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Se você demonstra algum interesse em ler este texto,
então certamente é porque pratica sexo sadomasoquista
ou, no mínimo, tem curiosidade em conhecê-lo um
pouco melhor - o que indica que, mais cedo ou mais
tarde, como podem comprovar praticamente todos os
que optaram por este tipo de prazer, você vai querer
experimentá-lo.
Partimos
do princípio que, no primeiro caso - o das pessoas
que já são adeptas deste tipo de sexo - as regras
para um relacionamento sadio, seguro e consensual
já são perfeitamente conhecidas e entendidas. Por
isso, nosso trabalho, aqui, será o de procurar explicar
ao leitor menos afeito à pratica o que é e como
se pratica o sexo sadomasoquista.
Gostaríamos,
assim, de construir um texto que seguisse do mais
básico ao mais complexo, de maneira didática e clara,
permitindo que os curiosos possam compreender melhor
sobre o que estão curiosos. Portanto, pedimos aos
leitores que já conhecem um pouco do assunto uma
pequena dose de paciência, se porventura nos alongarmos
em termos e situações as quais, para eles, nada
têm de novo. Mesmo para esses, porém, temos a pretensão
de tocar em um ou outro ponto de interesse, de forma
a fazê-los perceber novas perspectivas dentro de
seus relacionamentos atuais ou futuros. É essa,
em resumo, a nossa intenção: colocar o assunto sobre
a mesa, sem anteparos ou disfarces, e discuti-lo
de maneira direta. Se conseguirmos fazer isso a
contento, nosso trabalho já estará plenamente justificado.
1. Sobre o que estamos falando?
O leitor
já terá percebido, a esta altura, que sadomasoquismo
é um conceito que vai muito além das Tiazinhas e
seus chicotinhos e mascarazinhas. As Tiazinhas,
na realidade, estão brincando com coisas que nem
de longe imaginam o que sejam.... Embora tenham
o mérito inquestionável de terem despertado, em
massa, a curiosidade das pessoas sobre o assunto.
O leitor
também estará começando a imaginar se esse tipo
de experiência não seria, por acaso, algo reservado
a mentes desequilibradas (coisa que ele, certamente,
não se considera). Essa, no entanto, é uma discussão
inútil e sem fundamento. Os praticantes de SM (como
passaremos a chamar o sadomasoquismo a partir de
agora) são, em sua quase totalidade, pessoas normais
(por "normal", compreende-se um comportamento socialmente
aceitável sob qualquer ponto de vista).
Na realidade,
poderíamos nos arriscar a dizer que essas pessoas
são até mais equilibradas do que aquelas que se
reprimem por conta de convenções que não são capazes
de desobedecer. Senão, vejamos (e que Freud nos
perdoe pelo simplismo): quem é mais equilibrado?
Aquele que rompe barreiras para vivenciar suas próprias
fantasias, ou aquele que é incapaz de fazê-lo e
tem, por conseqüência, de encontrar outras válvulas
de escape, que não raro se traduzem em "manias"
ou até em manifestações de algum tipo de distúrbio
físico ou mental? Quem está mais apto a ser chamado
de "racional"? Aquele que, conhecendo seus próprios
desejos, trata de conviver harmonicamente com eles
de maneira sadia ou aquele que os reprime até quase
explodir interiormente?
A questão,
evidentemente, é mais complexa do que isso - mas
não pretendemos fazer nenhuma apologia do certo
e do errado. Há que se considerar, de fato, que
o termo "sadismo" engloba extremos repletos de violência,
em que a morte por tortura lenta e cruel não se
exclui, até por conta da tese central do próprio
Sade: a de que o mais forte, ou mais inteligente,
ou mais rico, ou mais poderoso, teria o direito
natural a fazer do mais fraco, do mais estúpido,
do mais pobre ou do menos poderoso o que bem entendesse
- torturá-lo e matá-lo para sua própria diversão
e prazer, inclusive. Vê-se logo porque o homem era
visto como uma ameaça pelas autoridades do seu (e
do nosso) tempo...
