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"Um patíbulo se erguia sobre o solo; a um metro
deste, estava dependurado pelos cabelos um homem,
com os braços amarrados às costas. Suas pernas haviam
sido deixadas em liberdade, para aumentar suas torturas
e fazê-lo desejar mais ainda qualquer coisa que
fosse o contrário do enlaçamento dos braços. A pele
da testa estava tão esticada (...)" (Cantos de Maldoror,
canto IV).
Quem diria! Descobrir em Lautréamont uma obra tão
rica em SM, digna mesmo do bom estilo do Marquês
de Sade... Mas, quem foi o Conde de Lautréamont?
Ao certo, pouco se sabe sobre este jovem Isidore
Ducasse, filho de um funcionário do consulado françês
de Montevidéu, que teve tempo apenas de nos legar
sua estranha obra, antes de falecer com apenas 24
anos, em circunstâncias ainda inexplicadas.
Ao ler sua obra, nos vêm ao certo a imagem do Cristo
Crucificado, de Salvador Dali, ou daquela estranha
combinação, que suga um excerto de Cantos: "Belo
(...) como o encontro fortuito sobre uma mesa de
dissecação de uma máquina de costura e um guarda
chuva! (...)" (Canto V). Foi o inspirador de André
Breton, André Gide, mitificado por Pablo Neruda
como "o homem que escrevia nos pampas, montado em
seu cavalo"... Ufa!
Afinal, quem foi o Conde de Lautréamond? Aquele
que escreveu: "Menina, não és um anjo, e acabarás
por tornar-te igual às outras mulheres. Não, não,
eu te suplico; não desapareças diante do meu cenho
franzinho e sombrio." (Canto I). "Em um momento
de desvario, poderia agarrar-te pelos braços, torcê-los
como a roupa lavada da qual se espreme a água, ou
quebrá-los ruidosamente, como dois galhos secos,
e fazer que em seguida os comesses, utilizando a
força." (idem). Sempre as mesmas imagens carregadas
de significantes, que ao cúmulo do exagero, inspiraram
os pintores do surrealismo: "Quem, pois, sobre minha
cabeça, desfere golpes com uma barra de ferro, como
um martelo batendo na bigorna?" (idem). Novamente,
não deixamos de nos lembrar das imagens marcantes
de Dali...
Por fim, os desvarios literários do jovem escritor,
que vale a pena conferir: "Disse que esse moço,
triturado na engrenagem dos meus suplícios requintados,
talvez pudesse chegar a ser uma inteligência genial,
a consolar os homens, sobre esta terra, com cantares
admiráveis de poesia, de coragem, contra os golpes
do infortúnio" (Canto III). E, em seguida: "Disse
que as freiras do convento-lupanar não reencontram
mais seu sono (...) recobertas por suas mortalhas
brancas (...) um ramalhete de flores negras pende
em seus seios. (...). Disse que seria preciso me
amarrarem a uma grade, por causa dos meus inumeráveis
pecados; que me queimassem a fogo lento em um braseiro
ardente" (...) (idem).
Aos que se interessarem pela obra, segue um último
aviso: não se trata de um livro fácil de ser lido.
Dica: o canto quinto é o desenlace de todos os anteriores.
E o significado de toda a simbologia do livro ainda
não está totalmente revelado. À primeira leitura,
causa grande estranheza. É necessário que seja lida
e relida, para que se possa apreciar a obra. Boa
sorte e um grande abraço a todos!
Fonte: Lautréamont (Ducasse, I.). Obra Completa.
São Paulo, Editora Iluminuras, 1997.
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