|
Beea: Samia, me explica o nick "Rainha
Frágil". Frágil? Logo você
que, mulher e moradora no Nordeste, criou o primeiro
canal Mirc especializado em bdsm, o #pain_and_pleasure,organizou
a lista Femdom, criou o grupo Bdsm Nordeste e ainda
é dona da sex-shop Via Libido, bem na terra dos
cabra-macho?
Rainha Frágil: Beea, a minha proposta
sempre foi de mostrar uma pessoa real vivendo SM de
forma natural e saudável. Eu queria que as pessoas
compreendessem que é possível ser pessoa,
do tipo "normalzinha" mesmo, com todas as
fraquezas próprias do ser humano e ser também
Rainha. Não queria ser confundida com os estereótipos
que os submissos traziam em seu imaginário: as
Dommes deveriam ser muito fortes fisicamente, tipo mulherão
mesmo e deviam ter um ar frio e distante.
Naquela época muitas Dommes assumiam esse modelo
como um padrão a ser seguido, comportavam-se
como estátuas mesmo. Eu fui muito criticada por
estar na contra-mão desse pensamento.
Mesmo assim não aceitaria abrir mão do
meu prazer, do que era essencial, do meu sentir. Ora,
era muito confuso para mim: na minha cabeça BDSM
sempre foi sexo, sexo mesmo, feito pra gozar e pra sentir
muito prazer.
Essa brincadeira era uma provocação contra
os estereótipos da época. Teimar em ser
Rainha apesar de toda a fragilidade.
Contudo, tenho realmente um espírito forte apesar
de me sentir frágil em muitos momentos. Tenho
uma história de vida de muitos desafios por conta
das paixões que me moveram, por conta das trilhas
que escolhi. Aprendi que dizer para mim mesma que estou
com medo ou que me sinto insegura diante de algo, me
torna imediatamente mais forte.
Hélio: Sua postura é exatamente
o oposto da maior parte das dominadoras que andam por
aí. Por que é que nao podem admitir que
eu existo enquanto pessoa, fora de uma cena, da mesma
forma que só existo enquanto objeto dentro dela?
Por que essa teimosia em querer continuar "rainha",
mesmo quando estamos em outro ambiente que não
uma cena bdsm? (faltou resposta)
Rainha Frágil: Helio, eu não acredito
que essa postura ainda hoje faça escola. Acho
que as coisas mudaram à medida que as pessoas
foram se encontrando, mostrando a cara no mundo real.
É impossível imaginar que alguém
aceite ser humilhado o tempo todo ou que alguém
consiga preservar-se como um personagem por mais do
que uma sessão.
É uma viagem maluca essa. Eu namoro um escravo.
Eu quero me orgulhar dele. Quero que tenha projetos
pessoais e profissionais. Quero que seja respeitado
socialmente. Quero também que seja fortes para
quando precisar de colo.
Eu adoro ficar toda menina e me aconchegar nos braços
do meu escravo preferido e também gosto de passar
horas jogando conversa fora. Adoro quando vamos ao cinema
de mãos dadas. E gosto mais ainda do fato de
que apesar de tudo, em nenhum momento perdemos o fio
da relação D/s.
Durante todo o tempo ele esta demonstrando sua submissão.
Em pequenas atitudes, como sorrir pra mim, sentar-se
a meus pés, ou apenas abrindo a porta do carro.
É lá pelas tantas, em nossa intimidade
que o jogo recomeça. É muito bom assim
e é assim que eu brinco também com os
escravos eventuais. Todos os meus relacionamentos são
baseados em confiança e respeito. Tudo tem que
ser tranqüilo levando sempre em consideração
o ambiente em que nos encontramos e, claro, os nossos
desejos.
Victor: Seu pseudônimo é uma "bandeira
contra todos os estereótipos", como você
disse. No entanto, a comunidade BDSM, hoje, possui um
alto grau de estigmatização. Temos imagens
idealizadas de dominadores austeros, escravas servis,
rainhas distantes e submissos incondicionais. Levando
isto em conta, como você analisa o desenvolvimento
da comunidade BDSMista no Brasil? O quanto esses estereótipos
podem ajudar, para conciliar as diferentes tendências
que há entre os praticantes e para melhorar o
índice de aceitação da sociedade
dita "baunilha"?
Rainha Frágil: Victor, acho que há
duas formas de se pensar na questão dos estereótipos
porque sob um ponto de vista eles são elementos
importantes em nossos jogos eróticos. A Domme
inacessível, por exemplo, propôe sacrificios
aos submissos a fim de que se torne merecedor de seus
favores.
