A primeira questão
que tentaremos abordar é: "por
que o uso de acessórios eróticos?".
O que eles têm a ver com nossa sexualidade?
Em quê eles poderiam nos ajudar, se
é que isso acontece?
Para a maioria das pessoas,
o simples uso de um vibrador é entendido
como "descontentamento sexual".
Ou seja, ou o parceiro não está
"dando conta do recado", ou é
por "efeito da solidão"...
Veremos que não é bem assim.
Na civilização
greco-romana, o uso de acessórios
eróticos foi grandemente difundido.
Escavações das décadas
de 1960 e 1970 em Herculano e em Pompéia
recolheram material suficiente para equipar
um pequeno "museu erótico",
mas que infelizmente está com visitação
restrita. Nas culturas árabe clássica,
chinesa, japonesa, indiana antigas e em
outras, o uso de acessórios nas cortes
era bastante difundido e até estimulado.
O que são "acessórios
eróticos"? Basicamente, qualquer
objeto que insinue, ou que seja definitivamente
usado para excitar a si ou ao parceiro.
Um simples pedaço de napa vermelha
e muito macia poderia ser um acessório
erótico para alguém que se
excite com aquela textura macia do couro
tratado. Há também acessórios
que se podem apenas simular, não
sendo recomendável seu uso. A exemplo,
frutas e legumes frescos, objetos de uso
quotidiano como canetas e outros que como
não foram desenhados para o objetivo,
poderiam causar lesões por perfuração
ou corte, portar bactérias e outros
agentes nocivos/irritantes, etc..
Qual o conceito que está
por trás de "estimulação
erótica"? Em primeiro lugar,
explorar e conhecer seu próprio corpo.
Nos orgulhamos de termos nascido em uma
"sociedade livre de preconceitos",
mas o fato é que nunca se falou tanto
e nunca se praticou tão mal a sexualidade
humana. Não conhecemos nosso corpo,
não sabemos nossos limites. Nunca
nos ensinaram na escola a segurar o gozo,
esperando o parceiro atingir igual excitação.
Nunca disseram para nós o que fazer
após o ato sexual. É tudo
isso que precisamos redescobrir.
Como fazer isso? Em primeiro
lugar, você deve estar disposto a
se conhecer melhor, a ensaiar na frente
de um espelho. Aconselho a arranjar um espelhinho
portátil e uma fonte de iluminação
adequada. Com as mãos, você
deverá explorar seus órgãos
sexuais, conhecer melhor seu próprio
corpo. Explore outros ângulos de visão,
com ajuda do espelho é possível
conhecer melhor as dobras da vagina, bolsa
escrotal, ânus e região próxima.
Dificilmente alguém que não
se conhece aprenderá a se amar. Quem
não se ama, não poderá
fazer o mesmo com o parceiro.
Para quê servem os acessórios
eróticos? Basicamente, enumerei seis
utilidades: 1-voyerismo; 2-excitar e prolongar
as prévias antes da cópula
melhorando a ereção; 3-produzir
excitação e gozar, ou prolongar
o clímax; 4-iniciação
em práticas "avançadas";
5-jogos BDSM. Abordarei brevemente algumas
delas:
1-voyerismo. Muitas pessoas
se excitam em assistir ao parceiro trajado
de determinada maneira, ou tendo sensações
eróticas/fazendo uso de acessórios.
Pessoalmente, me incluo nesta categoria.
Os "sex-shops" normalmente possuem
material abundante para isso e infelizmente,
na maior parte de baixa qualidade. Se for
comprar vestimentas, verifique se não
é possível mandar confeccionar
em algum lugar exclusivo antes de apelar
para fantasias baratas. Dica: dificilmente
quem confecciona trajes de gala se espanta
com pedidos estranhos...
Aconselho sempre a dialogar
com o parceiro(a). Se não quiser
abordá-lo diretamente, pode presenteá-lo
com alguma vestimenta ou acessório
especial. Na hora de entregar o presente,
demonstre naturalidade e não tente
se explicar. Nossa cultura nos obriga a
negar o prazer e não raramente, uma
resposta inicial de repúdio do parceiro
pode significar, de fato, aprovação.
Seja paciente, ganhe aos poucos a confiança
e o mais importante: não o obrigue
a vestir ou fazer nada. Tudo deve ocorrer
naturalmente.
