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Dentre
as centenas de obras que compõem o acervo
da literatura erótica moderna, nenhuma talvez
tenha conseguido tocar a fímbria do delírio
como as escritas por Georges Bataille, um ex-monge
católico, bibliotecário de formação,
nascido aos 10 de setembro de 1897. Há nesses
livros uma intensidade febril e uma licenciosidade
exasperante, que nos obrigam a descobrir o quanto
o prazer extremo e a extrema dor se tocam e se confundem.
A todas
essas características soma-se, em seu História
do Olho - primeiro livro de sua autoria, lançado
em 1928, sob o pseudônimo de Lord Auch -,
a evidência fatal a que nos rendemos quando
nos defrontamos com os clássicos eróticos,
espelhos da realidade: o "horror fortalece o desejo",
como o próprio Bataille afirma no Prefácio
da obra.
As aventuras
protagonizadas por Simone, Marcela, Sir Edmond e
o narrador avançam para muito além
das expectativas do leitor, invadindo horizontes
nos quais a incansável tentativa de tudo
ultrapassar iguala-se a um erotismo sulfuroso.
Além
das obras de ficção, Bataille também
se dedicou a análises históricas e
sociais e às teorias místicas. Faleceu
aos 65 anos, em 1962.
A tradução
em Língua Portuguesa da História do
Olho está esgotadíssima, mas, com
um pouco de sorte, ainda pode ser encontrada nos
sebos e alfarrábios.
História
do Olho (seguida de Madame Edwarda e O Morto).
Editora
Escrita, SP, 1981
[Veja
um trecho abaixo.]
Obras
de Bataille nas livrarias:
Experiência
Interior
Editora
Ática
Teoria
da Religião
Editora
Ática
Padre
C.
Editora
Relume-Dumará
Para
quem quer saber mais sobre a vida e a obra de Bataille:
http://www.france.diplomatie.fr/culture/france/biblio/folio/bataille/"
http://www.laboucherie.com/texte/bataille.htm"
http://www.france3.fr/fr3/ecrivain/bataille.html"
HISTÓRIA DO OLHO (trecho)
Georges Bataille
"(...)
Apavorado,
o padre levantou-se, mas o inglês torceu-lhe
um braço e jogou-o novamente nas lajes.
Sir Edmond
amarrou-lhe os braços atrás das costas.
Eu amordacei-o e atei-lhe as pernas com o meu cinto.
Depois que ele foi parar no chão, estendido,
o inglês segurou-lhe os braços, comprimindo-os
em suas mãos. Imobilizou-lhe as pernas envolvendo-as
com as suas. De joelhos, eu mantinha a cabeça
entre as coxas.
O inglês
disse a Simone:
- Agora,
trepa nesse rato de sacristia.
Simone
tirou o vestido. Sentou-se sobre o ventre do mártir,
com a boceta perto do cacete mole.
O inglês
continuou, falando sob o corpo da vítima:
- Agora,
aperta-lhe a garganta, um canal mesmo por trás
da maçã de Adão: uma forte
pressão gradual.
Simone
apertou: um tremor crispou o corpo imobilizado,
e o pau ergueu-se. Agarrei-o e introduzi-o na carne
de Simone. Ela continuava apertando a garganta.
Violentamente,
a moça, ébria até o sangue,
remexia, num movimento de vaivém, o pau retesado
no interior de sua vulva. Os músculos do
padre ficaram tensos.
Por fim
ela apertou tão decididamente que um violento
arrepio fez estremecer o moribundo: ela sentiu a
porra inundá-la. Então largou a garganta
e caiu, derrubada por uma tempestade de prazer.
Simone
permanecia estendida sobre as lajes, de barriga
para o ar, com o esperma do morto escorrendo pelas
coxas. Estendi-me para fodê-la também.
Estava paralisado. Um excesso de amor e a morte
do miserável tinham-me esgotado. Nunca me
senti tão feliz. Limitei-me a beijar a boca
de Simone.
