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23/02/2001



Criador do "São, Seguro e Consensual"
escreve para Desejo Secreto

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       Durante uma discussão sobre o São, Seguro e Consensual (SSC) numa lista BDSM americana da qual fazemos parte (eles escrevem e nós lemos...), tivemos a surpresa de poder entrar em contato com as opiniões do escritor, editor e ativista gay David Stein, reconhecido no meio BDSMista como uma autoridade no que diz respeito a relações "master-slave" e uma das pessoas que, com sua postura e capacidade, ajudou a formar o que podemos chamar de pensamento ético do SM moderno.
       A discussão, muito interessante por sinal, era sobre o conceito do São, Seguro e Consensual, além da sua inserção histórica, juntamente com a criação do GMSMA (Gay Male SM Activist). David Stein, como uma das pessoas que, reconhecidamente, cunhou este conceito, fazia algumas ponderações.
       Não precisamos dizer que a identificação com as idéias que ele defendia foi imediata. E, por essa razão, entramos em contato com Stein, expondo a ele as características de nosso site - Desejo Secreto -, elogiando seu trabalho e solicitando-lhe um artigo ou a possibilidade de entrevistá-lo.
       A resposta demorou várias semanas e chegamos a pensar que uma figura de importância crucial para o BDSM dificilmente daria atenção a um mail enviado por brasileiros. Contudo, estávamos enganados. Fomos agradavelmente surpreendidos com uma mensagem cordial, repleta de informações fundamentais para se conhecer uma parcela da história do BDSM.
       É essa mensagem que publicamos a seguir:

       Beatriz:

       Desculpe-me por demorar tanto em responder, mas estive intensamente ocupado. Não sei exatamente o que você quer dizer com "ser o responsável pela conceituação do SSC". Na verdade, sou mais conhecido por ser "o que cunhou a frase SM são, seguro e consensual". Isto foi nos idos de 1983, quando eu fazia parte do comitê que rascunhou o manifesto que continha os propósitos da nossa organização Gay Male S/M Activists (GMSMA), em Nova Iorque, da qual fui co-fundador nos dois anos anteriores.
       Desde então, a GMSMA usa essa frase de maneira contínua em seu material educacional, mas o conceito não se espalhou, até 1987, quando uma versão reduzida da frase - são, seguro e consensual - foi usada durante a Marcha de Washington pelos Direitos dos Gays e Lésbicas pelo Contingente S/M - Leather, um grupo que a GMSMA ajudou a organizar. A partir daquela data a frase ganhou vida própria e nem eu, nem a GMSMA ou qualquer outra pessoa tem, hoje, o controle sobre a maneira como as pessoas a usam ou dela abusam.
       O objetivo original da frase era conseguir, de maneira clara e sumária, mostrar a diferença entre o tipo de atividade S/M para o qual o GMSMA tinha sido criado e defendia, do outro modelo, predatório, autodestrutivo e até criminal que a mídia tendia a mostrar sempre que "sadismo" e "masoquismo" fossem citados. A intenção não foi padronizar um comportamento para o SM "bom", mas sim criar um mínimo de regras para um SM ético.
       Não existem dúvidas de que o são, seguro e consensual ajudou muitas pessoas a se sentirem mais confortáveis em aceitar os desejos e fantasias SM, tanto em relação a si mesmos como em relação aos outros. Ao mesmo tempo, temos que reconhecer que cada um dos três termos é vago e pode dar abrigo a uma série bem grande de atividades.
       Devemos, enquanto comunidade, desenvolver um grande trabalho no sentido de definir bem esses termos, antes de nos sentirmos seguros de que essas palavras tenham o mesmo significado para a maioria das pessoas. Além disso, esses termos também são relativos, dependendo das circunstâncias. Portanto, o que é "seguro" ou "são" para uma pessoa ou grupo pode não ser para outras pessoas.
       Existe hoje em dia, infelizmente, uma tendência em usar o SSC como um litmus test ou um selo de aprovação, o que pode ser muito perigoso em termos de dividir a comunidade, cada lado querendo a pele do outro (a garganta seria melhor...). Existem momentos em que até fico triste por ter cunhado essa frase. Mas, como já disse antes, o fato está fora do meu controle agora.
       Meu tempo, neste momento, não me permite escrever algo mais para vocês, além do escrito acima que, tenho esperanças, será útil. Vocês têm a minha licença para partilhar este mail, colocá-lo no site ou da maneira como queiram.

Com todo o respeito e os melhores votos,
escravo david stein
sob a proteção de Mestre Steve Sampson



Conheça mais sobre David Stein


Em seu site - http://www.lthredge.com/ds/ -, uma importante referência educacional no que se refere a BDSM na Internet, David Stein (veja foto ao lado) dedica um espaço para relatar sua trajetória como ativista do movimento BDSM gay.
       Editor de um dos principais jornais gays, primeiro em Pittsburgh e depois em Nova York, como editor-chefe, ele também edita e escreve para muitas outras publicações, sempre dedicando parte de seu tempo a duas das principais revistas da comunidade gay norte-americana, a Christopher Street, na qual ele se tornou o expert em assuntos SM, e aNew York Native.
       Em 1980, respondendo a uma carta publicada no jornal que, naquela época, era considerado a bíblia dos ativistas gays, o Gay Community News, Stein encontrou-se com Brian O'Dell. Este seria o primeiro encontro do hoje mundialmente reconhecido e respeitado GMSMA. Os anos seguintes, a partir dessa data, foram dedicados a se construir essa associação, na qual Stein desempenhou todos os postos de chefia.
       Stein também foi colunista da revista Bound & Gagged (Amarrado & Amordaçado), onde escreveu, durante dez anos, sobre seu assunto predileto: segurança em bondage.
       Em 1997, ele foi o responsável único pela edição da revista International Leatherman de agosto/setembro, considerada, segundo os críticos, "a melhor publicação sobre SM gay jamais escrita".


       * Veja também, na seção de links, o endereço do GMSMA