Essas representações são elementos
importantes em nossos jogos e sâo saudáveis.
O que aconteceu em nosso meio foi que um grande número
de desavisados transformou essas brincadeiras em estigmas.
Então a Dominadora que não tivesse esse
comportamento nos chats, nas listas e inclusive socialmente
era considerada menos Dominadora. O mesmo valia para
Dominadores, submissos e submissas. Esses estereótipos
foram sendo estigmatizados em nossa comunidade.
E a boa nova é que essa visão está
mudando. As submissas estão questionando o comportamento
dos Dominadores, querem relações que incluam
afeto e respeito e querem confiar em seus parceiros.
As Dominadoras estão mais soltas, sentem-se mais
livres para fazer as coisas da forma mais prazerosa
possível e não aceitam mais ser idealizadas
pelos submissos.
Acho que tem a ver com toda a estrutura que criamos
com listas de discussão, blogs, sites, etc. As
pessoas estão crescendo com suas experiências
e estão compartilhando suas impressões.
Estão valorizando cada vez mais o depoimento
pessoal e se aproximando mais do que do real, do possível.
Isso é novo nos grupos BDSM. Antes, em vez de
encontrar informação, você encontrava
julgamentos por atitudes e posturas, que em nada colaboravam
para uma visão saudável do BDSM. Você
precisava separar o que era estereótipo do que
era vivência real.
Agora já podemos ver com clareza que somos diferentes
e só precisamos aprender a respeitar a diversidade
que nós próprios criamos.
Somos diferentes e o que fazer de nossa diferença
é que é a decisão fundamental.
Podemos nos auto-destruir, pulverizados. Ou podemos
nos olhar e reconhecer que fazemos as coisas de forma
diferente e nos colocarmos à disposição
para aprender uns com os outros
Porque é isso que vamos exigir das pessoas lá
fora. E sabemos que não será fácil,
estamos falando da aceitação das diversidades
dos comportamentos sexuais. De um tempo em que não
haverá , para as relações sãs,
seguras, e saudáveis, o "errado" ou
o "doentio", mas apenas o "diferente
do que eu faço".
Sonho um mundo onde uma Dominadora passeia com um submisso
pela coleira no Shopping Center. E sonho que as pessoas
acham isso tão natural quanto passear de mãos
dadas.
Isso levará muito tempo ainda. Imagine... Hoje
nem aceitam a entrada de animais nos shoppings.
Ligia: Samia, como é ser "desbravadora"
no virtual e no real também, em uma região
como o nordeste? Como é ser um ícone,
referência no BDSM, uma prática sexual?
Rainha Frágil: Me considero sim uma desbravadora
mas sempre foi tudo por acaso. Primeiro fundei o pain_and_pleasure,
porque já existiam chats para sado na web mas
não existia nada no Irc. Eu não gostava
das salas da web porque eram muito lentas e confusas,
com todas aquelas pessoas invadindo e dizendo besteiras,
sem ninguém para moderar e aquela coisa de pessoas
poderem usar seu nome. Eu achava horrível.
Então, peguei um canal no Irc, botei um letreiro
enorme na porta e fiquei ali sentada esperando as pessoas
chegarem. E elas chegaram e foram ficando. Foi um tempo
muito bom. De muitas descobertas. Tive sorte na hora
que precisei sair de ter você por perto para tocar
aquele espaço. Não fosse isso o pain não
estaria no meu curriculum, né?
Depois eu quis conversar com mais Dominadoras e veio
a lista Femdom, e a definitiva Femdom Brasil que recentemente
ganhou seu próprio site. A Femdom Brasil é
realmente uma referência. Mas acho que não
sou a causa disso. Apenas juntei as pessoas e o que
é referência é o arquivo da Femdom
dos últimos quatro anos que foi construindo com
a ajuda de muitas pessoas, muitas das quais estão
conosco até hoje.
Eu não gosto dessa coisa de ser ícone
mesmo que , para lhe dizer bem a verdade, eu nem entenda
direito o que isso significa em nosso meio. Quanto a
ser referência eu acho que sim, no sentido de
que minha vida está toda exposta então
as pessoas conhecem meus princípios, meus limites,
minha visão da comunidade. Acho que essa transparência
permite que as pessoas se aproximem de mim com tranqüilidade.
Se isso é ser referência, eu sou sim e
fico feliz por isso.
