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Sadomasoquismo com água de coco?
Fretamos uma jangada - beea, Felix, ligia (cads), Helio , Victor e Konstantin Gravos - e trouxemos direto de Fortaleza, para um papo online bem gostoso, Samia, a Rainha Frágil. Você vai ver que BDSM também é rapadura: é doce, mas não é mole não.

Beea: Samia, me explica o nick "Rainha Frágil". Frágil? Logo você que, mulher e moradora no Nordeste, criou o primeiro canal Mirc especializado em bdsm, o #pain_and_pleasure,organizou a lista Femdom, criou o grupo Bdsm Nordeste e ainda é dona da sex-shop Via Libido, bem na terra dos cabra-macho?
Rainha Frágil: Beea, a minha proposta sempre foi de mostrar uma pessoa real vivendo SM de forma natural e saudável. Eu queria que as pessoas compreendessem que é possível ser pessoa, do tipo "normalzinha" mesmo, com todas as fraquezas próprias do ser humano e ser também Rainha. Não queria ser confundida com os estereótipos que os submissos traziam em seu imaginário: as Dommes deveriam ser muito fortes fisicamente, tipo mulherão mesmo e deviam ter um ar frio e distante.
Naquela época muitas Dommes assumiam esse modelo como um padrão a ser seguido, comportavam-se como estátuas mesmo. Eu fui muito criticada por estar na contra-mão desse pensamento.
Mesmo assim não aceitaria abrir mão do meu prazer, do que era essencial, do meu sentir. Ora, era muito confuso para mim: na minha cabeça BDSM sempre foi sexo, sexo mesmo, feito pra gozar e pra sentir muito prazer.
Essa brincadeira era uma provocação contra os estereótipos da época. Teimar em ser Rainha apesar de toda a fragilidade.
Contudo, tenho realmente um espírito forte apesar de me sentir frágil em muitos momentos. Tenho uma história de vida de muitos desafios por conta das paixões que me moveram, por conta das trilhas que escolhi. Aprendi que dizer para mim mesma que estou com medo ou que me sinto insegura diante de algo, me torna imediatamente mais forte.

Hélio: Sua postura é exatamente o oposto da maior parte das dominadoras que andam por aí. Por que é que nao podem admitir que eu existo enquanto pessoa, fora de uma cena, da mesma forma que só existo enquanto objeto dentro dela? Por que essa teimosia em querer continuar "rainha", mesmo quando estamos em outro ambiente que não uma cena bdsm? (faltou resposta)
Rainha Frágil: Helio, eu não acredito que essa postura ainda hoje faça escola. Acho que as coisas mudaram à medida que as pessoas foram se encontrando, mostrando a cara no mundo real. É impossível imaginar que alguém aceite ser humilhado o tempo todo ou que alguém consiga preservar-se como um personagem por mais do que uma sessão.
É uma viagem maluca essa. Eu namoro um escravo. Eu quero me orgulhar dele. Quero que tenha projetos pessoais e profissionais. Quero que seja respeitado socialmente. Quero também que seja fortes para quando precisar de colo.
Eu adoro ficar toda menina e me aconchegar nos braços do meu escravo preferido e também gosto de passar horas jogando conversa fora. Adoro quando vamos ao cinema de mãos dadas. E gosto mais ainda do fato de que apesar de tudo, em nenhum momento perdemos o fio da relação D/s.
Durante todo o tempo ele esta demonstrando sua submissão. Em pequenas atitudes, como sorrir pra mim, sentar-se a meus pés, ou apenas abrindo a porta do carro.
É lá pelas tantas, em nossa intimidade que o jogo recomeça. É muito bom assim e é assim que eu brinco também com os escravos eventuais. Todos os meus relacionamentos são baseados em confiança e respeito. Tudo tem que ser tranqüilo levando sempre em consideração o ambiente em que nos encontramos e, claro, os nossos desejos.