Por outro
lado, o sadismo encontra no masoquismo a sua "cara
metade". E se admitirmos que um sádico encontra
um masoquista para juntos poderem explorar as suas
fantasias, e se o fazem de maneira segura e de comum
acordo, ora, isso não seria mais extraordinário
do que, por exemplo, admitirmos um casal de homossexuais
vivendo juntos. Trata-se de mera preferência sexual,
a qual não diz respeito a mais ninguém além dos
envolvidos nela.
No entanto,
aceita-se com mais naturalidade o homossexualismo
do que o sadomasoquismo. Por quê? Porque o primeiro
é mais comum do que o segundo? Nem tanto. Acreditamos
que o problema é muito mais de desconhecimento das
pessoas do que qualquer outra coisa. Todo mundo
sabe o que significa ser um gay. Mas pouca gente
sabe o que quer dizer ser, de fato, um sádico ou
um masoquista - ambos os termos usados depreciativamente
e sempre significando algo anormal, doentio, abjeto.
Para
os parceiros de SM, porém, a sua relação é apenas
uma forma de se obter prazer, tão válida e natural
quanto qualquer outra. As pessoas se excitam das
mais variadas maneiras. Pode ser observando um casal
fazendo sexo. Pode ser praticando sexo em lugares
pouco convencionais. Pode ser fazendo amor com uma
pessoa do mesmo sexo. E pode ser participando de
uma cena em que ela seja imaginariamente atacada,
agredida, humilhada, violentada, etc, etc. Enfim,
para não nos alongarmos mais sobre esse aspecto:
SM é simplesmente uma modalidade de fantasia sexual.
Não é doentio, nem errado, nem escandaloso. Desde
que praticado de forma consciente, desde que praticado
de forma segura e desde que praticado de forma consensual,
perde imediatamente qualquer tipo de rótulo de "anormalidade"
ou "doença".
E é sobre
esses três aspectos que passaremos a falar agora.
2. SM CONSCIENTE
O leitor
já terá percebido que, numa relação SM, é indispensável
que haja uma perfeita e clara noção entre os parceiros
do que eles estão fazendo e porque o estão fazendo.
Num casal SM, haverá sempre quem exerça o papel
de dominador e quem exerça o de submisso. Mas é
de ambos o papel de terem sempre em mente que estão
ambos ali pelo mesmo motivo: querem sentir e dar
prazer. A partir do momento em que essa troca se
rompe, a relação, imediatamente, deixa de ser válida,
para tornar-se uma via de mão única. E aí, adeus
à fantasia - a coisa cai realmente num processo
degenerativo, cujo resultado final será sempre o
mesmo: o rompimento da relação.
Mas sobre
o que é que estamos falando exatamente? O assunto,
caro leitor, é um tanto extenso. Por isso, vamos
tentar não nos alongar demais sobre ele.
Antes
de qualquer outra coisa, uma relação SM tem várias,
vamos dizer assim, categorias. Há os que preferem
punições físicas, onde entra uma enorme gama de
acessórios; há os que preferem punições psicológicas,
onde os acessórios podem até ser dispensáveis, bastando
uma ou outra ordem humilhante, que tem de ser cumprida
sem questionamentos ou protestos. Em ambos os casos,
há variações de intensidade e limites a serem respeitados
por ambos os lados.
Falemos
primeiro da punição física, onde entrará aquele
já referido chicote da Tiazinha... Para alguns praticantes
de SM, o ideal é que as punições sejam leves, quase
que simbólicas: uma ou outra chicotada dada com
cuidado, uma corda passada sem nenhuma brutalidade
por aqui ou por ali, um puxão significativo dos
cabelos - e está perfeito.
Para
outros, há que haver severidade: chicotadas violentas,
a ponto de marcar a pele, cordas, correntes e coleiras
apertados e o corpo dobrado ou distendido em posições
que provocam dores intensas, pingos de vela sendo
espargidos sobre o corpo, prendedores de metal colocados
nos mamilos ou nos órgão genitais, choques elétricos,
agulhas - a lista é enorme.
