Em várias oportunidades já percebi
o interesse que o tema "eletro-estimulação"
desperta. Partindo deste princípio, procurei
condensar as experiências e informações
que consegui sobre eletro-estimulação.
Esta série está dividida em três
partes.
A primeira, conta um pouco da estória
da Eletro-estimulação, e da descoberta dos
impulsos elétricos em nosso corpo. Acho
importante conceituar historicamente, qual
foi o caminho percorrido na ciência e na
tecnologia, para chegarmos até estas caixinhas,
que despertam nossa curiosidade e satisfazem
nosso prazer.
E se queremos comprar uma caixinha,
precisamos saber, no mínimo, o que acontece
quando apertamos seus botões. Porque um
bom Dominador(a) vai querer se precaver
de todos os cuidados e conhecimentos necessários,
para poder proporcionar uma boa sessão em
sua/seu submisso(a).
E o(a) submisso(a) certamente desejará
saber quais as reações e como elas se processam
em seu próprio corpo.
A segunda, introduz alguns conceitos
básicos de eletricidade e eletro-estimulação.
A terceira parte , fala especificamente
sobre como conduzir uma sessão de eletro-estimulação.
CAPÍTULO 1.
Os impulsos enviados pelos órgãos
dos sentidos ao cérebro, e os impulsos que
o cérebro envia aos órgãos e músculos em
resposta, são de natureza elétrica.
Tensões de algumas dezenas de milivolts
(milésima parte do volt), são responsáveis
por tudo o que sentimos, e por todas as
nossas reações. É claro pois, que qualquer
diferença de potencial (DDP), aplicada externamente,
possa interferir no nosso sistema nervoso,
tanto nos estímulos que são enviados ao
cérebro, como nos estímulos que o cérebro
envia para os órgãos e músculos.
O perigo do choque elétrico pode
ser explicado justamente por esta "interferência"
provocada em nosso organismo. Em alguns
casos, por exemplo, o choque não só causa
a sensação de dor, como também pode inibir
as reações que nos livram do perigo.
Em suma, o cérebro pode enviar aos
órgãos o impulso que nos faz retirar a mão
do fio que está causando o choque, mas este
impulso não chega até lá por sofrer interferência
da corrente que está sendo responsável pelo
choque. A pessoa nesta situação sente-se
"presa " ao local que lhe causa o choque,
não podendo sozinha, livrar-se do perigo.
No laboratório, as tensões controladas
dentro de certos limites, podem ser utilizadas
para uma análise do comportamento do sistema
nervoso de uma cobaia, ou de um paciente.
No caso de um paciente, pode-se verificar
sua sensibilidade ao choque e suas reações.
Podemos citar a clássica experiência
de Galvani, (Fig.01)
com
a qual se demonstrava a sensibilidade elétrica
do sistema nervoso, realizada com uma rã.
Aqui, abro um parênteses para vocês
acompanharem a evolução científica da eletro-estimulação:
" Como resultado das demonstrações
experimentais realizadas por Luigi Galvani
e seus seguidores (lembram da perninha do
sapo que "se mexia" ao se aplicar uma corrente
elétrica em seu músculo ?), a natureza elétrica
da função nervo-músculo estava finalmente
desvendada. Entretanto, a prova direta somente
poderia ser feita quando os cientistas conseguissem
medir ou detectar as correntes elétricas
naturais geradas nas células nervosas e
musculares. Galvani não tinha a tecnologia
necessária para medir essas correntes, porque
elas eram muito pequenas. Os electroscópios,
os dispositivos medidores usados naquele
tempo, não eram sensíveis o suficiente.
Como resultado, o estudo da bio-eletricidade
quase desapareceu do cenário científico
até 1827.
