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Desejo
Secreto: Seu nick é uma homenagem à
famosa personagem do marquês de Sade? Em caso
afirmativo, por que e como surgiu essa admiração?
Você é uma leitora de Sade?
Justine:
É, sim, uma homenagem a tão nobre personagem.
Escolhi esse nick entre opções que me
foram dadas e porque tinha ouvido todas as histórias
de cada um dos nicks que poderia escolher. Li o livro,
Justine - os segredos da virtude, e, de fato,
encantei-me com o quão parecida, dentro do meu
íntimo, sou com ela. No caso da Justine de Sade,
ela lutava pela virtude espiritual dentro da religiosidade
que acreditava. Ela não se deixou corromper em
momento algum. Também sou assim. Luto pelo que
acredito em minha vida e, também, não
poderia deixar de ser de outra forma, dentro do BDSM.
E luto para não me deixar corromper e viver verdadeiramente
o que acredito. Li 120 dias de Sodoma e Justine,
do Marquês de Sade. Ainda me falta ler Filosofia
da Alcova e tantos outros. Mas não acho que
Sade praticava BDSM, nunca... Não esse no qual
acreditamos. Ele era, como nós, um libertino;
pra mim existe somente essa afinidade.
DS:
Há quanto tempo você pratica BDSM? Pode
relatar-nos como se deu seu encontro com o BDSM, como
descobriu essa afinidade?
Justine:
Como tantas outras pessoas, tinha os desejos desde a
juventude e não me achava uma pessoa dita "normal".
Hoje, tenho outro pensamento sobre isso, mas vou falar
sobre ele numa próxima pergunta. Pratico BDSM
há um ano e meio, quando tive a honra de ser
iniciada por "um mágico do descobrir íntimos",
e continuar essa descoberta com uma pessoa especial
com quem compartilhei experiências e fez frente a todas
as descobertas que uma relação assim me
possibilitou, principalmente no que se refere a crescer
dentro do BDSM. Vi-me de frente com essa fantasia numa
corajosa investida no chat, onde conheci pessoas e a
filosofia do BDSM, o que me impulsionou a estudar, a
conversar, a esclarecer pontos e a viver serenamente
com isso, de forma que deixei de me sentir anormal e
passei a me sentir livre. Essa descoberta inicialmente
causou um susto dentro de mim mesma, pois no exato momento
que saí da minha primeira sessão, sabia
que seria impossível viver sem essa realidade.
Tinha uma vida que não incluía isso e
foi por demais complicado trabalhar dentro de mim o
que aconteceu e o que estava por vir. Mas a paciência,
a serenidade, nesse aspecto aliada a ajuda de tantos
amigos, me fez alcançar uma plenitude interior
muito grande. Sabia o que queria. Foi só uma
questão de organizar as coisas.
DS:
Vc é, principalmente, uma submissa. Mas há
momentos em sua vida nos quais desponta em vc um lado
Dominador. Assim, poderíamos dizer que vc é
uma switcher?
Justine:
Sou uma switcher e confesso, sinceramente, não
ter a certeza disso até há bem pouco tempo.
Sou uma pessoa de caráter lutador, mas que vê
a vida com docilidade. No meu dia-a-dia, sou uma mistura
dessas duas faces, mas até conhecer verdadeiramente
o que representa isso, não sabia como lidar com
elas. Não sabia dizer, não sendo uma submissa
inconsciente e, por tantas vezes, sendo uma dominadora
inconsciente também... Não sabia expressar
com verdade o que sentia e pensava. Quando tomei conhecimento
dessa ambigüidade e a canalizei para as minhas
fantasias e para o sexual, tornei-me uma pessoa serenamente
feliz. Aprendi a lidar e canalizar essa duplicidade
no e para o sexo, tornando-me um ser humano muito melhor,
tenho certeza disso.
DS:
Como convivem, numa única mulher, duas personas
tão opostas?
Justine:
Na verdade, não sinto as duas personas como opostas.
Ambas têm força e sabem o que querem. Eu
sei, dentro do BDSM, o que quero dar e o quero receber.
Como Submissa e como Dominadora. Quero aprender, me
doar e crescer dia-a-dia. Quero sentir e dar prazer.
Quero realizar fantasias com caráter, inteligência,
naturalidade e, principalmente, consciência. Ouvi
uma coisa muito própria de uma pessoa que admiro
e respeito: "Só damos ao outro o que verdadeiramente
temos controlado". Primeiramente. tinha total consciência
e controle da minha submissão e entreguei-a incondicionalmente
a uma pessoa na qual confio. A minha porção
Dominadora, eu a descobri e fui aprendendo a controlar.
