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"Mentor, sinônimo
de pessoa que guia, ensina ou aconselha outro, mestre,
conselheiro, guia." (Dicionário Aurélio)
Etimologicamente
falando, a palavra 'mentor', no sentido que atualmente
conhecemos, é usada desde 1873 no francês,
'mentor', derivado do latin mentor-is , que, por
sua vez, vem do grego, antropônimo (nome próprio
de pessoa) 'Méntor'. (Dicionário Etimológico
Nova Fronteira)
Mentor
(ou Mentes, em outra edições) é
o amigo de Ulisses na famosa Odisséia (séc.
VIII a.C.) e ocupa posição de relevo
como preceptor e também conselheiro do filho
de Ulisses, Telêmaco. Fato curioso: a deusa
Palas Atena, a deusa da sabedoria, escolhe "a figura
exterior e a fala" de Mentor para "dirigir-lhe as
palavras aladas" (Odisséia, Livro II).
Minerva
ou Atena: "símbolo do conhecimento racional
com a percepção da luz lunar por reflexo,
opondo-se, destarte, ao conhecimento intuitivo com
a percepção direta da luz solar".
(Junito Brandão, Mitologia Grega)
Estive
em uma palestra, tempos atrás, de um famoso
diretor de teatro, Jerzy Grotowski, e ele dizia:
"Sou um professor de performers. Falo no singular.
O professor é alguém através
de quem passa o ensinamento; o ensinamento deve
ser recebido, mas a maneira do aprendiz redescobri-lo,
lembrar-se, é pessoal."
Professor,
chefe religioso ou mentor SM, todos estes têm
um nódulo comum de concentração
de energia, todos estes têm uma base psíquica
comum a todos os seres humanos.
O Mentor
tornou-se uma imagem na mente humana, uma matriz
arcáica, onde configurações
análogas ou semelhantes tomam forma. A figura
do Mentor é arquetípica.
Bem, você
pode estar se perguntando: "- E daí? O que
tudo isso tem em comum com SM?"
Foi a
partir da observação da importância
que se atribui ao Mentor no BDSM, que me motivei
a procurar estas raizes, estes fundamentos anteriores,
e que, justamente por isso, encontram também
seu peso dentro do universo BDSM.
O jovem
Telêmaco é guiado por Mentor em sua
longa viagem, cheia de receios, dúvidas e
aventuras até a ilha de Ítaca, em
busca de seu pai, Ulisses.
Outra
referência está na Divina Comédia
(Séc. XVI), na figura de Virgílio.
Dante escolhe Virgílio para guia e mestre
em sua viagem através do Inferno e do Purgatório,
tornando "Virgílio símbolo da razão,
que pode tornar o homem senhor das quatro virtudes
cardeais".
Contudo,
é Beatriz quem conduz Dante ao Paraíso,
que é o símbolo da teologia. Mas nem
só a razão conduzirá Dante
a Deus; aqui surge a figura de S. Bernardo, já
que o homem jamais poderá estar diante de
Deus servindo-se exclusivamente do instrumento da
razão. A razão humana, em um certo
ponto, torna-se impotente para conduzi-lo a Deus.
É
preciso notar momentos de passagens em ambos os
exemplos, tanto na Odisséia quanto na Divina
Comédia. O caminho pode ser conduzido até
certo ponto pela figura do mentor, entretanto, as
buscas do pupilo tomam seus próprios rumos
e outras intervenções surgem... E
me parece importante notar, que surgem partindo
do próprio pupilo. Ou, curiosamente, nos
exemplos citados, simbolizados pela figura feminina
de Palas Atena ou Beatriz, que podem ser a representação
psíquica da feminilidade inconsciente do
homem, que Jung denomina de anima (na mulher falaríamos
em animus).
A anima
ou animus, um outro olhar contido em todos nós,
na verdade uma projeção de si mesmo,
como num espelho, conteúdos de nossa própria
psique. Esse tipo de instrumental deve ser de conhecimento
do pupilo, é esse tipo de conteúdo
que o propulsiona a alçar vôo próprio,
na tentativa de alcançar os próprios
objetivos ou, melhor definindo, um processo de auto
conhecimento: o que quero, como quero, o que gosto,
quais meus limites, no que acredito, quem sou EU
nisto tudo. Mais uma vez, na Odisséia e na
Divina Comédia, o mito encarna o ideal de
do ser humano: a conquista da própria individualidade.
