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3. SM SEGURO
Antes
que o leitor pense que esse item irá repetir o anterior,
vamos esclarecer logo de uma vez: estamos falando
aqui de segurança física, incluindo nessa noção
o sexo seguro, pura e simplesmente. Como já dissemos,
a relação SM tem diversos matizes e graus. Mas em
todos é preciso levar em conta o risco real de se
contrair doenças sexualmente transmissíveis, de
qualquer espécie. E nem precisamos dizer que a Aids
está incluída na lista.
Acontece
que, nesse universo, é preciso estar mais atento
do que quando se trata de sexo convencional. A relação
SM pode incluir atos de "humilhação" que incluam,
por exemplo, obrigar o submisso a engolir o esperma
do dominador. Ora, para quem ainda não sabe, o vírus
da Aids se contenta com qualquer microscópico ferimento
na boca para se infiltrar. Basta um canal de contato
com a corrente sanguínea e o mal está feito. Isso,
claro, sem falar em engolir o esperma...
Portanto,
siga as regras de sempre: camisinha é indispensável,
mesmo que o dominador diga que não. Se isso acontecer
é melhor desistir e procurar outro parceiro. Se
a relação for incluir qualquer tipo de objeto cortante
ou perfurante (como agulhas, por exemplo), o mínimo
que se exije é que elas sejam novas e nunca tenham
sido usadas antes. Nunca compartilhe seringas com
quem quer que seja. E jamais abra mão desses direitos.
Qualquer dominador que queira obrigar um submisso
a fazê-lo não merece confiança e deve ser imediatamente
descartado.
Sobre
a segurança física é bom também destacarmos alguns
pontos de importância. Em primeiro lugar, é preciso
ter sempre em mente que nada em nossas vidas é 100%
previsível e 100% sem riscos. Sempre existe a possibilidade
de que alguma coisa saia errada. Saber disso, claro,
não deve servir de pretexto para que não procuremos
extrair o máximo que pudermos de nossas vidas.
O risco
faz parte do dia-a-dia de cada um de nós, em suas
mais variadas formas: corremos risco ao andar pela
rua, de perdermos o emprego, de deixar passar uma
boa oportunidade... O que fazemos, nesse caso -
e nem sempre de maneira consciente - é encontrar
formas de administrar esses riscos, avaliando as
possibilidades e alternativas, e escolhendo aquele
caminho que nos pareça mais seguro.
E "seguro",
nesse caso, é um conceito bastante relativo e basicamente
individual. Depende do que cada um considera como
sendo um risco e de quanto desse risco é aceitável
para cada um.
Por outro lado, quando, por qualquer motivo, somos
incapazes de identificar os riscos em potencial,
deixando de considerar suas conseqüências, estamos
agindo de maneira totalmente incoerente. Estamos
assumindo uma atitude não-segura. E atitudes não-seguras
geram situações inevitavelmente desagradáveis.
Em outras
palavras, é preciso saber reconhecer e evitar os
riscos. Especificamente numa relação SM eles são
perfeitamente detectáveis e perfeitamente contornáveis.
Basta não fingir que eles não existem...
Portanto,
além daquelas recomendações referentes ao sexo seguro
- seja qual sexo for - há que se considerar também
a questão da segurança relativa à prática do SM.
Por exemplo:
numa relação em que se vai amarrar o parceiro, é
preciso ter em mente que não se deve apertar demasiadamente
as cordas ou correntes, sob o risco de interromper
a circulação sanguínea para determinadas partes
do corpo - o que pode ter conseqüências bastante
graves. Se ambos quiserem partir para nós mais apertados,
devem sempre se lembrar que, de tempos em tempos,
é preciso afrouxá-los, para que a circulação se
normalize.
Saber
amarrar corretamente é também uma tarefa que exige
algum tempo de prática. Não se trata simplesmente
de passar a corda aqui ou ali e apertá-la. Deve-se
saber por onde ela pode passar sem provocar qualquer
tipo de dano, e sem que, por causa disso, permita
mais conforto ou liberdade de movimentos para o
parceiro. Há centenas de sites sobre o assunto que
podem ser encontrados na rede. E há os praticantes
mais experientes, que sempre podem fornecer algumas
dicas valiosas sobre o assunto.
