No
último 1º de dezembro, Dia Internacional
da Luta Contra a AIDS, foi lançada em todo
o mundo a campanha deste ano, destinada a frear
a disseminação do HIV. O slogan da
campanha não deixa dúvidas quanto
ao seu enfoque central: "O homem faz toda a diferença!".
É um forte apelo aos pais e filhos, irmãos,
amigos, maridos e parceiros do mesmo sexo, para
que se congreguem num esforço imenso, engajando-se
na luta contra a AIDS.
Por que o homem?
Há
uma série de razões para a escolha
do homem como centro da campanha, todas elas importantíssimas,
a começar pelo fato de que, em todo o mundo,
o número de pessoas do sexo masculino que
morre por AIDS supera, em muito, a não ser
na região do Saara, o número de mulheres.
Muito mais alarmante do que isso é saber
que uma em cada quatro dessas mortes do sexo masculino
- pasmem, caros leitores! - é de um jovem
com menos de 25 anos!!!
Mas estes
dados, por si só tão tristes, têm
um efeito multiplicador extremamente cruel, cujas
razões principais listamos abaixo:
· No mundo
inteiro o homem tem mais parceiros sexuais do que
as mulheres, acarretando que um homem HIV positivo,
mais do que uma mulher, pode contaminar com o vírus
um número maior de pessoas.
· O HIV
é mais facilmente transmitido de um homem
para uma mulher do que o contrário.
· Dentro
do universo dos usuários de drogas injetáveis,
oitenta por cento (80%) são homens. E partilhar
agulhas e seringas entre drogaditivos representa
quase 30% dos casos de infecção por
HIV.
· Homens
que praticam sexo não protegido, portando
não seguro, com homens representam, ainda,
a categoria de maior risco de infecção.
· Tem
aumentado o número de homens contaminados
por contato heterossexual.
E, se
tudo isso não fosse suficiente - e estamos
falando, até agora, de números concretos,
indiscutíveis -, existe toda uma cultura
estereotipada, comportamental, masculina, que piora
estupidamente este cenário.
Um estereótipo
pode ser definido como uma figura mental que, por
uma série de razões culturais, torna-se
padrão em determinado grupo ou comunidade
de pessoas, refletindo o senso comum ali presente.
Ele é encontrado em todas as culturas e pode
ter um impacto negativo na interação
social da vida em grupo.
Os estereótipos
que conformam o comportamento masculino cruzam fronteiras
culturais espalhadas por todo o mundo, conduzindo,
muito freqüentemente, a um padrão comportamental
de maiores riscos não só em termos
de doenças sexualmente transmissíveis,
mas que, no caso da AIDS, pode ter causas letais.
A fim
de exemplificar a corrosão social causada
por tais padrões de comportamento, basta
verificar as estatísticas novamente e descobriremos
que são os homens - e não as mulheres
- aqueles que no mundo inteiro morrem em maior número
por acidentes, violência, doenças sexualmente
transmissíveis e uso de drogas. E, não
bastassem tais constatações, ao adoecer
o homem é, em relação às
mulheres, comprovadamente menos propenso a procurar
serviço médico, tentando negar a própria
doença - afinal, homem que é homem
não chora e, muito menos, não adoece,
não é mesmo?!

Soluções
A única
maneira de quebrarmos essa corrente mórbida
é mudando nossos comportamentos e ajudando
a promover novas normas sociais. Sermos agentes
multiplicadores de atitudes que poupem vidas. Quebrando
códigos de condutas secularmente aceitos,
apesar de extremamente nocivos.
Pensando
bem, quem melhor do que nós, BDSMistas, que
ousamos assumir e viver a nossa sexualidade de maneira
no mínimo "diferente" da experimentada pelo
resto da sociedade, para entendermos o caráter
imperioso dessas alterações de comportamento
e contribuirmos, de todas as maneiras, para que
ao menos uma parcela dessas mudanças venha
a concretizar-se?
(Continua
na próxima semana...)