande. Entrego-me a ele no mais puro e fundo que significa entregar-se. É funda, íntima e visceral essa entrega. E meu maior prêmio é ver estampada em seu rosto a felicidade e a realização nele. Realizo-me profundamente assim. Desprendimento é confiança. E é isso o que acontece na exata medida em que sinto e vivo esse confiar. Sou submissa e masoquista. Como dominadora o meu prazer é o mesmo. Não é vergar, mas receber incondicionalmente e desfrutar a entrega. É ter e desfrutar o poder. Um poder dado pelo outro. Isso me encanta. Na verdade, como em qualquer relação, existe troca, e no BDSM fica muito claro, independente do tesão e da fantasia de cada um, essa troca. Sou sádica e adoro os jogos eróticos, com carinhos nos dois lados da balança. Busco o erótico. Pode-se torturar muito uma pessoa com carinhos... risos.

       DS: Em que medida o BDSM alterou sua vida, seus valores, sua maneira de ver o mundo?
       Justine: Vou responder aqui o que deixei pendente na segunda pergunta. Para ser sincera, mudou tudo. Risos. Era uma pessoa ansiosa, sempre em busca. Serenei. Tenho ainda muitas expectativas, mas bem menores. Sentia-me de alguma forma incompleta e, por vezes, até infeliz. Com a sensação de que estava me faltando algo. Mudei fisicamente, emocionalmente e psicologicamente. Fisicamente, porque enxerguei meus pontos fortes. Emagreci 20 quilos. Passei a me olhar no espelho de outra forma, a me cuidar mais. Emocionalmente, sou muito mais equilibrada hoje. Tenho mais paciência, mais calma, sei hoje respeitar as opiniões que são diferentes das minhas. Entendi que qualquer que seja o tesão de cada um, se a pessoa é feliz assim, que bom para ela. E é isso sempre que procuro falar para quem questiona o BDSM comigo. As pessoas, em geral, têm dificuldades para se expressarem no que diz respeito ao sexo. Falamos abertamente sobre futebol e sobre música, mas, sobre sexo, muito pouco. Precisa-se, aos poucos, por força de cada um, quebrar esses muros. Seja de marreta, para derrubar de uma vez, ou tijolo a tijolo... Ser feliz com inteligência e respeito a si mesmo e aos outros. E o resto que se dane. Resolvi coisas internas e externas. Aprendi a expressar tudo o que sinto, verbalizando, procurando tomar o cuidado de sempre não cobrar, mas expor. Expor o que se sente. Eu que não conseguia brigar com ninguém, hoje de certa forma até brigo. (Risos) E essas mudanças foram na minha vida inteira... No todo. Aprendi a dizer: "Não, isso eu não quero pra mim." E aprendi a dizer: "Isso eu quero pra mim". Essa noção é tão funda que, em qualquer decisão que tenho que tomar, passei até a escrever num papel o que quero e o que não quero. Deixei de ser preconceituosa, a ponto de não achar mais graça nem em piadas. Aprendi a ser eu mesma, a me amar, a me querer bem, a me sentir bem. Isso vou dever pra sempre ao processo de mudança que sofri. Quando descobri isso, era casada, comecei a avaliar o meu casamento. Tentei, de alguma forma, trazer isso para dentro da minha casa, mas não consegui. Comecei uma vida nova e descobri coisas novas. Psicologicamente, o efeito foi bombástico. Resolvi uma porção de pendências internas. Mas eis o que aprendi, de verdade, sendo submissa: - O quanto grande eu me tornei e sou. Sou uma pessoa muito, mas muito grande. E muito feliz. E sou muito mais sensual... Quando a gente descobre a fundo a sexualidade, uns montões de coisas se resolvem e o reflexo vem através de nós mesmos. Interna e externamente. A maturidade e o crescimento apareceram depois disso.

       DS: Como você avalia o comportamento - ou o desempenho - da comunidade BDSM brasileira? Ou, ao menos, da parcela dessa comunidade com a qual você convive?
       Justine: Eu vejo uma busca de respeito dentro do BDSM, por e para ele. Cada um de nós, adeptos, procuramos exercer isso. Os exemplos são o site de vocês, Desejo Secreto, o SoMos, e tantas pessoas e grupos se estruturando, engajadas em um objetivo único. O respeito. O importante é que cada um não mascare frustrações atrás do BDSM, porque o dano será irreversível. Na minha modesta opinião, a descoberta e o conhecimento mútuo despertam a organização. Pessoas com os mesmo objetivos unem-se. Isso é o importante. Assusto-me às vezes com a infantilidade de muitas pessoas que conhecem, estudaram e se importam. BDSM é um jogo para pessoas maduras, adultas, bem resolvidas. Não é religião, não é seita, não é filosofia atemporal. BDSM é um fato. E tanto é que, até em relações baunilhas um fica por cima.(Risos) Acho que está na hora de integrar tudo isso de uma vez, e só assim acontecerá o São, Seguro e Consensual na vida, porque dentro do BDSM é obvio, senão não é BDSM, mas sim violência sexual. Se conseguirmos, daqui a dez anos, socialmente, aceitarmos isso no Brasil, será um avanço... Não acho difícil e não acho clandestino. Já aceitamos crianças sendo erotizadas em nossa tela de TV aos domingos. Precisa-se perder a hipocrisia social. Mas aí já é outra história.

       DS: Gostaríamos que, em suas palavras finais, deixasse duas mensagens distintas: a primeira, de uma submissa para os(as) Dominadores(as); a segunda, para todos aqueles que, nos dias de hoje, dão seus primeiros passos no BDSM. Seria possível?
       Justine: Complicado fazer isso... Risos. Aos dominadores, digo: enxerguem e escutem além do exterior do que ouvem e lêem. Procurem perceber, através da intuição, o que de verdade é o desejo do submisso e o seu próprio. E façam a mesma coisa. Deixem-se perceber. É uma troca. Isso jamais deve ser esquecido. Olhem atrás das montanhas de si mesmos e dos outros. Ser aberto, ser franco, ser objetivo e ser doce. Docilidade não é fraqueza. Ouçam a voz interior. Ela nunca falha. Não se deve inebriar-se só em fantasias, elas são a verbalização de desejos mais profundos. Mas por favor, isso não é pito... Risos.... É só uma dica... Risos. Aos que estão iniciando, digo: conheçam primeiro, estudem, troquem idéias. A troca de fantasias é automática. Se existe o tesão, entenda o tesão. Respeite o tesão. Estude o tesão. Pergunte, não tenha vergonha ou medo, faça lista de dúvidas e de esclarecimentos, converse, converse, converse.... Com todos e sobre tudo. E, só a partir daí, estruture as preferências e busque o que te fará feliz. Não se contente com meias coisas. Dominem a ansiedade. Ansiedade faz com que muitas vezes aceitemos qualquer coisa. Esse qualquer coisa pode ser uma agressão a você. Se submisso, questione os outros sobre o dominador com que estará se envolvendo. E os dominadores, não se aborreçam com isso. E vice-e-versa. Ninguém pode sentir-se mal por ser questionado. Não faz sentido. Faz, sim, parte do processo. Questionar e questionar-se sempre... Enquadrando limites e objetivos. E se redescobrir. Volte atrás se preciso for, mas não se perca no caminho. O resultado será fascinante.