Se o presente for um acessório.
No caso de mulheres, escolha ou um pênis
de borracha macia de tamanho pequeno (tome
muito cuidado com a qualidade), ou um desses
excitadores clitorianos (em forma de ursinho,
coelhinho, unicórnio, etc..). Saia
fora de acessórios grosseiros, equipamentos
inadequados ou extravagantes e desconfie
dos que forem baratos demais. Importante:
teste muito bem o aparelho antes de sair
da loja: normalmente a porta do estabelecimente
é o limite sua garantia... (ah, e
não esqueça de dar as pilhas
junto com o aparelho!)
No caso de homens, presenteie
com algum acessório peniano. A educação
masculina obriga a repudiar o erotismo anal,
que na maioria dos casos permanece latente.
Portanto, não comece dando logo de
cara um plugue anal para seu namorado/noivo/marido.
Não são aconselháveis:
bombas de vácuo (perigosas demais
- apenas para experientes), anéis
metálicos (entalam com freqüência
e devem ser retirados num serviço
de saúde), vibradores para escroto
(podem causar lesões irreversíveis/impotência).
Recomendo pequenos vibradores (são
fantásticos para estímulação
da glande), vibradores com adaptador para
cabeça do pênis, anéis
de borracha macia para base de pênis
(com ou sem vib) e principalmente: uns masturbadores
em borracha macia. Estes possuem a forma
de um cilindro transparente e dão
sensações eróticas
indescritíveis (não são
aquelas "vaginas de silicone").
Importante: não esqueça de
comprar também um tubo de KY na farmácia
(normalmente é mais barato).
Plugues anal - se a prática
já for conhecida entre os parceiros,
aconselho começar com um plugue pequeno.
A adaptação aos acessórios
de borracha dever ser feita com muita cautela,
com o risco de causar danos irreversíveis.
Se for presentear com um vibrador em formato
de pênis e acabamento em borracha,
aconselho de seja inserido por esta via
com uso de camisinha. Cuidado com plugues
metálicos (devem ser totalmente lisos
e ausentes de farpas). O problema da borracha
é que é porosa e será
quase impossível higienizar o acessório
após o uso. O uso de acessórios
infláveis comporta riscos e deve
ser considerado uma prática BDSM
"avançada" - cuidado!
2-Excitar/provocar o parceiro
antes da cópula. O essencial nestas
práticas é não produzir
o orgasmo. É uma espécie de
equilíbrio muito delicado: se sentir
qualquer espécie de dor indesejada,
o parceiro(a) irá perder a excitação
e provavelmente tudo se acaba; se a estimulação
for insuficiente, perde o interesse e irá
se distrair; se for forte demais, irá
gozar e tudo se encerra como se tivesse
ocorrido a cópula. Os antigos ficavam
nestes jogos por horas a fio. Pode haver
pausas, pode-se parar para fazer xixi e
depois retomar os jogos. O importante é
que haja continuidade e que possa ser sustentado
por muito tempo.
Não tenha pressa. Não
vá "cêdo ao pote".
A excitação é como
o desabrochar de uma flor, não pode
ser forçada ou esta será uma
flor doente. Tenha as mãos muito
leves, faça transições
lentas. O beijo ajuda a manter a ereção.
Se for tocar a região genital ou
inserir algo, tenha certeza de que está
tudo muito bem lubrificado (lubrifique o
aparelho e não a genital). A televisão
distrai. Música clássica em
CD é mais aconselhável que
MPB ou FM. Deixe uma garrafa de água
por perto e não marque compromissos
para o dia. Se for atender o telefone, não
interrompa os estímulos.
Com o tempo, será possível
"treinar" o parceiro para este
aprender a segurar o gozo. Isto irá
melhorar o desempenho sexual de ambos. Quando
se aprende a controlar o próprio
corpo, é possível por exemplo,
manter a ereção por períodos
prolongados e a penetração
fica mais "interessante". (Pode
ser feito individualmente, sem o mesmo resultado).
Lembre-se: formar uma "máquina
de sexo" exige tempo de treinamento...
Se for usar "eletroestimulação"
(aparelhos próprios para isso), use
baixíssimas intensidades, por períodos
bem prolongados. Enquanto o aparelho estiver
operando, lembre-se de que beijo é
terminantemente proibido!