Mas se referência for alguma coisa como ser seguida,
ou como se ter mais conhecimento do que os outros...
Não. Não gosto de ser seguida até
porque penso que a gente nunca sabe direito para onde
está indo por mais que acredite no contrário.
E há outra questão, fundamental para mim:
eu não tenho conhecimento de muitas práticas.
Agora é que estou com muita esperança
de que o grupo BDSM Nordeste se fortaleça para
que possamos trocar experiências. O que está
caminhando muito lentamente, mas caminhando. Tem um
pessoal muito bom nos ajudando. Eu quero que muitas
pessoas nos visitem.
Por fim, é assim que as coisas vão se
construindo na minha vida. Havia lacunas a serem preenchidas
eu fui ocupando os espaços. Era outro tempo em
que tudo era novo realmente. Hoje fico feliz saber que
muitas pessoas se descobriram e construiram sua base
para uma vivência BDSM saudável justamente
nesses espaços que eu criei. Muitas pessoas escrevem
me dizendo isso e eu me sinto muito honrada.
NÃO VIM PARA SER O SONHO
DE NINGUÉM,
VIM PARA COMPARTILHAR E SER FELIZ!
DomFelix: Samia, você expõe publicamente
sua opção. Em seu site podemos ler sobre
algumas de suas experiências eróticas e
sobre a sua visão do bdsm e da dominação.
O que a vivência da dominação e
do BDSM te acrescentam e o que te dá medo?
Rainha Frágil: Felix, como falei antes
eu sempre quis me mostrar como uma pessoa real. Escolhi
expor minha vivência e meu posicionamento ante
a prática do SM como um convite: pratique antes,
julgue depois. Conheça-me antes, veja quem eu
sou, como eu vivo e depois pense se isso é um
estereótipo.
Para isso os canais estão todos abertos: estou
no meu blog escrevendo todos os dias, estou nas listas,
estou no irc, estou respondendo mails e todos os questionamentos
que me chegam. Estou mostrando uma pessoa real, com
uma vivência real.
O que a prática BDSM me acrescentou entre muitas
outras coisas foi a capacidade de impor limites. Não
era uma coisa muito fácil pra mim anos atrás.
Em minhas relações o que eu fazia era
ir aceitando as coisas. Eu tinha preguiça de
discutir limites. Então, lá um belo dia
eu explodia e ninguém entendia onde aquilo tinha
começado. Foi importante aprender que eu jamais
saberia respeitar os limites dos submissos se não
aprendesse a reconhecer os meus.
É muito gostoso poder olhar para meu companheiro
e ser absolutamente sincera com ele. E permitir que
ele fale de seus limites com clareza. E podermos inventar
o nosso jeito de ser feliz, com nossos segredos e nossa
cumplicidade. Isso se refletiu em toda a minha vida,
frente a meus funcionários, sócio, filhos,
tudo. É MUITO importante reconhecer limites.
Além disso, o BDSM permite que eu me encontre
cara-a-cara com meu pior lado, meu desequílibrio.
Sim, para mim o BDSM é um desequilíbrio
necessário. Em um momento eu enlouqueço
e viro o outro do avesso. E vasculho suas entranhas.
E humilho. E dispo. Em outro momento estou tranquila
e o acaricio calmamente. Experimento crueldade e generosidade.
Posso brincar mesmo que sou a Rainha e que ele é
o príncipe que tudo fará para merecer
meu amor.
Mergulhei há tanto tempo neste universo, que
vivo mesmo há anos com essa sensação
gostosa de histórias de bruxas e de fadas. Mas,
claro, todo mergulho pede cautela. Tenho muitos medos.
Medo de mim, de perder a medida, de perder o senso.
Medo da minha humanidade exposta em sites e listas e
medo também de saber que não suportaria
meu próprio silêncio. Medo dos limites
que ainda vou ultrapassar.
Konstantin Gavros: Minha experiência
no universo BDSM me diz que, na verdade, senhor e submisso,
dominador e dominado, são apenas papéis
momentâneos, assumidos para um jogo erótico,
pois, ao final, nas relações BDSM que
se mostram duradouras, esse tipo de divisão de
papéis acaba. Dominador e dominado, senhor e
escravo, confundem-se então, e já não
sabemos mais quem controla quem, quem domina e quem
se subordina. Ou seja, nos tornamos todos escravos do
amor. O que você acha, Samia?
