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BDSM x Comportamento - 4ª Parte
(traduzido e adaptado das obras de Gloria Brame e Alan R. Meltzer por Delmonica)

5- A safe word me protege de maneira suficiente?

       Não necessariamente. Considere o seguinte: se você não conhece seu parceiro, como pode ter certeza se ele será fiel a esse código? Como saber se, quando estiverem a sós, ele não lhe impedirá, com uma mordaça por exemplo, de pronunciar a safe word? Como ter a garantia de que ele(a) não irá ameaçar você de, por exemplo, parar completamente a prática, caso você use a safe word?
       A safe Word, por si só, não tem poderes. Ela é um código, um sinal que só será respeitado e compreendido por praticantes sérios.
       No caso que citei na primeira questão, por exemplo, a submissa foi ameaçada de ter a prática totalmente encerrada caso viesse a pronunciar a safe Word. E, ainda mais, seria excluída das relações do tal dominador. Sendo assim, a safe word depende do respeito entre os praticantes para ser levada em consideração. A safe word deve interromper um ato e não necessariamente paralisar ou encerrar toda a prática. Por esse motivo ela é uma ferramenta imprescindível, que deve ser combinada antes de toda e qualquer atividade BDSM.
       Você pode até imaginar que, de agora em diante, aquela submissa de que falei não mais cairá em uma enrascada desse tipo, ou que, pelo menos, terá o bom senso de saber parar. Entretanto, a natureza de um(a) submisso(a) é a de uma pessoa vulnerável, que deseja agradar, e, mesmo diante de um quadro complicado, ele(a) sente-se ligado(a) ao(a) dominador(a). Ou, ainda, pode ter tanta vontade de viver suas fantasias ou é tão inexperiente que acredita que o simples fato daquela pessoa ser um(a) dominador(a) significa que "sabe de tudo". É por esse motivo que o(a)s submisso(a)s acabam muitas vezes assumindo mais riscos. Ele(a)s preferem sofrer um pouco mais do que colocar em risco o relacionamento ou decepcionar o(a) dominador(a).
       É importante lembrar que uma das características mais bonitas e estimulantes de um(a) submisso(a), é o desejo de servir e agradar, e é o que precisamente as pessoas de má-fé buscam para concretizar seus maus propósitos.
       Existe um crime famoso nos Estados Unidos, ocorrido em Nova York há alguns anos, quando um dominador costumava abordar submissos em um bar da comunidade BDSM gay, assegurando a eles o respeito aos limites e o uso garantido da safe word. Certa vez, quando estivam sozinhos no apartamento ele ignorou o uso da safe word e até impossibilitou a articulação da plavra ( o rapaz foi amordaçado com uma fita silver type). Acho que não preciso dizer como termina o caso.
       É claro que toda moeda tem dois lados: nem todos(as) os(as) submisso(a)s são verdadeiros(as) e dignos de confiança. Existe uma porção de submissos de ocasião por aí (pessoas que não estão procurando um relacionamento SM verdadeiro, mas meramente momentos fortuitos, de modo a, no instante seguinte, estarem livres, descomprometidos e longe de qualquer responsabilidade).
       Existem novatos que não fazem a menor idéia de quando e onde usarem a safe word (vamos insisitir: invista tempo para ter certeza que será compreendido e preserve-se de mágoas e sentimentos amargos no futuro). Como também há o(a)s submisso(a)s experientes que usam a safe word muito mais para manipular e controlar o(a) dominador(a) do que para indicar quando eles(as) atingiram um limite real.
       As situações mais problemáticas ocorrem quando o(a) submisso(a) não se utiliza da safe word quando deveria e o(a) dominador(a) fica achando que está tudo tranqüilo. Contudo, no futuro (horas, dias ou mesmo meses depois) o(a) submisso(a) achará que que o(a) dominador(a) foi longe demais...
       Ora, por que não usar a safe word se ela existe??? Às vezes, é um desejo irresistível por parte do submisso de que o(a) dominador(a) tenha a capacidade de ler pensamentos! Em certos momentos, um(a) submisso(a) é ingenuamente transparente e, em outros, é um(a) cabeça dura orgulhoso(a). Alguns subs se colocam à prova, para mostrar que agüentam qualquer coisa que o(a) dominador(a) os obrigue, mesmo que isso os magoe ou machuque. Isto é algo extremamente perigoso para todos os envolvidos. E esta relação está fadada ao desgaste e ao término, muitas vezes, desastroso.
       Tanto subs quanto doms devem ter a responsabilidade de nunca deixar a safe word perder seu sentido primeiro, que é complacência e confiança mútua. Repetimos: a safe word é uma das ferramentas da prática segura, mas não é uma garantia de segurança.