Os órgãos
vitais devem sempre ser deixados de fora de uma
relação SM. E isso inclui uma longa lista de cuidados,
que vão desde a não-ingestão de tóxicos ou remédios
de qualquer espécie até o completo abandono da prática
de bater com a cabeça do submisso na parede...
Falando
sério, para os masoquistas que preferem ser espancados,
há que se respeitar não os seus limites, mas os
limites de segurança de seu próprio corpo. Ninguém
deve chegar ao extremo de ter ossos quebrados ou
hemorragias internas...
E por
favor, passe sempre o mais longe possível da asfixia,
que exige um conhecimento quase clínico para ser
praticada, e ainda assim com extremo cuidado, para
não resultar na pura e simples morte do parceiro.
Nenhum
tipo de lesão irreversível é aceitável, seja ela
da natureza que for e por mais inofensiva que pareça.
Se fosse realmente inofensiva, não se chamaria lesão,
como é óbvio. Marcas de chicote são perfeitamente
aceitáveis, desde que não rompam a pele até o sangramento;
pingos de vela sobre o corpo são aceitáveis, desde
que não signifiquem queimaduras sérias; e assim
por diante.
No mais,
siga as regras de praxe para garantir a sua saúde.
Jamais se arrisque, por qualquer motivo ou argumento.
SM é apenas uma variação sobre o mesmo tema: sexo.
E as regras de sexo seguro não devem ser nunca postas
de lado.
4. SM CONSENSUAL
Pelo
que já dissemos até agora, é evidente que qualquer
relação SM tem que ser também consensual. É preciso
que os parceiros tenham isso sempre em mente. Correndo
o risco de nos tornarmos repetitivos, usamos a mesma
imagem acima: SM é uma variação sobre o mesmo tema:
sexo. E para ele vale também a velha máxima que,
se um não quer, dois não fazem.
Os parceiros
devem ser perfeitamente capazes de compreender e
concordar com esse tipo de relacionamento. Uma das
piores coisas que se pode propor a um adepto sério
do SM é querer incluí-lo na relação das pessoas
que, por qualquer motivo - pouca idade, inclusive
- não saibam do que estão falando. Tampouco interessa
querer convencer quem quer que seja a participar
desse universo, se a idéia for inaceitável para
o parceiro. Isso resultará em uma experiência sempre
frustrante para o dominador e revoltante para o
submisso.
Se, porém,
o parceiro demonstrar algum interesse - geralmente,
as pessoas admitem que têm "curiosidade" sobre o
assunto - e aceitar participar de uma relação SM,
ainda que a título de experiência, a chance deve
ser aproveitada. Mas tudo - absolutamente tudo -
deve ser muito bem explicado antes.
E para
os que já fazem parte do universo SM, nunca é bom
deixar de lembrar que, para um novato neste universo,
tudo é também novo. Trata-se de uma pessoa que não
tem nenhum tipo de conhecimento anterior sobre o
assunto, e muito menos é capaz de estabelecer limites
para si mesma ou para o dominador - o que eleva
a responsabilidade do dominador à enésima potência.
Temos
que considerar que, nesses casos, o conceito de
"consensual" assume novas facetas. Como uma pessoa
pode consentir com algo que não conhece? A resposta
é simples: ela não pode. Portanto, cabe ao mais
experiente da relação assumir totalmente as rédeas
da situação. E ir com calma. Com muita calma.
A idéia
é apresentar, aos poucos, as técnicas e conceitos
do SM. Sem jamais forçar nada, sem querer criar
uma situação que não existe. O parceiro, nessas
relações iniciais, estará apenas experimentando
coisas novas, que não sabe ainda com certeza se
irá gostar ou não. E ele tem todo o direito do mundo
de não gostar. Portanto, não é admissível fazer
do consenso uma "carta branca" e extrapolar a relação
apenas porque, no início, o parceiro aceitou as
regras.
Aceitar
regras é uma coisa, mas ter de vivenciá-las é outra,
completamente diferente. O "sim" dito pelo iniciante
deve soar, aos ouvidos do mais experiente, apenas
e sempre como um "sim, quero experimentar e descobrir
se gosto ou não". Não se deve querer tratar um submisso
iniciante como se trata um submisso já experiente.
É o mesmo que querer dar o mesmo tratamento de um
adulto para uma criança: não funciona.