A jovem
teve vontade de ver a sua obra e afastou-me para
se levantar. Trepou novamente, de cu pelado sobre
o cadáver pelado. Examinou o rosto, limpou
o suor da testa. Uma mosca, zumbindo num raio de
sol, voltava incessantemente para pousar sobre o
morto. Ela enxotou-a porém e de repente aconteceu
algo estranho: pousada sobre o olho do morto, a
mosca deslocava-se sobre o globo vítreo.
Agarrando a própria cabeça com as
mãos, Simone sacudiu-a, tremendo. Vi-a mergulhar
num abismo de pensamentos.
Por mais
estranho que possa parecer, nós não
nos tínhamos preocupado com o modo como essa
história pudesse acabar. Se algum intrometido
tivesse surgido, nós não teríamos
deixado que manifestasse a sua indignação
durante muito tempo... Mas não importa. Simone,
saindo de seu embrutecimento, levantou-se e aproximou-se
de Sir Edmond que se encostara a uma parede. Ouvia-se
a mosca voar.
- Sir
Edmond, disse Simone, grudando seu rosto contra
o ombro do inglês, você vai fazer o
que eu lhe pedir?
- Vou...
provavelmente, respondeu o inglês.
Ela me
levou até ao lado do morto e, ajoelhando-se,
levantou a pálpebra e abriu inteiramente
o olho sobre o qual a mosca tinha pousado.
- Você
está vendo o olho?
- E daí?
- É
um ovo, disse ela, com toda a simplicidade.
Insisti,
perturbado:
- Aonde
você quer chegar?
- Quero
me divertir com ele.
- E mais
o quê?
Levantando-se,
ela parecia afogueada (estava, então, terrivelmente
nua).
- Escute,
Sir Edmond, disse ela, quero que você me dê
o olho já. Arranque-o.
Sir Edmond
não estremeceu; pegou uma tesoura numa bolsa,
ajoelhou-se, recortou as carnes e, em seguida, enfiando
os dedos na órbita, retirou o olho, cortando
os ligamentos estendidos. Colocou o pequeno globo
branco na mão de sua amiga.
Ela olhou
a extravagância, visivelmente constrangida, mas
não hesitou. Acariciando as pernas, fez escorregar
o olho sobre elas. A carícia do olho sobre
a pele é de uma doçura excessiva...
e produz um horrível som, como um grito de
galo.
No entanto,
Simone divertia-se, fazia o olho escorregar na racha
das nádegas. Estendeu-se no chão,
levantou as pernas e o cu. Tentou imobilizar o globo
contraindo as nádegas, mas ele pulou como
um caroço entre os dedos - e caiu sobre a
barriga do morto.
O inglês
tinha-me despido.
Joguei-me
sobre a moça e a sua vulva engoliu o meu
pau. Fodi-a: o inglês fez rebolar o olho entre
nossos corpos.
- Enfie
ele no meu cu, gritou Simone.
Sir Edmond
introduziu o olho na fenda e empurrou.
Finalmente,
Simone deixou-me, tirou o olho das mãos de
Sir Edmond e introduziu-o em sua carne. Nesse momento,
puxou-me contra ela e beijou o interior da minha
boca de um modo tão ardente que o orgasmo
me veio logo: minha porra espirrou nos seus pêlos.
Levantando-me,
afastei as coxas de Simone: ela jazia no chão,
estendida de lado. Encontrei-me então diante
do que, imagino, eu esperara desde sempre, assim
como uma guilhotina espera a cabeça que vai
decepar. Os meus olhos pareciam-me eréteis
de tanto horror; eu vi, na vulva peluda de Simone,
o olho azul pálido de Marcela me olhar, chorando
lágrimas de urina. Rastros de porra no pêlo
fumegante conferiam a esse espetáculo uma
dimensão de dolorosa tristeza. Mantinha as
coxas de Simone afastadas: a urina ardente escorria
por baixo do olho, sobre a coxa a poiada no chão...
(...)"
(In
Bataille, Georges. História do Olho, seguido
de Madame Edwarda e O Morto. Editora Escrita, SP,
1981)
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