Em 1826, Johannes Müller (1801-1858),
um notável psicólogo e fisiologista alemão,
propôs sua teoria da "energia nervosa específica",
a qual defendia que os diferentes nervos
(ótico, auditivo, etc) transmitiam uma espécie
de "código", que identificava sua origem
ao cérebro. Sua proposição, válida até hoje,
foi no entanto baseada no vitalismo, uma
doutrina filosófica errônea, que afirmava
que a vida era caracterizada por uma "energia
vital" intrínseca. Entretanto, a teoria
de Müller foi importante como o início de
uma escola inteiramente nova do pensamento
neurofisiológico, o qual eventualmente refutaria
o vitalismo como um conceito válido em biologia.
O palco para as descobertas revolucionárias
sobre a função nervosa que seriam feitas
nas próximas décadas tinha como pano de
fundo os avanços que estavam sendo realizados
continuamente no conhecimento anatômico
sobre o sistema nervoso. (Para quem quiser
saber mais, em 1836, Robert Remak descreveu
axônios mielinizados não-mielinizados.)
No ano seguinte, Jan Purkyne descreveu células
cerebelares e identificou o núcleo e os
processos neuronais. Novamente em 1838,
ele e Remak sugeriram que as fibras nervosas
são unidas (ou seja, a fibra nervosa ou
axônio é um processo emergindo da célula
nervosa).
Em 1839, Theodor Schwann propôs
a teoria celular, ou seja, que o sistema
nervoso é composto de células neuronais
individuais.
Então, em 1848-9, meio século após
a descoberta de Galvani, e graças à invenção
do galvanômetro (Fig. 02)
feito
duas décadas antes, o cientista suiço-alemão
Emil Heinrich Du Bois-Reymond (1818-1896),
professor de fisiologia em Berlim, discípulo
e sucessor de Johannes Müller, conseguiu
usar um novo e sensível tipo de galvanômetro
desenvolvido por ele, para detectar o que
ele chamou de "corrente de ação" no nervo
do sapo.
Ele foi chamado assim porque Du
Bois-Reymond notou uma pequena variação
negativa do potencial elétrico de repouso
em eletrodos metálicos conectando o nervo
ao galvanômetro, somente quando a estimulação
do nervo (mecânica ou elétrica) eliciava
uma resposta do músculo. Ele demonstrou
que este fenômeno de "variação negativa"
também ocorre em músculos estriados e é
a causa primária da contração muscular.
A corrente de ação (posteriormente
denominada de potencial de ação) foi descoberta
por Du Bois-Reymond como sendo um tipo de
"onda de impulso elétrico", a qual se propagava
em uma velocidade fixa e relativamente lenta
ao longo da fibra nervosa. Em 1852, Hermann
von Helmholtz (1821-1894) foi capaz de medir
a velocidade de impulsos nervosos em sapos,
e determinou que a mesma era de aproximadamente
27 metros/seg. ( Esta é a velocidade que
um comando proveniente do seu cérebro para
um músculo, ou um estímulo - de dor, por
exemplo, - caminha pelo seu corpo)
As contribuições de Du Bois-Reymond,
publicadas em seu livro "Untersuchungen
über thierische Elektricität". ("Pesquisas
Sobre a Eletricidade Animal") em 1848, criou
o campo da eletro-fisiologia científica.
O trabalho dos dois cientistas serviu
para refutar a visão de seu mestre, Johannes
Müller, de que o impulso nervoso era um
exemplo de uma função vital que nunca poderia
ser medida experimentalmente. O impressionante
avanço tecnológico na segunda metade do
século XIX marcaria o caminho para o progresso
do novo campo da eletrofisiologia. (Bendita
revolução industrial...)
Acho interessante citar também o
caminho percorrido pelos cientistas, para
termos o que chamamos hoje de "eletro-estimulação".
Nas primeiras décadas do século
XIX, a nascente ciência da neurofisiologia
estava rompendo fronteiras de forma fascinante.
