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CONSCIENTE, SEGURO E CONSENSUAL
Os três mandamentos básicos do BDSM
1ª parte
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        Se você demonstra algum interesse em ler este texto, então certamente é porque pratica sexo sadomasoquista ou, no mínimo, tem curiosidade em conhecê-lo um pouco melhor - o que indica que, mais cedo ou mais tarde, como podem comprovar praticamente todos os que optaram por este tipo de prazer, você vai querer experimentá-lo.
        Partimos do princípio que, no primeiro caso - o das pessoas que já são adeptas deste tipo de sexo - as regras para um relacionamento sadio, seguro e consensual já são perfeitamente conhecidas e entendidas. Por isso, nosso trabalho, aqui, será o de procurar explicar ao leitor menos afeito à pratica o que é e como se pratica o sexo sadomasoquista.
        Gostaríamos, assim, de construir um texto que seguisse do mais básico ao mais complexo, de maneira didática e clara, permitindo que os curiosos possam compreender melhor sobre o que estão curiosos. Portanto, pedimos aos leitores que já conhecem um pouco do assunto uma pequena dose de paciência, se porventura nos alongarmos em termos e situações as quais, para eles, nada têm de novo. Mesmo para esses, porém, temos a pretensão de tocar em um ou outro ponto de interesse, de forma a fazê-los perceber novas perspectivas dentro de seus relacionamentos atuais ou futuros. É essa, em resumo, a nossa intenção: colocar o assunto sobre a mesa, sem anteparos ou disfarces, e discuti-lo de maneira direta. Se conseguirmos fazer isso a contento, nosso trabalho já estará plenamente justificado.

1. Sobre o que estamos falando?

        O leitor já terá percebido, a esta altura, que sadomasoquismo é um conceito que vai muito além das Tiazinhas e seus chicotinhos e mascarazinhas. As Tiazinhas, na realidade, estão brincando com coisas que nem de longe imaginam o que sejam.... Embora tenham o mérito inquestionável de terem despertado, em massa, a curiosidade das pessoas sobre o assunto.
        O leitor também estará começando a imaginar se esse tipo de experiência não seria, por acaso, algo reservado a mentes desequilibradas (coisa que ele, certamente, não se considera). Essa, no entanto, é uma discussão inútil e sem fundamento. Os praticantes de SM (como passaremos a chamar o sadomasoquismo a partir de agora) são, em sua quase totalidade, pessoas normais (por "normal", compreende-se um comportamento socialmente aceitável sob qualquer ponto de vista).
        Na realidade, poderíamos nos arriscar a dizer que essas pessoas são até mais equilibradas do que aquelas que se reprimem por conta de convenções que não são capazes de desobedecer. Senão, vejamos (e que Freud nos perdoe pelo simplismo): quem é mais equilibrado? Aquele que rompe barreiras para vivenciar suas próprias fantasias, ou aquele que é incapaz de fazê-lo e tem, por conseqüência, de encontrar outras válvulas de escape, que não raro se traduzem em "manias" ou até em manifestações de algum tipo de distúrbio físico ou mental? Quem está mais apto a ser chamado de "racional"? Aquele que, conhecendo seus próprios desejos, trata de conviver harmonicamente com eles de maneira sadia ou aquele que os reprime até quase explodir interiormente?
        A questão, evidentemente, é mais complexa do que isso - mas não pretendemos fazer nenhuma apologia do certo e do errado. Há que se considerar, de fato, que o termo "sadismo" engloba extremos repletos de violência, em que a morte por tortura lenta e cruel não se exclui, até por conta da tese central do próprio Sade: a de que o mais forte, ou mais inteligente, ou mais rico, ou mais poderoso, teria o direito natural a fazer do mais fraco, do mais estúpido, do mais pobre ou do menos poderoso o que bem entendesse - torturá-lo e matá-lo para sua própria diversão e prazer, inclusive. Vê-se logo porque o homem era visto como uma ameaça pelas autoridades do seu (e do nosso) tempo...