3-Levar o parceiro ou a si
ao gozo. Se pretende simular o sexo com
um acessório erótico, há
algumas regras que devem ser seguidas. Como
a maioria das pessoas as desconhece, é
usual comprarem um acessório em uma
"sex-shop" e sobrevir a decepção.
Vamos a algumas delas.
Primeiramente, seu corpo não
é uma "máquina de sexo".
Não basta introduzir/adaptar o acessório
e esperar o gozo. Pelo contrário,
já que está emulando a prática
sexual, deve seguir todas as etapas. Não
adianta tentar "violar a natureza",
antes adaptar as técnicas à
nossa constituição natural.
Consideremos as seguintes
fases: a)despir-se/iniciar os jogos eróticos
- se for fazer isso sozinho(a), faça-o
na frente de um espelho. Dispa-se bem devagar,
explore a sensualidade das suas formas,
sejam elas quais forem; b)começo
das "brincadeiras" - um lugar
macio para sentar/deitar e à prova
de vazamentos de KY e fluidos. Aconselho
a ter uma toalha especial para proteger
sua cama/sofá. Os jogos devem ser
lentos e começa-se a alisar, passar
a mão bem de leve sobre as zonas
eróticas. Depois começam as
experimentações com os acessórios.
Se tiver mais de um, deixe-os por perto,
assim como coisas que o(a) excitem (livros,
fotografias, filmes, etc..). Só comece
os jogos mais pesados quando sentir que
começaram a ficar molhado(a)... (esta
fase deverá durar entre dez e quarenta
minutos, de maneira geral); c) introduzir/acoplar
seu "acessório de cópula".
Lubrifique o acessório bem antes
de fazer isso e mantenha-o firme em sua
posição durante a "cópula".
Pode se mexer ou movimentar o acessório,
se assim desejar, mas não o retire/desacople
até atingir o clímax; d) clímax
e gozo - quando perceber que for gozar,
tente assim mesmo "segurar o gozo".
Na verdade, isso irá aumentar o tempo
de excitação máxima,
sempre mantendo o aparelho no lugar. Quando
começar a gozar, certifique-se de
que o equipamento não irá
desacoplar, pois deve ainda prolongar o
prazer por algum tempo. Não basta
"excitar e gozar", deve-se manter
a excitação também
durante o gozo e um pouco mais, ou não
irá ficar satisfeito(a). Se for um
equipamento de "eletroestim",
é conveniente baixar um pouco a intensidade
dos choquinhos nesta hora, pois a região
fica mais sensível que o normal.
e) após o gozo - muitas pessoas ignoram
esta fase, que é uma das mais importantes.
Retire/desacople os acessórios lentamente,
solte amarras e mordaças devagar
e acaricie muito o parceiro(a). Aconselha-se
a ficar abraçado por um tempo e há
homens e mulheres que gozam ainda uma outra
vez desta maneira (sim, homens também!).
Depois, uma dormida ou uma pequena descansada
e nada como um bom banho! Evite nesta hora
falar alto ou colocar música irritante
(a não ser que curta um bom "heavy
metal").
4-Iniciação
em "práticas avançadas".
Pode ser que seu objetivo seja por exemplo,
explorar o sexo anal ou o "fisting"
(introdução de membros na
vagina ou ânus). Neste caso, deve
buscar acessórios eróticos
que irão gradualmente ajudá-lo
a explorar esta dimensão da sua sexualidade.
Não considere anormalidade também
o homem buscar o prazer anal. A nossa sexualidade
exclui os "anormais" (gays, lésbicas,
sadomasoquistas e outros) e dependendo da
educação recebida, a "purificação"
vai ainda mais longe, proibindo estimulação
na zona anal, felação (masturbação),
exploração sensual do próprio
corpo e até mesmo negando a própria
libido (desejo sexual).
Se você segue este caminho,
muito bem. Não deveria estar lendo
este texto. Mas se você acredita que
as coisas poderiam tomar outros rumos, então
é possível explorar outras
dimensões na sua forma de encarar
o prazer erótico. Hoje os "sex-shops"
estão mais abertos e a importação
garantiu a entrada de equipamentos antes
desconhecidos no mercado brasileiro. Para
os iniciantes em sexo anal, por exemplo,
há "kits" de plugues anal
de tamanhos progressivos, indo desde o "iniciante",
até o "avançado"
e em diversas cores. Para praticantes do
"fisting", já vi mãozinhas
e braços de todos os tamanhos e não
mais é necessário começar
com um acessório de tamanho inconveniente.
