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Etimologia
Durante
a época das Grandes Navegações, quando das incursões
continentais na África por parte dos europeus, exploradores
portugueses entraram em contato com uma prática dividida
por diversas tribos: muitos dos africanos atribuíam
uma força espiritual a certos totens, feitos a partir
dos mais variados materiais, tais como ossos (animais
ou humanos), ou gravuras em relevo. Esses objetos
foram definidos como fetiches, palavra oriunda do
português medieval utilizada para descrever certos
objetos sagrados cristãos que cobriam o mesmo nicho
cultural.
A partir
de então, chama-se fetiche todo objeto ao qual é creditada
uma força sobrenatural ou se presta culto: desde totens
religiosos, passando pelas "relíquias" cristãs medievais,
até itens que recebem, da superstição popular, certo
valor fortuito, tais como a pata de coelho ou o trevo
de quatro folhas.
Nos primórdios
do estudo sobre a psicologia humana, em meados do
século XIX, as primeiras mentes interessadas em estudar
a sexualidade usaram o termo fetiche para descrever
um interesse erótico/sexual latente em um objeto ou
numa classe de objetos. A relação é que, da mesma
forma que religiosos extraem força espiritual de algo
inanimado, os fetichistas sexuais extraem seu prazer
erótico de maneira similar.
Definição
Alfred
Binet foi o primeiro a dar uma definição de fetichismo,
descrevendo-o como o amor por determinadas partes
do corpo. Em seu livro Psicologia Experimental, ele
definiu o amor como "uma série de fetichismos complexos
e interligados". Porém, segundo o pensamento psicológico
moderno, o fetichismo é conceituado da seguinte forma:
"Tendência
erótica para objetos inanimados que, direta ou indiretamente,
estão em contato com o corpo humano ou para determinadas
partes do corpo da pessoa amada."
Assim sendo,
existem inúmeras possibilidades para o fetiche. Existem
fetiches por pés, botas, roupas de couro, piercings
e até bexigas de festas de aniversário. A conclusão
óbvia é que todos são fetichistas, em maior ou menor
grau. O fetichismo não é considerado um desvio quando
o indivíduo não depende exclusivamente de seu fetiche
para sua gratificação sexual.
Origens
do fetichismo na psicologia humana
Existem
poucas teorias baseadas em fatos a respeito do fetichismo,
mas muitas assertivas. A mais difundida e aceita entre
os estudiosos é a versão que reza que o fetiche tem
origem na infância do indivíduo, originado por um
sentimento de culpa intensa. O mecanismo postulado
prega que, ao entrar em contato visual involuntário
com a genitália de alguém, a criança irá desviar o
olhar, movida por sensações de culpa e embaraço; e,
ao se comportar assim, fará entrar em seu campo de
visão algum outro objeto, sobre o qual projetará seu
desejo erótico. Como conseqüência, anos mais tarde
estará impossibilitada de sentir desejo pelos órgãos
genitais sem ter sensações de culpa e embaraço, reminiscências
do ocorrido na infância.
Dessa forma,
segundo tal assertiva, uma criança que abaixe o olhar
quando surpreende seu pai saindo nu do banho, deitando
os olhos em seus próprios pés, irá se tornar um podólatra.
Freud acreditava
que o fetichismo é causado por um "complexo de castração",
descrito como uma sensação inconsciente da parte do
homem, onde este sente falta do pênis na mulher. Essa
sensação de ausência faz o homem buscar "completar"
a mulher com o auxílio de artefatos extras.
Mais uma
assertiva tenta explicar o fetichismo como apego especial
a determinado objeto; tal apego teria sido originado
na infância, provocado pela ausência da mãe. O fetichista
buscaria o afeto materno neste objeto e, ao crescer,
manteria uma fixação neste objeto, agora com traços
eróticos incutidos nele.
Nenhuma
das assertivas acima citadas possui o devido embasamento
para constituírem teorias cientificamente válidas.
Algumas pesquisas da área de neurologia, porém, pretendem
verificar a relação entre o comportamento fetichista
e o estímulo químico de certas áreas do centro de
prazer do cérebro. Tal estudo será essencial para
elucidar várias pendências com relação ao comportamento
fetichista.
Fetichistas
não são pessoas doentes
O fetichismo,
como toda forma de manifestação sexual diferenciada
daquela socialmente aceitável, é alvo de preconceitos.
Embora seja seguro dizer que, praticamente, todo mundo
possui um fetiche, manifestações mais abertas de fetichismo
são vistas com temor e repúdio. Uma das mais cruéis
discriminações com relação aos fetichistas é afirmação
que eles são doentes. Não há, porém, nenhuma base
para que qualquer tipo de fetichismo seja declarado
uma doença ou parafilia. Evidentemente, quando o fetichismo
alcança um ponto tal que o indivíduo passa a exibir
um comportamento obsessivo em relação ao seu objeto
de desejo, o fetichismo deixa de ser saudável. No
entanto, o comportamento obsessivo não é exclusividade
de pessoas fetichistas; portanto, discriminar estas
pelos seus fetiches é algo assaz ilógico.
Conclusão
O fetiche
sempre esteve presente tanto na psique quanto na sociedade
humana. Nas últimas décadas, foram dados os primeiros
passos para a compreensão dos mecanismos psicológicos
por trás do fetichismo. Embora ainda não se possa
precisar sua origem, já se reconhece a sua existência.
Com o advento da Internet, comunidades de fetichistas
tornam-se gradativamente mais fortes e mais freqüentes.
Atualmente, os meios de comunicação já usam extensivamente
apelos fetichistas em anúncios publicitários. É apenas
uma questão de tempo para que a sociedade reconheça
seu inegável lado fetichista pelo que ele realmente
é: uma faceta normal e saudável da sexualidade humana,
sem falsos moralismos ou justificativas pseudocientíficas.
Bibliografia
- Rodrigues
Jr., O. M., Objetos do Desejo, Ed. Iglu, 1991.
- Silva,
V. A., Nossos Desvios Sexuais, Ed. Tecnoprint S.A.,
1986.
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