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BDSM x Comportamento - 1ª Parte
(traduzido e adaptado das obras de Gloria Brame e Alan R. Meltzer por Delmonica)

"A mãe prescreverá sua leitura à filha."
Marquês de Sade, Filosofia na Alcova

       As relações pessoais são cercadas de sutilezas, por entre as quais a sensibilidade encontra sempre um maior espaço para o exercício do humano. Nas relações BDSM não é diferente.
       As perguntas abaixo, juntamente com suas respectivas respostas, tentam desenhar um mapa seguro para o estabelecimento dessas relações.

1. Com quem irei praticar? Quem é esta pessoa?

       O princípio de uma relação dentro do BDSM é o mesmo que em qualquer outro tipo de relação: conhecer o outro.
       Você pode conhecer alguém em uma reunião social com adeptos ou simpatizantes SM, em uma festa, num grupo... Mas nada disso "avaliza" uma pessoa. As pessoas não vêem com nenhuma espécie de "painel" onde apresentam um "detector" de caráter, um "medidor" de intenções, um "localizador" de objetivos ou, ainda, um "indicador" de equilíbrio mental.
       Você pode pensar: "Mas em determinado grupo sei que encontrarei pessoas sérias e comprometidas...". Este é um erro recorrente por parte dos novatos. Não caia nessa.
       Um grupo renomado, um clube sério, ou uma comunidade reconhecida não são garantias. Ou seja, você não pode adotar, automaticamente, a postura de que lá encontrará pessoas confiáveis.
       Nenhuma dessas organizações funciona como um filtro que, eventualmente, pudesse barrar a freqüência de pessoas indesejáveis.
       Sendo assim, não há nenhum motivo para imaginarmos que qualquer tipo de organização que congregue, seja de maneira real ou virtual, pessoas com interesses comuns, como no BDSM, seja diferente de todo o resto do mundo, onde encontramos pessoas com uma grande variedade de valores, atitudes e objetivos.
       Alguns incidentes no SM, em certos casos, inclusive, desastrosos, acontecem - inevitavelmente - quando as pessoas não têm o conhecimento suficientemente claro de quem é a outra pessoa com a qual estão se relacionando.
       É sempre importante lembrar que antes de alguém ser um(a) bom(boa) Mestre(a) ou Submisso(a), ele(a) é um ser humano. E conhecer esse ser humano é de grande valia.
       Portanto, valem a pena umas perguntinhas, do tipo:
       - Qual é a história desta pessoa dentro do SM?
       - Qual a experiência que ela tem?
       - Qual a visão que o restante do grupo tem dela?
       E mais:
       - Quem é esta pessoa em todos os aspectos? Como ela pensa? Quais suas opiniões sobre os mais diferentes assuntos?
       - Ele(a) é uma pessoa confiável?
       - É um bom ser humano?

       Conheci o caso de uma submissa que, entusiasmada com uma sala de chat, por exemplo, estabeleceu contato com um dominador. Depois de algumas conversas, sabendo que ele freqüentava reuniões de um determinado grupo SM, resolveu sair do virtual para uma sessão real. O resultado é que esta sessão aconteceu completamente fora de suas expectativas e ela veio a sofrer práticas absolutamente não consensuais por parte de um sádico que aparentou ser um sério e respeitável dominador.
       Não podemos, inocentemente, pressupor que, por estarmos batendo papos virtuais, trocando e-mails, ou mesmo freqüentando um determinado grupo, estamos em contato com pessoas que respeitam, por exemplo, a pedra fundamental do SM, que é o São, Seguro e Consensual.
       É muito fácil uma pessoa se aproveitar da credibilidade de um grupo ou de novatos inexperientes, para colocar para fora seus conceitos equivocados ou seus impulsos violentos. Mesmo que durante os encontros de um grupo, sejam virtuais ou reais, essa pessoa pareça emitir opiniões sérias ou ter comportamento responsável, nem isso avaliza tal criatura. É quando estamos sozinhos com tal pessoa que percebemos o perigo que ela pode representar.
       A comunidade SM, seja nacional ou internacional, vem se expandindo e com isso surge a necessidade de estarmos orientando a todos, principalmente para que os novatos conduzam suas relações BDSM de uma forma segura e consensual, a fim de que a sua forma de expressão do prazer sexual seja preservada de forma saudável.
       E lembrem-se: SM e maltratos são tão opostos quanto relação sexual e estupro. Praticantes responsáveis e comprometidos na comunidade BDSM repudiam qualquer forma de atividade não consensual.

       (Continua na próxima semana)