Mas o
importante disso tudo é apenas um ponto: não há
definições do que é correto ou incorreto na relação.
Ou seja: nenhum praticante de SM mais pesado tem
o direito de dizer a um praticamente de SM leve
que ele está "errado", ou que o que ele pratica
não é SM. Esse tipo de discussão, além de inútil,
vai contra os princípios dos próprios praticantes,
que prezam, acima de tudo, a liberdade - sua e dos
outros - de exercerem o direito às suas fantasias.
Sejam elas mais ou menos intensas.
A única
regra é que, seja o SM leve ou pesado, ele deve
proporcionar prazer a quem o pratica. E isso quer
dizer: aos dois. Os limites e a intensidade desse
prazer dizem respeito apenas e tão somente a quem
o procura. E o procura conscientemente, o que implica
em que o faça usando, acima de tudo, o seu próprio
bom-senso.
A mesma
argumentação vale para os praticantes que dispensam
a punição física, mas não a psicológica - que pode
ser igualmente prazerosa, se essa é a fantasia que
se quer vivenciar. Nela, o dominador poderá mostrar
o seu poder sobre o submisso das mais variadas maneiras:
impedindo-o de ir ao banheiro, exceto em determinadas
horas, forçando-o a permanecer no mais absoluto
silêncio quando em sua presença (mesmo que estejam,
por exemplo, num local público), expondo-o a situações
de medo ou suspense, e uma série de outras regras
que podem ser criadas por ambos. Mas sempre e invariavelmente
usando o bom-senso.
Ora,
o SM consciente nada mais é do que o reconhecimento
desse simples fato: o de que se estará partindo
para um tipo de relação que envolverá, sempre, algum
tipo de punição, sendo essa punição programada para
que dela advenha prazer.
Que tipo
de punição será, qual a sua intensidade, até onde
ela poderá ir e onde ela irá parar - isso é tarefa
para o casal que se propõe a procurá-la, devendo
discutir e estabelecê-la de comum acordo.
É absolutamente
inútil querer convencer alguém a participar de uma
relação dessas de maneira brusca e achando que,
só porque você acha sensacional colocar um par de
algemas e uma mordaça em uma pessoa, essa pessoa
também achará isso sensacional. Pode ser que o resultado
seja exatamente o oposto - nem todo mundo gosta
de se sentir tão indefeso assim. E nenhum argumento
será capaz de fazer a pessoa mudar de idéia: ela
não gosta, e pronto. Por outro lado, pode ser que
essa mesma pessoa adore a idéia de ser obrigada
a cumprir ordens e obedecer sem discutir, fazendo
coisas que não faria de livre e espontânea vontade...
Portanto,
use o seu bom-senso. O SM é um mundo para ser explorado
com calma e de maneira - insistimos no ponto - consciente.
Não é algo a ser encarado como uma mera brincadeira.
Trata-se de uma opção, de uma escolha - e como qualquer
escolha, exige que se pense um pouco sobre ela antes
de se tomar a decisão.
O termo
consciente tem também um outro aspecto igualmente
importante a ser considerado - este, mais relacionado
à sanidade mental dos praticantes de SM. Falando
claramente: a relação SM sempre incorrerá em algum
tipo de risco. Pode ser do mais inofensivo (uma
marca indesejada sobre os pulsos, por exemplo) até
algo mais sério (um ferimento decorrente de uma
relação mais agressiva, por exemplo). Ou mesmo casos
de danos extremos ao organismo - chegando ao ápice
de se correr um sério risco de vida. Para quem acha
isso um exagero, basta lembrar que já foram noticiados
casos de gente que marcou um encontro com parceiros
desconhecidos e acabou tendo o seu corpo encontrado
boiando num rio ou enterrado no quintal de alguma
casa...