        Por outro lado, o sadismo encontra no masoquismo a sua "cara metade". E se admitirmos que um sádico encontra um masoquista para juntos poderem explorar as suas fantasias, e se o fazem de maneira segura e de comum acordo, ora, isso não seria mais extraordinário do que, por exemplo, admitirmos um casal de homossexuais vivendo juntos. Trata-se de mera preferência sexual, a qual não diz respeito a mais ninguém além dos envolvidos nela.
        No entanto, aceita-se com mais naturalidade o homossexualismo do que o sadomasoquismo. Por quê? Porque o primeiro é mais comum do que o segundo? Nem tanto. Acreditamos que o problema é muito mais de desconhecimento das pessoas do que qualquer outra coisa. Todo mundo sabe o que significa ser um gay. Mas pouca gente sabe o que quer dizer ser, de fato, um sádico ou um masoquista - ambos os termos usados depreciativamente e sempre significando algo anormal, doentio, abjeto.
        Para os parceiros de SM, porém, a sua relação é apenas uma forma de se obter prazer, tão válida e natural quanto qualquer outra. As pessoas se excitam das mais variadas maneiras. Pode ser observando um casal fazendo sexo. Pode ser praticando sexo em lugares pouco convencionais. Pode ser fazendo amor com uma pessoa do mesmo sexo. E pode ser participando de uma cena em que ela seja imaginariamente atacada, agredida, humilhada, violentada, etc, etc. Enfim, para não nos alongarmos mais sobre esse aspecto: SM é simplesmente uma modalidade de fantasia sexual. Não é doentio, nem errado, nem escandaloso. Desde que praticado de forma consciente, desde que praticado de forma segura e desde que praticado de forma consensual, perde imediatamente qualquer tipo de rótulo de "anormalidade" ou "doença".
        E é sobre esses três aspectos que passaremos a falar agora.

2. SM CONSCIENTE

        O leitor já terá percebido que, numa relação SM, é indispensável que haja uma perfeita e clara noção entre os parceiros do que eles estão fazendo e porque o estão fazendo. Num casal SM, haverá sempre quem exerça o papel de dominador e quem exerça o de submisso. Mas é de ambos o papel de terem sempre em mente que estão ambos ali pelo mesmo motivo: querem sentir e dar prazer. A partir do momento em que essa troca se rompe, a relação, imediatamente, deixa de ser válida, para tornar-se uma via de mão única. E aí, adeus à fantasia - a coisa cai realmente num processo degenerativo, cujo resultado final será sempre o mesmo: o rompimento da relação.
        Mas sobre o que é que estamos falando exatamente? O assunto, caro leitor, é um tanto extenso. Por isso, vamos tentar não nos alongar demais sobre ele.
        Antes de qualquer outra coisa, uma relação SM tem várias, vamos dizer assim, categorias. Há os que preferem punições físicas, onde entra uma enorme gama de acessórios; há os que preferem punições psicológicas, onde os acessórios podem até ser dispensáveis, bastando uma ou outra ordem humilhante, que tem de ser cumprida sem questionamentos ou protestos. Em ambos os casos, há variações de intensidade e limites a serem respeitados por ambos os lados.
        Falemos primeiro da punição física, onde entrará aquele já referido chicote da Tiazinha... Para alguns praticantes de SM, o ideal é que as punições sejam leves, quase que simbólicas: uma ou outra chicotada dada com cuidado, uma corda passada sem nenhuma brutalidade por aqui ou por ali, um puxão significativo dos cabelos - e está perfeito.
        Para outros, há que haver severidade: chicotadas violentas, a ponto de marcar a pele, cordas, correntes e coleiras apertados e o corpo dobrado ou distendido em posições que provocam dores intensas, pingos de vela sendo espargidos sobre o corpo, prendedores de metal colocados nos mamilos ou nos órgão genitais, choques elétricos, agulhas - a lista é enorme.