O mundo BDSM é um universo à
parte e a criatividade atinge níveis
indescritíveis. Infelizmente, ainda
há quem pense que "bolinhas
tailandesas", por exemplo, servem apenas
aos "depravados"...
Dica: se for começar
uma prática nova, seja ela "pumping"
(uso de bombas de vácuo), "fisting"
(introdução de dedos e punho)
ou qualquer outra, aconselho a buscar ajuda
de pessoas mais experientes. Não
tenha pressa em se iniciar em uma prática
que desconheça os efeitos. Se possível,
converse com um médico da sua confiança
para esclarecer eventuais dúvidas.
Cuide muito bem do aspecto da higienização
dos equipamentos e no caso de surgir qualquer
tipo de lesão por efeito mecânico
(acidente físico) ou por agente microbiano
(infecções), procure seu médico
imediatamente.
5-BDSM. A "bondage e
dominação, sadismo e masoquismo"
é praticamente universo à
parte. Há pessoas inciadas das mais
diversas opções sexuais e
os ritos também são muito
diversificados. Existem desde práticas
"light" até as mais "pesadas"
imagináveis. A regra básica
a seguir é: "são, seguro
e consensual" e deve-se ter em mente
que qualquer prática desta natureza
envolve sim, riscos. Os riscos podem ser
gerenciados, mas jamais ignorados.
Se for se iniciar, procure
se informar muito bem antes. Você
terá que aprender a distinguir os
"falsos mestres e senhoras" dos
verdadeiros. Qualquer prática que
viole qualquer uma das três "regras
de outro" (são, seguro, consensual)
não deve ser considerada BDSM e sim
um tipo penal punível por lei.
Se for o caso, antes de sair
comprando chicotes, braceletes e máscaras,
entre em contato com praticantes do BDSM
real (não valem "mestres"
dos chats de Internet). Quase que certamente,
deverá ter que confeccionar seus
próprios acessórios, uma vez
que o que é vendido nas "sex-shops"
é praticamente imprestável
(não acredite nos "conselhos
da vendedora", a não ser que
quem esteja comercializando realmente "entenda
do assunto").
Sim, BDSM é 9O% teatro.
Sim, é necessário aprender
a se portar, a vestir e trajar os "uniformes"
e a ordenar/obedecer. É preciso ensaiar
muito, uma vez que se "faz um papel".
Os acessórios devem ser muito bem
testados previamente e não se admite
a menor falha no "ato". É
possível se "inverter papéis",
desde que todos saibam precisamente qual
o papel que está desempenhando.
Mas há os 10% que não
tem nada de encenação. Para
isso, é necessária muita prática
ou os acessórios não irão
funcionar. Se for chicotear, aprenda antes
com alguém que saiba fazer isso muito
bem. Experimente antes em você mesmo,
até que tenha certeza do que está
planejando, que não irá colocar
em risco ou comprometer a saúde do
parceiro(a). Se for usar "eletroestim",
pratique muito em você mesmo antes
e não tenha seu limite como parâmetro
universal, pois há pessoas mais e
outras menos sensíveis. Muita dor
não significa necessariamente muito
prazer; o resultado ideal está em
um casamento perfeito das duas coisas e
na medida exata. Jamais use eletricidade
"acima da cintura" e eletroestimulação
de mamilos definitivamente não é
uma boa idéia!
Assim, pretendo encerrar estes breves comentários
sobre o uso de acessórios eróticos
na prática sexual. Não pretendi
esgotar o tema e certamente, muitas dúvidas
irão surgir. Na medida do possível,
tentarei esclarecer algumas delas. Certamente
o texto deve conter erros - peço
desculpas aos leitores mais aguçados.
Por fim, não levem ao pé da
letra tudo o que foi escrito. O espírito
crítico ainda é a melhor arma
do homem.
Por fim, espero não
ter cometido nenhuma injustiça com
os diversos grupos/opções
sexuais. Da mesma maneira, espero que os
leitores aceitem as diversidades que possam
estar contidas nas idéias aqui expostas.
Um abraço a todos,
Senhor Carlos
jan/2003
Senhor
Carlos