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ARTHUR KOESTLER E CYNTHIA JEFFERIES: UM CASO DE 24/7 INCONSCIENTE?
Lord Conrad

         Na tarde de 1º de março de 1983, em sua casa, em Montpelier Square, Londres, o escritor Arthur Koestler e sua esposa, Cynthia Jefferies, ingeriram várias colheradas de mel misturadas com quantidades mortíferas de barbitúricos. Morreram juntos durante a noite e seus corpos foram encontrados no dia 03 de março. Koestler estava em uma poltrona, segurando um cálice de brandy. Cynthia jazia num sofá, com um copo de uísque na mesa ao lado. O escritor tinha 77 anos, estava terrivelmente afetado pelo mal de Parkinson e padecia de uma leucemia incurável.
       A carta de despedida de Koestler estava escrita desde junho de 1982 e não deixa dúvidas sobre os sentimentos do escritor a seu próprio respeito: "Depois de haver sofrido uma deterioração física mais ou menos constante durante os últimos anos, o processo chegou agora a um estado agudo, com complicações adicionais que fazem recomendável buscar a autoliberação agora, antes que me encontre incapaz de tomar as medidas necessárias (...)."
        O suicídio sempre nos surpreenderá, mesmo num caso terminal como o de Koestler. Um ato deliberado de autodestruição é algo que, a princípio, mesmo sem levarmos em consideração quaisquer aspectos de ordem religiosa, chega a nos causar espanto. Mas, questionando se existiriam razões suficientemente fortes para justificar uma atitude tão radical, concluo de maneira afirmativa. Pode ser um dever para consigo mesmo renunciar à vida, quando o continuar vivendo tornaria impossível o cumprimento dos próprios deveres. Em determinados contextos o suicídio é uma afirmação da liberdade do homem contra a lei da necessidade, uma das desventuras da existência que pode alcançar níveis insuportáveis. Em outros momentos, o suicídio é um caminho de saída de uma situação insustentável, a única maneira de salvar a própria dignidade. "Eu elogio a minha morte", diz Nietzsche em seu Assim falou Zaratustra, "a livre morte, que chega porque eu quero."
        Arthur e Cynthia eram membros da EXIT - Sociedade pelo Direito de Morrer com Dignidade - e ele, podemos concluir, inseria-se, ao menos, em uma das justificativas elencadas no parágrafo anterior... Mas... E Cynthia? À época, ela ainda não chegara aos 56 anos e sua saúde era perfeita. Que razões teriam-na levado a tomar tal decisão?
        Num adendo manuscrito à carta de despedida de Koestler encontramos o início de nossa resposta. Ali, Cynthia escreveu: "(...) Sem dúvida, não posso viver sem Arthur...".
        Nos meses que se seguiram à morte do casal, multiplicaram-se as insinuações de que Koestler havia obrigado Cynthia a acompanhá-lo em sua decisão. Alexander Cockburn, numa espécie de "antiobituário" publicado no Village Voice, dizia: "Ao perguntar a minha mãe o que ela pensava do que a Sra. Koestler havia feito, ela respondeu: 'Seu pai sempre dizia que esse Koestler era um desgraçado!' " [Claud Cockburn, pai de Alexander, estivera com Koestler na Espanha, durante a Guerra Civil]. Os jornais e revistas da época alimentaram, com a ajuda dos desafetos do escritor, os boatos e as suspeitas da poderosa dominação de um homem sobre sua mulher; de um esposo irracional, mas forte, que incitara sua jovem esposa a realizar um último ato de autonegação.
        A verdade, entretanto, é outra. Um trecho da carta de despedida de Koestler revela, por exemplo, a certeza de que Cynthia sobreviveria a ele: "O que me torna tão difícil tomar esta decisão é, sem dúvida, pensar na dor que causarei a meus escassos amigos sobreviventes e, acima de todos, a Cynthia. A ela devo as relativas paz e felicidade de que gozei neste último período de minha vida, nunca antes experimentadas."