        Mas o importante disso tudo é apenas um ponto: não há definições do que é correto ou incorreto na relação. Ou seja: nenhum praticante de SM mais pesado tem o direito de dizer a um praticamente de SM leve que ele está "errado", ou que o que ele pratica não é SM. Esse tipo de discussão, além de inútil, vai contra os princípios dos próprios praticantes, que prezam, acima de tudo, a liberdade - sua e dos outros - de exercerem o direito às suas fantasias. Sejam elas mais ou menos intensas.
        A única regra é que, seja o SM leve ou pesado, ele deve proporcionar prazer a quem o pratica. E isso quer dizer: aos dois. Os limites e a intensidade desse prazer dizem respeito apenas e tão somente a quem o procura. E o procura conscientemente, o que implica em que o faça usando, acima de tudo, o seu próprio bom-senso.
        A mesma argumentação vale para os praticantes que dispensam a punição física, mas não a psicológica - que pode ser igualmente prazerosa, se essa é a fantasia que se quer vivenciar. Nela, o dominador poderá mostrar o seu poder sobre o submisso das mais variadas maneiras: impedindo-o de ir ao banheiro, exceto em determinadas horas, forçando-o a permanecer no mais absoluto silêncio quando em sua presença (mesmo que estejam, por exemplo, num local público), expondo-o a situações de medo ou suspense, e uma série de outras regras que podem ser criadas por ambos. Mas sempre e invariavelmente usando o bom-senso.
        Ora, o SM consciente nada mais é do que o reconhecimento desse simples fato: o de que se estará partindo para um tipo de relação que envolverá, sempre, algum tipo de punição, sendo essa punição programada para que dela advenha prazer.
        Que tipo de punição será, qual a sua intensidade, até onde ela poderá ir e onde ela irá parar - isso é tarefa para o casal que se propõe a procurá-la, devendo discutir e estabelecê-la de comum acordo.
        É absolutamente inútil querer convencer alguém a participar de uma relação dessas de maneira brusca e achando que, só porque você acha sensacional colocar um par de algemas e uma mordaça em uma pessoa, essa pessoa também achará isso sensacional. Pode ser que o resultado seja exatamente o oposto - nem todo mundo gosta de se sentir tão indefeso assim. E nenhum argumento será capaz de fazer a pessoa mudar de idéia: ela não gosta, e pronto. Por outro lado, pode ser que essa mesma pessoa adore a idéia de ser obrigada a cumprir ordens e obedecer sem discutir, fazendo coisas que não faria de livre e espontânea vontade...
        Portanto, use o seu bom-senso. O SM é um mundo para ser explorado com calma e de maneira - insistimos no ponto - consciente. Não é algo a ser encarado como uma mera brincadeira. Trata-se de uma opção, de uma escolha - e como qualquer escolha, exige que se pense um pouco sobre ela antes de se tomar a decisão.
        O termo consciente tem também um outro aspecto igualmente importante a ser considerado - este, mais relacionado à sanidade mental dos praticantes de SM. Falando claramente: a relação SM sempre incorrerá em algum tipo de risco. Pode ser do mais inofensivo (uma marca indesejada sobre os pulsos, por exemplo) até algo mais sério (um ferimento decorrente de uma relação mais agressiva, por exemplo). Ou mesmo casos de danos extremos ao organismo - chegando ao ápice de se correr um sério risco de vida. Para quem acha isso um exagero, basta lembrar que já foram noticiados casos de gente que marcou um encontro com parceiros desconhecidos e acabou tendo o seu corpo encontrado boiando num rio ou enterrado no quintal de alguma casa...