Quase
sempre, os praticantes de SM são pessoas absolutamente
comuns. Eles trabalham, muitas vezes são casados,
algumas vezes têm filhos. Suas vidas são perfeitamente
produtivas e nada nelas chama atenção para esse
aspecto. Eles não andam com roupas de couro preto,
cheias de algemas e chicotes pendurados... Simplesmente
assumiram um lado de sua sexualidade que diz respeito
só a eles mesmos (daí porque não precisam ficar
exibindo isso para mais ninguém). E eles têm sempre
em mente que essa é uma opção sexual, e não de vida.
Há um
limite além do qual as coisas deixam de se tornar
conscientes para se tornar patológicas ou, no mínimo,
com sérios riscos de danos emocionais graves - e
querer viver as 24 horas do dia dentro de uma fantasia,
francamente, é algo que qualquer médico pode classificar
como patológico. Por isso, se você encontrar alguém
que insista em fazer de seu dia-a-dia um exercício
constante de SM, cuidado: a sanidade, aqui, já estará
beirando perigosamente aquele limite.
E pessoas
que não conseguem mais distinguir as duas coisas
também serão incapazes de fazer isso pelo parceiro.
Para elas, ele também deverá viver o tempo todo
dentro do universo SM. Logo, o que importa se ele
ficar marcado ou não? O que importa se ele se ferir
ou não? O que importa se ele se machucar gravemente
ou não? E, finalmente, o que importa se ele correr
risco de vida ou não? A vida, afinal, se resume
a servir de objeto de prazer para o dominador -
e se isso significa torturar ou ser torturado perigosamente,
pouca diferença faz.
Por conta
disso, a sanidade mental do parceiro é um aspecto
extremamente importante, que jamais deve ser negligenciado.
Mas, infelizmente, é um risco que nunca será 100%
afastado, até que se tenha o primeiro encontro.
Para
os submissos, entretanto, é importante ter em mente
alguns cuidados. É preciso tentar conhecer o dominador
antes de se entregar a ele. Sair para um passeio,
observar seu comportamento no mundo "real", ver
como ele se relaciona com as pessoas no seu dia-a-dia,
saber se ele usa drogas ou se bebe além dos limites,
verificar se é equilibrado nas coisas que faz, se
tem manias estranhas - enfim: é preciso checar muitas
coisas antes de se dispor a vivenciar a fantasia.
A comunidade
SM geralmente conhece os seus membros. E, atualmente,
boa parte dessa comunidade se comunica pela Internet.
Pode-se encontrar parceiros confiáveis na rede,
especialmente porque, na própria rede, é possível
obter informações sobre a pessoa com outros integrantes
desse universo. O que jamais se deve fazer é aceitar
um encontro a sós logo na primeira conversa. Deve-se
buscar um encontro, sim, mas em primeiro lugar num
local público - um almoço num restaurante, por exemplo
(esse assunto é explorado em detalhes no capítulo
"Relacionamentos").
Evidentemente
isso não basta, já que a pessoa pode parecer absolutamente
confiável ali e se mostrar totalmente descontrolada
depois. Não há um padrão a ser seguido, infelizmente.
O que há são meios de se reunir o maior número de
informações possíveis sobre o provável parceiro.
Algo que o bom-senso recomenda que se faça não apenas
em relações SM, mas em qualquer tipo de relacionamento
mais íntimo.
Considere
ainda que uma relação SM não pode ser admitida se
qualquer um dos parceiros não estiver plenamente
de posse de suas faculdades. Em outras palavras:
nada de álcool e muito menos de drogas. Nada deve
interferir com a capacidade de percepção e reação
dos envolvidos. Eles precisam estar integralmente
senhores de suas idéias, sensações e reflexos, por
motivos óbvios. Tome isso como inegociável - e não
abra mão de forma alguma.
Lembre-se
que SM pressupõe sempre e invariavelmente que um
dos parceiros estará irremediavelmente à mercê do
outro. E isso é literal. Portanto, cautela redobrada
antes de querer partir para qualquer relação real.
Tome todas as precauções que achar necessárias -
e faça isso antes do primeiro encontro. No mínimo,
essas precauções ajudarão que esse encontro não
seja também o último...
continua...
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