Rainha Frágil: Eu não acho que
é o amor que faz com que os papéis se
percam. Não se estamos falando de um amor pleno
em respeito e cumplicidade. Se é esse amor que
nos cativa, então esse amor é bom e será
importante para a construção de uma relação
duradoura. Para mim, a relação BDSM deve
ser libertadora e a maneira como meu parceiro me permite
experimentar a liberdade é que vai definir a
qualidade do nosso amor.
Eu sou o que sou, e em alguns momentos não poderei
abrir mão do desejo de controlar meu parceiro,
menos ainda dessa crueldade que é parte de mim.
E os anos podem passar porque a minha essência
será sempre a mesma. Quero dizer que lá
pelas tantas vou dizer a meu companheiro: "Agora
cale a boca e venha lamber meus pés" e quando
meu parceiro não suportar mais isso, então
é hora de parar e conversar sobre novos caminhos.
Acho que dá pra ver quando a estrutura da relação
está se modificando e dá pra parar e questionar
se é bom ou não continuar.
Eu amo o amor do meu escravo. Eu posso passar horas
olhando para ele amarrado, contrangido ou humilhado.
Eu adoro o que ele é capaz de aceitar para que
eu viva a minha liberdade. Gosto de beijar seu corpo
todo. As vezes, é como se eu estivesse diante
de um deus, um herói. Porque admiro a sua força
e sua capacidade de se entregar e confiar. Estarei cativa
enquanto sentir que seu amor é forte e generoso.
Acho que o amor que leva a perda de identidade é
aquele que se alimenta de medo. Medo da solidão
e do abandono, ou qualquer medo. Relações
em que a felicidade e a busca do prazer são colocadas
em um ponto muito aquém do muito que todo mundo
merece.
As pessoas se acomodam nessas relações,
e os limites se tornam concessões cada vez mais
caras. As relaçôes ficam estagnadas o que
não combina com o coração inquieto
dos SM porque nossas fantasias estão sempre em
movimento. Muitas vezes, basta uma imagem em um out-door
, ou um filme na TV, e, pronto!, lá estamos nós
conectados com outro universo refletindo sobre como
ultrapassar novos limites na descoberta de outras formas
de prazer.
Beea: Samia, me conta um pouco do site Femdom,
mais uma iniciativa tua de sucesso, conta que estamos
todos curiosos
Rainha Frágil: Beea, o sonho do site Femdom
Brasil é muito antigo. Eu sempre desejei muito
construir esse espaço porque me incomodava essa
questão dos grupos serem voláteis e de
terem ainda pouca visibilidade.
Não pretendo jamais sair por ai doutrinando Mulheres
ou homens quanto a Dominação Feminina
e menos ainda para a tão polêmica questão
da Supremacia Feminina. Mas é muito importante
para mim que as Mulheres conheçam esse estilo
de vida, ou pensem nessa possibilidade. Precisamos abrir
o leque.
Acho muito triste quando vejo Mulheres submetidas a
seus companheiros apenas porque foi isso que lhes foi
ensinado. Repetindo os mesmos velhos paradigmas de nossas
avós sem refletir um segundo sequer se está
é a opção melhor para si.
O site Femdom Brasil é uma contribuição
para que todas as Mulheres compreendam que já
podem fazer escolhas na busca do seu prazer. Que escolham
ser submissas ou Dominadoras, ou baunilhas, ou nem isso
nem aquilo... Tanto faz! O importante é apenas
saber que fizeram uma escolha um dia porque enxergaram
as alternativas.
Além disso também queria abrir essa janela
para que pudessem ver o que estamos produzindo em contos,
artigos, desenhos. Somos já um número
expressivo na comunidade e eu gostaria de estar linkando
e fazer todo mundo aparecer por ali.
Eu sempre tenho medo de usar expressões como
"vir a ser referência" porque estamos
falando sempre de sexualidade e eu não gostaria
que as pessoas entendessem que estamos ali dizendo o
que é certo ou errado. Mas, de qualque maneira,
a meta é torná-lo sim um espaço
competente e vivo de divulgação em nosso
meio.
O site vai evoluir muito ainda porque tem um pessoal
fera nos apoiando. Pessoas da equipe mesmo e pessoas
que estão por ali se oferecendo e se dispondo
a ajudar. Estamos com os canais abertos também,
aceitando sugestões e críticas.
Apesar do que as pessoas dizem sobre nossa comunidade,
eu me sinto apoiada. Eu sempre arranjo uns malucos pra
me darem a maior força :))
Carinhosamente,
Samia,
Rainha Frági
|