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Com o objetivo de contribuir para a Campanha Mundial da Luta contra
a AIDS,
Desejo Secreto publica, a partir desta semana, em três
partes, o artigo de nossa colaboradora, a médica MsKinky, fazendo
um apanhado geral do efeito avassalador do HIV em nossa sociedade
e salientando como as alterações comportamentais do homem podem
deter o avanço desse vírus mortal.

AIDS - nessa luta o homem é fundamental!
2ª Parte

Ms Kinky_MD

       Finalizamos a primeira parte deste artigo, publicada na sexta-feira passada, falando sobre soluções... Mas é impossível tratarmos delas sem, antes, identificarmos melhor a que grupos se dirige o apelo de mais esta campanha mundial. Todos nós voltamos nossos olhos, neste ano, para os homens. Quais? Absolutamente todos, divididos e respeitados de acordo com suas preferências sexuais, mas sem excetuar nenhum deles.


O homem praticante de sexo heterossexual


       O HIV está em alta nesse grupo, apesar deste fato não ter a evidência que merece. Negar o risco é o maior erro deste grupo, que prefere perceber o HIV como um risco somente dos homens homo e do bissexuais. Como conseqüência, os hetero estão mais sujeitos a contrair o vírus de parcerias casuais ou por uso de drogas injetáveis. E os dados existentes mostram o seguinte panorama:

        - 15% de todos os casos de AIDS nos EUA, no último ano, ocorreram através de contato heterossexual;
       - 9% de todos os homens infectados por HIV em 1999, contraíram o vírus através de contato heterossexual.

       Salientemos, aqui, as principais causas desses números, todas elas nascidas do preconceito: o macho heterossexual, ao contrário do homossexual, procura menos o serviço médico e, ao procurar, adere menos ao tratamento; ele também procura menos os grupos de apoio, conversa menos sobre o assunto e, freqüentemente, mesmo quando adoece, mantém a doença em segredo na família.
       Encontrar maneiras de motivar esse grupo a aderir ao sexo seguro é um dos grandes desafios que todos nós temos pela frente.


       O homem bissexual


       Bissexualidade é a capacidade de uma pessoa sentir-se sexualmente atraída tanto por homens como por mulheres. Por ser uma atividade quase que sempre escondida, negada ou ignorada, recebeu, até agora, pouca atenção. Mas sabe-se, é claro, que atividades sexuais com múltiplos parceiros de ambos os sexos aumenta enormemente os riscos de transmissão do HIV e de outras DSTs, especialmente para as mulheres!!!
        E, se isso não bastasse, pesquisas comportamentais nesse grupo mostram que a preocupação dos homens bissexuais com a possibilidade de contaminar-se vem decrescendo a cada dia.
       A única maneira de quebrarmos essa corrente mórbida é mudando nossos comportamentos e ajudando a promover novas normas sociais. Sermos agentes multiplicadores de atitudes que poupem vidas. Quebrando códigos de condutas secularmente aceitos, apesar de extremamente nocivos.


       O medo do estigma - a base do Risco da Negação do Risco!!!


       O medo de ser estigmatizado dentro do grupo social em que vive (e o estigma, infelizmente, ainda existe) é tão grande que, em alguns casos, faz com que o homem, mesmo tendo relação sexual com outro homem, negue a realidade de sua orientação sexual e identifique a si mesmo como heterossexual. Em conseqüência, não se consideram como inseridos no grupo de alto risco em relação ao HIV, mesmo sabendo que a atividade sexual não protegida entre homens é um dos comportamentos mais arriscados em termos de infecção por HIV. Esta deformação na percepção da própria realidade leva muitos homos e bissexuais a desconsiderarem os alertas e as campanhas contra a Aids, cujo conteúdo eles passam a identificar como dirigido somente ao público gay.


       O sexo entre homens - o homossexual


        Apesar de existir registro de sexo entre homens em todas as culturas e em todos os tempos, essa preferência sexual ainda é vista com grande preconceito pela sociedade. Em algumas culturas, a condenação a esse tipo de sexo existe somente se for praticado entre adultos, mas aceito se ocorrer entre meninos adolescentes. Ou, ainda pior, é aceito desde que o homem seja casado, tenha filhos e aja com discrição. O resultado não poderia ser mais nefasto: a "discrição" - seria melhor dizer falsidade - serve apenas para iludir a mulher, mantendo-a desatenta e tornando-a mais uma vítima indefesa do HIV. Ela e os filhos que forem gerados.
       Algumas outras estatísticas são importantes aqui:

       - Entre 10% e 14% dos rapazes e homens nos EUA tiveram ou têm relações homossexuais.
       - 44% dos homens diagnosticados com AIDS tiveram relações sexuais com outro homem.
       - Relembrando: três entre cada quatro homens infectados pelo HIV são jovens de menos de 25 anos.


       E as mulheres? Qual a situação delas?


        Como não poderia deixar de ser, o segmento feminino é, infelizmente, um dos que mais crescem em termos de contaminação pelo HIV. Biologicamente falando, a mulher é quatro vezes mais vulnerável à infecção pelo HIV do que o homem.
       Em 1985, as mulheres representavam somente 7% de todos os casos de AIDS. Hoje, elas conformam quase 25%.
       Tragicamente, a maioria das mulheres não se dá conta que estão em risco. Não suspeitam que seus parceiros sexuais estão engajados em comportamentos de risco, como ter sexo com outros homens sem qualquer proteção, ter múltiplas parceiras e/ou utilizarem drogas. Assim, mantidas na ignorância, sequer procuram fazer um teste para HIV. O resultado é que só buscam auxilio médico quando já estão sintomáticas e não se beneficiam, portanto, de um tratamento precoce, um dos grandes diferenciais em termos de sobrevida para os contaminados com o vírus.
       Não podemos deixar de denunciar um outro fator de alto risco: por fatores sociais e culturais, as mulheres sentem-se incapazes, muitas vezes, de exigir o uso de preservativo em suas relações sexuais.
       Tudo isso acabou levando o HIV/AIDS a se tornar a maior causa de morte entre mulheres jovens na faixa de 25 a 44 anos. E as estatísticas mostram que o contato heterossexual é o maior risco para as mulheres, seguido do uso de drogas injetáveis.
        O impacto dessa doença entre as mulheres ainda tem desdobramentos mais cruéis: tratam-se dos filhos de mães portadoras de HIV positivo. A mãe HIV positiva pode transmitir o vírus a seu filho durante a gestação, o trabalho de parto ou, até mesmo, o aleitamento.
       Gostaria de finalizar a segunda parte deste meu artigo com um dado avassalador: morrem, a cada dia, em todo o mundo, 15.000 pessoas vítimas do HIV. Trata-se de um número assustador, mas frente ao qual não podemos aceitar qualquer ato de covardia ou irresponsabilidade. Ao contrário, a notícia desses milhares de mortes deve chegar até nós como uma provocação que só aceita uma única resposta: lutarmos concretamente, em nosso dia-a-dia, contra o avanço da Aids.


        (Leia, na próxima semana, a última parte deste artigo.)