E, hoje, também já posso oferecê-la
a alguém, com pura consciência e controle
dela. Sou uma balança. Com dois pratos: o submisso
e o dominador. Cada um pende de um lado de acordo com
as fantasias e necessidades. Se, em minha vida, sou
dessa forma, não poderia ser diferente no BDSM.
A única diferença é que organizo
essas tendências e sou muito feliz com elas. Aprendi
a definir-me. Tanto na submissão quanto na dominação.
E o saldo só pode ser positivo, para mim e para
os outros. Não foi fácil lidar com essa
ambigüidade, mas, à partir do momento que
entendi, estudei, compreendi e respeitei cada lado,
ficou incrivelmente mais fácil do que imaginava.
Ser switcher tem uma coisa maravilhosa: você sabe
exatamente o que causa e o que recebe. Seja em qual
prato da balança estiver.
DS:
O que cada uma dessas personas busca, separadamente,
no BDSM?
Justine:
Ambas buscam a mesma coisa. Doação, entrega,
força e poder. Pois dentro de mim não
faço diferença. O que vou dizer agora
é extremamente pessoal e não gostaria
que os leitores percebessem de outra forma. Acredito
e volto a dizer que é pessoal essa questão,
que tanto o bottom quanto o top, entregam-se, doam-se,
sentem e dão força e poder. Cada qual
dentro do seu papel. Não acredito ser possível
um BDSM sadio, seguro, consensual, adulto e maduro se
não houver isso de ambos os lados.
DS:
E o que cada uma delas mais aprecia no BDSM? O que dá
maior prazer a cada uma?
Justine:
Como submissa, meu maior prazer é servir. Servir
com limites estabelecidos, incondicionalmente, o meu
dominador. Não sou uma submissa que peita, que
enfrenta. Entrego-me pura e simplesmente. Isso requer
um desprendimento de mim mesma muito grande. Entrego-me
a ele no mais puro e fundo que significa entregar-se.
É funda, íntima e visceral essa entrega.
E meu maior prêmio é ver estampada em seu
rosto a felicidade e a realização nele.
Realizo-me profundamente assim. Desprendimento é
confiança. E é isso o que acontece na
exata medida em que sinto e vivo esse confiar. Sou submissa
e masoquista. Como dominadora o meu prazer é
o mesmo. Não é vergar, mas receber incondicionalmente
e desfrutar a entrega. É ter e desfrutar o poder.
Um poder dado pelo outro. Isso me encanta. Na verdade,
como em qualquer relação, existe troca,
e no BDSM fica muito claro, independente do tesão
e da fantasia de cada um, essa troca. Sou sádica
e adoro os jogos eróticos, com carinhos nos dois
lados da balança. Busco o erótico. Pode-se
torturar muito uma pessoa com carinhos... risos.
DS:
Em que medida o BDSM alterou sua vida, seus valores,
sua maneira de ver o mundo?
Justine:
Vou responder aqui o que deixei pendente na segunda
pergunta. Para ser sincera, mudou tudo. Risos. Era uma
pessoa ansiosa, sempre em busca. Serenei. Tenho ainda
muitas expectativas, mas bem menores. Sentia-me de alguma
forma incompleta e, por vezes, até infeliz. Com
a sensação de que estava me faltando algo.
Mudei fisicamente, emocionalmente e psicologicamente.
Fisicamente, porque enxerguei meus pontos fortes. Emagreci
20 quilos. Passei a me olhar no espelho de outra forma,
a me cuidar mais. Emocionalmente, sou muito mais equilibrada
hoje. Tenho mais paciência, mais calma, sei hoje
respeitar as opiniões que são diferentes
das minhas. Entendi que qualquer que seja o tesão
de cada um, se a pessoa é feliz assim, que bom
para ela. E é isso sempre que procuro falar para
quem questiona o BDSM comigo. As pessoas, em geral,
têm dificuldades para se expressarem no que diz
respeito ao sexo. Falamos abertamente sobre futebol
e sobre música, mas, sobre sexo, muito pouco.
Precisa-se, aos poucos, por força de cada um,
quebrar esses muros. Seja de marreta, para derrubar
de uma vez, ou tijolo a tijolo... Ser feliz com inteligência
e respeito a si mesmo e aos outros. E o resto que se
dane. Resolvi coisas internas e externas. Aprendi a
expressar tudo o que sinto, verbalizando, procurando
tomar o cuidado de sempre não cobrar, mas expor.
Expor o que se sente. Eu que não conseguia brigar
com ninguém, hoje de certa forma até brigo.
