|
Desejo
Secreto: - Sabemos que você é um submisso,
mas gostaríamos de conhecê-lo melhor. Primeiro,
como descobriu ou passou a se interessar pelo universo
BDSM? E qual o percurso que teve de percorrer até
descobrir-se submisso? De que forma essa certeza nasceu
em você? Qual a sua idade e há quanto tempo
pratica BDSM?
gregório:
- Minhas primeiras fantasias vêm dos tempos de criança
- acho que aos oito anos eu já me excitava imaginando
mulheres cruéis que me pisavam e chicoteavam. Personagens
de histórias em quadrinhos e desenhos animados ajudavam
a povoar minha imaginação, e é claro que nessa época
eu nem sabia o que era sadomasoquismo. Com a adolescência
fui começando a compreender, e passei a me considerar
um doente, um pervertido. E isso foi ainda mais complicado
por causa da minha formação religiosa. Mas não havia
outro jeito: eu sempre fui um submisso, podólatra, masoquista
- e todas as tentativas de sufocar esses desejos só
serviam para alimentá-los ainda mais.
Hoje tenho 31 anos e a minha primeira experiência real
foi com uma profissional, em 97. No mesmo ano passei
a usar a internet e conheci outros praticantes, o que
me ajudou muito a aceitar a minha sexualidade, que até
então sempre fora um peso.
DS: - Como você se analisa enquanto submisso?
Numa sociedade machista como a nossa, na qual, desde
cedo, os meninos são educados de forma a se tornarem
verdadeiros déspotas, em algum momento, o fato de ser
sub o fez sentir-se menor ou depreciado em sua condição
de homem, ou melhor, de ser humano?
gregório: - Mesmo depois
de assumir minha condição de submisso, demorei um bocado
para compreender que isso não me diminuía como ser humano,
nem como homem. Talvez tenha sido a grande descoberta:
ver que poderia ser amado por uma mulher, não apesar
de ser submisso, mas justamente pela minha capacidade
de entrega. Hoje, portanto, busco a minha força naquilo
que, à primeira vista, poderia parecer fraqueza. Naturalmente,
preconceitos sociais não se desfazem assim, da noite
para o dia. Ainda tenho as minhas inseguranças, mas
lido cada vez melhor com elas.
DS: - Pode comentar para nós a relação
que mantém com sua Dominadora? Em que bases ela se dá?
Quais suas principais características?
gregório: - Desculpem,
isso é um assunto muito pessoal.
DS: - Dentre as inúmeras práticas que
compõem o universo BDSM, com quais você mais se identifica?
Quais delas têm, para você, uma maior carga erótica?
gregório: - Mais uma vez,
isso é muito pessoal. O que posso dizer é que, para
mim, o tesão está na relação D/s. A sensação de submissão
provocada por uma cena, uma situação, uma palavra, um
tom de voz ou mesmo um olhar é muito mais forte, para
mim, do que experiências mais sensoriais.
DS: - Como você interpreta, no seu íntimo,
a relação existente entre a submissão e o masoquismo?
gregório: - As duas coisas
estão intimamente ligadas - e ainda tem a podolatria.
É como o ovo e a galinha. Mas creio que o masoquismo
funciona quase sempre como acessório da submissão. Ou
seja: o escravo sente prazer na dor porque esta é uma
forma de a Dona exercer seu poder sobre ele. Claro que
falo de como eu sinto esse processo em mim. Em outros
casos, pode ser diferente.
DS: - Georges Bataille, no prefácio a
"História do Olho", afirma que "eu nada saberei sobre
o que acontece, se nada souber sobre o prazer extremo
e a extrema dor!" Poderia comentar essa frase? As pulsões
que delineiam a sua sexualidade também buscam os mesmos
- ou outros - extremos?
gregório: - Aí estamos
nós, mais uma vez, entre Eros e Tanatos. Uma vez eu
defini o SM como um flerte (controlado) com a morte.
Ainda acho que a dor é uma forma de se aproximar da
morte, experimentar o poder de sua sedução. Nesse sentido,
poderíamos ver a submissão também como uma forma de
morrer - é o aniquilamento da vontade, do ego. A grande
diferença, me parece, é que Bataille vê o extremo prazer
e a extrema dor como dois pólos opostos. Para mim, ao
contrário, eles são conexos. Meu maior prazer estará
na maior dor (física e psíquica) que eu puder suportar.
DS: - Fale-nos um pouco sobre o seu site.
Como surgiu a idéia de criá-lo? Quais seus objetivos
ao fazê-lo? Qual tem sido, em relação a ele, a receptividade
da comunidade BDSM?
gregório: - O Sindisub
é apenas uma grande brincadeira, partindo do princípio
de que é preciso muito senso de humor pra se levar uma
surra e ainda dizer que gostou. Nasceu de uma conversa
num chat, em que comentava com um colega que o problema
dos submissos é que não podemos nem fazer greve para
reivindicarmos nossos direitos. O meu único objetivo
com o Sindisub é que os visitantes possam dar boas risadas
com ele. E acho que tenho conseguido. Ultimamente tenho
criado pouca coisa, mas pretendo em breve lançar mais
seções e talvez mudar o visual. A receptividade tem
sido muito boa. Infelizmente, a classe patronal continua
inflexível e não cumpre o piso nacional de chicotadas,
mas sabíamos desde o início que isso não seria fácil.
DS: - Como você vê a comunidade BDSM
brasileira? O que nos falta? Quais nossos aspectos positivos
e negativos?
gregório: - Não dá para
falar da comunidade BDSM brasileira como um bloco -
aliás, ainda bem! Temos hoje vários grupos, cada um
com características próprias, o que acho extremamente
saudável. Seria terrível se formássemos qualquer coisa
parecida com uma sociedade secreta ou partido político.
Por isso mesmo tenho horror a iniciativas do tipo "vamos
conscientizar a sociedade". BDSM não é uma bandeira.
É uma prática pessoal. Grupos para estudar, trocar idéias
ou fazer festas contam com todo o meu apoio. Se passar
disso, já vira falta de senso de ridículo.
|