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O
termo vore (comumente abreviado para vor)
deriva do termo vorarofilia, criado como
referência a um vasto conjunto de fantasias e
práticas em torno da devoração,
metafórica ou não, de uma criatura viva
por outra. Realizado dentro da ética BDSM, naturalmente
o vore não admite qualquer prática de
canibalismo real; como veremos mais adiante, este é
deslocado para um campo metafórico, realizado
através de práticas e jogos D/s e SM.
Por seu critério de definição
estar menos relacionado às suas práticas
do que ao campo de fantasias ao qual se refere, considero
válida a referência a uma cultura
vore, que compreende desde os contos de fada que
lidam com a devoração - como a versão
da lenda de Chapeuzinho Vermelho na qual a menina devora
sua avó com a conivência do lobo e as antigas
narrativas sobre ogros antropófagos - até
os filmes de terror trash com monstros que devoram belas
mulheres. Tudo isso remete em certa medida à
vorarofilia, ainda que de formas diferentes: alguns
vorarófilos se excitarão ao ler ou assistir
narrativas e filmes com estas cenas; outros as tomarão
como inspiração para a criação
de jogos reais dentro da ética BDSM (portanto
necessariamente seguros, sãos e consensuais).
Mas
o que são essas práticas vore
às quais venho me referindo? De que maneira os
vorarófilos realizam suas fantasias? Na verdade,
o mundo vore é tão vasto que estas práticas
são comumente criadas pelos próprios vorarófilos,
de acordo com suas preferências e possibilidades.
Há, no entanto, duas grandes subdivisões
no vore - para a qual proponho os termos vore virtual
(VV) e vore real (VR) - , que se caracterizam pela participação
presencial ou não da pessoa no ato de devoração
em si. Os praticantes do vore virtual ora são
voyeurs que se satisfazem ao ver cenas ou vídeos
de devoração, ora são participantes
de jogos de interpretação de papéis,
geralmente via internet, no qual incorporam os papéis
de licantropos antropófagos, gigantes famintos
ou outros personagens similares. Já os praticantes
do vore real praticam-no geralmente de duas maneiras:
ou através de práticas BDSM - sejam relações
D/s do tipo predador/presa ou caçador/caça,
sejam práticas envolvendo jogos com comida, imobilização
e simulação de canibalismo - , ou através
do que é geralmente chamado de RL vore,
que é a devoração de pequenos animais
ou insetos vivos. Obviamente, todas estas práticas
do vore real demandam cuidados especiais: uma cena
vore pode envolver cenas de caçada com
armas reais, mordidas e cortes, e é preciso tomar
as devidas precauções para que não
aconteçam quaisquer acidentes sérios;
já a prática do RL vore envolvendo
pequenos animais pode causar sufocamento ou mesmo asfixia.
Por isso, qualquer um que esteja se iniciando na prática
do vore deve tomar todas as precauções
a fim de afastar qualquer risco de acidentes. Também
deve ser possível perceber, a partir do que foi
exposto, que o vore pode estar relacionado a um amplo
número de fetiches. Os praticantes do RL
vore podem vir a desenvolver um fetichismo pelos
pequenos animais que são por eles devorados;
não são poucos os vorarófilos que
fetichizam determinadas espécies de animais,
comumente predadores; e há aqueles para os quais
partes do corpo humano associadas à alimentação
e digestão - como a boca, a língua ou
mesmo o estômago - são particularmente
excitantes
Como prática BDSM ou fetichismo, o vore é
um amplo e rico campo temático que pode inspirar
um número virtualmente infinito de jogos e cenas.
Predadores que perseguem, estupram, amarram
e devoram suas presas; submissos que fantasiam
serem devorados por implacáveis mulheres gigantes;
masoquistas que gostam de sentir os dentes cravados
em sua pele e o pânico diante de uma possível
devoração - tudo isso está relacionado
à cultura vore, na qual habitam, parafraseando
Montaigne, aqueles cujo apetite e cuja fome fazem
desejar cada vez mais carne, sem poder digeri-la por
completo
Syk - Pesquisador acadêmico
nas áreas de arte e cultura, vive o BDSM como
dominador adepto do vore, assunto sobre o qual também
pesquisa e assina artigos e ensaios.
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