        Contudo, é nos traços mais íntimos de Cynthia, nos escritos autobiográficos que ela deixou - e que foram encontrados e publicados por Harold Harris, editor, amigo e testamentário de Koestler - e em testemunhos de pessoas que conviveram com o casal, que encontraremos não só a certeza de que Cynthia não foi influenciada por Arthur em sua última decisão, mas também uma personalidade profundamente submissa, para quem a vida sem seu esposo seria literalmente insuportável.
        "Sua relação era restrita em um grau jamais visto antes; sua devoção por Koestler não se comparava a de nenhuma esposa que eu tenha conhecido antes", conta Melvin J. Lasky, co-editor da revista cultural britânica, Encounter.
        Para Mary Benson, sua amiga íntima, Cynthia "tinha o sentimento avassalador de ser muito feliz por compartilhar sua vida com Koestler; não estava na sua natureza pensar que o afortunado era ele por tê-la."
        O testemunho de Harold Harris vai ainda mais longe, dirimindo qualquer dúvida sobre a possível influência de Arthur na decisão de Cynthia em também se suicidar: "Durante os últimos dias da vida de Koestler este já era física e mentalmente incapaz de convencê-la a tomar qualquer decisão ou de dissuadi-la. (...) Se ele houvesse tentado convencê-la de outra coisa, seguramente, desta vez, ela o teria desobedecido. (...) Raras vezes, para não dizer nunca, encontra-se alguém com uma história de devoção tão plena como a que professou Cynthia a Arthur Koestler."
        Ainda que não possamos concordar plenamente com as palavras de Bernard Avishai, autor do artigo no qual colhemos os depoimentos aqui constantes, ao classificar Cynthia como uma neurótica, parece-nos evidente que ela "estava perfeitamente consciente de sua relação obsessiva com seu esposo durante quase vinte anos e de que estava atada a ele por uma espécie de contrato...".
        Cynthia Jefferies nasceu numa família sul-africana conservadora e sempre se sentiu distanciada de sua mãe, apegando-se muito mais a seu pai, que se suicidou, cortando os pulsos, por razões desconhecidas. Começou a trabalhar com Koestler aos 22 anos, datilografando seus trabalhos e anotando seus ditados. George Mikes, um dos amigos íntimos do casal, relata que "ela era inteligente, aberta, amável, muito bonita e carecia absolutamente de malícia; não falava de si mesma, pois considerava que o tema não era importante ou interessante."
        Os escritos autobiográficos de Cynthia estão repletos de trechos nos quais a sua personalidade romântica e submissa avulta sem qualquer meio-tom: "As pessoas que mais me agradavam eram os heróis imaginários dos livros e não as pessoas que me rodeavam." (...) "A cada semana eu me transladava a Fontainele-Port [antiga residência dos Koestler] e datilografava uma nova série de capítulos. Era-me muito difícil esperar a semana seguinte. Recordava-me dos tempos de minha infância, todas as quintas-feiras, quando meu pai levava para casa minhas historinhas favoritas..."
        Presenciando inúmeras brigas entre o escritor e Mamaine Paget, com quem Koestler esteve casado entre 1950 e 1952, Cynthia afirma que suas simpatias sempre estiveram do lado de Mamaine, mas "não obstante e ainda que possa parecer paradoxal, meus sentimentos por Arthur mantinham-se intactos." E, em outro significativo trecho: "Não conseguia imaginar como Mamaine suportava a idéia de passar um dia sem saber a opinião de Arthur sobre este ou aquele tema. Eu dependia tanto dele, do que pensava de um livro, de um filme, de uma nova sensação, e não deixava de surpreender-me com suas razões."
        O misterioso liame que uniu Koestler e Cynthia pouco a pouco absorveu plenamente a jovem secretária: "Para mim era como um sonho, como se realmente eu tomasse parte de uma emocionante novela." (...) "Às vezes, eu cometia um erro ao datilografar uma carta. Quando isso ocorria, no rosto de Arthur desenhava-se uma expressão de incômodo. Às vezes, inclusive, ele dava um pequeno golpe seco com o punho na escrivaninha... Nunca ditava rápido e, a intervalos, produziam-se longos silêncios, mas eu podia ficar sentada ali por toda a eternidade."
