Criador do "São, Seguro e Consensual"
escreve para Desejo Secreto
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Durante
uma discussão sobre o São, Seguro
e Consensual (SSC) numa lista BDSM americana da
qual fazemos parte (eles escrevem e nós
lemos...), tivemos a surpresa de poder entrar
em contato com as opiniões do escritor,
editor e ativista gay David Stein, reconhecido
no meio BDSMista como uma autoridade no que diz
respeito a relações "master-slave"
e uma das pessoas que, com sua postura e capacidade,
ajudou a formar o que podemos chamar de pensamento
ético do SM moderno.
A discussão,
muito interessante por sinal, era sobre o conceito
do São, Seguro e Consensual, além
da sua inserção histórica,
juntamente com a criação do GMSMA
(Gay Male SM Activist). David Stein, como uma
das pessoas que, reconhecidamente, cunhou este
conceito, fazia algumas ponderações.
Não
precisamos dizer que a identificação
com as idéias que ele defendia foi imediata.
E, por essa razão, entramos em contato
com Stein, expondo a ele as características
de nosso site - Desejo Secreto -, elogiando seu
trabalho e solicitando-lhe um artigo ou a possibilidade
de entrevistá-lo.
A resposta
demorou várias semanas e chegamos a pensar
que uma figura de importância crucial para
o BDSM dificilmente daria atenção
a um mail enviado por brasileiros. Contudo, estávamos
enganados. Fomos agradavelmente surpreendidos
com uma mensagem cordial, repleta de informações
fundamentais para se conhecer uma parcela da história
do BDSM.
É
essa mensagem que publicamos a seguir:
Beatriz:
Desculpe-me
por demorar tanto em responder, mas estive intensamente
ocupado. Não sei exatamente o que você
quer dizer com "ser o responsável pela
conceituação do SSC". Na verdade,
sou mais conhecido por ser "o que cunhou a frase
SM são, seguro e consensual". Isto foi
nos idos de 1983, quando eu fazia parte do comitê
que rascunhou o manifesto que continha os propósitos
da nossa organização Gay Male S/M
Activists (GMSMA), em Nova Iorque, da qual fui
co-fundador nos dois anos anteriores.
Desde
então, a GMSMA usa essa frase de maneira
contínua em seu material educacional, mas
o conceito não se espalhou, até
1987, quando uma versão reduzida da frase
- são, seguro e consensual - foi usada
durante a Marcha de Washington pelos Direitos
dos Gays e Lésbicas pelo Contingente S/M
- Leather, um grupo que a GMSMA ajudou a organizar.
A partir daquela data a frase ganhou vida própria
e nem eu, nem a GMSMA ou qualquer outra pessoa
tem, hoje, o controle sobre a maneira como as
pessoas a usam ou dela abusam.
O objetivo
original da frase era conseguir, de maneira clara
e sumária, mostrar a diferença entre
o tipo de atividade S/M para o qual o GMSMA tinha
sido criado e defendia, do outro modelo, predatório,
autodestrutivo e até criminal que a mídia
tendia a mostrar sempre que "sadismo" e "masoquismo"
fossem citados. A intenção não
foi padronizar um comportamento para o SM "bom",
mas sim criar um mínimo de regras para
um SM ético.
Não
existem dúvidas de que o são, seguro
e consensual ajudou muitas pessoas a se sentirem
mais confortáveis em aceitar os desejos
e fantasias SM, tanto em relação
a si mesmos como em relação aos
outros. Ao mesmo tempo, temos que reconhecer que
cada um dos três termos é vago e
pode dar abrigo a uma série bem grande
de atividades.
Devemos,
enquanto comunidade, desenvolver um grande trabalho
no sentido de definir bem esses termos, antes
de nos sentirmos seguros de que essas palavras
tenham o mesmo significado para a maioria das
pessoas. Além disso, esses termos também
são relativos, dependendo das circunstâncias.
Portanto, o que é "seguro" ou "são"
para uma pessoa ou grupo pode não ser para
outras pessoas.
Existe
hoje em dia, infelizmente, uma tendência
em usar o SSC como um litmus test ou um selo de
aprovação, o que pode ser muito
perigoso em termos de dividir a comunidade, cada
lado querendo a pele do outro (a garganta seria
melhor...). Existem momentos em que até
fico triste por ter cunhado essa frase. Mas, como
já disse antes, o fato está fora
do meu controle agora.
Meu
tempo, neste momento, não me permite escrever
algo mais para vocês, além do escrito
acima que, tenho esperanças, será
útil. Vocês têm a minha licença
para partilhar este mail, colocá-lo no
site ou da maneira como queiram.
Com todo o respeito e os melhores
votos,
escravo david stein
sob a proteção de Mestre
Steve Sampson
Conheça mais sobre
David Stein
Em seu site -
http://www.lthredge.com/ds/ -, uma importante
referência educacional no
que se refere a BDSM na Internet, David Stein
(veja foto ao lado) dedica um espaço para
relatar sua trajetória como ativista do
movimento BDSM gay.
Editor
de um dos principais jornais gays, primeiro em
Pittsburgh e depois em Nova York, como editor-chefe,
ele também edita e escreve para muitas
outras publicações, sempre dedicando
parte de seu tempo a duas das principais revistas
da comunidade gay norte-americana, a Christopher
Street, na qual ele se tornou o expert em
assuntos SM, e aNew York Native.
Em 1980,
respondendo a uma carta publicada no jornal que,
naquela época, era considerado a bíblia
dos ativistas gays, o Gay Community News,
Stein encontrou-se com Brian O'Dell. Este seria
o primeiro encontro do hoje mundialmente reconhecido
e respeitado GMSMA. Os anos seguintes, a partir
dessa data, foram dedicados a se construir essa
associação, na qual Stein desempenhou
todos os postos de chefia.
Stein
também foi colunista da revista Bound
& Gagged (Amarrado & Amordaçado), onde
escreveu, durante dez anos, sobre seu assunto
predileto: segurança em bondage.
Em 1997,
ele foi o responsável único pela
edição da revista International
Leatherman de agosto/setembro, considerada,
segundo os críticos, "a melhor publicação
sobre SM gay jamais escrita".
*
Veja também, na seção de
links, o endereço
do GMSMA