Victor: Seu pseudônimo é uma "bandeira contra todos os estereótipos", como você disse. No entanto, a comunidade BDSM, hoje, possui um alto grau de estigmatização. Temos imagens idealizadas de dominadores austeros, escravas servis, rainhas distantes e submissos incondicionais. Levando isto em conta, como você analisa o desenvolvimento da comunidade BDSMista no Brasil? O quanto esses estereótipos podem ajudar, para conciliar as diferentes tendências que há entre os praticantes e para melhorar o índice de aceitação da sociedade dita "baunilha"?
Rainha Frágil: Victor, acho que há duas formas de se pensar na questão dos estereótipos porque sob um ponto de vista eles são elementos importantes em nossos jogos eróticos. A Domme inacessível, por exemplo, propôe sacrificios aos submissos a fim de que se torne merecedor de seus favores.
Essas representações são elementos importantes em nossos jogos e sâo saudáveis.
O que aconteceu em nosso meio foi que um grande número de desavisados transformou essas brincadeiras em estigmas.
Então a Dominadora que não tivesse esse comportamento nos chats, nas listas e inclusive socialmente era considerada menos Dominadora. O mesmo valia para Dominadores, submissos e submissas. Esses estereótipos foram sendo estigmatizados em nossa comunidade.
E a boa nova é que essa visão está mudando. As submissas estão questionando o comportamento dos Dominadores, querem relações que incluam afeto e respeito e querem confiar em seus parceiros. As Dominadoras estão mais soltas, sentem-se mais livres para fazer as coisas da forma mais prazerosa possível e não aceitam mais ser idealizadas pelos submissos.
Acho que tem a ver com toda a estrutura que criamos com listas de discussão, blogs, sites, etc. As pessoas estão crescendo com suas experiências e estão compartilhando suas impressões. Estão valorizando cada vez mais o depoimento pessoal e se aproximando mais do que do real, do possível.
Isso é novo nos grupos BDSM. Antes, em vez de encontrar informação, você encontrava julgamentos por atitudes e posturas, que em nada colaboravam para uma visão saudável do BDSM. Você precisava separar o que era estereótipo do que era vivência real.
Agora já podemos ver com clareza que somos diferentes e só precisamos aprender a respeitar a diversidade que nós próprios criamos.
Somos diferentes e o que fazer de nossa diferença é que é a decisão fundamental. Podemos nos auto-destruir, pulverizados. Ou podemos nos olhar e reconhecer que fazemos as coisas de forma diferente e nos colocarmos à disposição para aprender uns com os outros
Porque é isso que vamos exigir das pessoas lá fora. E sabemos que não será fácil, estamos falando da aceitação das diversidades dos comportamentos sexuais. De um tempo em que não haverá , para as relações sãs, seguras, e saudáveis, o "errado" ou o "doentio", mas apenas o "diferente do que eu faço".
Sonho um mundo onde uma Dominadora passeia com um submisso pela coleira no Shopping Center. E sonho que as pessoas acham isso tão natural quanto passear de mãos dadas.
Isso levará muito tempo ainda. Imagine... Hoje nem aceitam a entrada de animais nos shoppings.

Ligia: Samia, como é ser "desbravadora" no virtual e no real também, em uma região como o nordeste? Como é ser um ícone, referência no BDSM, uma prática sexual?
Rainha Frágil: Me considero sim uma desbravadora mas sempre foi tudo por acaso. Primeiro fundei o pain_and_pleasure, porque já existiam chats para sado na web mas não existia nada no Irc. Eu não gostava das salas da web porque eram muito lentas e confusas, com todas aquelas pessoas invadindo e dizendo besteiras, sem ninguém para moderar e aquela coisa de pessoas poderem usar seu nome. Eu achava horrível.
Então, peguei um canal no Irc, botei um letreiro enorme na porta e fiquei ali sentada esperando as pessoas chegarem. E elas chegaram e foram ficando. Foi um tempo muito bom. De muitas descobertas. Tive sorte na hora que precisei sair de ter você por perto para tocar aquele espaço. Não fosse isso o pain não estaria no meu curriculum, né?
Depois eu quis conversar com mais Dominadoras e veio a lista Femdom, e a definitiva Femdom Brasil que recentemente ganhou seu próprio site. A Femdom Brasil é realmente uma referência. Mas acho que não sou a causa disso. Apenas juntei as pessoas e o que é referência é o arquivo da Femdom dos últimos quatro anos que foi construindo com a ajuda de muitas pessoas, muitas das quais estão conosco até hoje.
Eu não gosto dessa coisa de ser ícone mesmo que , para lhe dizer bem a verdade, eu nem entenda direito o que isso significa em nosso meio. Quanto a ser referência eu acho que sim, no sentido de que minha vida está toda exposta então as pessoas conhecem meus princípios, meus limites, minha visão da comunidade. Acho que essa transparência permite que as pessoas se aproximem de mim com tranqüilidade. Se isso é ser referência, eu sou sim e fico feliz por isso.
Mas se referência for alguma coisa como ser seguida, ou como se ter mais conhecimento do que os outros... Não. Não gosto de ser seguida até porque penso que a gente nunca sabe direito para onde está indo por mais que acredite no contrário. E há outra questão, fundamental para mim: eu não tenho conhecimento de muitas práticas.
Agora é que estou com muita esperança de que o grupo BDSM Nordeste se fortaleça para que possamos trocar experiências. O que está caminhando muito lentamente, mas caminhando. Tem um pessoal muito bom nos ajudando. Eu quero que muitas pessoas nos visitem.
Por fim, é assim que as coisas vão se construindo na minha vida. Havia lacunas a serem preenchidas eu fui ocupando os espaços. Era outro tempo em que tudo era novo realmente. Hoje fico feliz saber que muitas pessoas se descobriram e construiram sua base para uma vivência BDSM saudável justamente nesses espaços que eu criei. Muitas pessoas escrevem me dizendo isso e eu me sinto muito honrada.