        Quase sempre, os praticantes de SM são pessoas absolutamente comuns. Eles trabalham, muitas vezes são casados, algumas vezes têm filhos. Suas vidas são perfeitamente produtivas e nada nelas chama atenção para esse aspecto. Eles não andam com roupas de couro preto, cheias de algemas e chicotes pendurados... Simplesmente assumiram um lado de sua sexualidade que diz respeito só a eles mesmos (daí porque não precisam ficar exibindo isso para mais ninguém). E eles têm sempre em mente que essa é uma opção sexual, e não de vida.
        Há um limite além do qual as coisas deixam de se tornar conscientes para se tornar patológicas ou, no mínimo, com sérios riscos de danos emocionais graves - e querer viver as 24 horas do dia dentro de uma fantasia, francamente, é algo que qualquer médico pode classificar como patológico. Por isso, se você encontrar alguém que insista em fazer de seu dia-a-dia um exercício constante de SM, cuidado: a sanidade, aqui, já estará beirando perigosamente aquele limite.
        E pessoas que não conseguem mais distinguir as duas coisas também serão incapazes de fazer isso pelo parceiro. Para elas, ele também deverá viver o tempo todo dentro do universo SM. Logo, o que importa se ele ficar marcado ou não? O que importa se ele se ferir ou não? O que importa se ele se machucar gravemente ou não? E, finalmente, o que importa se ele correr risco de vida ou não? A vida, afinal, se resume a servir de objeto de prazer para o dominador - e se isso significa torturar ou ser torturado perigosamente, pouca diferença faz.
       Por conta disso, a sanidade mental do parceiro é um aspecto extremamente importante, que jamais deve ser negligenciado. Mas, infelizmente, é um risco que nunca será 100% afastado, até que se tenha o primeiro encontro.
        Para os submissos, entretanto, é importante ter em mente alguns cuidados. É preciso tentar conhecer o dominador antes de se entregar a ele. Sair para um passeio, observar seu comportamento no mundo "real", ver como ele se relaciona com as pessoas no seu dia-a-dia, saber se ele usa drogas ou se bebe além dos limites, verificar se é equilibrado nas coisas que faz, se tem manias estranhas - enfim: é preciso checar muitas coisas antes de se dispor a vivenciar a fantasia.
        A comunidade SM geralmente conhece os seus membros. E, atualmente, boa parte dessa comunidade se comunica pela Internet. Pode-se encontrar parceiros confiáveis na rede, especialmente porque, na própria rede, é possível obter informações sobre a pessoa com outros integrantes desse universo. O que jamais se deve fazer é aceitar um encontro a sós logo na primeira conversa. Deve-se buscar um encontro, sim, mas em primeiro lugar num local público - um almoço num restaurante, por exemplo (esse assunto é explorado em detalhes no capítulo "Relacionamentos").
        Evidentemente isso não basta, já que a pessoa pode parecer absolutamente confiável ali e se mostrar totalmente descontrolada depois. Não há um padrão a ser seguido, infelizmente. O que há são meios de se reunir o maior número de informações possíveis sobre o provável parceiro. Algo que o bom-senso recomenda que se faça não apenas em relações SM, mas em qualquer tipo de relacionamento mais íntimo.
        Considere ainda que uma relação SM não pode ser admitida se qualquer um dos parceiros não estiver plenamente de posse de suas faculdades. Em outras palavras: nada de álcool e muito menos de drogas. Nada deve interferir com a capacidade de percepção e reação dos envolvidos. Eles precisam estar integralmente senhores de suas idéias, sensações e reflexos, por motivos óbvios. Tome isso como inegociável - e não abra mão de forma alguma.
        Lembre-se que SM pressupõe sempre e invariavelmente que um dos parceiros estará irremediavelmente à mercê do outro. E isso é literal. Portanto, cautela redobrada antes de querer partir para qualquer relação real. Tome todas as precauções que achar necessárias - e faça isso antes do primeiro encontro. No mínimo, essas precauções ajudarão que esse encontro não seja também o último...

continua...