Contudo,
há algumas regras que mesmo o mais inexperiente
dos submissos deve aceitar - e tem todas as condições
de cumprir: a relação SM não deverá ser vista como
uma brincadeira. Nenhum dominador consegue manter
o clima de fantasia se o submisso começar a achar
tudo muito engraçado durante o ato e soltar gostosas
gargalhadas.
Uma vez
que ele aceitou desempenhar o seu papel, deve cumprí-lo
até o fim - quando mais não seja, ao menos para
agradecer a oportunidade de estar experimentando
uma coisa nova. Se, depois, ele quiser comentar
o que achou, e resolver morrer de rir, tudo bem
- o dominador terá tido a oportunidade de um bom
encontro e saberá que ele provavelmente não se repetirá.
Por outro
lado, se o submisso tiver gostado da experiência,
o dominador terá tido o duplo prazer de não apenas
haver conseguido um encontro agradável, como também
de ter descoberto um novo parceiro, que ainda tem
muito que aprender. Portanto, antes de partir para
a relação, coloque tudo sempre de forma muito clara.
E tenha certeza de duas coisas: que o provável parceiro
entendeu o que você disse e que ele concorda com
o que foi explicado. Isso é o consensual.
Para
casais que já têm alguma experiência, o consensual
tem também um outro aspecto: o do respeito mútuo
aos limites de cada um. Aqui, trata-se apenas de
definir até onde cada um dos parceiros poderá ir.
Se uma das partes não concordar ou tiver a intenção
secreta de desrespeitar esses limites, é melhor
simplesmente desistir da relação ou encontrar alguma
alternativa. A confiança de um no outro precisa
ser sempre total - e quebrá-la significará quebrar
o próprio relacionamento.
O consentimento
do parceiro é o que separa a relação SM do simples
e puro abuso. E isso faz toda a diferença. Assim
como faz também em qualquer outro tipo de relacionamento:
nenhuma relação, seja ela SM ou não, deixa de ser
abuso quando uma das partes é obrigada, contra sua
vontade, a viver determinadas situações. E abuso,
para nós, só é aceitável no nível da fantasia, nunca
no da realidade.
5. COMUNICAÇÃO, NEGOCIAÇÃO, SENHA
DE SEGURANÇA, LIMITES
Um dos
conceitos mais importantes num relacionamento SM
é a idéia da negociação. Parceiros negociam sobre
suas fantasias, seus sentimentos, suas emoções,
necessidades, sonhos e até - e principalmente -
sobre aqueles desejos escondidos e nunca antes verbalizados.
Pressupõe-se,
portanto, uma boa dose de confiança com quem se
está falando. E confiança, por sua vez, pressupõe
pelo menos um limite mínimo de conhecimento mútuo.
Querer restringir a relação SM apenas ao ato em
si é deixar passar uma oportunidade fantástica de
se relacionar com uma pessoa com a qual se pode
discutir, livre e abertamente, assuntos que muitas
vezes nos sentimos incapazes de abordar com amigos
ou parceiros com quem convivemos. A experiência
dessas conversas, a troca de idéias que elas proporcionam,
são extremamente enriquecedoras, uma vez encontrado
o parceiro certo.
Mas voltemos
à negociação, que é um aspecto mais prático da relação.
Evidentemente, não estamos falando de nada tipo
"toma lá dá cá". O objetivo dessa negociação é,
antes de tudo, conhecer e partilhar as barreiras
e as fantasias dos parceiros. Portanto, é essencial
que se seja absolutamente honesto. Nada de prometer
coisas que não se poderá cumprir depois - regra
válida tanto para o dominador quanto para o submisso.
A idéia
é tentar estabelecer as possibilidades em comum,
o quanto se poderá avançar nas fantasias e onde
se deverá parar dentro delas, respeitando-se os
"territórios proibidos" de cada um.
Num relacionamento
SM, os parceiros podem perfeitamente escolher papéis
desiguais, baseados na sua livre vontade e escolha.
Isso não significa, porém, que exista desigualdade
de responsabilidades entre eles. Ambos têm responsabilidades
intransferíveis, tanto em relação a si mesmo quanto
em relação ao outro.
Como
diz Wendy Chapkis, professora na Women's Studies
and Sociology da Universidade de Southerm Maine:
"O SM é uma atividade sexual totalmente negociada.