        Não houve qualquer meandro da vida de Cynthia no qual Koestler não penetrasse. Nas duas vezes em que engravidou, ela obedeceu a exigência dele e abortou. E, mesmo quando Arthur já se encontrava devastado pela doença, ele se manteve, para ela, como uma figura absolutamente preponderante. Harold Harris relata que ela sempre fora uma apaixonada pela jardinagem, "mas abandonou seu jardim quando Arthur já não podia desfrutá-lo."
        Bernard Avishai conta que, em 1952, Koestler começou a se preocupar com a atitude de devoção de Cynthia e deu sinais de querer romper a relação. Percebendo que um provável fim se aproximava, ela retrocedeu, chegando mesmo a pensar em suicídio. Depois de 1955, no entanto, Cynthia tornou-se a única companheira estável de Koestler, "a que compartilhava sua cama e abstinha-se de perguntar-lhe com quem mais ele o fazia."
        O depoimento de Harold Harris em sua introdução a Stranger on the Square, a autobiografia de Cynthia, apesar de longo, é imprescindível para nossas conclusões: "Koestler nunca tratou como um segredo o fato de que era difícil conviver com ele... Jamais tentou ocultar sua natureza exigente, a violência de seus estados de ânimo, suas mudanças abruptas de direção, sua obsessiva perseguição por mulheres... Por trás de tudo isso encontrava-se um homem que poderia mostrar uma gentileza e uma generosidade enormes, um homem com um sentido de humor incomparável e - na maioria das vezes - um companheiro de extremo encanto.
        Cynthia estava consciente dos defeitos de Koestler, defeitos que este não tratava de ocultar. Contudo, nos 33 anos de sua união, o único período em que ela se sentiu verdadeiramente infeliz foi durante os primeiros seis anos, época em que, de vez em quando, Arthur quis romper os vínculos que os atavam... Não será exagero dizer que, para Cynthia, a vida de Koestler converteu-se em sua própria vida; que ela viveu a vida dele. E quando chegou o momento de Arthur abandonar esta vida, também para ela chegou o seu fim."
        Apesar de ser um sinal de evidente dependência, o suicídio concedeu a essa mulher aparentemente frágil uma aura de força suave, de um meigo vigor. Assumindo uma completa submissão - "contagiavam-me também os estados de ânimo de Arthur, suas depressões e sua melancolia", diz ela -, Cynthia encontrou a forma de conciliar o seu sentimento de adoração e a sua necessidade de ser amada.
        Talvez ainda reste-nos alguma dúvida no que se refere à personalidade de Koestler... Teria ele, realmente, o perfil de um dominador? A resposta encontra-se nas páginas de seu diário, escritas em junho de 1954, pouco depois da morte de Mamaine: "É verdade, sempre me atraiu um tipo de mulher: as belas gatas-borralheiras, infantis e inibidas, as quais devemos subjugar, intimidando-as."

São Paulo, junho de 2001.



        Bibliografia:

       Avishai, Bernard. Anales del matrimonio (los riesgos de la devoción). La        Gaceta del Fondo de Cultura Económica; número 315, março, 1997.

       Arthur Koestler: un crosé sans croix
       http://authologies.free.fr/koestler.html
       (com links para outras páginas importantes)


       Serviço:

       • A obra Stranger on the Square, que também é assinada por Arthur           Koestler e Henry Irving Jorgensen, apesar de estar fora de catálogo,           pode ser adquirida através da www.amazon.com.

       
        • Livros de Arthur Koestler disponíveis em língua portuguesa:

          Tempo de Quimeras (Editora Europa-América)

          Ladrões da Noite (Editora Germinal)

          Chegada e Partida (Editora Germinal)
          www.bravoonline.com.br/livros/chegadaepartida.php

          O Zero e o Infinito (Editora Globo)

          O Homem e o Universo (Ibrasa)


         • EXIT - The Society for the Right to Die with Dignity
            www.euthanasia.org/index.html