E, da
mesma forma, o Mentor dentro do BDSM tenta orientar
e aconselhar um(a) noviço(a) nas descobertas
e nos primeiros estágios perpassados de dúvidas
e angústias. E, acima de tudo, prepará-lo
para dar seus próprios passos, com auto estima,
domínio e auto conhecimento.
O Mentor,
no SM, além de ter domínio de técnicas
e práticas, deve ter a sensibilidade para
perceber as potencialidades inatas de seu pupilo.
Por outro
lado, quem procura um Mentor e o aceita verdadeiramente,
não está dando mostras de incompetência,
ignorância ou qualquer sentido menor, muito
pelo contrário, esta pessoa busca completar-se,
o que é muito diferente. E para completar-se
terá que enfrentar a si próprio, seja
em suas qualidades ou defeitos, seja em aprender
a conviver com estas 'tendências', em alguns
casos inrreconciliáveis.
São
nestes momentos que o Mentor está presente,
tentando questionar e conduzir, como disse, não
apenas no que toca à prática, porém
numa tarefa mais árdua... no que permeia
os meandros da alma.
É
indiscutível que esta figura no SM tenha
conhecimento e experiência, pois a prática
do SM necessita de consciência e técnica.
Ser são, seguro e consensual é muito
sedutor para os que se interessam pela prática,
mas essa realidade deve passar pelo processo de
introspecção. Trazer para dentro de
si a verdade de que o BDSM é uma prática
de RISCO, sim. E que isso não afasta as possibilidades
de realização. BDSM, é um 'esporte'
radical.
O papel
do Mentor é o de orientar, informar, incentivar
a busca do domínio das técnicas destes
jogos eróticos e alertar, chamar atenção
sobre as regras de segurança que fazem destes
jogos realização e prazer de uma forma
segura.
Em minha
opinião, o Mentor não é ser
um altruista ou algo que lembre sacerdócio.
Até porque o sacerdote é investido
através de ritos e/ou cerimônias, tendo
uma autoridade institucionalmente concedida. Já
o mentor tem sua autoridade reconhecida naturalmente,
seu poder advém daí, do seu comprometimento
com a ética, a filosofia e o conhecimento.
Ele não dissemina uma crença ou tem
como objetivo "converter" pessoas ao SM, mas é
um pesquisador constante e faz seus mentorados na
constante busca de aprofundamento.
Não
se deve esperar paternalismo de um Mentor. Manter
uma relação produtiva com um Mentor
requer maturidade. E está ai uma qualidade
difícil de se reconhecer essencialmente,
assimilar, lidar e adquirir: MATURIDADE.
E pego
carona nas palavras de J. Grotovisk: "O Mentor é
alguém através de quem passa o ensinamento,
o ensinamento deve ser recebido, mas a maneira do
aprendiz redescobri-lo, lembrar-se, é pessoal."
É
famosa a afirmação de que "quem sabe
faz, quem não sabe ensina". Pois está
aí o paradoxo do Mentor. Ele não pratica
com seu pupilo, orienta-o; não direciona,
acompanha-o; também não estabelece
vínculos de dependência, LIBERTA.
E há
de se ter "quilha interior" para abraçar
a liberdade, a liberdade com responsabilidade, (tão
proclamada... risos), e tão factual quando
se fala em BDSM são, seguro e consensual,
seja na posição de dominador(a) ou
submissa(o).
Encontrar
um verdadeiro Mentor SM não é fácil.
Reconhecer um Mentor não é difícil.
Ter um Mentor no BDSM é muitas vezes aconselhável
e necessário. Se o Mentor é um "escravo(a)",
"submissa(a)", "dominador(a)" ou "Mestre/Mistress"...
realmente acredito não ser o mais importante,
não vou discutir isso agora. Mas, uma coisa
é certa: cada praticante ou candidato a praticante
de SM tem o Mentor que merece.
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