Esse tipo de negociação de consensualidade seria
terrível se adicionada a todas as outras atividades
sexuais. Tenho notado que a comunidade SM é muito
mais atenta a assuntos concernentes a consensualidade
do que qualquer outra comunidade". E tem mesmo de
ser assim.
As regras
de negociação são simples. Em primeiro lugar, antes
que o ato sexual SM se inicie, seus participantes
devem discutir e rediscutir o que querem e o que
não querem. E para assegurar que nada irá passar
desses limites previamente acertados, para assegurar
que seja lá o que for que estiver acontecendo só
continuará enquanto assim os dois o desejarem, os
parceiros devem combinar uma "senha de segurança".
A senha
é uma maneira inquestionável de interromper de imediato
e sem discussões a relação SM. Seria como um alarme
que significasse: "ei, você está indo além do que
combinamos ou além do que eu considero prazeroso".
E o melhor
é escolher para senha uma palavra de uso menos comum.
Nada de combinar dizer "pare", ou "chega", ou "não
suporto mais" - até porque, essas expressões podem
ter o efeito contrário... Qual o dominador que não
gosta de ouví-las ditas pelo submisso em seu poder?
E como saber se o próprio submisso não sentirá prazer
em dizê-las? Melhor optar por outras palavras, de
livre escolha dos parceiros, mas que não deixe margem
para nenhuma dúvida. Escolha palavras incomuns -
quaisquer palavras - e tenha em mente que, se e
quando ela for dita, será um sinal inequívoco de
que a relação deve ser imediatamente interrompida.
Se a
relação incluir o uso de mordaças, o que evidentemente
impedirá o parceiro de proferir a palavra combinada,
acerte então um determinado sinal feito com os dedos
ou com os olhos. Só não se esqueça de estar atento
a esse sinal - que terá o mesmo efeito de interrupção
imediata da relação.
São combinações
simples de se fazer - mas que desempenham uma válvula
de segurança extremamente eficiente e absolutamente
indispensável.
6. CONCLUSÃO
O leitor
poderá, neste momento, estar pensando que a relação
SM é muito complexa. Afinal, ela exige muitas coisas
- respeito, cumplicidade, bom-senso, segurança,
confiança...
A essa
ponderação, respondemos com uma pergunta: não seriam
essas, por acaso, as mesmas premissas sobre as quais
se constroem qualquer tipo de relação? Qual desses
fatores pode ser dispensado em qualquer tipo de
relacionamento que envolva intimidade?
Portanto,
não estamos tratando de nada assim tão extraordinário.
Simplesmente, por envolver uma fantasia que, em
maior ou menor grau, de forma real ou imaginária,
presume algum tipo de violência, é preciso que cada
um desses fatores seja visto com um pouco mais de
cautela do que o usual.
As fantasias
contidas no universo SM são numerosas demais para
serem citadas aqui. Todas elas, no entanto, exigem
essa cautela adicional. Muitas mulheres fantasiam
ser estupradas, por exemplo. Algumas delas com direito
até a espancamentos ou penetrações brutais. Mas
nenhuma delas, certamente, gostaria de ver rompida
aquela linha que traçaram para sua fantasia - linha
além da qual a coisa deixa de ser prazerosa para
se tornar incômoda ou efetivamente ofensiva. Até
determinado ponto, extravasar um desejo reprimido
é uma sensação simplesmente vertiginosa (como podem
dizer aqueles que tiveram a coragem de fazê-lo).
Mas, além desse ponto, as coisas se invertem com
a rapidez de um raio - e o que era prazer se torna
desconfortável e desagradável.
Saber
respeitar esse limite, saber chegar até esse preciso
ponto, sem no entanto ultrapassá-lo, é a verdadeira
arte do dominador. Conhecer esse limite e saber
que, além dele, tudo se tornará apenas uma sensação
ruim é a verdadeira arte do submisso. E estabelecer
o equilíbrio em que haverá prazer para os dois dentro
desse limite é a verdadeira arte da relação SM.
Quando se consegue isso, tem-se em mãos uma das
mais intensas e profundas formas de prazer que o
sexo é capaz de proporcionar. Aprender a fazê-lo
é um trabalho que vale a pena.
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