NÃO VIM PARA SER O SONHO DE NINGUÉM,
VIM PARA COMPARTILHAR E SER FELIZ!

DomFelix: Samia, você expõe publicamente sua opção. Em seu site podemos ler sobre algumas de suas experiências eróticas e sobre a sua visão do bdsm e da dominação. O que a vivência da dominação e do BDSM te acrescentam e o que te dá medo?
Rainha Frágil: Felix, como falei antes eu sempre quis me mostrar como uma pessoa real. Escolhi expor minha vivência e meu posicionamento ante a prática do SM como um convite: pratique antes, julgue depois. Conheça-me antes, veja quem eu sou, como eu vivo e depois pense se isso é um estereótipo.
Para isso os canais estão todos abertos: estou no meu blog escrevendo todos os dias, estou nas listas, estou no irc, estou respondendo mails e todos os questionamentos que me chegam. Estou mostrando uma pessoa real, com uma vivência real.
O que a prática BDSM me acrescentou entre muitas outras coisas foi a capacidade de impor limites. Não era uma coisa muito fácil pra mim anos atrás. Em minhas relações o que eu fazia era ir aceitando as coisas. Eu tinha preguiça de discutir limites. Então, lá um belo dia eu explodia e ninguém entendia onde aquilo tinha começado. Foi importante aprender que eu jamais saberia respeitar os limites dos submissos se não aprendesse a reconhecer os meus.
É muito gostoso poder olhar para meu companheiro e ser absolutamente sincera com ele. E permitir que ele fale de seus limites com clareza. E podermos inventar o nosso jeito de ser feliz, com nossos segredos e nossa cumplicidade. Isso se refletiu em toda a minha vida, frente a meus funcionários, sócio, filhos, tudo. É MUITO importante reconhecer limites.
Além disso, o BDSM permite que eu me encontre cara-a-cara com meu pior lado, meu desequílibrio. Sim, para mim o BDSM é um desequilíbrio necessário. Em um momento eu enlouqueço e viro o outro do avesso. E vasculho suas entranhas. E humilho. E dispo. Em outro momento estou tranquila e o acaricio calmamente. Experimento crueldade e generosidade. Posso brincar mesmo que sou a Rainha e que ele é o príncipe que tudo fará para merecer meu amor.
Mergulhei há tanto tempo neste universo, que vivo mesmo há anos com essa sensação gostosa de histórias de bruxas e de fadas. Mas, claro, todo mergulho pede cautela. Tenho muitos medos. Medo de mim, de perder a medida, de perder o senso. Medo da minha humanidade exposta em sites e listas e medo também de saber que não suportaria meu próprio silêncio. Medo dos limites que ainda vou ultrapassar.