Era a primeira vez na história da ciência
que surgia uma cooperação íntima entre a
física e a biologia. Ela era necessária,
não somente porque a biologia estava tentando
interpretar os fenômenos da função neural,
à luz dos recentes conhecimentos fornecidos
pela física, mas também porque ela estava
usando os mesmos instrumentos de medida,
dispositivos e aparelhos.
O conhecimento aplicado que tinha
sido reunido pelos físicos experimentais
nos campos da eletricidade, da ótica e da
mecânica estava começando a trazer grandes
contribuições para a fisiologia. Muitas
vezes, no entanto, os fisiologistas que
estavam conduzindo experimentos pioneiros
eram forçados a inventar ou adaptar instrumentos
já existentes para obedecer as exigências
do trabalho com os tecidos vivos, capazes
de gerar correntes e tensões (voltagens)
extremamente fracas, de uma magnitude tal
que os físicos nunca tinham estudado antes.
(Como seria um aparelho de eletro naquela
época?)
CAPÍTULO 1.1
Estimulação Elétrica
Em primeiro lugar, os fisiologistas
necessitavam de fontes estáveis e confiáveis
de corrente elétrica, de modo a estimular
os nervos e músculos de suas preparações.
Quando Luigi Galvani começou seus experimentos
pioneiros, existia apenas um pequeno número
de técnicas à sua disposição: jarros de
Leyden, geradores eletrostáticos e eletricidade
natural (ou seja, raios !). Não havia pilhas!!!
O gerador eletrostático (Fig.
03)
era
feito de um disco de vidro vertical ou horizontal,
que podia ser girado rapidamente usando
uma manivela manual, ligada a uma polia.
Uma escova metálica, em contato com o disco,
coletava cargas elétricas, criadas pelo
atrito. Duas bolas metálicas conectadas
aos pólos eram então usadas para transferir
essa carga para um jarro de Leyden.
A garrafa, ou jarro, de Leyden também
era feita de vidro e forrada internamente
com folha fina de estanho, e um pino de
metal com uma bola, inserido através de
uma rolha isolante. Ela funcionava como
um condensador elétrico, e era usada para
armazenar cargas elétricas, bem como para
ministrar choques elétricos aos tecidos
que se queria estimular. Infelizmente, a
quantidade de corrente elétrica não era
controlável e quantificável, portanto as
garrafas de Leyden eram pouco confiáveis
quando se queria fazer experimentos replicáveis.
Isto era o mais perto do que se podia chegar
de uma pilha!
A invenção definitiva se originou
diretamente da disputa cientifica de Galvani
com seu colega Alessandro Volta. (A palavra
Volt, vem de uma homenagem a Volta).
Volta interpretou corretamente que
as rãs de Galvani contraiam seus músculos
quando estavam penduradas por ganchos de
cobre de grades de ferro, porque a junção
entre dois metais diferentes funcionava
como um dispositivo de geração de eletricidade.
(É por isso que não pomos em nossa casa
canos de ferro junto com canos de cobre!).
Volta montou então um dispositivo,
ao qual chamou de "pilha "(Fig. 04),
porque realmente ele empilhava uma série
de discos de prata e de zinco alternadamente,
separados entre si por discos de papelão
embebidos em água com sal.
Uma corrente elétrica se produzia
quando o disco de prata no topo da pilha
era conectado por um fio ao último disco
de zinco na parte de baixo.
A bateria de células voltaicas deu
inicio a uma revolução abrangente nos anos
que se sucederam, não apenas na física,
mas também na fisiologia. Controlando cuidadosamente
a área e o material de suas partes constituintes,
a concentração das substâncias químicas
e o número de discos na pilha, voltagens
conhecidas e precisas podiam ser ministradas
aos tecidos que se queria estimular. Claude
Bernard, o famoso fisiologista francês,
chegou a fabricar engenhosas "pinças elétricas",
que usava para segurar e tocar nervos delicados,
estimulando-os, ao mesmo tempo.
