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Em
Língua Portuguesa, assim como em todas as
línguas de origem latina, o vocábulo
dominador porta uma carga semântica que duplica
o seu sentido originalmente poderoso. A expressão
Dom - do latim, dominu, ou seja, senhor - enraizada
ali, que o termo completo, dominador - do latim,
dominatore - sobreleva e realça, é
um germe que fecunda esta última, fertilizando-lhe
o sentido. Assim, numa única palavra temos
a expressão não só daquele
que domina, mas também a própria forma
de tratamento utilizada apenas em relação
aos que verdadeiramente dominam.
A medida
de força das palavras não está
dissociada dos papéis e das personalidades
que elas costumam impregnar. Ao contrário,
nomeações e nomeados parecem reforçar-se
num jogo infinito de troca e acúmulo de poder,
o mesmo podendo ser afirmado pelo próprio
ato de nomear, pois quem nomeia como que se apropria...
Assim,
nas relações de dominação
e submissão (D/s), que compõem a base
dos jogos sadomasoquistas, o Dominador não
é meramente aquele que impõe a sua
vontade - com certeza, o dado mais aparente e, no
entanto, também o mais desprezível,
se levarmos em conta a regra fundamental do SM são
e saudável: o consenso -, mas principalmente
aquele que, por livre e espontâneo desejo,
se obedece, se respeita e se escolhe como objeto
de subserviência. Repete-se, portanto, na
realidade, o que a semântica prefigura: antes
do Dominador preexiste o Dom, aquele que denota
poder e frente ao qual os súditos vêm
curvar-se.
É
terrível perceber como séculos de
Cristianismo só conseguiram ampliar os atos
de submissão dos povos às disciplinas
inculcadas pela política ou pela religião,
pelo Estado ou pela Igreja, interferindo até
mesmo no espaço da sexualidade doméstica.
Contudo, nem mesmo a criação da idéia
de pecado, o mais criminoso ato de covardia já
perpetrado contra o imaginário humano, e
da Inquisição, o braço armado
da teologia católica, conseguiu afastar os
homens dos seus fetichismos. A libido foi mais forte
que o sangue dos cristãos derramado no coliseu
romano.
E por
que tem sido assim? Porque, ainda que tenhamos nos
esquecido, somos animais. E, como animais, impregnados
das regras da Natureza, obedecemos aos ditames da
vida; nos orientamos, como os vegetais supostamente
cegos, na direção do Sol.
Na oposição
artificial que os séculos de civilização
criaram, tão bem detectada por Nietzsche
- de um lado, o instinto degenerador, contrário
à vida, do Cristianismo; de outro, um exuberante
dizer Sim à vida, sem nada desconsiderar
ou dispensar - venceu o Sim da coragem e do excesso,
através do qual ousamos avançar.
(I)
Dessa
forma, Dominadores(as) e submissas(os), além
de uma infinita gama de fetichistas, nada mais fazem
do que perseverar em seu infatigável Sim
ao que clama em suas naturezas. Quando a chibata
- ou apenas a mão - do Dominador desce, inflexível,
leve ou pesada, rápida ou compassadamente,
mas sempre fustigante, sobre a carne da sua escrava,
esse gesto reafirma uma pulsão em direção
à vida. É um Sim ao que a Natureza
lhes exige. E quando a submissa, consensualmente,
oferece a sua vontade, deixando que a sua carne
abra-se às marcas daquele que ela escolheu,
é como se o seu corpo inteiro, em uníssono
ao do seu Senhor, almejasse o desmedido, o ponto
mais extremo da vida.
Aqui,
quando esses dois animais - como felinos na selva
- constróem a cena sadomasoquista, cada gesto
e cada anuência urdem uma dança de
força, no centro da qual uma vontade maior
se cria. E, quando a cortina das pupilas se ergue,
e os olhos do Dominador e da submissa se encontram,
a imagem que invade os membros jamais morre no coração,
mas insufla uma força e um desejo ainda maiores.