Konstantin Gavros: Minha experiência no universo BDSM me diz que, na verdade, senhor e submisso, dominador e dominado, são apenas papéis momentâneos, assumidos para um jogo erótico, pois, ao final, nas relações BDSM que se mostram duradouras, esse tipo de divisão de papéis acaba. Dominador e dominado, senhor e escravo, confundem-se então, e já não sabemos mais quem controla quem, quem domina e quem se subordina. Ou seja, nos tornamos todos escravos do amor. O que você acha, Samia?
Rainha Frágil: Eu não acho que é o amor que faz com que os papéis se percam. Não se estamos falando de um amor pleno em respeito e cumplicidade. Se é esse amor que nos cativa, então esse amor é bom e será importante para a construção de uma relação duradoura. Para mim, a relação BDSM deve ser libertadora e a maneira como meu parceiro me permite experimentar a liberdade é que vai definir a qualidade do nosso amor.
Eu sou o que sou, e em alguns momentos não poderei abrir mão do desejo de controlar meu parceiro, menos ainda dessa crueldade que é parte de mim. E os anos podem passar porque a minha essência será sempre a mesma. Quero dizer que lá pelas tantas vou dizer a meu companheiro: "Agora cale a boca e venha lamber meus pés" e quando meu parceiro não suportar mais isso, então é hora de parar e conversar sobre novos caminhos. Acho que dá pra ver quando a estrutura da relação está se modificando e dá pra parar e questionar se é bom ou não continuar.
Eu amo o amor do meu escravo. Eu posso passar horas olhando para ele amarrado, contrangido ou humilhado. Eu adoro o que ele é capaz de aceitar para que eu viva a minha liberdade. Gosto de beijar seu corpo todo. As vezes, é como se eu estivesse diante de um deus, um herói. Porque admiro a sua força e sua capacidade de se entregar e confiar. Estarei cativa enquanto sentir que seu amor é forte e generoso.
Acho que o amor que leva a perda de identidade é aquele que se alimenta de medo. Medo da solidão e do abandono, ou qualquer medo. Relações em que a felicidade e a busca do prazer são colocadas em um ponto muito aquém do muito que todo mundo merece.
As pessoas se acomodam nessas relações, e os limites se tornam concessões cada vez mais caras. As relaçôes ficam estagnadas o que não combina com o coração inquieto dos SM porque nossas fantasias estão sempre em movimento. Muitas vezes, basta uma imagem em um out-door , ou um filme na TV, e, pronto!, lá estamos nós conectados com outro universo refletindo sobre como ultrapassar novos limites na descoberta de outras formas de prazer.

Beea: Samia, me conta um pouco do site Femdom, mais uma iniciativa tua de sucesso, conta que estamos todos curiosos
Rainha Frágil: Beea, o sonho do site Femdom Brasil é muito antigo. Eu sempre desejei muito construir esse espaço porque me incomodava essa questão dos grupos serem voláteis e de terem ainda pouca visibilidade.
Não pretendo jamais sair por ai doutrinando Mulheres ou homens quanto a Dominação Feminina e menos ainda para a tão polêmica questão da Supremacia Feminina. Mas é muito importante para mim que as Mulheres conheçam esse estilo de vida, ou pensem nessa possibilidade. Precisamos abrir o leque.
Acho muito triste quando vejo Mulheres submetidas a seus companheiros apenas porque foi isso que lhes foi ensinado. Repetindo os mesmos velhos paradigmas de nossas avós sem refletir um segundo sequer se está é a opção melhor para si.
O site Femdom Brasil é uma contribuição para que todas as Mulheres compreendam que já podem fazer escolhas na busca do seu prazer. Que escolham ser submissas ou Dominadoras, ou baunilhas, ou nem isso nem aquilo... Tanto faz! O importante é apenas saber que fizeram uma escolha um dia porque enxergaram as alternativas.
Além disso também queria abrir essa janela para que pudessem ver o que estamos produzindo em contos, artigos, desenhos. Somos já um número expressivo na comunidade e eu gostaria de estar linkando e fazer todo mundo aparecer por ali.
Eu sempre tenho medo de usar expressões como "vir a ser referência" porque estamos falando sempre de sexualidade e eu não gostaria que as pessoas entendessem que estamos ali dizendo o que é certo ou errado. Mas, de qualque maneira, a meta é torná-lo sim um espaço competente e vivo de divulgação em nosso meio.
O site vai evoluir muito ainda porque tem um pessoal fera nos apoiando. Pessoas da equipe mesmo e pessoas que estão por ali se oferecendo e se dispondo a ajudar. Estamos com os canais abertos também, aceitando sugestões e críticas.
Apesar do que as pessoas dizem sobre nossa comunidade, eu me sinto apoiada. Eu sempre arranjo uns malucos pra me darem a maior força :))

Carinhosamente,
Samia,
Rainha Frági