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Em
jogos de BDSM, a linha que separa o que é
consensual do que é abuso é muito,
muito fina. A própria natureza do jogo inclui
esse risco e, em essência, ela se baseia num
"abuso consensual", por mais paradoxal que isso
possa parecer.
Em outras
palavras, um submisso sente prazer em ser humilhado.
E ser humilhado, por qualquer conceito, inclui inevitavelmente
o fato de sofrer algum tipo de abuso, seja ele físico,
mental ou emocional. Dentro dos limites estabelecidos
- ou seja, dentro das regras pré-estipuladas
entre dominador e submisso -, esse abuso é
o que chamamos de consensual. O submisso sabe que
será humilhado - ou abusado - dentro de determinados
parâmetros, com os quais ele próprio
concorda e sabe que serão respeitados pelo
dominador.
Até
aqui, tudo muito tranqüilo. Mas, suponhamos
que, no decorrer de uma cena excepcionalmente excitante,
um ou outro (submisso ou dominador) presuma, por
si mesmo, que pode ir um pouquinho além daquilo
que foi previamente combinado. Suponhamos, por exemplo,
que um casal (homem e mulher) tenha seguido toda
a cartilha de segurança, combinando tudo
o que fariam, e que em nenhum momento se tenha falado
numa penetração anal da mulher. E
suponhamos que, no ápice do jogo, o homem
tenha, de repente, por qualquer motivo, a impressão
nítida de que a parceira concordaria com
essa penetração, mesmo estando ela
amarrada, amordaçada e vendada, incapaz de
reagir.
Aí
é que o problema começa. Se o casal
combinou uma palavra ou sinal que indica que o submisso
já está no limite de sua resistência
- e que, portanto, é hora do dominador encerrar
a sessão imediatamente -, ainda há
uma chance. Mas, se eles deixaram de lado essa "válvula
de segurança" absolutamente indispensável
numa cena de BDSM, torna-se virtualmente impossível
ao submisso indicar ao dominador que este está
indo longe demais.
Debater-se,
gemer mais alto, tentar gritar ou se livrar das
cordas: tudo isso faz parte da cena e nada disso
indica coisa alguma, servindo, para a maioria dos
dominadores, apenas para excitá-lo ainda
mais e tornar mais evidente (para ele) que o submisso
está gostando cada vez mais do jogo, quando
na realidade ocorre exatamente o contrário.
Nessa
situação, com as endorfinas afogando
o cérebro, é muito pouco provável
que o dominador vá se dar conta de que rompeu
os limites do submisso. Ele só se aperceberá
disso mais tarde, quando a cena estiver encerrada
- e provavelmente a relação com o
submisso também, porque se terá perdido
a relação de confiança mútua,
sem a qual ninguém, em sã consciência,
pode manter um jogo de BDSM.
Pode também
ocorrer o contrário. Um submisso que goste
de ser espancado, por exemplo, pode, da mesma forma,
perder o controle sobre si mesmo, permitindo ao
dominador que vá longe demais, causando até
ferimentos sérios. Neste caso, embora não
se possa falar propriamente em abuso, o resultado
pode ser deprimente para ambos. Para o submisso,
que, ao notar que foi longe demais consigo mesmo,
tenderá a culpar o próprio dominador
por não ter notado isso, podendo acusá-lo,
inclusive, de ter se aproveitado da situação
de excitação em que ele, submisso,
se encontrava (e daí a acusá-lo de
abuso vai apenas um pequeno passo). E para o dominador,
que tendo ou não notado que as coisas estavam
saindo de controle, irá se recriminar depois,
porque ele próprio saiu de controle. Ou seja,
ao dar um, dois, três passos além do
que se havia preiamente combinado, o dominador estará
se mostrando fraco demais para exercer seu papel.
Dominadores, acima de tudo, têm de ter controle
total sobre a cena. Não apenas sobre o parceiro,
mas especialmente sobre si mesmo. Sem isso, ele
se torna muito mais uma ameaça do que qualquer
outra coisa.
Vê-se,
portanto, que a questão é sutil. E,
portanto, complexa. Determinar onde termina o consensual
e onde começa o abuso é tarefa delicada,
que implica em alguma experiência de ambas
as partes envolvidas no jogo. Cabe ao submisso saber
exatamente até onde ele quer e pode ir; e
cabe ao dominador interpretar isso corretamente,
além de, claro, saber também ele os
próprios limites.
É
por conta disso que muitas relações
de BDSM tornam-se verdadeiramente traumáticas.
Temos visto alguns casos de iniciantes no jogo que,
sem ter noções de seus próprios
limites, acabam indo longe demais - e depois culpam
os dominadores, quando a culpa, na verdade, é
de ambos. Um iniciante não tem parâmetros
para mensurar coisa nenhuma. E tolo é o dominador
que acredita o contrário. Não se trata
aqui de duvidar da resistência ou de subestimar
os desejos de ninguém. Trata-se simplesmente
de um fato: um submisso iniciante simplesmente não
sabe se, de fato, poderá chegar até
onde sua imaginação e suas fantasias
lhe sugerem, porque ele nunca experimentou aquilo
antes.