Posteriormente, os fisiologistas
tiveram que inventar interruptores mecânicos
especiais, de modo a aplicar pulsos de corrente
elétrica aos nervos e músculos, em instantes
precisamente determinados, e com durações
conhecidas e muito curtas. Normalmente esses
interruptores eram feitos de piscinas de
mercúrio, bastonetes pontiagudos de metal
e botões acionados por molas fortes.
Quando o experimento exigia estimulações
repetidas regularmente de forma precisa,
um disco giratório era usado para acionar
o interruptor a instantes precisos. Já pensaram
a trabalheira que dava?
CAPÍTULO 1.2
Medindo a Bio-eletricidade
As correntes e potenciais elétricos
gerados pelos tecidos biológicos são muito
pequenos, da ordem de micro- ou milivolts.
Portanto, chega a ser espantoso constatar
como os aparelhos primitivos usados pelos
fisiologistas no século XIX eram capazes
de registrar variações tão minúsculas. Em
uma certa ocasião, um fisiologista foi capaz
de discernir meros 10 mV (mais tarde termos
uma boa idéia de o quanto isto representa!)
de alteração positiva na "corrente de ação
do nervo", que mesmo hoje é difícil de se
conseguir usando modernos amplificadores
eletrônicos e osciloscópios.
Um melhor instrumento de medida
foi conseguido apenas por volta de 1820,
com o galvanômetro (cujo nome, evidentemente,
homenageava Galvani). Ele utilizava o princípio
do eletromagnetismo, descoberto por Oersted
e Faraday.
Consistia de uma bobina enrolada
de fio isolado de cobre, em volta de um
magneto colado à uma agulha (Fig. 05).
Ao
se passar uma corrente elétrica pela bobina,
um campo eletromagnético era provocado,
o qual interagia com o campo magnético do
ímã e fazendo-o girar em torno de um eixo.
O valor do desvio da agulha era
medido sobre uma escala impressa, permitindo
assim uma medida mais exata da corrente
ou potencial elétrico. Quanto maior fosse
o magneto e a bobina, mas sensível era o
instrumento.
O cientista suiço-alemão Emil Du
Bois-Reymond desenvolveu em 1840 um galvanômetro
muito sensível, e que foi um dos melhores
instrumentos de medida a serem usados por
muitas décadas em experimentos neuro-fisiológicos.
Seu sensível dispositivo necessitava
quase 24,000 voltas de fio em sua bobina,
com mais de 5 km de comprimento!
Posteriormente no mesmo século,
registros temporais de fenômenos fisiológicos
se tornaram possíveis com o quimógrafo de
tambor. A agulha do galvanômetro era colocada
em contato com uma alça de papel recoberta
com uma fina camada de negro de fumo, a
qual era esticada sobre um cilindro de metal.
Um mecanismo de engrenagens de relojoaria,
muito preciso, girava o cilindro a qualquer
velocidade que se desejasse, e os movimentos
da pena do galvanômetro riscavam a superfície
do negro de fumo, expondo um traçado da
intensidade em função do tempo. (Fig.
06)
Este
é um rudimento do osciloscópio, que serve
para aferir e regular os equipamentos de
eletro-estimulação modernos.
Fenômenos mecânicos, como a contração
de um músculo, movimentos respiratórios
e pressão sangüínea, podiam ser também registrados
em função do tempo, através de engenhosas
montagens de dispositivos complicados, feitos
de alavancas, eixos, membranas, molas e
fios.
O eixo do tempo era calibrado e
medido usando-se diapasões eletromagnéticos
conectados a penas tinteiros. Até o começo
do século XX, estas eram as ferramentas
básicas da eletro- estimulação.
Uffa! Vocês pensam que é fácil?
Que é só comprar os aparelhos e apertar
os botões?
Não, não e não! Para se usar eletricidade,
temos de saber um pouco de muita coisa:
Física, Fisiologia, Química e Biologia.
Mas esta será a segunda parte nosso
artigo.