(II)
Trata-se
de um jogo de exaustão, no qual o consenso
pode estabelecer regras que - sem a mínima
perda de prazer - dissipam e/ou esgotam toda e qualquer
força física. Trata-se, portanto,
de um jogo no qual se vivencia, através do
mais íntimo dos acordos, da mais íntima
cumplicidade, a dor, o medo e, até mesmo,
o horror. Tudo para erguer um Sim irrepreensível
à vida. Tudo para, no dizer de Georges Bataille,
"chegar ao fundo do êxtase em cujo gozo
nos perdemos". (III)
Trata-se
de um Sim desmedido, dionisíaco, se pensarmos
aqui nas inúmeras variantes que a relação
D/s pode tomar. Amarro minha serva e ela sussurra:
ata-me. Esbofeteio-a e ela, oferecendo a outra face,
pede: beije-me. Humilho-a e ela vem beijar minhas
mãos, os olhos voltados para o chão.
E, mais uma vez, o que aos olhos dos tolos ganha
os contornos de uma perversão, para nós
é apenas beleza e exuberância, ainda
que extenuantes.
Muitas
vezes, ao ser questionado sobre tais relações,
costumo dizer que entendo o SM, em última
instância, como uma espécie de cosmovisão,
ou uma weltanschauung, pois ele me concede
um prazer verdadeiramente filosófico: quando
bato ou submeto, descubro mais de mim mesmo e conheço
os limites e as faces ocultas das outras pessoas...
É como se, passo a passo, eu pudesse desvendar
um pouco mais o gênero humano.
É
impossível não residir beleza na relação
D/s. Fazemos um contrato e nos dizemos, reciprocamente:
- Vou revelar-me para você... - Por favor,
faça tudo com que sonho... - Respeite minha
vontade mais íntima... - Aceite meu pavor...
- Aceite minha violência... - Vamos nos permitir
a verdade, um pouco... E cada golpe que passo a
desfechar sobre a minha escrava passa a ser um atestado
de que estamos vivos e somos grandes; que podemos
ir onde nenhuma espécie foi... E voltar.
Que somos soberanos da nossa própria vontade.
Assim, quando o chicote vergasta a carne ou quando
a parafina quente escorre pela pele que se retrai,
inexiste o ódio, mas vibra uma violência
pura, uma compulsão de violência maior
do que o Dominador ou do que a submissa, uma sensação
ancestral, muito anterior a todos nós, algo
que nos liberta, nos salva e nos torna melhores,
ou maiores... Sem medo de usar da retórica,
a mesma violência que fundou nossa espécie
e nos preserva até hoje...
Bataille
dirá que "o ser em nós só existe
em excesso, na coincidência entre a plenitude
do horror e da alegria". O olhar de espanto e dor
da submissa é um abismo aberto não
só à dor, mas também à
alegria. Uma alegria semelhante ao Sim nietzschiano,
sem qualquer reserva.
Seria
possível, no entanto, sintetizar, numa única
frase, isenta de qualquer raciocínio extravagante
- que, porventura, pudesse obscurecer a radiante
luz do SM -, a verdade do que afirmamos até
aqui? Nietzsche dita, com a simplicidade dos que
só freqüentam as alturas: "O que se
faz por amor sempre acontece além do bem
e do mal." (IV)
I Nietzsche, Friedrich. Ecce Homo.
Como Alguém se Torna o que é. Editora
Cia. das Letras, 1995, São Paulo.
II A imagem da pantera enjaulada, no poema de Rilke,
foi minha indisfarçável inspiração
aqui, ainda que recusando o final derrotista. O
original pode ser lido em: Rilke, Rainer Maria.
Poemas. Editora Cia. das Letras, 1993, São
Paulo.
III Bataille, Georges. Prefácio. In História
do Olho (seguido de Madame Edwarda e O Morto). Editora
e Livraria Escrita, São Paulo, 1981.
IV Nietzsche, Friedrich. Além do Bem e do
Mal. Prelúdio a uma Filosofia do Futuro.
Editora Cia. das Letras, 1992, São Paulo.
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