Não
são raros os casos de pessoas que acham que
adorariam transar amarradas (para ficar num exemplo
bem simples) e que, na hora em que tentam fazê-lo,
descobrem que a realidade é bem diferente
do sonho... E que elas, afinal, não curtem
aquilo. O que dizer então de quem acha que
vai amar ser humilhado ou chicoteado? Achar, disse
certa vez um vilão num filme, é a
mãe de todos os erros...
Portanto,
agir com cuidado - algo que, como praticantes mais
experientes, recomendamos o tempo todo - torna-se
ainda absolutamente imprescindível na questão
abuso x consenso. E se isso vale para nós
mesmos, deve valer muito mais ainda para quem está
começando, agora, a explorar suas fantasias
dentro do BDSM.
Iniciantes
precisam entender três coisas: primeiro, que
devem ir devagar, por mais que os instintos lhes
gritem que podem ir mais e mais longe.
Segundo,
que jamais devem participar de uma cena se não
for com um dominador no qual tenham a mais absoluta
confiança. E é bom lembrar que essa
confiança não se adquire em conversas
em chats nem em um único encontro real. A
comunidade BDSM é pequena, e as pessoas que
a integram geralmente se conhecem. A recomendação
é que se procure informações
sobre o parceiro ou parceira junto a essa comunidade.
Ninguém se sentirá ofendido com isso
- e se se sentir, lamentamos dizer, está
no lugar errado, porque trata-se de uma relação
que envolve riscos (sim e sempre, por mais que se
tente negar) e, portanto, torna não apenas
natural, mas essencial, que quem queira vivenciá-la
cerque-se de todas as precauções que
julgar necessárias. Portanto, é preciso
colher informações sobre o parceiro,
conhecê-lo bem (alguns encontros pessoais,
preferencialmente em locais públicos e em
programas normais, como ir a um cinema, por exemplo,
ajudam a ter uma visão do parceiro ou da
parceira não enquanto dominador, mas como
pessoa) e só aceitar entrar no jogo quando
se estiver totalmente convencido de que o dominador
é confiável. Não 50% confiável,
nem 70% confiável, mas integralmente confiável.
Se houver qualquer dúvida sobre isso, acredite:
é melhor desistir e tentar encontrar outra
pessoa.
Em terceiro
lugar, mas não menos importante: jamais entre
numa cena sem antes ter estabelecido a palavra ou
sinal de segurança. Se for uma palavra, trate
de encontrar uma bem estranha, que não deixe
a menor dúvida sobre o seu significado. Jamais
use "não" ou "pare", por exemplo, porque
dizer isso faz parte do jogo - e uma das melhores
parte, aliás. Use palavras que jamais seriam
ditas numa ocasião como uma cena BDSM. Quanto
mais absurda melhor. Se for um sinal, deixe muito
claro qual será ele. Lembre-se que você
pode estar imobilizado(a) completamente, e que será
preciso encontrar um meio de indicar que o jogo
está encerrado. E lembre-se (e lembre também
o dominador): dita a palavra ou dado o sinal, o
jogo acaba imediatamente.
Finalmente,
uma última observação. Quem
estabelece onde termina o consensual são
os parceiros, e apenas eles. Mas o abuso geralmente
é cometido por apenas um deles. Não
existe a desculpa de que o jogo estava tão
bom que foi impossível segurar e ir além.
Isso pode se aplicar numa transa normal entre casais,
mas jamais no universo BDSM. Não é
um jogo para crianças jogarem. É coisa
para adultos. Mais do que isso, é coisa para
adultos que sabem se controlar. Nenhum dominador
tem o direito de ir além do que estabeleceu
com o submisso. E nenhum submisso tem o direito
de deixar que o dominador vá além
do que estabeleceu com ele.
Por isso,
essa conversa de que "o submisso é meu e
eu faço dele o que bem entender, mesmo que
ele não queira", só funciona se o
submisso afirmar que "sou do meu dominador e ele
faz de mim o que bem entender, mesmo que contra
a minha vontade". Para nós, particularmente,
esse tipo de comportamento é questionável,
porque entendemos o BDSM como uma relação
de prazer para dois, nunca para apenas um. E sabemos
que submissos que aceitam absolutamente tudo que
o dominador lhes ordena - e que efetivamente sentem
prazer com isso - são raríssimos.
Alguns talvez aceitem apenas para agradar a seu
mestre, ou porque têm medo de que ele vá
embora se assim não o fizerem. É um
erro, mas um erro particular e que só diz
respeito a quem o comete.
BDSM deve,
desculpem a insistência, dar prazer aos dois
lados, e não a um só. Senão,
o jogo perde seu caráter de jogo - e cai
no abuso puro e simples. Defender isso seria a mesma
coisa que defender o estupro, por exemplo (e mesmo
entre nós, cenas de estupro são cenas
de estupro...).
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