6- É possível usar a Internet como veículo para estabelecer contatos para relações BDSM? Há uma maneira segura para isso?

       É uma questão complexa, mas tentarei fazer algumas sugestões que nos cerquem de alguma segurança no momento de fazer a passagem do virtual para o real, e tentar, assim, evitar más experiências.
       Encontrar qualquer estranho, como vimos até agora, é algo que envolve uma parcela de risco. Portanto, todo cuidado é pouco. E encontrar um estranho com propósitos BDSM não é exceção.
       Existem riscos adicionais para qualquer um na posição de submisso, sejam homens ou mulheres. Assim, devemos desenvolver alguns mecanismos básicos de segurança:
       A) Dominadores sérios e conscienciosos não se sentem incomodados em fornecer referências. Para partir para o real, recomenda-se que você pergunte a ele(a) de parceiros que já praticaram com ele(a). Você deve buscar estas referências contatando essas pessoas. Este sistema é normalmente usado na comunidade BDSM no exterior e nenhum dominador(a) repeitável se sentirá ofendido(a) ao ser questionado(a) nesse sentido.
       B) A Internet tem espaço para você abordar outras pessoas que conheçam este(a) dominador(a) ou submisso(a) de seu interesse e, desta forma, obter informações sobre essa pessoa. Tenha um certo distanciamento, mas leve em consideração os comentários feitos em salas de bate-papo a respeito de atos ou situações que envolvam a tal pessoa. Caso você fique sabendo de algo que realmente lhe deixe de sobreaviso, coloque a questão para o dominador(a) ou submisso(a) sem identificar a fonte de tal informação. Lembrando que estamos, até então, lidando apenas com um "nick".
       C) Leve em consideração tudo que você já aprendeu ou experimentou das regras de segurança. Utilize-se dos tempos despendidos em chat e das trocas de e-mail de uma maneira dirigida. Procure entender a pessoa e saber como funciona o mecanismo das fantasias dele(a). Peça para que lhe explique a sua técnica favorita. Converse sobre opiniões e conceitos dentro do BDSM. Proponha jogos virtuais. Coloque situações cotidianas de problemas e observe como o outro reage (tente colocá-lo o mais próximo possível de uma situação real). Aqui também vale pedir conselhos de como agir numa determinada situação, ou contar uma reação sua diante de um fato e observar o comentário dele(a).
       D) Use sua sensibilidade para ir trazendo a pessoa para o real. O primeiro passo é um telefonema. Evite nesse primeiro momento fornecer seu telefone do trabalho, por exemplo. Estabeleça um horário conveniente para receber as ligações e observe como o outro usa esse direito cedido por você.
       E) Tenha claro para você mesmo o que significa um "alerta vermelho" . Não desrespeite estes avisos internos. Se você acha que existe algo estranho ou errado, reavalie a relação. Lembre-se, você está lidando com um desconhecido. Mais vale desistir em caso de dúvida do que dar um passo incerto, que venha a comprometer seu emocional ou físico. Um(a) dominador(a) que, ao telefone, concorda com o uso da safe word mas, ao encontrar você, repentinamente diz que quer uma sessão sem safe word, ou um dominador(a) que usa uma faca numa sessão onde facas não foram negociadas ou são inegociáveis, são exemplos que devem disparar seu alerta vermelho e sua habilidosa saída de cena.
       F) Use a Internet como meio de pesquisa para livros, técnicas e grupos de discussão que abordem as práticas seguras e questões comportamentais dentro do BDSM. Dessa forma você será capaz de reconhecer se seu possível parceiro está falando de uma maneira correta e se segue a linha do São, Seguro e Consensual. Outra boa maneira é encontrar pessoas da comunidade BDSM em munches ou wokshops para trocar experiências.
       G) Desde o virtual até o real, sendo dominador(a) ou submisso(a), sempre deixe claro suas intenções, do que gosta e até onde pretende ir. Deixe explícito seus limites, o que aprecia e o que DE JEITO NENHUM TOLERARIA.
       Por fim, volte e leia todas as outras questões colocadas anteriormente antes de partir para uma sessão real! Pratique BDSM de maneira sadia, consensual e sinta-se seguro(a). E não deixe que seu sexo fale antes de sua razão, pois será a sua saúde que estará em jogo. Smaks!


       Caso tenha alguma dúvida, por favor, escreva para delmonica@uol.com.br. Gostaria de saber o que você pensa sobre o que está aqui colocado. Também pretendo anexar alguns relatos ou depoimentos em versões futuras deste texto. Caso queira contribuir, conte com minha total discrição. Você poderá optar por usar um nick diferente de seu habitual, se achar conveniente.