(Risos) E essas mudanças foram na minha vida
inteira... No todo. Aprendi a dizer: "Não, isso
eu não quero pra mim." E aprendi a dizer: "Isso
eu quero pra mim". Essa noção é
tão funda que, em qualquer decisão que
tenho que tomar, passei até a escrever num papel
o que quero e o que não quero. Deixei de ser
preconceituosa, a ponto de não achar mais graça
nem em piadas. Aprendi a ser eu mesma, a me amar, a
me querer bem, a me sentir bem. Isso vou dever pra sempre
ao processo de mudança que sofri. Quando descobri
isso, era casada, comecei a avaliar o meu casamento.
Tentei, de alguma forma, trazer isso para dentro da
minha casa, mas não consegui. Comecei uma vida
nova e descobri coisas novas. Psicologicamente, o efeito
foi bombástico. Resolvi uma porção
de pendências internas. Mas eis o que aprendi,
de verdade, sendo submissa: - O quanto grande eu me
tornei e sou. Sou uma pessoa muito, mas muito grande.
E muito feliz. E sou muito mais sensual... Quando a
gente descobre a fundo a sexualidade, uns montões
de coisas se resolvem e o reflexo vem através
de nós mesmos. Interna e externamente. A maturidade
e o crescimento apareceram depois disso.
DS:
Como você avalia o comportamento - ou o desempenho
- da comunidade BDSM brasileira? Ou, ao menos, da parcela
dessa comunidade com a qual você convive?
Justine:
Eu vejo uma busca de respeito dentro do BDSM, por e
para ele. Cada um de nós, adeptos, procuramos
exercer isso. Os exemplos são o site de vocês,
Desejo Secreto, o SoMos, e tantas pessoas e grupos se
estruturando, engajadas em um objetivo único.
O respeito. O importante é que cada um não
mascare frustrações atrás do BDSM,
porque o dano será irreversível. Na minha
modesta opinião, a descoberta e o conhecimento
mútuo despertam a organização.
Pessoas com os mesmo objetivos unem-se. Isso é
o importante. Assusto-me às vezes com a infantilidade
de muitas pessoas que conhecem, estudaram e se importam.
BDSM é um jogo para pessoas maduras, adultas,
bem resolvidas. Não é religião,
não é seita, não é filosofia
atemporal. BDSM é um fato. E tanto é que,
até em relações baunilhas um fica
por cima.(Risos) Acho que está na hora de integrar
tudo isso de uma vez, e só assim acontecerá
o São, Seguro e Consensual na vida, porque dentro
do BDSM é obvio, senão não é
BDSM, mas sim violência sexual. Se conseguirmos,
daqui a dez anos, socialmente, aceitarmos isso no Brasil,
será um avanço... Não acho difícil
e não acho clandestino. Já aceitamos crianças
sendo erotizadas em nossa tela de TV aos domingos. Precisa-se
perder a hipocrisia social. Mas aí já
é outra história.
DS:
Gostaríamos que, em suas palavras finais, deixasse
duas mensagens distintas: a primeira, de uma submissa
para os(as) Dominadores(as); a segunda, para todos aqueles
que, nos dias de hoje, dão seus primeiros passos
no BDSM. Seria possível?
Justine:
Complicado fazer isso... Risos. Aos dominadores, digo:
enxerguem e escutem além do exterior do que ouvem
e lêem. Procurem perceber, através da intuição,
o que de verdade é o desejo do submisso e o seu
próprio. E façam a mesma coisa. Deixem-se
perceber. É uma troca. Isso jamais deve ser esquecido.
Olhem atrás das montanhas de si mesmos e dos
outros. Ser aberto, ser franco, ser objetivo e ser doce.
Docilidade não é fraqueza. Ouçam
a voz interior. Ela nunca falha. Não se deve
inebriar-se só em fantasias, elas são
a verbalização de desejos mais profundos.
Mas por favor, isso não é pito... Risos....
É só uma dica... Risos. Aos que estão
iniciando, digo: conheçam primeiro, estudem,
troquem idéias. A troca de fantasias é
automática. Se existe o tesão, entenda
o tesão. Respeite o tesão. Estude o tesão.
Pergunte, não tenha vergonha ou medo, faça
lista de dúvidas e de esclarecimentos, converse,
converse, converse.... Com todos e sobre tudo. E, só
a partir daí, estruture as preferências
e busque o que te fará feliz. Não se contente
com meias coisas. Dominem a ansiedade. Ansiedade faz
com que muitas vezes aceitemos qualquer coisa. Esse
qualquer coisa pode ser uma agressão a você.
Se submisso, questione os outros sobre o dominador com
que estará se envolvendo. E os dominadores, não
se aborreçam com isso. E vice-e-versa. Ninguém
pode sentir-se mal por ser questionado. Não faz
sentido. Faz, sim, parte do processo. Questionar e questionar-se
sempre... Enquadrando limites e objetivos. E se redescobrir.
Volte atrás se preciso for, mas não se
perca no caminho. O resultado será fascinante.
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