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ESCRITORA CLASSIFICA INFANTILISMO COMO PRÁTICA DE
"EXTRAVAGANTES E PÁRIAS"
Lord Conrad

        Recentemente, o caderno Mais!i, do jornal Folha de S. Paulo, publicou os comentários da filósofa e escritora norte-americana, Susan Sontag, ao livro The Babies (Os Bebês), de Polly Borlandii, que fotografou homens adeptos do infantilismo na Inglaterra, na França, nos EUA e na Austrália.
        À parte o agradável estilo da escritora e sua inquestionável cultura, o texto destila, senão preconceito, ao menos uma evidente aversão pelo prazer de vestir-se como um bebê e erotizar esse regresso à primeira infância, que a senhora Sontag prefere classificar como "brincadeiras clandestinas", inserindo-as num espectro por demais amplo, no qual caberiam, segundo ela, as "misérias" e as "manias" de "pessoas extravagantes e párias".
        Apesar de filósofa, Sontag não demonstra sensibilidade para perceber as formas invulgares nas quais a pulsão sexual pode se metamorfosear, afirmando que aqueles adultos "parecem ter renunciado completamente à sua sexualidade".
        Ela se aproxima da realidade do infantilismo buscando uma sexualidade que seja um todo homogêneo (o todo homogêneo que mais lhe apraz, é claro) e não compreende que a sexualidade é, na verdade, um conjunto diversificado de vivências particulares e de interações humanas que buscam exprimir-se livres de quaisquer tipos de dominação. Sontag esquece-se que vivemos envolvidos num somatório de relações que, por sua vez, produzem sentidos próprios e particulares, não só em termos de experiências sexuais, e que é exatamente essa diversidade a força motriz da vida e, portanto, do mundo social.
        A repugnância da autora parece nascer, principalmente, de sua aguçadíssima percepção estética... "(...) A presença humana é demasiado grande, feia", diz ela, insistindo no atributo da feiúra: "Um adulto é feio, quando comparado com a perfeição do recém-nascido." Cega e fechada à compreensão das experiências subjetivas, Sontag vê, nas fotos, apenas um "poder de repulsão", nascido da "desconexão entre a fantasia da pequenez e fraqueza representada e os volumosos corpos adultos".
        Susan Sontag esquece-se de uma das lições mais básicas da Psicanálise, segundo a qual uma fantasia é "uma correção da realidade insatisfatória" (Freud)iii, equivocando-se em sua análise, ao não compreender a raiz ou a base das fantasias de todos os fetichistas: criar um mundo para si mesmos; transpor as coisas de seus mundos particulares para uma nova ordem que lhes agrade.
        Não nos enganemos: no substrato das fotos de Polly Borland há, diferente do que pensa a filósofa, uma grande coragem. Aqueles homens, ao posarem, mostrando ao mundo o que de mais íntimo escondiam até então, superaram a dicotomia dilacerante na qual todos nós vivemos: de um lado, o corpo condicionado a reduzir todas as excitações; de outro, o mesmo corpo, buscando, desesperadamente, ativar lembranças e rememorar prazeres, de forma que estes se repitam. Eles tiveram o destemor de não dissimularem ou encobrirem suas pulsões, recriando, sob o olhar da objetiva, as emoções e os desejos sexuais infantis - chupar o polegar, reter as fezes, rivalizar com irmãos, masturbar-se, alguns deles sensivelmente eróticos.
        Vestindo suas fraldas ou segurando seus ursos de pelúcia, esses homens revivem "as forças enterradas sob todos os sonhos", que Freud comparou aos Titãs da mitologia: "Sustentam o peso de montanhas maciças que os deuses impuseram sobre eles, mas às vezes ainda erguem convulsivamente seus membros." Não há neles a "estranheza desconcertante" de que nos fala Susan Sontag, mas, ao contrário, uma beleza peculiar, também ela um recurso para o florescimento humano.


i 1º de julho de 2001
ii The Babies (Powerhouse Books, 155 págs., 38 libras, Inglaterra)
iii Todas as citações de Freud aqui presentes foram retiradas de Freud: uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay (Editora Cia. das Letras, SP, 1995, 7ª reimpressão).